{"id":56525,"date":"2017-10-20T09:25:45","date_gmt":"2017-10-20T12:25:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=56525"},"modified":"2017-10-20T09:25:45","modified_gmt":"2017-10-20T12:25:45","slug":"ha-lugar-para-as-abelhas-no-trem-do-agro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/ha-lugar-para-as-abelhas-no-trem-do-agro\/","title":{"rendered":"H\u00e1 lugar para as abelhas no trem do Agro?"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\">Geraldo Hasse<\/span><br \/>\nNa edi\u00e7\u00e3o de outubro de 2017 da revista Globo Rural, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, que costuma dedicar seus artigos a temas institucionais ligados ao agroneg\u00f3cio, escreve sobre um assunto aparentemente \u201clight\u201d: o papel decisivo das abelhas na poliniza\u00e7\u00e3o de culturas agr\u00edcolas.<br \/>\nFalar de abelhas, mel e poliniza\u00e7\u00e3o pode parecer falta de assunto de um l\u00edder rural habituado a raciocinar sobre a crescente presen\u00e7a da agricultura brasileira no contexto econ\u00f4mico mundial, mas a verdade \u00e9 que, ao se aproximar dos 80 anos, Roberto Rodrigues reza tanto pela cartilha do ambientalismo quanto pelos manuais da economia. Em seu artigo, cita at\u00e9 a c\u00e9lebre frase atribu\u00edda ao f\u00edsico Albert Einstein, falecido em 1955: \u201cSe as abelhas desaparecessem da face da Terra, a esp\u00e9cie humana teria somente mais quatro anos de vida\u201d.<br \/>\nAt\u00e9 hoje ningu\u00e9m sabe se o g\u00eanio fez a conta certa \u2013 apenas quatro anos?! \u2013, mas todo mundo compreendeu o alcance da frase sinistra: Einstein estava simplesmente chamando a aten\u00e7\u00e3o para a articula\u00e7\u00e3o rec\u00edproca entre os seres vivos. Sessenta anos depois, alguns luminares da ra\u00e7a humana come\u00e7am a entender o papel das abelhas como guardi\u00e3s da biodiversidade.<br \/>\n\u201cNo Brasil, cerca de 250 esp\u00e9cies de animais (das quais 87% s\u00e3o abelhas) polinizam 75 culturas agr\u00edcolas\u201d, escreveu Rodrigues, que tem conhecimento t\u00e9cnico sobre o assunto, pois \u00e9 agricultor, foi professor de agronomia e se destacou internacionalmente como ativista do cooperativismo na agricultura &#8212; hoje \u00e9 consultor da Funda\u00e7\u00e3o Getulio Vargas e da ONU.<br \/>\nSomente a europ\u00e9ia Apis mellifera, a \u201cabelha profissional\u201d, poliniza 28 culturas agr\u00edcolas, especialmente frut\u00edferas. S\u00e3o tamb\u00e9m importantes nessa tarefa as abelhas nativas sem ferr\u00e3o como a irapu\u00e1 e a jata\u00ed, domesticadas por apicultores amadores e profissionais. Quanto a outros insetos, pouco se sabe al\u00e9m do fato de que, sem a mamangava, a flor do maracuj\u00e1 n\u00e3o prosperava&#8230;<br \/>\nA contribui\u00e7\u00e3o anual da poliniza\u00e7\u00e3o ao incremento das culturas comerciais brasileiras \u00e9 estimada em US$ 12 bilh\u00f5es pelo professor Adilson Paschoal, da Escola Superior de Agricultura de Piracicaba. Isso representa cerca de 12% do valor da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola nacional, mas a quest\u00e3 vai al\u00e9m do aspecto comercial-safr\u00edstico.<br \/>\nNa realidade, mesmo luminares da agronomia esquecem o valor da poliniza\u00e7\u00e3o na manuten\u00e7\u00e3o da biodiversidade. Avalie-se a sustentabilidade da flora brasileira, espalhada por seis grandes biomas \u2013 Amaz\u00f4nia, Cerrado, Semi\u00e1rido, Mata Atl\u00e2ntica, Pantanal e Pampa &#8212; que se subdividem em incont\u00e1veis ecossistemas. Em todos eles as abelhas est\u00e3o presentes, produzindo uma enorme variedade de m\u00e9is crescentemente exportados. Isso sem falar de outros produtos como a pr\u00f3polis, usada em cosm\u00e9ticos e medicamentos.<br \/>\nAtualmente, o Brasil produz 40 mil toneladas de mel por ano e exporta mais da metade disso. Nos bastidores da apicultura, comenta-se que o Brasil poderia exportar 200 mil toneladas por ano, se produzisse tal volume. Por que n\u00e3o produz mais?<br \/>\nA\u00ed est\u00e1 o X da quest\u00e3o: a maior barreira \u00e0 expans\u00e3o da apicultura reside na agricultura moderna, que precisa da poliniza\u00e7\u00e3o mas se tornou dependente do uso intensivo de produtos qu\u00edmicos t\u00f3xicos para animais e plantas.<br \/>\nAinda n\u00e3o se sabe como agricultores e apicultores v\u00e3o sair dessa sinuca. Como os desmatamentos est\u00e3o mais ou menos controlados, o maior obst\u00e1culo \u00e0 expans\u00e3o da apicultura \u00e9 o uso intensivo de agrot\u00f3xicos nas lavouras comerciais.<br \/>\nH\u00e1 dez anos diversos pesquisadores ao redor do mundo estudam as causas da mortandade de abelhas mel\u00edferas, fen\u00f4meno ocorrido pela primeira vez nos Estados Unidos em 2006. Alguns estudos afirmam que o fen\u00f4meno conhecido como \u201cs\u00edndrome do colapso das colm\u00e9ias\u201d tem mais de uma causa, mas n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que uma delas, provavelmente a principal, \u00e9 uma nova classe de inseticidas &#8212; os neonicotin\u00f3ides &#8211;, que interferem no sistema nervoso central das abelhas, fazendo com que, desorientadas em sua busca de n\u00e9ctar e p\u00f3len, elas n\u00e3o voltem \u00e0s colm\u00e9ias, morrendo no campo.<br \/>\nEm consequ\u00eancia dessa s\u00edndrome que se confunde com outras causas como a morte por doen\u00e7as, fome, frio ou at\u00e9 por velhice (a abelha mel\u00edfera dura 45 dias), as colm\u00e9ias sofrem um colapso populacional de at\u00e9 50% que faz cair significativamente a produ\u00e7\u00e3o de mel.<br \/>\nL\u00edder na produ\u00e7\u00e3o nacional, a apicultura do Rio Grande do Sul, que j\u00e1 passa por dificuldades naturais causadas pelo excesso de chuvas e de frio no inverno, est\u00e1 sendo obrigada a se defender dos venenos aplicados em lavouras de ver\u00e3o, sobretudo soja. A salva\u00e7\u00e3o est\u00e1 na diversidade vegetal ainda existente no territ\u00f3rio ga\u00facho.<br \/>\nSegundo o artigo de Roberto Rodrigues, a Embrapa est\u00e1 se engajando num projeto de expans\u00e3o da apicultura, tendo destacado para tanto o veterano agr\u00f4nomo D\u00e9cio Gazzoni, baseado em Londrina, onde fica o Centro Nacional de Pesquisa de Soja. Nada mais natural j\u00e1 que a soja, com 34 milh\u00f5es de hectares\/ano, \u00e9 de longe a maior lavoura nacional e a maior usu\u00e1ria de venenos agr\u00edcolas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Geraldo Hasse Na edi\u00e7\u00e3o de outubro de 2017 da revista Globo Rural, o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, que costuma dedicar seus artigos a temas institucionais ligados ao agroneg\u00f3cio, escreve sobre um assunto aparentemente \u201clight\u201d: o papel decisivo das abelhas na poliniza\u00e7\u00e3o de culturas agr\u00edcolas. 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