{"id":50155,"date":"2017-06-17T00:21:25","date_gmt":"2017-06-17T03:21:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=50155"},"modified":"2017-06-17T00:21:25","modified_gmt":"2017-06-17T03:21:25","slug":"torturados-e-torturadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/torturados-e-torturadores\/","title":{"rendered":"Torturados e torturadores"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Severo<\/span><br \/>\nA jornalista mineira Miriam Leit\u00e3o, comentarista da Rede Globo, colunista de O Globo e ativa conferencista em eventos empresariais pelo pa\u00eds, \u00e9 a personagem principal, ao lado de seu ex-marido Marcelo Netto, do livro \u201cEm nome dos Pais\u201d, em que o autor, Matheus Leit\u00e3o, relata a pris\u00e3o e tortura dos dois pelos servi\u00e7os secretos do Ex\u00e9rcito, no Esp\u00edrito Santo, em 1972.<br \/>\nNo livro, o autor, que \u00e9 filho do casal, recapitula os horrores de sua m\u00e3e seviciada pelos militares e insultada aos gritos de \u201cterrorista\u201d enquanto era despida, humilhada, agredida e jogada numa cela imunda e escura com uma cobra jiboia de cinco metros; curiosamente, h\u00e1 dias narrou Miriam, ao ser admoestada dentro de um avi\u00e3o de passageiros por um grupo de militantes pol\u00edticos fardados, que a amea\u00e7avam aos gritos de \u201cterrorista\u201d. Ela diz que se lembrou dos dias de chumbo da ditadura.<br \/>\nO livro \u00e9 uma obra liter\u00e1ria que revela uma escola de texto de uma gera\u00e7\u00e3o de jornalistas de meia idade que est\u00e1 chegando ao comando das reda\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m mostra ao leitor as min\u00facias do trabalho de um rep\u00f3rter cl\u00e1ssico, o que hoje no jarg\u00e3o da imprensa se chama de \u201cjornalismo investigativo\u201d.<br \/>\nO leitor acompanha passo a passo a determina\u00e7\u00e3o, o rigor e, tamb\u00e9m, muito importante, vai com o autor gastando sola de sapatos atr\u00e1s da not\u00edcia. Respira velhos dossi\u00eas embolorados no fundo dos arquivos, sobe morros e procura sobreviventes; usa os recursos da tecnologia (gravadores e c\u00e2meras), sempre para se resguardar.<br \/>\nMatheus sempre informa a seus interlocutores que \u00e9 rep\u00f3rter e diz o que est\u00e1 fazendo. Mais ainda: ele se vale de forma muito efetiva da Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o. Tempos modernos de um mesmo pa\u00eds.<br \/>\nA narrativa \u00e9 muito interessante. A come\u00e7ar pelo nome do autor, Matheus, que era o codinome de seu pai na clandestinidade. A ditadura \u00e9 um pano de fundo. Quase n\u00e3o se v\u00ea em seu lado essencial: um regime que tinha no comando pol\u00edtico velhos generais da ativa de quatro estrelas (com mais de 60 anos) e a m\u00e1quina administrativa aparelhada por um enxame de oficiais da reserva; do outro lado, a fina flor da juventude brasileira.<br \/>\nNo teatro de opera\u00e7\u00f5es um grupo min\u00fasculo de estudantes universit\u00e1rios idealistas (a c\u00e9lula retratada, do PCdoB capixaba, contava com 30 militantes) contra tamb\u00e9m jovens oficiais do Ex\u00e9rcito, tenentes e capit\u00e3es, num combate desigual travado nos por\u00f5es imundos de quart\u00e9is de Vit\u00f3ria e do Rio de Janeiro.<br \/>\nH\u00e1 cenas pungentes, como o pai do autor, Marcelo, trancafiado numa solit\u00e1ria da Vila Militar, jogando xadrez de mem\u00f3ria, sem tabuleiro, movendo as pe\u00e7as por sinais prec\u00e1rios, como nas novelas de Alexandre Dumas, com seu companheiro de supl\u00edcio, o jornalista Jorge Luiz de Souza, num cub\u00edculo ao lado, tamb\u00e9m brutalmente torturado na fase de interrogat\u00f3rios.<br \/>\nO pa\u00eds andou muito ou muito pouco at\u00e9 chegar ao mundo de Matheus Leit\u00e3o: Os velhos generais, coron\u00e9is e tenentes coron\u00e9is de 1964 morreram e foram deixando um vazio ocupado por seus advers\u00e1rios do MDB aut\u00eantico de Tancredo Neves, Ulysses Guimar\u00e3es, Franco Montoro, Pedro Simon, Marcos Freire e tantos outros.<br \/>\nEstes tamb\u00e9m se foram, ou se aposentaram, deixando o quadro pol\u00edtico para a gera\u00e7\u00e3o seguinte que chegou ao poder com os tucanos de Fernando Henrique, numa transi\u00e7\u00e3o para os jovens da guerrilha, que assumem a Presid\u00eancia com Dilma Rousseff, uma menina dos tempos recuperados no livro e que governava a Rep\u00fablica enquanto o autor vasculha arquivos e percorre os caminhos dos oprimidos e opressores.<br \/>\nMal ficaram os operadores da Guerra Suja: a maior parte morreu sem gl\u00f3ria, muitos atormentados e frustrados, pois seus chefes boicotaram suas carreiras. Hoje, seus filhos ouvem at\u00f4nitos as perguntas de Matheus e, at\u00e9 mesmo, expressam simpatia pela luta dos inimigos de seus pais. \u00c9 um ponto alto do livro os encontros dessa segunda gera\u00e7\u00e3o, os filhos de torturados e torturadores.<br \/>\nMesmo sem descartar a emo\u00e7\u00e3o inerente \u00e0 sua posi\u00e7\u00e3o, Matheus apresenta uma mat\u00e9ria objetiva, muito \u00fatil para as novas gera\u00e7\u00f5es entenderem o lado humano daqueles tempos terr\u00edveis, sem os clich\u00eas (esten\u00f3tipos) recorrentes. Leitura f\u00e1cil de um texto feito com talento e corre\u00e7\u00e3o. \u201cEm Nome dos Pais\u201d est\u00e1, justificadamente, se convertendo em <em>best seller<\/em>. Um livro fundamental.<br \/>\n<em><strong>Em Nome dos Pais,\u00a0<\/strong><\/em><strong>448 p\u00e1ginas,\u00a0<\/strong><strong>Editora Intr\u00ednseca,\u00a0<\/strong><strong>R$ 49<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jos\u00e9 Ant\u00f4nio Severo A jornalista mineira Miriam Leit\u00e3o, comentarista da Rede Globo, colunista de O Globo e ativa conferencista em eventos empresariais pelo pa\u00eds, \u00e9 a personagem principal, ao lado de seu ex-marido Marcelo Netto, do livro \u201cEm nome dos Pais\u201d, em que o autor, Matheus Leit\u00e3o, relata a pris\u00e3o e tortura dos dois pelos [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":4,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-50155","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analiseopiniao"],"aioseo_notices":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[{"id":84681,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/recordar-zuzu-angel-50-anos-apos-sua-morte-e-um-ato-etico\/","url_meta":{"origin":50155,"position":0},"title":"Recordar Zuzu Angel 50 anos ap\u00f3s sua morte \u00e9 um ato \u00e9tico","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"16 de abril de 2026","format":false,"excerpt":"CRISTIANO GOLDSCHMIDT Cinco d\u00e9cadas transcorreram desde o silenciamento brutal de Zuzu Angel (05 de junho de 1921 - 14 de abril de 1976), e ainda assim sua voz persiste \u2014 n\u00e3o como eco esmaecido, mas como um timbre agudo que rasga o tecido do tempo e se inscreve na mem\u00f3ria\u2026","rel":"","context":"Em &quot;An\u00e1lise&amp;Opini\u00e3o&quot;","block_context":{"text":"An\u00e1lise&amp;Opini\u00e3o","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/category\/analiseopiniao\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/zuzu-angel-1972-fotografo-desconhecido-colecao-arquivo-nacional.jpg?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200,"srcset":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/zuzu-angel-1972-fotografo-desconhecido-colecao-arquivo-nacional.jpg?resize=350%2C200&ssl=1 1x, https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/zuzu-angel-1972-fotografo-desconhecido-colecao-arquivo-nacional.jpg?resize=525%2C300&ssl=1 1.5x, https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/zuzu-angel-1972-fotografo-desconhecido-colecao-arquivo-nacional.jpg?resize=700%2C400&ssl=1 2x, https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/zuzu-angel-1972-fotografo-desconhecido-colecao-arquivo-nacional.jpg?resize=1050%2C600&ssl=1 3x"},"classes":[]},{"id":84622,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/13-de-abril-queriam-transformar-o-hino-nacional-em-grito-de-guerra-mas-ele-insiste-em-ser-canto-de-paz\/","url_meta":{"origin":50155,"position":1},"title":"13 de abril: Queriam transformar o Hino Nacional em grito de guerra, mas ele insiste em ser canto de paz","author":"da Reda\u00e7\u00e3o","date":"13 de abril de 2026","format":false,"excerpt":"CRISTIANO GOLDSCHMIDT No calend\u00e1rio das datas c\u00edvicas, o 13 de abril passa quase em sil\u00eancio, como um acorde sustentado que poucos escutam at\u00e9 o fim. 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