{"id":57489,"date":"2017-11-21T09:34:07","date_gmt":"2017-11-21T12:34:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=57489"},"modified":"2017-11-21T09:34:07","modified_gmt":"2017-11-21T12:34:07","slug":"os-golpes-se-sucedem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/os-golpes-se-sucedem\/","title":{"rendered":"Os golpes se sucedem"},"content":{"rendered":"<p><em>Em plena era do GPS, a reforma trabalhista sugere multiplicar os \u201cchapas\u201d\u00a0<\/em><br \/>\nTodo mundo conhece os \u201cchapas\u201d, aqueles trabalhadores avulsos que fica(va)m na entrada das cidades \u00e0 espera de caminh\u00f5es carregados cujos condutores precisam de ajuda bra\u00e7al e conhecimento de ruas de dif\u00edcil acesso para fretistas temerosos de se perder em caminhos nunca dantes percorridos.<br \/>\nAinda se veem \u201cchapas\u201d sentados \u00e0 beira das estradas nas entradas das cidades mas a situa\u00e7\u00e3o mudou de tal forma que, teoricamente, muitos desses trabalhadores avulsos podem ser convocados pelo telefone celular (para ajudar no descarregamento) enquanto o motorista chega facilmente ao seu destino usando o GPS.<br \/>\nQuando tem sorte, o \u201cchapa\u201d trabalha por algumas horas e volta para casa com uma f\u00e9ria semelhante \u00e0 dos antigos estivadores contratados para executar tarefas avulsas em cais de portos alegres ou n\u00e3o. Com a diferen\u00e7a de que os estivadores s\u00e3o historicamente organizados em sindicatos, enquanto os \u201cchapas\u201d fazem parte do submundo dos trabalhos quase sem\u00a0\u00a0amparo legal al\u00e9m dos direitos constitucionais quase sempre ignorados pelos empregadores.<br \/>\nAgora, com a flexibiliza\u00e7\u00e3o da legisla\u00e7\u00e3o trabalhista, chegamos ao maior paradoxo da modernidade: enquanto os detentores dos meios de produ\u00e7\u00e3o (e de transporte, no caso exemplar dos motoristas que ainda precisam dos \u201cchapas\u201d) desfrutam de crescentes facilidades para realizar seus objetivos, os trabalhadores sem recursos e sem qualifica\u00e7\u00e3o ficam pendentes na beira do abismo que leva \u00e0 servid\u00e3o mais abjeta.<br \/>\nEis o esp\u00edrito que rege a reforma trabalhista: o governo, no af\u00e3 de servir ao mercado \u2013 ou, seja, aos manobristas do dinheiro, que constituem uma minoria \u2013, abre m\u00e3o do exerc\u00edcio do seu dever constitucional de servir \u00e0 maioria.<br \/>\nQue moderniza\u00e7\u00e3o \u00e9 essa em que a maioria dos trabalhadores \u00e9 obrigada a submeter-se a uma flexibiliza\u00e7\u00e3o degradante enquanto os ditos empreendedores s\u00e3o estimulados a realizar suas metas, ainda que passando por cima de normas ambientais, civis e at\u00e9 de bom senso?<br \/>\nEstes ganhar\u00e3o mais dinheiro que gastar\u00e3o nos Estados Unidos e Europa, enquanto os trabalhadores, com a redu\u00e7\u00e3o dos seus rendimentos, dever\u00e3o se manter no consumo m\u00ednimo, o da sobreviv\u00eancia pura e simples.<br \/>\nA constru\u00e7\u00e3o da prosperidade das elites empresariais \u00e0s custas das bases oper\u00e1rias \u00e9 um retorno \u00e0 era escravagista.\u00a0\u00a0N\u00e3o ser\u00e1 assim que se construir\u00e1 um pa\u00eds mais justo e igualit\u00e1rio, como est\u00e1 escrito na Constitui\u00e7\u00e3o.<br \/>\n<span class=\"intertit\">\u00a0LEMBRETE DE OCASI\u00c3O<\/span><br \/>\n<span class=\"olho\">\u201cQue dizer ainda do entusiasmo das empresas p\u00f3s-industriais pelo telefone celular que permite suprimir, para os empregados, a distin\u00e7\u00e3o entre vida privada e tempo de trabalho?\u201d<\/span><br \/>\n<em>Paul Virilio no livro \u201cA Bomba Inform\u00e1tica\u201d, de 1999<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em plena era do GPS, a reforma trabalhista sugere multiplicar os \u201cchapas\u201d\u00a0 Todo mundo conhece os \u201cchapas\u201d, aqueles trabalhadores avulsos que fica(va)m na entrada das cidades \u00e0 espera de caminh\u00f5es carregados cujos condutores precisam de ajuda bra\u00e7al e conhecimento de ruas de dif\u00edcil acesso para fretistas temerosos de se perder em caminhos nunca dantes percorridos. 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