{"id":48980,"date":"2017-05-25T21:03:36","date_gmt":"2017-05-26T00:03:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=48980"},"modified":"2017-05-25T21:03:36","modified_gmt":"2017-05-26T00:03:36","slug":"brasil-crise-e-saida-nao-ortodoxa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/brasil-crise-e-saida-nao-ortodoxa\/","title":{"rendered":"Brasil, crise e sa\u00edda n\u00e3o ortodoxa"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Moys\u00e9s Pinto Neto*<\/span><br \/>\nA d\u00e9cada passada foi inegavelmente um grande momento para o Brasil. O bolo cresceu e foi distribu\u00eddo tamb\u00e9m aos pobres, promovendo um deslocamento na estrutura de classes brasileira e uma reconquista da autoestima nacional. O que hoje \u00e9 regra, a deprecia\u00e7\u00e3o do Brasil, tinha virado cafonice. Nosso pa\u00eds tornava-se um dos projetos de futuro mundial, invertendo a equa\u00e7\u00e3o colonizada de que dever\u00edamos copiar tudo do Norte. Durante a crise de 2008, v\u00edamos as economias de l\u00e1 despencarem enquanto viv\u00edamos nosso melhor momento, podendo at\u00e9 tripudiar a crise chamando-a de \u201cmarolinha\u201d. Por todo o mundo, o Brasil era visto como potencial modelo porque combinava uma nova estabilidade institucional, conquistada pela Constitui\u00e7\u00e3o de 1988 e transi\u00e7\u00e3o serena entre tucanos e petistas, estabilidade econ\u00f4mica, com responsabilidade fiscal, controle da infla\u00e7\u00e3o e crescimento, e um caldeir\u00e3o sociocultural e ambiental ainda inexplorado, mas cheio de vitalidade.<br \/>\nNo entanto, os arranjos do poder n\u00e3o eram auspiciosos. Do ponto de vista pol\u00edtico, formava-se um grande bloco no poder\u200a\u2014\u200ao \u201ccondom\u00ednio pemedebista\u201d\u200a\u2014\u200acuja gest\u00e3o era disputada pelos petistas e tucanos. As rela\u00e7\u00f5es com o setor privado estavam despidas de toda transpar\u00eancia. Sab\u00edamos que as campanhas ficavam cada vez mais caras, o \u201cMensal\u00e3o\u201d fora o pren\u00fancio da crise do financiamento que indicava ter o PT perdido qualquer diferencial em rela\u00e7\u00e3o ao resto do sistema. A combina\u00e7\u00e3o entre esses neg\u00f3cios e a gest\u00e3o pemedebista\u200a\u2014\u200afundada em supermaioria parlamentar comprada com cargos e, hoje d\u00e1 para dizer tranquilamente, grana\u200a\u2014\u200aformava um regime olig\u00e1rquico e plutocr\u00e1tico, onde o poder pol\u00edtico tradicional (p.ex., Sarney, Calheiros) e os \u201csupercampe\u00f5es\u201d (Odebrecht, Friboi, OAS, Andrade Gutierrez) atuavam em conluio bem distante da popula\u00e7\u00e3o. O Plano de Acelera\u00e7\u00e3o do Crescimento, programa n\u00famero 1 do imagin\u00e1rio petista p\u00f3s-2008, tinha esse \u201clado B\u201d. Se o \u201clado A\u201d era o discurso do crescimento virtuoso, da gera\u00e7\u00e3o de empregos, do impulsionamento do mercado interno e aventura no mercado global como\u00a0player, o \u201clado B\u201d era a corros\u00e3o democr\u00e1tica, o dom\u00ednio das construtoras nas cidades, o governismo ap\u00e1tico, a ofensiva sobre os \u00edndios e a devasta\u00e7\u00e3o ambiental.<br \/>\nA pauta do transporte p\u00fablico, em 2013, foi o catalisador de uma indigna\u00e7\u00e3o geral contra esses arranjos. A\u00a0pax\u00a0lulista, que se prolongou nos primeiros anos da gest\u00e3o de Dilma, \u00e9 desarranjada pelos movimentos que reivindicam outro modelo de urbanismo, outra experi\u00eancia da democracia, mais ousadia na configura\u00e7\u00e3o do nosso futuro. Em seguida, a classe m\u00e9dia invade a rua e pede menos corrup\u00e7\u00e3o, mais educa\u00e7\u00e3o e sa\u00fade. Mas o processo n\u00e3o para por a\u00ed: das C\u00e2maras Municipais ocupadas no Brasil, passando pelos rolezinhos at\u00e9 o #naovaitercopa, \u00e9 poss\u00edvel ver que o movimento nunca se deixou domesticar totalmente pelas for\u00e7as da direita ou da esquerda ou seus interesses partid\u00e1rios imediatos. Ele vira uma hidra de muitas cabe\u00e7as\u200a\u2014\u200ae todas as tentativas de hermen\u00eautica do fen\u00f4meno acabam fracassando diante da sua multiplicidade, todas as tentativas de redu\u00e7\u00e3o sociol\u00f3gica acabam revelando mais as idealiza\u00e7\u00f5es pol\u00edticas dos cientistas sociais que o disp\u00eandio energ\u00e9tico do momento cujos efeitos sentimos at\u00e9 hoje. Sem d\u00favida, a \u00fanica aproxima\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 com a ideia de\u00a0acontecimento, pensada tanto pela filosofia alem\u00e3 (Heidegger, Benjamin) quanto pelo pensamento franc\u00eas (Althusser, Foucault, Derrida, Deleuze, Badiou), no sentido daquilo que\u00a0excede\u00a0o poss\u00edvel, estoura as capacidades de predi\u00e7\u00e3o do estado anterior e aponta para o imponder\u00e1vel.<br \/>\nNo entanto, em 2014 somos confrontados com a mesquinharia daqueles que colocam o processo eleitoral acima de tudo e de todos. A radicalidade daqueles que n\u00e3o disputavam uma cadeira no Pal\u00e1cio do Planalto, mas um projeto de futuro, \u00e9 substitu\u00edda pelo apoio \u201capesar de tudo\u201d, pela esperan\u00e7a hoje surreal da \u201cguinada \u00e0 esquerda\u201d. O hibridismo de 2013 e in\u00edcio de 2014 torna-se uma polariza\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria focada no poder institucional, colocado no plano de emerg\u00eancia e fim do mundo, como se tudo que ocorresse naquela elei\u00e7\u00e3o fosse quest\u00e3o de vida ou morte. E a vit\u00f3ria melanc\u00f3lica de Dilma n\u00e3o alivia o quadro: a direita n\u00e3o aceita o resultado, povoa as ruas, e a esquerda \u00e9 capturada na defesa de um\u00a0<a href=\"http:\/\/outraspalavras.net\/brasil\/brasil-crise-e-saida-nao-ortodoxa\/%C2%A0http:\/\/moysespintoneto.wordpress.com\/2014\/12\/24\/um-ministerio-ridiculo\/%20\">projeto muito aqu\u00e9m<\/a> do que foi destinado o voto. O compromisso com a manuten\u00e7\u00e3o do governo paralisa a radicalidade do pensamento, tornando a cr\u00edtica ref\u00e9m do dogmatismo esquerdista, fazendo com que as perspectivas radicais fossem engolidas pela defesa do indefens\u00e1vel. A perspectiva de futuro encurta-se drasticamente\u200a\u2014\u200ae esse encurtamento mostra-se bem quando a quest\u00e3o procedimental come\u00e7a a tomar a frente dos debates pol\u00edticos, numa redu\u00e7\u00e3o do pol\u00edtico ao jur\u00eddico. Chega-se \u00e0s raias de sustentar o \u201cdireito subjetivo\u201d da governante permanecer no cargo, como se o poder destituinte n\u00e3o fosse uma ferramenta muito mais interessante que esse conservadorismo jur\u00eddico <em>ad hoc,<\/em> inventado para proteger um partido espec\u00edfico da press\u00e3o pol\u00edtica.<br \/>\nCa\u00edmos no imediatismo. E \u00e9 o mesmo imediatismo que, mesmo numa crise abissal desde 2015, torna as elei\u00e7\u00f5es de 2018 a \u00fanica pauta. Novamente, ca\u00edamos na l\u00f3gica eleitoral sequestrando a pol\u00edtica. N\u00e3o que elei\u00e7\u00f5es n\u00e3o sejam importantes. Mas sem repensar os fundamentos do nosso apoio pol\u00edtico, todo apoio cair\u00e1 na mesma l\u00f3gica atual. Repetiremos o mesmo c\u00edrculo vicioso.<br \/>\nDo ponto de vista de longo prazo, o momento \u00e9 extraordin\u00e1rio. Nunca as oligarquias pol\u00edticas estiveram t\u00e3o emparedadas. \u00c9 verdade que o Poder Judici\u00e1rio e o Minist\u00e9rio P\u00fablico n\u00e3o s\u00e3o for\u00e7as revolucion\u00e1rias e n\u00e3o raro\u200a\u2014\u200acomo vimos no caso Joesley\u200a\u2014\u200aprotegem o empresariado de san\u00e7\u00f5es t\u00e3o duras quanto as que imp\u00f5em \u00e0 plebe sem pudores. Trata-se tamb\u00e9m de uma casta pol\u00edtico-burocr\u00e1tica, n\u00e3o raro herdeira de grandes arranjos aristocr\u00e1ticos-familiares (\u201cnobreza togada\u201d), pol\u00edtica e socialmente conservadora e formada tamb\u00e9m n\u00e3o raro por manuais de direito puramente dogm\u00e1ticos, que repetem o conte\u00fado da lei e as decis\u00f5es dos tribunais de forma decorada, n\u00e3o-cr\u00edtica, sem preocupa\u00e7\u00e3o com os fundamentos filos\u00f3ficos e as consequ\u00eancias sociais dos atos (explorei a rela\u00e7\u00e3o dessa casta com os \u201cconcurseiros\u201d em\u00a0<a href=\"http:\/\/medium.com\/@moysespintoneto\/imagens-do-brasil-em-movimento-decaed952e0\">outro texto<\/a>). Al\u00e9m disso, carecem de legitimidade popular, por mais que tenham o apoio midi\u00e1tico, uma vez que n\u00e3o foram eleitos pelo voto.<br \/>\nE, mesmo assim, n\u00e3o d\u00e1 para ser t\u00e3o manique\u00edsta na an\u00e1lise. Bem ou mal, a blindagem absoluta que protegia a classe dominante no Brasil est\u00e1 abatida. As previs\u00f5es que destacavam a seletividade das investiga\u00e7\u00f5es, supostamente apenas dirigidas ao PT, falharam miseravelmente. A\u00e9cio Neves, principal nome da oposi\u00e7\u00e3o, est\u00e1 afastado e os grandes articuladores do PMDB\u200a\u2014\u200aEduardo Cunha, Eliseu Padilha, Renan Calheiros e Moreira Franco\u200a\u2014\u200aest\u00e3o na mira da opera\u00e7\u00e3o. O pr\u00f3prio presidente, Michel Temer, est\u00e1 sob fogo cerrado. Empres\u00e1rios da Odebrecht, OAS e outras construtoras foram presos e tiveram que entregar seus esquemas. Essa for\u00e7a em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 transpar\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 ligada a uma grande manipula\u00e7\u00e3o arquitetada por for\u00e7as em conluio secreto: ela \u00e9 um processo incontrol\u00e1vel, ligado fundamentalmente \u00e0 nova matriz tecnol\u00f3gica, que provoca um\u00a0<em>tremor no conceito de esfera p\u00fablica.<\/em> V\u00e1rios fil\u00f3sofos\u200a\u2014\u200acomo Derrida, Guattari, Latour e Stiegler\u200a\u2014\u200apensaram esse fen\u00f4meno em toda sua radicalidade, mas infelizmente parece que os intelectuais brasileiros fracassaram rotundamente em fazer a media\u00e7\u00e3o entre conhecimento e milit\u00e2ncia pol\u00edtica. Ref\u00e9ns da agenda eleitoral e dos compromissos partid\u00e1rios ou parapartid\u00e1rios, submetem as an\u00e1lises a categorias pobres, como as de manipula\u00e7\u00e3o da m\u00eddia, grande conspira\u00e7\u00e3o e aliena\u00e7\u00e3o do povo.<br \/>\nSem subscrever totalmente a descri\u00e7\u00e3o de Marcos Nobre, \u00e9 no entanto poss\u00edvel usar sua imagem do sistema da Nova Rep\u00fablica como um mapa para se entender o impacto da Lava-Jato. Para Nobre, haveria um bloco progressista, o \u201csocial-desenvolvimentismo\u201d, composto de petistas e tucanos\u200a\u2014\u200acom o intuito reformista e voltado para a moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Esse bloco teria que negociar com o \u201ccentr\u00e3o\u201d, bloco pemedebista (no sentido amplo), movido pelo arcaico e pela fisiologia e cujo apoio \u00e9 condi\u00e7\u00e3o da governabilidade. Foi esse grande arranjo que desabou. A capacidade dos progressistas mediarem o \u201cimobilismo em movimento\u201d da Nova Rep\u00fablica desabou em 2013, quando as ruas atacaram a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o antidemocr\u00e1tica da \u201cgovernabilidade\u201d. A composi\u00e7\u00e3o desaba e hoje n\u00e3o temos forma; estamos, rigorosamente, em desconstru\u00e7\u00e3o. Ningu\u00e9m pode antever o futuro: como diz Derrida, \u201cele s\u00f3 se anuncia na forma de monstruosidade\u201d.<br \/>\nH\u00e1, basicamente, tr\u00eas argumentos do campo progressista contra a Lava-Jato: o econ\u00f4mico, o jur\u00eddico e o conservador. Pelo argumento econ\u00f4mico, o dinheiro recuperado e o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o compensariam os danos econ\u00f4micos provocados nas grandes empresas nacionais, causando desemprego e recess\u00e3o. O argumento jur\u00eddico consiste em criticar, a partir da matriz garantista (defesa dos direitos individuais dos acusados), os abusos judiciais da Opera\u00e7\u00e3o, chegando a afirmar que estar\u00edamos em estado de exce\u00e7\u00e3o. Finalmente, o argumento conservador \u00e9 baseado simplesmente no medo: o que vir\u00e1 depois de quebrarmos nossas est\u00e1tuas, de destruir nossos \u00eddolos?<br \/>\nO argumento econ\u00f4mico mostra bem que o \u201ccapitalismo de la\u00e7os\u201d brasileiro \u00e9 um patrimonialismo. N\u00e3o importa que as empresas estivessem colonizando o espa\u00e7o p\u00fablico e enfraquecendo a democracia, n\u00e3o importa que recebessem vantagens competitivas em rela\u00e7\u00e3o a pequenas empresas na disputa do mercado, tudo se resume a \u201cdar empregos\u201d ou \u201cpromover o PIB\u201d. \u00c9 o mesmo argumento med\u00edocre do progressismo que tolera o neoextrativismo: o agroneg\u00f3cio sustenta nosso crescimento, ent\u00e3o \u00e0s raias para \u00edndios e ecologia. Como se n\u00e3o fosse poss\u00edvel pensar em outros modelos n\u00e3o inspirados em megalomanias macropol\u00edticas e macroecon\u00f4micas, impulsionando um menor no campo e na ind\u00fastria, talvez sem o mesmo impacto nos n\u00fameros, mas mais disseminado, distribu\u00eddo, conectado com a vida das pessoas e menos ref\u00e9m do capitalismo predat\u00f3rio que hoje corr\u00f3i o tecido urbano com condom\u00ednios, blocos gigantescos, estacionamentos e shopping centers, ou o campo com barragens, monoculturas, explora\u00e7\u00e3o de trabalho escravo e etnoc\u00eddio ind\u00edgena.<br \/>\nO argumento jur\u00eddico \u00e9 pequeno perto do que est\u00e1 em jogo: quando mesmo o Brasil viveu uma \u201cnormalidade institucional\u201d desse ponto de vista? Quando as garantias individuais foram respeitadas at\u00e9 o limite em que esses juristas invocam, por exemplo, com a popula\u00e7\u00e3o pobre? O direito \u00e9 invocado como blindagem de classe, ele se apresenta como uma fantasia que encobre as rela\u00e7\u00f5es de poder e finge que a decis\u00e3o \u00e9 principiol\u00f3gica, quando a rigor o que est\u00e1 em jogo \u00e9 interesse de classe. Alertar para erros e abusos jur\u00eddicos pontuais \u00e9 mais que necess\u00e1rio. Mas, quando se traduz o cen\u00e1rio em ruptura com um direito que estaria assentado na normalidade e na lei, o que se faz \u00e9 revestir privil\u00e9gio em direito, confundir blindagem e garantia. As cr\u00edticas que se faz em torno dos limites dos poderes judiciais ou dos abusos acusat\u00f3rios do Minist\u00e9rio P\u00fablico em geral est\u00e3o corretas e s\u00e3o justas, mas da\u00ed a considerar que isso significaria, em termos pol\u00edticos, uma ruptura institucional \u00e9 um passo que ignora a forma normal que funciona o sistema penal. \u00c9 bom lembrar que\u00a0<a href=\"http:\/\/moysespintoneto.wordpress.com\/2015\/02\/11\/o-debate-arantesfausto-sobre-estado-de-excecao\/\">boa parte dos juristas\u00a0<\/a>que hoje anunciam o estado de exce\u00e7\u00e3o devido ao golpe parlamentar ou, pior ainda, diante das viola\u00e7\u00f5es de direitos individuais de Lula protestavam quando se criticava a viol\u00eancia policial diante das manifesta\u00e7\u00f5es, as opera\u00e7\u00f5es militares nas favelas cariocas ou a repress\u00e3o ao #naovaitercopa como medidas de exce\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso ent\u00e3o decidir: se vivemos em estado de exce\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso reconsiderar as posi\u00e7\u00f5es anteriores, perceber que ele come\u00e7ou bem cedo (na verdade, nunca sa\u00edmos) e<em>\u00a0extrair as<\/em> <em>conclus\u00f5es devidas disso<\/em>\u00a0(que certamente n\u00e3o convergem para um garantismo); se, por outro lado, trata-se de afirmar a normalidade institucional, ent\u00e3o as recentes viola\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o suficientes para nos jogar em outro momento, pois l\u00e1 atr\u00e1s tampouco eram.<br \/>\nFinalmente, o argumento conservador, por ser baseado no medo, \u00e9 muito fr\u00e1gil. A pergunta \u00e9 sempre a mesma: o que fazer, ent\u00e3o? Silenciar diante do desvio de dinheiro p\u00fablico, fazendo vista grossa \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o da esfera p\u00fablica pelos poderosos? N\u00e3o enfrentar os interesses dominantes porque, ao fim e ao cabo, eles d\u00e3o empregos e fazem crescer a economia? Construir uma aura santa sobre os pol\u00edticos de esquerda que os tornam imunes a investiga\u00e7\u00f5es? Evidentemente, nenhuma dessas posi\u00e7\u00f5es se sustenta minimamente.<br \/>\nO momento \u00e9 extraordin\u00e1rio porque, ao mesmo tempo em desaba o patrimonialismo, se abre uma janela hist\u00f3rica para formular novos projetos. \u00c9 verdade que o processo atual \u00e9 um diagrama complexo de interesses em que m\u00eddia, burocracia judici\u00e1ria, mercado financeiro e oligarquias pol\u00edticas tentam impor suas cartas. A quest\u00e3o, no entanto, \u00e9 deixar de lado as teorias conspirat\u00f3rias, passando uma navalha de Ockham, e se focar no entrechoque aleat\u00f3rio que gera o imponder\u00e1vel. Mais que nunca, a imagem de Lucr\u00e9cio, revivida por Althusser, hoje parece dar frutos. N\u00e3o o grande esqueleto ideal plat\u00f4nico, a Rep\u00fablica organizada e ordenada, mas o\u00a0choque de \u00e1tomos que provoca encontros e desvios, sendo irredut\u00edvel a qualquer configura\u00e7\u00e3o pr\u00e9via que se possa imprimir. A energia destituinte pode ser revolucion\u00e1ria se cuidarmos para organiz\u00e1-la, tirar do estado bruto e lhe dar plasticidade. As pessoas n\u00e3o est\u00e3o interessadas em defesas de figur\u00f5es ou partidos, ou de identidades pol\u00edticas, mas de ideias. Os liberais j\u00e1 apresentaram\u200a\u2014\u200aa ganharam alguma for\u00e7a popular\u200a\u2014\u200aseu projeto de futuro. Eles querem um Estado menor e mais eficiente, um mercado mais competitivo, uma educa\u00e7\u00e3o mais individualista e meritocr\u00e1tica e uma \u00e9tica do trabalho forte.<br \/>\nE o outro lado? N\u00e3o est\u00e1 claro ainda o projeto. \u00c9 a janela que se abre para pensarmos um modelo descentralizado de pol\u00edtica, que possa aproximar mais o cidad\u00e3o do representante, com inova\u00e7\u00f5es como mandatos coletivos, munic\u00edpios fortes e muitas outras. Um modelo de economia pautado na inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, que aproveita a energia criativa do brasileiro e pensa a ind\u00fastria fora do modelo decr\u00e9pito da f\u00e1brica, estimulando pequenos empreendimentos, mais pr\u00f3ximo do local, em detrimento dos grandes\u00a0players. Um modelo ambiental que estabele\u00e7a um balan\u00e7o justo entre os seres vivos que comp\u00f5e a ecologia brasileira, dos biomas \u00e0 atmosfera, das profundezas \u00e0 floresta, do mineral ao humano, do campo \u00e0 cidade. Um modelo que permita restabelecer aquilo que nos torna advers\u00e1rios dos liberais\u200a\u2014\u200auma no\u00e7\u00e3o forte do \u201csocial\u201d\u200a\u2014\u200aque se inspire na solidariedade social como um pilar fundante para qualquer coletivo e que relativize o papel do dinheiro, da riqueza, como uma \u00fanica fonte de reconhecimento social. Que valorize mais, por exemplo, o tempo como o bem mais precioso que algu\u00e9m pode ter, no contrafluxo da acelera\u00e7\u00e3o niilista que percorre o mundo, ou a qualidade de vida como contraponto \u00e0 hegemonia do poder e do dinheiro. E com isso um novo modelo trabalhista e previdenci\u00e1rio ainda inspirado na solidariedade social, e n\u00e3o na poupan\u00e7a individual, entendido o coletivo como estrategicamente decisivo para uma boa vida em sociedade. Um modelo que possa integrar educa\u00e7\u00e3o, esportes e cultura, aproximando toda vitalidade da cultura brasileira de dimens\u00f5es que, at\u00e9 agora, s\u00f3 copiamos do Norte. Um modelo que precisa ser inventado\u200a\u2014\u200amas cuja gesta\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e1 em andamento na sociedade brasileira, nas diversas experi\u00eancias bem-sucedidas, no conhecimento que j\u00e1 \u00e9 produzido nas universidades, nos movimentos sociais, nas experi\u00eancias empreendedoras, nos coletivos da Internet, nas bricolagens populares, nas tradi\u00e7\u00f5es desperdi\u00e7adas.<br \/>\nTudo isso est\u00e1 em aberto. A decomposi\u00e7\u00e3o do institu\u00eddo \u00e9 nossa oportunidade.<br \/>\n*Artigo extra\u00eddo do Outras Palavras<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Moys\u00e9s Pinto Neto* A d\u00e9cada passada foi inegavelmente um grande momento para o Brasil. O bolo cresceu e foi distribu\u00eddo tamb\u00e9m aos pobres, promovendo um deslocamento na estrutura de classes brasileira e uma reconquista da autoestima nacional. O que hoje \u00e9 regra, a deprecia\u00e7\u00e3o do Brasil, tinha virado cafonice. 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