{"id":43870,"date":"2017-01-27T20:31:05","date_gmt":"2017-01-27T23:31:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=43870"},"modified":"2017-01-27T20:31:05","modified_gmt":"2017-01-27T23:31:05","slug":"os-segredos-de-dona-laila","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/os-segredos-de-dona-laila\/","title":{"rendered":"Os segredos de Dona Laila"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Cl\u00e1udia Rodrigues<\/span><br \/>\nDona Laila n\u00e3o vive mais, \u00a0mas deixou na mem\u00f3ria de suas filhas e filhos uma lembran\u00e7a alegre de tempos tristes de enfastio. <em>\u201cMam\u00e3e se esfor\u00e7ava ao m\u00e1ximo para que a comida durasse o m\u00eas inteiro, mas n\u00e3o havia jeito, sempre chegava o dia do passeio ao Bosque de Rio Preto. Para n\u00f3s aquilo era pura alegria, cheg\u00e1vamos famintos da escola e ela j\u00e1 estava com a panela enrolada em um pano dizendo: hoje \u00e9 dia de piquenique! Esquec\u00edamos a fome e segu\u00edamos debaixo do sol ardente at\u00e9 o Bosque. No Bosque, al\u00e9m de ver os animais, pod\u00edamos correr e brincar nos balan\u00e7os e escorregadores, enquanto ela estendia o pano no ch\u00e3o e come\u00e7ava a moldar bolinhas de arroz que com\u00edamos indo em vindo, numa verdadeira labuta de lava a m\u00e3o, come o bolinho, brinca mais um pouco, suja a m\u00e3o, lava a m\u00e3o, outro bolinho. A \u00e1gua do bebedouro era gelada no ponto, n\u00e3o chegava a doer a testa, mas era muito refrescante, a tarde passava lenta e \u00e0 noite, muito cansados, era hora do bolinho frito. Ganhava um bolinho a mais quem encontrasse um ovo no quintal para dar liga. Levei anos para desconfiar que s\u00f3 havia arroz, o \u00fanico alimento que n\u00e3o faltava em casa, al\u00e9m de ovos.<\/em><br \/>\n<img decoding=\"async\" class=\"wp-image-43887 alignright\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/wp-content\/uploads\/2017\/01\/ClaudiaRodrigues27012017.jpg\" alt=\"ClaudiaRodrigues27012017\" width=\"329\" height=\"488\" \/>E assim passei a inf\u00e2ncia acreditando que minha vida era \u00f3tima, n\u00e3o nos faltava nada e pod\u00edamos ir sempre ao Bosque, passeio que muitos de nossos amigos n\u00e3o faziam porque era passeio de rico. Sobre comprar coisas e comidas prontas, ela lamentava pelos outros: coitados, n\u00e3o olhem, eles n\u00e3o sabem fazer piquenique, ficam com ci\u00fame da gente! Ela era assim, minha m\u00e3e, se chovesse ela inventava banho de chuva, se faltava luz brincava de teatro de sombras e quando a coisa encrencava, ela era o Sr Sargent\u00e3o e n\u00f3s os soldados enfileirados para entrar no banho um a um. Hoje, quando fico brava com meus filhos por causa de nada, por causa de pressa, eu, uma senhora que tem m\u00e1quinas e faxineira, uma imagem que me vem \u00e9 dela no tanque lavando roupa a m\u00e3o a me chamar: vem c\u00e1, crian\u00e7a, vem escutar o barulho que faz essa espuma quando aperto bem e quando aperto menos. Ela era assim, at\u00e9 passeio nos trilhos do antigo trem ela inventava, uma simples pena de galinha nas suas m\u00e3os, contra o sol, virava foco de admira\u00e7\u00e3o em mil cores. Ela n\u00e3o dava conta de ver a gente triste por causa de uma prova ou qualquer rusga no col\u00e9gio, ent\u00e3o sempre tinha o que dizer, mostrar e nos faz sentir para esquecermos os pensamentos ruins.\u201d<br \/>\nDona Laila, na sua simplicidade, buscava uma solu\u00e7\u00e3o \u00f3tima para que a responsabilidade e os problemas da vida de adultos pobres com uma fam\u00edlia de sete pessoas n\u00e3o pesasse sobre as crian\u00e7as. Mais do que isso, fez altas viagens sem sair do mesmo lugar, soube ser sem ter, fez literatura sem escrever, foi artista e poeta sem nunca ter visto o mar, conhecido p\u00e2ntanos, montanhas, c\u00e2nions ou cachoeiras.<br \/>\nNo seu anivers\u00e1rio de 80 anos os filhos e filhas a levaram para comemorar em um hotel fazenda. Foi a primeira vez dela em um hotel, ficou muito alegre quando subiram um pequeno monte para fazer um piquenique perfeito, de cinema, ideia da filha ca\u00e7ula. Foi l\u00e1 em cima, com a fam\u00edlia toda, todos os filhos, filhas, noras, genros e crian\u00e7as netas que ela contou, rindo muito, sobre a raz\u00e3o dos piqueniques no Bosque, os banhos de chuva, os passeios sobre os trilhos, o teatro do corte de luz.<br \/>\nProvocada pela filha mais velha, que a aconselhou a ter uma ajudante em casa e descansar porque teve uma vida dura, Dona Laila fez um pequeno discurso.<br \/>\n<em>\u201cVoc\u00eas acham que um tive uma vida dura, mas eu levei a vida que \u00e9 minha e ainda levo. Voc\u00eas acham que se divertir \u00e9 s\u00f3 ir para hotel e ficar sem fazer nada, fazer viagens longas para ver paisagens, isso tudo \u00e9 bonito tamb\u00e9m, eu vejo nas fotos que voc\u00eas mandam, eu vejo agora aqui como tem coisa bonita para ser ver no mundo, mas se voc\u00eas somarem as f\u00e9rias de voc\u00eas, os feriados e toda vida que eu tive, eu me diverti mais porque a vida minha \u00e9 eu que fa\u00e7o todo dia e todo dia nasce novinho em folha s\u00f3 para a gente se distrair at\u00e9 a noite chegar. Amanh\u00e3 de manh\u00e3 voc\u00eas v\u00e3o estar correndo da vida a postar fotos do dia de hoje sem prestar aten\u00e7\u00e3o no dia de hoje de voc\u00eas, que \u00e9 amanh\u00e3. Para mim o dia de hoje vai morrer hoje e amanh\u00e3 eu vou estar l\u00e1 olhando as galinhas se est\u00e3o bem e vou ficar t\u00e3o feliz se nenhuma estiver empesteada, vou l\u00e1 no fundo do p\u00e1tio ver se o cacho de banana j\u00e1 est\u00e1 bom, se n\u00e3o estiver vou ficar animada para voltar dois dias depois, se estiver bem bom eu j\u00e1 vou colher e isso vai ser t\u00e3o alegre. Depois do almo\u00e7o, em vez de costurar as roupas de madame, como eu fazia quando era jovem para sustentar a casa, vou fazer as roupinhas de boneca para as minhas clientes da feira, as meninas de 8 anos que pedem vestidos de bruxa, noivas e dan\u00e7arinas espanholas sem jamais reclamar do feitio, s\u00f3 exclamando que tudo \u00e9 t\u00e3o fofo e lindo\u201d<\/em><br \/>\nMam\u00e3e, diz o filho mais velho, \u00e9 que n\u00f3s nos preocupamos com sua sa\u00fade, seu bem-estar&#8230;<br \/>\n\u201cBem lembrado, gostaria de falar para voc\u00eas que qualquer dia eu vou morrer porque a vida acaba e a minha j\u00e1 est\u00e1 no fim, voc\u00eas que s\u00e3o doutores e t\u00e3o inteligentes em matem\u00e1tica devem saber fazer as contas e calcular que uma pessoa de 80 anos j\u00e1 est\u00e1 no fim da vida, ent\u00e3o n\u00e3o me venham socorrer com ambul\u00e2ncia caso me falte o ar. Me deixem ir, fa\u00e7am um piquenique bem lindo para as crian\u00e7as, nem que seja com bolo de arroz e prezem por esse tal de meu bem-estar me deixando ir. Se vou subir ou vou descer, isso \u00e9 preocupa\u00e7\u00e3o minha de adulta mais velha, n\u00e3o \u00e9 da conta de voc\u00eas para onde v\u00e3o os que morrem. A fun\u00e7\u00e3o de voc\u00eas \u00e9 distra\u00edrem-se do t\u00e9dio trabalhoso da vida, seja em hotel ou no bosque, aqui mesmo em Rio Preto, na Pinda\u00edba ou em Paris porque em qualquer lugar do mundo haver\u00e1 uma crian\u00e7a para banhar, alimentar e fazer dormir, nem que essa crian\u00e7a seja cada um de voc\u00eas sozinhos por conta pr\u00f3pria.<br \/>\nEnt\u00e3o, se acham ruim eu morrer v\u00e3o se distraindo disso desde j\u00e1 com qualquer coisa melhor para sentir, que pode ser \u00e1gua fria ou \u00e1gua morna, sol ou sombra, a maior das piscinas dos parques aqu\u00e1ticos ou qualquer bacia no p\u00e1tio porque o poder de sentir boas sensa\u00e7\u00f5es n\u00e3o depende s\u00f3 da vis\u00e3o, do que aparenta, do que aparece, do que parece, \u00e9 uma coisa de dentro da pessoa. Querem que eu prove?<br \/>\nMe digam voc\u00eas, que j\u00e1 experimentaram tantas dessas comidas de chefs; quando algu\u00e9m fala em melhor arroz do mundo, que arroz \u00e9 que os riquinhos lembram?\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cl\u00e1udia Rodrigues Dona Laila n\u00e3o vive mais, \u00a0mas deixou na mem\u00f3ria de suas filhas e filhos uma lembran\u00e7a alegre de tempos tristes de enfastio. \u201cMam\u00e3e se esfor\u00e7ava ao m\u00e1ximo para que a comida durasse o m\u00eas inteiro, mas n\u00e3o havia jeito, sempre chegava o dia do passeio ao Bosque de Rio Preto. 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