{"id":41224,"date":"2016-11-09T17:42:03","date_gmt":"2016-11-09T20:42:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=41224"},"modified":"2016-11-09T17:42:03","modified_gmt":"2016-11-09T20:42:03","slug":"um-thriller-do-que-a-ditadura-faria-nos-anos-seguintes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/um-thriller-do-que-a-ditadura-faria-nos-anos-seguintes\/","title":{"rendered":"Um \u201cthriller\u201d do que a ditadura faria nos anos seguintes"},"content":{"rendered":"<p>Lan\u00e7ado em agosto e repicado agora na 62\u00aa Feira do Livro de Porto Alegre, \u201cO Sargento, o Marechal e o Faquir\u201d (272 p\u00e1ginas, Libretos), de Rafael Guimaraens, recebeu uma carrada de coment\u00e1rios favor\u00e1veis em jornais, revistas e blogs, mas nenhuma resenha ousou dizer que se trata da mais completa e precisa reconstitui\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria tr\u00e1gica do sargento nacionalista Manoel Raymundo Soares, protagonista central \u2013 como v\u00edtima &#8212; do \u201cCaso das M\u00e3os Amarradas\u201d, que veio \u00e0 tona em agosto de 1966 na margem esquerda do Rio Jacu\u00ed, em \u00e1guas da capital ga\u00facha.<br \/>\nSeus algozes, identificados como integrantes do DOPS e do Ex\u00e9rcito, n\u00e3o foram punidos por um rol de crimes que come\u00e7a com a pris\u00e3o sem mandado judicial, segue com a tortura por uma semana em depend\u00eancias militares e policiais, agrava-se com o encarceramento por cinco meses sem processo na Ilha do Pres\u00eddio, no Lago Gua\u00edba, e termina com a morte por afogamento durante uma sess\u00e3o de \u201ccaldo\u201d em que o preso foi obrigado a ingerir uma bebida alco\u00f3lica, fosse para aguentar o frio de agosto, fosse para \u201cabrir o bico\u201d.<br \/>\nNa sua \u00faltima viagem, \u00e0 noite, nas \u00e1guas do lago-rio que banha Porto Alegre, Manoel tinha as m\u00e3os amarradas \u00e0s costas com tiras de sua pr\u00f3pria camisa, item que ajudaria na sua identifica\u00e7\u00e3o, pois a \u201cvolta-ao-mundo\u201d, f\u00e1cil de lavar e que n\u00e3o precisava ser passada a ferro, era sua roupa de todo dia na pris\u00e3o.<br \/>\nO \u201cCaso das M\u00e3os Amarradas\u201d passou das p\u00e1ginas policiais para o notici\u00e1rio pol\u00edtico, pois gerou uma CPI (comiss\u00e3o parlamentar de inqu\u00e9rito) na Assembleia Legislativa do Rio do Grande do Sul, afrontando as autoridades militares e o pr\u00f3prio governador Ildo Meneghetti, obrigado a lavar as m\u00e3os como o t\u00edtere romano P\u00f4ncio Pilates no caso de Jesus Cristo, segundo o Novo Testamento.<br \/>\nSalvo descuido hist\u00f3rico, Manoel Raymundo Soares foi a primeira v\u00edtima da tortura pol\u00edtica praticada \u00e0 sombra da ditadura militar ent\u00e3o comandada pelo marechal Castello Branco.<br \/>\nNo livro, o sargento nacionalista, admirador de Leonel Brizola, desertor do Ex\u00e9rcito, brilha como her\u00f3i por n\u00e3o entregar os companheiros dissidentes da ditadura, com quem andava a tecer planos revolucion\u00e1rios &#8212; findas as sess\u00f5es de tortura, isolado em sua cela, ele punha-se a cantar o Hino Nacional Brasileiro, como recordaram alguns companheiros de c\u00e1rcere ao rep\u00f3rter-historiador de Porto Alegre. No fundo, era um sonhador que foi se isolando no radicalismo pol\u00edtico, como aconteceria com algumas centenas de dissidentes nos anos seguintes.<br \/>\nJ\u00e1 o marechal Castello Branco, piv\u00f4 da pris\u00e3o do sargento, consta no livro como o chefe fraco que n\u00e3o ousou enfrentar os militares adeptos do endurecimento do regime, sacrificando seus supostos sentimentos democr\u00e1ticos \u00e0 disciplina da caserna.<br \/>\nPor fim, num achado digno dos melhores romances policiais, Rafael Guimaraens p\u00f5e na hist\u00f3ria um \u201ctertius\u201d at\u00e9 agora esquecido por narradores e acad\u00eamicos que se debru\u00e7aram sobre o Caso das M\u00e3os Amarradas: o faquir fracassado Edu Rodrigues, pintor de letreiros e fazedor de bicos que entra em cena para \u201cajudar\u201d o solit\u00e1rio sargento na colagem de panfletos antiditadura no centro de Porto Alegre e acaba se revelando um \u201ccachorrinho\u201d do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI).<br \/>\nNarrada em takes que se sucedem como um pr\u00e9-roteiro cinematogr\u00e1fico, a hist\u00f3ria n\u00e3o se limita \u00e0s tr\u00eas personagens do t\u00edtulo. Nela aparecem tamb\u00e9m investigadores policiais sem medo, advogados conscientes de seu papel profissional e parlamentares corajosos diante de autoridades civis e militares armadas de evasivas, mentiras e omiss\u00f5es. O pr\u00f3prio general-presidente Castello Branco n\u00e3o obt\u00e9m resposta para um memorando em que pede informa\u00e7\u00f5es sobre o \u201cCaso das M\u00e3os Amarradas\u201d. Entre os estudantes que se movimentam na cena, aparece at\u00e9 Tarso Genro, ent\u00e3o com 16 anos, disputando vaga na lideran\u00e7a da entidade nacional dos secundaristas.<br \/>\nEm seu relat\u00f3rio-den\u00fancia, o promotor Paulo Tovo conclui que os principais respons\u00e1veis pela morte do ex-sargento s\u00e3o o delegado do DOPS Jos\u00e9 Morsch e o major do Ex\u00e9rcito Menna Barreto. Nada acontece, exceto que Tovo ficou marcando passo em sua carreira no Judici\u00e1rio ga\u00facho. Uma injusti\u00e7a profissional, sem d\u00favida.<br \/>\nCinquenta anos depois, o crime de Porto Alegre permanece impune. Afora a leveza e precis\u00e3o da narrativa, o maior m\u00e9rito do livro de Rafael Guimaraens \u00e9 provar que o \u201cCaso das M\u00e3os Amarradas\u201d foi \u00a0um \u201cthriller\u201d do que a ditadura militar faria nos anos seguintes, principalmente em S\u00e3o Paulo e no Rio de Janeiro, que se destacaram como centros de ca\u00e7a, aprisionamento e tortura de dissidentes pol\u00edticos.<br \/>\nPorto Alegre n\u00e3o abdicou de seu papel como coadjuvante da repress\u00e3o, como se viu no sequestro dos uruguaios Universindo Diaz e Lilian Celiberti, epis\u00f3dio de novembro de 1978 cujos autores n\u00e3o foram punidos, embora estivessem a servi\u00e7o da Opera\u00e7\u00e3o Condor, uma das maiores organiza\u00e7\u00f5es criminosas da hist\u00f3ria da Am\u00e9rica Latina (ver a prop\u00f3sito o livro \u201cOpera\u00e7\u00e3o Condor: o Sequestro dos Uruguaios\u201d (464 p\u00e1ginas, L&amp;PM Editores, 2008), do rep\u00f3rter-historiador ga\u00facho Luiz Claudio Cunha.<br \/>\nAutor de v\u00e1rios livros-reportagem, entre os quais se destacam \u201cA Enchente de 1941\u201d e \u201cA Dama da Lagoa\u201d, Rafael Guimaraens construiu com \u201cO Sargento, o Marechal e o Faquir\u201d sua maior obra. Entretanto, trata-se de apenas um tijolo a mais na reconstru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria brasileira que se enfileira ao lado de outros livros como \u201cOs Vencedores\u201d (Gera\u00e7\u00e3o Editorial, 2013), do ga\u00facho Ayrton Centeno, que usam a ferramenta da investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica para fazer aflorar verdades e mentiras, das quais se valem os cidad\u00e3os conscientes para fazer a justi\u00e7a poss\u00edvel no momento oportuno.<br \/>\nFoi assim no epis\u00f3dio de dois anos atr\u00e1s, quando a C\u00e2mara dos Vereadores de Porto Alegre rebatizou como Avenida da Legalidade e da Democracia a principal via de acesso a Porto Alegre, at\u00e9 ent\u00e3o denominada Marechal Castello Branco.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lan\u00e7ado em agosto e repicado agora na 62\u00aa Feira do Livro de Porto Alegre, \u201cO Sargento, o Marechal e o Faquir\u201d (272 p\u00e1ginas, Libretos), de Rafael Guimaraens, recebeu uma carrada de coment\u00e1rios favor\u00e1veis em jornais, revistas e blogs, mas nenhuma resenha ousou dizer que se trata da mais completa e precisa reconstitui\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria tr\u00e1gica [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-41224","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analiseopiniao"],"aioseo_notices":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[{"id":84590,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/e-preciso-defender-o-jardim-botanico-de-porto-alegre\/","url_meta":{"origin":41224,"position":0},"title":"\u00c9 preciso defender o Jardim Bot\u00e2nico de Porto Alegre","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"8 de mar\u00e7o de 2026","format":false,"excerpt":"CLEBER DIONI TENTARDINI O Jardim Bot\u00e2nico de Porto Alegre (JBPA) tem 67 anos e \u00e9 considerado um dos cinco melhores e maiores do Brasil. Possui 28 cole\u00e7\u00f5es cient\u00edficas que somam mais de 4.200 plantas, incluindo esp\u00e9cies raras, amea\u00e7adas de extin\u00e7\u00e3o e end\u00eamicas, que s\u00e3o encontradas apenas no RS. No local\u2026","rel":"","context":"Em &quot;An\u00e1lise&amp;Opini\u00e3o&quot;","block_context":{"text":"An\u00e1lise&amp;Opini\u00e3o","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/category\/analiseopiniao\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/03\/jb-3.jpg?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200,"srcset":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/03\/jb-3.jpg?resize=350%2C200&ssl=1 1x, https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/03\/jb-3.jpg?resize=525%2C300&ssl=1 1.5x, https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/03\/jb-3.jpg?resize=700%2C400&ssl=1 2x"},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbKo0s-aIU","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41224","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/8"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=41224"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/41224\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=41224"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=41224"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=41224"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}