{"id":42944,"date":"2017-01-07T15:52:16","date_gmt":"2017-01-07T18:52:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=42944"},"modified":"2017-01-07T15:52:16","modified_gmt":"2017-01-07T18:52:16","slug":"fiocruz-um-exemplo-de-resistencia-ao-golpismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/fiocruz-um-exemplo-de-resistencia-ao-golpismo\/","title":{"rendered":"Fiocruz, um exemplo de resist\u00eancia ao golpismo"},"content":{"rendered":"<h2 class=\"m_5376290304509929393article-title\"><span class=\"assina\">Geraldo Hasse<\/span><\/h2>\n<div class=\"m_5376290304509929393shortcode-content\">\n<div>As listas tr\u00edplices de nomes para cargos p\u00fablicos s\u00e3o formadas pelo voto democr\u00e1tico, da\u00ed a tradi\u00e7\u00e3o de que o primeiro nome seja sempre respeitado pelos governos.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>No caso da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, o ministro da Sa\u00fade s\u00f3 n\u00e3o fraudou a ordem da indica\u00e7\u00e3o gra\u00e7as \u00e0 revolta da maioria dos funcion\u00e1rios da centen\u00e1ria institui\u00e7\u00e3o de pesquisa do Rio.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Colocada em primeiro lugar na lista tr\u00edplice com 60% dos votos, a soci\u00f3loga N\u00edsia Trindade Lima foi confirmada na presid\u00eancia.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>Funcion\u00e1ria de carreira com obra respeitada por sua abrang\u00eancia e profundidade, N\u00edsia Trindade Lima \u00e9 autora do livro UM SERT\u00c3O CHAMADO BRASIL (Revan, 1999), que faz uma brilhante releitura das rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas entre o litoral urbanizado e os vazios populacionais do interior do Brasil. \u00c9 um livro que analisa e interpreta as obras de grandes autores nacionais como Euclides da Cunha, Gilberto Freyre, Sergio Buarque de Hollanda, Antonio Candido e Darci Ribeiro, entre outros. No entanto, \u00e9 trabalho pouco conhecido que merece ser difundido para conhecimento de estudantes, jornalistas, soci\u00f3logos, historiadores e economistas.<\/div>\n<div><\/div>\n<div>O texto que segue, intitulado A Conquista do Sert\u00e3o, \u00e9 um dos cap\u00edtulos de um livro in\u00e9dito sobre a ocupa\u00e7\u00e3o agr\u00edcola do cerrado, bioma que representa 22% do territ\u00f3rio nacional, no qual vem se dando o mais recente choque entre a chamada civiliza\u00e7\u00e3o litor\u00e2nea e a dita cultura caipira- primitiva-rural. Publico-o em homenagem \u00e0 nova presidente da Fiocruz.<\/div>\n<div><\/div>\n<div><strong>A Conquista do Sert\u00e3o<\/strong><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Para os primeiros habitantes do Brasil, estabelecidos principalmente no litoral do nordeste e do sudeste do pa\u00eds, avan\u00e7ar rumo ao oeste sempre foi a suprema aventura. Caminhar \u201cpara dentro\u201d significava desafiar o perigo, correr riscos, sujeitar-se a doen\u00e7as desconhecidas e&#8230;criar um pa\u00eds. Nessa caminhada constante para o interior, os brasileiros tomaram efetivamente posse de um novo territ\u00f3rio. Quinhentos anos depois, a aventura ainda parece longe do fim. \u201cO deserto \u00e9 o senhor da col\u00f4nia\u201d, escreveu o historiador Frederick J. Turner, tentando explicar a corrida dos pioneiros para o oeste norte-americano.\u00a0<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Os aventureiros modernos contam com m\u00e1quinas sofisticad\u00edssimas, mas a conquista definitiva ainda est\u00e1 por se fazer. No miolo do Brasil abrem-se novos caminhos e inauguram-se novas cidades \u2013 tudo numa velocidade sem precedentes na hist\u00f3ria da humanidade. Uma das atividades mais primitivas dos seres humanos, a derrubada de matas para a implanta\u00e7\u00e3o de lavouras \u00e9 documentada via sat\u00e9lite por organismos internacionais, sob protestos veementes dos ambientalistas, apavorados com a devasta\u00e7\u00e3o do planeta. Os brasileiros, financiados por consumidores de outros pa\u00edses, s\u00e3o os protagonistas centrais de uma das \u00faltimas e decisivas aventuras da humanidade na conquista de espa\u00e7o para sobreviver e produzir alimentos.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>O Brasil cont\u00e9m hoje a maior reserva de terras agricult\u00e1veis do planeta. Ela fica no cerrado, a \u00faltima fronteira virgem antes da amaz\u00f4nia, pulm\u00e3o da Terra. Juntos, esses dois imensos ecossistemas constituem as maiores reservas de \u00e1gua doce do mundo. Manejando o fogo, tratores, sementes transg\u00eanicas, computadores e sat\u00e9lites, os brasileiros jogam aqui n\u00e3o apenas o seu futuro, como povo, mas o futuro da humanidade, talvez.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>N\u00e3o \u00e9 apenas o oeste geogr\u00e1fico que est\u00e1 em jogo. No imagin\u00e1rio brasileiro h\u00e1 todo um oeste m\u00edtico desenhado como met\u00e1fora ao longo dos s\u00e9culos. Repete-se aqui o fasc\u00ednio ianque pelo oeste como espa\u00e7o para a grande corrida da sobreviv\u00eancia. O cerrado, ex-sert\u00e3o, ora temido, ora ignorado, \u00e9 o territ\u00f3rio do contradit\u00f3rio: na busca da realiza\u00e7\u00e3o individual, milh\u00f5es de pessoas esmeram-se na pr\u00e1tica das mesmas t\u00e9cnicas agr\u00edcolas e mercantis, sujeitando-se aos ditames do Mercado, o verdadeiro senhor das col\u00f4nias modernas.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Ao confundir-se com um horizonte ilimitado, o ex-sert\u00e3o do Brasil Central representa hoje um espa\u00e7o livre que precisa ser ocupado de qualquer maneira, a qualquer pre\u00e7o, n\u00e3o importando muito a qualidade da ocupa\u00e7\u00e3o ou a sustentabilidade do modelo adotado. Estimulada pela demanda mundial, essa corrida cega, sem freios, transformou-se num movimento coletivo que se realimenta incessantemente da falta de perspectivas no litoral e das tradicionais promessas do sert\u00e3o. Aqui o sucesso pessoal \u00e9 medido por sinais externos como a extens\u00e3o das fazendas, a capacidade de armazenagem dos galp\u00f5es ou a largura dos pneus das camionetas. O que ser\u00e1 dos brasileiros se fracassarem nessa aventura? \u00a0\u00a0<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em><strong>BANDEIRISMO<\/strong><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Um dos mitos fundadores do Brasil, a conquista do sert\u00e3o est\u00e1 presente no imagin\u00e1rio brasileiro desde as primeiras lutas pela independ\u00eancia, no final do s\u00e9culo XVIII, quando os mineiros liderados por Tiradentes tentaram articular a revolta popular contra a explora\u00e7\u00e3o portuguesa. N\u00e3o admira que o esfor\u00e7o para conhecer o pa\u00eds e dominar o territ\u00f3rio tenha contribu\u00eddo para o surgimento de uma consci\u00eancia nacional.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Diversos pensadores estudaram a contradi\u00e7\u00e3o litoral x interior, mas ningu\u00e9m foi mais fundo nessa investiga\u00e7\u00e3o do que a soci\u00f3loga carioca N\u00edsia Trindade Lima. Em \u201cUm Sert\u00e3o Chamado Brasil\u201d (Revan, Rio, 1999), ela afirma que a consci\u00eancia de que havia uma distin\u00e7\u00e3o entre os dois espa\u00e7os apareceu no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX. N\u00e3o se tratava de uma simples diferencia\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica. Desde suas origens mais remotas, a dicotomia litoral x sert\u00e3o tinha conte\u00fado cr\u00edtico, pois j\u00e1 se percebia a dist\u00e2ncia cultural entre ambos.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>No litoral, sob influ\u00eancia da imigra\u00e7\u00e3o peninsular, houve desde o in\u00edcio uma civiliza\u00e7\u00e3o conservadora, \u201cde empr\u00e9stimo\u201d, segundo Euclides da Cunha; nos sert\u00f5es, ao contr\u00e1rio, formou-se uma civiliza\u00e7\u00e3o mais aberta e original, conservadora tamb\u00e9m, mas portadora de uma cultura genuinamente americana, fruto do embate direto com a natureza. No interior e n\u00e3o no litoral estaria o cerne da na\u00e7\u00e3o brasileira. Da\u00ed a busca incessante da integra\u00e7\u00e3o, ou de um encontro-resgate.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Os principais agentes dessa fus\u00e3o cultural teriam sido os bandeirantes, l\u00edderes de hist\u00f3ricas incurs\u00f5es aos sert\u00f5es ignotos. No in\u00edcio eles agiam por encomenda do imp\u00e9rio portugu\u00eas, depois moveram-se tamb\u00e9m por iniciativa pr\u00f3pria e sempre demonstraram um peculiar esp\u00edrito de pioneirismo. Na busca de ouro e pedras preciosas, percorreram vastos espa\u00e7os, mas n\u00e3o os ocuparam realmente. Vilas e cidades constru\u00eddas para apoiar o garimpo e a minera\u00e7\u00e3o n\u00e3o lograram a auto-sufici\u00eancia sen\u00e3o ap\u00f3s o fim da febre do ouro, quando parte da popula\u00e7\u00e3o se convenceu de que precisava buscar a sa\u00edda na agricultura e na pecu\u00e1ria. Esse processo de coloniza\u00e7\u00e3o, bastante lento, foi executado pela pata do boi e as tropas de burros. Definitivamente, a partir de 1800, o antigo papel dos ca\u00e7adores de esmeraldas passou a ser exercido por agricultores, criadores de gado e tropeiros. \u00a0<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>No entanto, a intelig\u00eancia brasileira demorou a dar-se conta da contribui\u00e7\u00e3o dos bandeirantes em geral para a cria\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia nacional. Por muito tempo os intelectuais nativos tatearam no escuro, construindo \u00eddolos de barro. Por exemplo, em certo momento do s\u00e9culo XIX, quando esteve em voga a poesia indigenista de Gon\u00e7alves Dias, tentou-se entronizar o \u00edndio como s\u00edmbolo da nacionalidade, mas esse apelo nativista esgotou-se com o sucesso dos Guarani \u2013 o romance de Jos\u00e9 Alencar e a \u00f3pera de Carlos Gomes. Mais tarde, registrou-se a tentativa de idolatrar o caboclo sertanejo, mas o tiro saiu pela culatra, resultando num estere\u00f3tipo negativo &#8212; o Jeca Tatu, de Monteiro Lobato. Quanto aos modernistas promotores da Semana de Arte de 1922 em S\u00e3o Paulo, at\u00e9 hoje n\u00e3o se sabe muito bem o que queriam &#8212; fora aparecer, exibir-se, protestar.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>No trabalho dos intelectuais brasileiros, lembra N\u00edsia Trindade Lima, a valoriza\u00e7\u00e3o do bandeirante como elemento-chave na forma\u00e7\u00e3o da identidade nacional tornou-se recorrente a partir da prega\u00e7\u00e3o de Vicente Lic\u00ednio Cardoso (1890-1931), soci\u00f3logo e engenheiro que procurou desconstruir a id\u00e9ia (colonial, na sua opini\u00e3o) de que a hist\u00f3ria do Brasil transcorrera toda ela na costa, como reflexo da tradicional rela\u00e7\u00e3o com Portugal e a Europa.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>\u00c9 verdade que tanto no Rio como em outras cidades costeiras boa parte da popula\u00e7\u00e3o vivia de frente para o mar, \u00e0 espera do que vinha de Europa, mas uma parcela minorit\u00e1ria do povo encarava a incorpora\u00e7\u00e3o dos sert\u00f5es como indispens\u00e1vel \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da identidade nacional. Nasceu assim uma tens\u00e3o que estaria viva at\u00e9 hoje, transparecendo, por exemplo, na forma como os nacionalistas brasileiros v\u00eaem a conquista\/preserva\u00e7\u00e3o da amaz\u00f4nia e do cerrado &#8212; o que resta do sert\u00e3o.\u00a0<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>Em seu estudo sobre a dicotomia litoral\/sert\u00e3o, N\u00edsia Trindade Lima destaca a import\u00e2ncia dos livros de viagens e dos relat\u00f3rios de miss\u00f5es cient\u00edficas para a descoberta do pa\u00eds e a consequente forma\u00e7\u00e3o de uma consci\u00eancia nacional. Depois do ciclo das bandeiras tradicionais, essa corrida ao interior intensificou-se no in\u00edcio do s\u00e9culo XIX com a chegada de cientistas europeus como Spix, Martius e Saint-Hilaire, cujos relatos se tornaram famosos. Entretanto, antes e depois dos pesquisadores ambulantes, diversos estudiosos brasileiros ou identificados com a causa brasileira promoveram uma busca instintiva de raz\u00f5es e pretextos que permitissem ao pa\u00eds sobreviver sem v\u00ednculos de depend\u00eancia a um padr\u00e3o\/patr\u00e3o europeu. Paralelamente a esses esfor\u00e7os de pesquisa cient\u00edfica, realizava-se uma corrida espont\u00e2nea por parte dos exploradores dos recursos naturais do territ\u00f3rio.\u00a0<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em>At\u00e9 hoje n\u00e3o se alcan\u00e7ou a autonomia desejada mas, \u00e0 medida que se interiorizou, a identidade brasileira, originalmente \u201ccarangueja\u201d, foi mudando de fei\u00e7\u00e3o, num processo que se renova ao sabor das trocas entre esses dois p\u00f3los da geografia econ\u00f4mica nacional: enquanto a cultura urbana vai impondo seus valores \u00e0s popula\u00e7\u00f5es rurais e suburbanas, a cultura sertaneja deixa sua marca no comportamento dos habitantes das cidades. Tanto tempo depois, prevalece hoje o consenso de que a brasilidade n\u00e3o est\u00e1 nesse ou naquele tipo isolado, mas na mistura, na miscigena\u00e7\u00e3o. Nesse sentido, a fus\u00e3o do litoral com o sert\u00e3o seria fundamental para dar origem a um Brasil organicamente americano, aut\u00f4nomo e feliz.<\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><em><strong>NACIONALISMO<\/strong><\/em><\/div>\n<div><\/div>\n<div><i>Os autores mais identificados com a id\u00e9ia do sert\u00e3o como cerne da nacionalidade foram principalmente Euclides da Cunha, Alberto Torres, Monteiro Lobato e Roquette Pinto. Eles se situam no eixo central de um nacionalismo que serviu de est\u00edmulo e inspira\u00e7\u00e3o a iniciativas governamentais como a campanha pelo saneamento rural nos anos 1910, a Marcha para o Oeste na d\u00e9cada de 1930 e a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia nos anos 1950, sem contar expedi\u00e7\u00f5es mais ou menos avulsas \u2013 como a Coluna Prestes, nos anos 1920; ou a Miss\u00e3o Rondon, desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX &#8212; organizadas para conhecer a realidade do interior remoto.<\/i><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>A conquista do sert\u00e3o brasileiro teve v\u00e1rios impulsos e um dos mais fortes esteve associado \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de estradas de ferro entre 1870 e 1920. A morte de milhares de trabalhadores na abertura dessas estradas despertou os cientistas brasileiros para a necessidade de tratar de doen\u00e7as end\u00eamicas como a mal\u00e1ria, o mal de Chagas e a esquistossomose. Por isso N\u00edsia Trindade Lima chega ao ponto de situar os higienistas liderados por Oswaldo Cruz, Carlos Chagas e Belis\u00e1rio Penna como uma esp\u00e9cie de novos bandeirantes \u2013 dispostos n\u00e3o a escravizar \u00edndios e capturar escravos fugidos, mas a libertar brasileiros da doen\u00e7a, da fome e da mis\u00e9ria. Ela lembra especialmente a viagem do m\u00e9dico Julio Paternostro ao vale do Tocantins no per\u00edodo 1934\/38: seu relat\u00f3rio causou um choque ao comparar a vida das comunidades rurais tocantinenses \u00e0 de popula\u00e7\u00f5es de s\u00e9culos passados. \u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>\u00c9 claro que as medidas oficiais em prol das popula\u00e7\u00f5es do centro do pa\u00eds n\u00e3o correspondiam apenas a impulsos de fora para dentro; algumas dessas iniciativas eram tamb\u00e9m uma resposta a press\u00f5es origin\u00e1rias do pr\u00f3prio litoral superpovoado, onde muita gente via no interior desabitado uma sa\u00edda para as peri\u00f3dicas crises nacionais. Al\u00e9m disso, procurava-se atender \u00e0s brutais car\u00eancias dos habitantes dos sert\u00f5es, isolados pelas longas dist\u00e2ncias.<\/i><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>Embora desde o in\u00edcio do s\u00e9culo XX os bandeirantes j\u00e1 tivessem sido apontados como l\u00edderes intr\u00e9pidos da conquista do territ\u00f3rio nacional, a constru\u00e7\u00e3o de seu mito ganhou impulso no final dos anos 1930, durante a ditadura de Getulio Vargas. Os intelectuais franceses que fundaram a escola de sociologia de S\u00e3o Paulo encorajaram o estudo do bandeirismo, ao atribuir-lhe um papel de vanguarda. Com isso n\u00e3o s\u00f3 agradaram a seus patr\u00f5es, membros da elite paulista, mas deram um mote \u00e0 ditadura estadonovista, carente de her\u00f3is.<\/i><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>Um dos que melhor souberam cantar o bandeirante como l\u00edder nacional foi o poeta paulista Cassiano Ricardo, geralmente identificado como direitista. Mais \u00e0 esquerda, o soci\u00f3logo paulista Antonio Candido, em seu cl\u00e1ssico Os Parceiros do Rio Bonito, reconhece que o caipira herdou do bandeirante o laconismo, a rusticidade, o nomadismo e a capacidade de adapta\u00e7\u00e3o ao meio sobrevivendo com o m\u00ednimo.\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>Gra\u00e7as a esses e outros estudos, tornou-se mais ou menos consensual atribuir ao \u00edmpeto bandeirante a extens\u00e3o das fronteiras do Brasil al\u00e9m da linha imagin\u00e1ria tra\u00e7ada em 1494 pelo Tratado de Tordesilhas, pelo qual os reis de Espanha e Portugal dividiram entre si a Am\u00e9rica do Sul. Nesses vastos territ\u00f3rios situados no miolo do Brasil plantou-se paulatinamente uma r\u00e9plica do modelo econ\u00f4mico institucionalizado no litoral sob o governo luso (at\u00e9 a independ\u00eancia), por influ\u00eancia inglesa (at\u00e9 a rep\u00fablica) e mediante o patroc\u00ednio ianque (na maior parte do s\u00e9culo XX).<\/i><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><em><strong>EMPREENDEDORISMO<\/strong><\/em><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>N\u00e3o importa sob a tutela de quem se realizou, o avan\u00e7o sobre os espa\u00e7os virgens do interior teve desde sempre um car\u00e1ter mission\u00e1rio, como se a explora\u00e7\u00e3o das florestas e a posse da terra contivessem uma promessa de liberta\u00e7\u00e3o. Ao confundir-se com um horizonte ilimitado, o Brasil Central sempre prometeu reden\u00e7\u00e3o aos aventureiros que ousaram adentr\u00e1-lo, perseguindo o mito do enriquecimento. Como um determinismo hist\u00f3rico, parece estar disseminado no inconsciente coletivo brasileiro que \u00e9 preciso levar adiante a ferro e fogo o trabalho pioneiro de desmonte ambiental e conquista territorial iniciado pelos bandeirantes.<\/i><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>O mito do hero\u00edsmo bandeirante continua presente no imagin\u00e1rio brasileiro moderno e se reproduz no elogio constante aos empreendedores que desafiam os riscos mais primitivos e transformam os ambientes naturais, gerando progresso e implantando os valores da civiliza\u00e7\u00e3o capitalista nos meios mais distantes \u2013 hoje no cerrado e na amaz\u00f4nia. N\u00e3o \u00e9 por acaso que entre os tipos mais admirados do Brasil contempor\u00e2neo se destacam os derrubadores de florestas, os abridores de estradas, os construtores de barragens, os criadores de cidades e os campe\u00f5es da agricultura. N\u00e3o raro, esses tipos se tornam ministros ou disputam cargos legislativos ou executivos. Fazem parte da hist\u00f3ria recente do pa\u00eds o dirigente industrial Antono Ermirio de Moraes, l\u00edder do grupo Votorantim, e o agr\u00f4nomo-fazendeiro paulista Roberto Rodrigues, lider do cooperativismo brasileiro.<br \/>\n<\/i><\/div>\n<div><i>\u00a0<\/i><\/div>\n<div><i>Tamb\u00e9m n\u00e3o foi por simples coincid\u00eancia que na virada do s\u00e9culo XX ganhou destaque a figura do sojicultor Blairo Maggi, um migrante que trocou o Sul minufundi\u00e1rio pelas terras sem fim do Mato Grosso. J\u00e1 em meados da d\u00e9cada de 1990 ele foi apontado como o rei da soja em lugar do empreiteiro-banqueiro Olacyr de Moraes. Festejado pelos pol\u00edticos, Maggi tornou-se suplente de senador antes de eleger-se governador do Estado do Mato Grosso em 2002. Consciente de que a defici\u00eancia log\u00edstica \u00e9 o calcanhar de Aquiles do cerrado, ele fez da constru\u00e7\u00e3o de estradas uma prioridade e chegou a candidatar-se \u00e0 presid\u00eancia da Rep\u00fablica como profeta de um Brasil neoliberal. N\u00e3o chegou l\u00e1, mas h\u00e1 seis meses se tornou ministro da Agricultura de um governo que n\u00e3o teme desmantelar conquistas democr\u00e1ticas em favor de um modelo malogrado de capitalismo selvagem. De alguma forma o banditismo bandeirante continua vivo no esp\u00edrito empreendedor de alguns brasileiros dispostos a favorecer o enriquecimento de poucos em prejuizo de muitos.<br \/>\n<\/i><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\n<hr \/>\n<p>LEMBRETE DE OCASI\u00c3O\n<\/p><\/div>\n<div><\/div>\n<div>\u201cDe todo modo, n\u00e3o me parece superada a ideia de uma ci\u00eancia que se dedique a pensar o Brasil. Esta sociedade de fronteiras m\u00f3veis, de homens fronteiros, onde talvez seja poss\u00edvel aproximar litoral e sert\u00e3o.\u201d<\/div>\n<div><\/div>\n<div>N\u00edsia Trindade Lima, no \u00faltimo par\u00e1grafo do livro \u201cUm Sert\u00e3o Chamado Brasil\u201d<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse As listas tr\u00edplices de nomes para cargos p\u00fablicos s\u00e3o formadas pelo voto democr\u00e1tico, da\u00ed a tradi\u00e7\u00e3o de que o primeiro nome seja sempre respeitado pelos governos. No caso da Funda\u00e7\u00e3o Oswaldo Cruz, o ministro da Sa\u00fade s\u00f3 n\u00e3o fraudou a ordem da indica\u00e7\u00e3o gra\u00e7as \u00e0 revolta da maioria dos funcion\u00e1rios da centen\u00e1ria institui\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-42944","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analiseopiniao"],"aioseo_notices":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[{"id":84590,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/e-preciso-defender-o-jardim-botanico-de-porto-alegre\/","url_meta":{"origin":42944,"position":0},"title":"\u00c9 preciso defender o Jardim Bot\u00e2nico de Porto Alegre","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"8 de mar\u00e7o de 2026","format":false,"excerpt":"CLEBER DIONI TENTARDINI O Jardim Bot\u00e2nico de Porto Alegre (JBPA) tem 67 anos e \u00e9 considerado um dos cinco melhores e maiores do Brasil. 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