{"id":60755,"date":"2018-03-24T23:20:44","date_gmt":"2018-03-25T02:20:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=60755"},"modified":"2018-03-24T23:20:44","modified_gmt":"2018-03-25T02:20:44","slug":"o-que-se-entende-por-financeirizacao-da-natureza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/o-que-se-entende-por-financeirizacao-da-natureza\/","title":{"rendered":"O que se entende por \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o da natureza\u201d ?"},"content":{"rendered":"<p><span class=\"assina\"> Amyra El Khalili*<\/span><br \/>\n\u201cFinanceiriza\u00e7\u00e3o da natureza\u201d \u00e9 uma express\u00e3o nova que significa tornar financeiro tudo aquilo que deveria ser apenas econ\u00f4mico e socioambiental . Nem tudo o que \u00e9 econ\u00f4mico \u00e9 financeiro. Lamentavelmente, por\u00e9m, tudo o que \u00e9 financeiro \u00e9 econ\u00f4mico.<br \/>\nQuando defendemos a import\u00e2ncia da \u00e1gua em quantidade e qualidade, estamos tratando dos direitos fundamentais e do direito socioecon\u00f4mico. Sem \u00e1gua n\u00e3o h\u00e1 vida; da\u00ed seu reconhecimento como direito de viver, garantido, inclusive, pela Constitui\u00e7\u00e3o. Sem \u00e1gua tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel nenhuma atividade econ\u00f4mica. Experimente ficar uma semana sem \u00e1gua. Haver\u00e1 convuls\u00e3o social. Podemos ficar dias sem comer, mas nosso organismo n\u00e3o resistir\u00e1 se passarmos dias sem \u00e1gua. Nenhuma cidade prospera sem \u00e1gua. E se ficarmos sem ar? O que acontece?<br \/>\nSabemos o que significa ficar sem terra, sem casa, sem um lugar digno para viver. Quem paga aluguel j\u00e1 experimentou\u00a0 o gosto amargo da \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d.\u00a0 Quem\u00a0 paga aluguel mensalmente est\u00e1 pagando para morar por um im\u00f3vel que n\u00e3o lhe pertence, assim vivendo ref\u00e9m da eterna d\u00edvida imobili\u00e1ria. Igualmente, os que pagam condom\u00ednios, mesmo que sejam propriet\u00e1rios do im\u00f3vel, pagam pelos servi\u00e7os e custos de manuten\u00e7\u00e3o de\u00a0 um im\u00f3vel coletivo, de modo que o condom\u00ednio n\u00e3o deixa de ser uma forma indireta de aluguel. Outros pagam, al\u00e9m do aluguel, o condom\u00ednio e o IPTU (Imposto Predial e Territorial\u00a0 Urbano). Quando \u00e9 que n\u00e3o temos que pagar? Muitos recorrem a empr\u00e9stimos e pagam juros sobre juros, considerando que no Brasil se aplica o juro composto e n\u00e3o o juro simples, como ocorre nos pa\u00edses do norte. No juro composto, soma-se a d\u00edvida principal ao juro; no pr\u00f3ximo vencimento, este juro se soma ao juro da conta anterior. Vira uma bola de neve, que vai crescendo caso n\u00e3o se consiga pagar. Esta \u00e9 a contabilidade a que chamamos de \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d.<br \/>\nA financeiriza\u00e7\u00e3o provoca o endividamento e \u00e9 bem diferente de financiamento. O financiamento opera com taxas de juros compat\u00edveis com a capacidade de pagamento de quem necessita do empr\u00e9stimo. Permite que o empr\u00e9stimo seja pago a longo prazo e com taxas baixas ou adotando juros simples, como ocorre, por exemplo, nos pa\u00edses do norte, que praticamente subsidiam os juros aos agricultores. No subs\u00eddio, o Estado empresta dinheiro sem cobrar juros e\/ou isenta de tributos ou os reduz.<br \/>\nA \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d, apesar de legal, tamb\u00e9m poderia ser qualificada como pr\u00e1tica de \u201cagiotagem institucionalizada\u201d. A agiotagem \u00e9 crime contra a economia popular, repudiada por nossa Constitui\u00e7\u00e3o, e deveria ser combatida em todos os rinc\u00f5es do planeta; no entanto, essa velha pr\u00e1tica, condenada desde sempre, historicamente se repete de diversas formas, com novas roupagens,\u00a0 portanto cada vez mais normatizada e legalizada. Para dar legitimidade \u00e0 agiotagem, a pr\u00e1tica de usurpa\u00e7\u00e3o, que constitui um \u201cpecado capital\u201d pelo catolicismo, juda\u00edsmo e islamismo, pol\u00edticos corruptos e corpora\u00e7\u00f5es, entre outros, t\u00eam pressionado a sociedade para aceitar a ado\u00e7\u00e3o de determinados instrumentos econ\u00f4micos que viabilizam esse\u00a0modus operandi\u00a0atrav\u00e9s de leis que promovem a \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d para os pobres\u00a0 (endividamento com juros caros, como, por exemplo, o cart\u00e3o de cr\u00e9dito) e o financiamento para os ricos (empr\u00e9stimos com juros\u00a0 baixos, ou mesmo sem juros). Nessa conta, poder\u00edamos incluir tamb\u00e9m os tributos, que s\u00e3o sempre mais altos para os pobres e mais baixos para os ricos.<br \/>\nNa natureza, a pr\u00e1tica da \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o\u201d vincula os direitos fundamentais do ambiente saud\u00e1vel e o direito \u00e0 vida ao criar mecanismos de pagamento por tudo aquilo que a natureza produz gratuitamente. A natureza nos fornece \u00e1gua, ar, terra, min\u00e9rios, biodiversidade (florestas, fauna e flora) e n\u00e3o cobra por esse benef\u00edcio providencial. No entanto, para que possamos ter \u00e1gua em quantidade e qualidade, ar puro para respirar, terra boa para plantar, plantas medicinais para curar, rios e mares para nos banhar e nos abastecer, com a \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o da natureza\u201d teremos que pagar para ter o que sempre tivemos por direito inalien\u00e1vel.<br \/>\nOs que prop\u00f5em a \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o da natureza\u201d argumentam que, sem pagar, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel manter as florestas em p\u00e9, ter rios limpos, ter a cidade limpa de res\u00edduos s\u00f3lidos, possuir terra sem agrot\u00f3xico e qu\u00edmicos, ter o ar respir\u00e1vel sem reduzir gases t\u00f3xicos, enfim, afirmam n\u00e3o ser poss\u00edvel preservar e conservar o meio ambiente sem que os bens comuns (\u00e1gua, min\u00e9rio, solo, ar, biodiversidade) se tornem produtos financeiros.<br \/>\nAlegam que est\u00e3o financiando a transi\u00e7\u00e3o de uma economia marrom (degradadora) para a \u201ceconomia verde\u201d. Dizem que n\u00e3o existe alternativa, sen\u00e3o a de tornar financeiro o que \u00e9 eminentemente econ\u00f4mico. Confundem conceitos e posi\u00e7\u00f5es para que a popula\u00e7\u00e3o, sensibilizada com as justas causas socioambientais e desavisada dos riscos,\u00a0 aceite o pacote financeiro imposto com a legaliza\u00e7\u00e3o da \u201cagiotagem\u201d. Juntamente com a \u201cagiotagem institucionalizada\u201d, promovem a legaliza\u00e7\u00e3o de outras pr\u00e1ticas de crimes, como a biopirataria, o roubo de terras de povos ind\u00edgenas e tradicionais, a expuls\u00e3o de campesinos, o controle da \u00e1gua e do ar por oligop\u00f3lios, a produ\u00e7\u00e3o de alimentos industrializados, institucionalizando a \u201cdepend\u00eancia da sobreviv\u00eancia\u201d da esp\u00e9cie humana e demais seres vivos.<br \/>\nAcontece que alternativas sempre existiram. S\u00e3o as propostas que est\u00e3o justamente na contram\u00e3o da infame \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o da natureza\u201d. Os povos ind\u00edgenas\u00a0 tradicionais,\u00a0 os campesinos e as popula\u00e7\u00f5es carentes do sert\u00e3o, que sabem lidar com o ambiente natural e sua diversidade, t\u00eam muito a nos ensinar, sem\u00a0 nunca terem precisado\u00a0 de agentes financeiros, especialistas ou consultores ambientais para lhes vender pacotes de produtos e servi\u00e7os. Ali\u00e1s, os banqueiros jamais tiveram interesse em suas poss\u00edveis contas!<br \/>\nFelizmente, cresce o movimento internacional contra a \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o da natureza\u201d, uma maldi\u00e7\u00e3o que, dia ap\u00f3s dia, cria novas formas complexas e sofisticadas para driblar as normas, os direitos constitucionais adquiridos e os acordos internacionais para perpetuar a doutrina do \u201cneocolonialismo\u201d, da submiss\u00e3o e escravid\u00e3o com guerras, trag\u00e9dias e mis\u00e9rias.<br \/>\nSe h\u00e1 esperan\u00e7a, esta reside no fato de ficarmos atentos a essa manobra e seguirmos denunciando para que as presentes e futuras gera\u00e7\u00f5es n\u00e3o sejam afetadas por esta\u00a0 desgra\u00e7a como somos n\u00f3s e o foram nossos antepassados.<br \/>\nQue o povo n\u00e3o se engane com conceitos vazios e falsas solu\u00e7\u00f5es: os refugiados e violentados nos campos e nas florestas por esta guerra fat\u00eddica\u00a0a\u00a0que assistimos diariamente na m\u00eddia s\u00e3o v\u00edtimas da \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o da natureza\u201d em seus territ\u00f3rios.<br \/>\nSabemos que errar \u00e9 humano, mas persistir neste erro \u00e9 ser c\u00famplice de genoc\u00eddio!<br \/>\nRefer\u00eancias:<br \/>\nEl Khalili, Amyra. Desmistificando REDD e Servi\u00e7os Ambientais por Michael F. Schmidlehner (quatro v\u00eddeo-apresenta\u00e7\u00f5es dispon\u00edveis online)\u00a0&lt;<a href=\"http:\/\/port.pravda.ru\/cplp\/ brasil\/07-03-2016\/40518- desmistificando_redd-0\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/port.pravda.ru\/cplp\/ brasil\/07-03-2016\/40518- desmistificando_redd-0\/<\/a>&gt; . Dispon\u00edvel 07\/03\/2016. Acesso em 07\/03\/2016.\u00a0 Assista as v\u00eddeo-apresenta\u00e7\u00f5es aqui:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/ playlist?list= PLDhITDL8VFLpJyO1Bi0WpioxFpuvJ DQaK\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">http:\/\/www.youtube.com\/ playlist?list= PLDhITDL8VFLpJyO1Bi0WpioxFpuvJ DQaK<\/a><br \/>\nEL KHALILI, Amyra. O que se entende por \u201cfinanceiriza\u00e7\u00e3o da natureza\u201d? F\u00f3rum de Direito Urbano e Ambiental \u2013 FDUA, Belo Horizonte, ano 15, n. 87, p. 85-86, maio\/jun. 2016.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Amyra El Khalili* \u201cFinanceiriza\u00e7\u00e3o da natureza\u201d \u00e9 uma express\u00e3o nova que significa tornar financeiro tudo aquilo que deveria ser apenas econ\u00f4mico e socioambiental . Nem tudo o que \u00e9 econ\u00f4mico \u00e9 financeiro. Lamentavelmente, por\u00e9m, tudo o que \u00e9 financeiro \u00e9 econ\u00f4mico. 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Abril, no sul do Par\u00e1, \u00e9 sempre um m\u00eas que arde.\u2026","rel":"","context":"Em &quot;An\u00e1lise&amp;Opini\u00e3o&quot;","block_context":{"text":"An\u00e1lise&amp;Opini\u00e3o","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/category\/analiseopiniao\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/mc006.jpg?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200,"srcset":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/mc006.jpg?resize=350%2C200&ssl=1 1x, https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/mc006.jpg?resize=525%2C300&ssl=1 1.5x, https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/mc006.jpg?resize=700%2C400&ssl=1 2x, https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/mc006.jpg?resize=1050%2C600&ssl=1 3x, https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/mc006.jpg?resize=1400%2C800&ssl=1 4x"},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbKo0s-fNV","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60755","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=60755"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/60755\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=60755"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=60755"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=60755"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}