{"id":74725,"date":"2019-06-06T13:42:26","date_gmt":"2019-06-06T16:42:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=74725"},"modified":"2019-06-06T13:42:26","modified_gmt":"2019-06-06T16:42:26","slug":"cais-maua-a-maior-tapera-do-rio-grande","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/cais-maua-a-maior-tapera-do-rio-grande\/","title":{"rendered":"Cais Mau\u00e1, a maior tapera do Rio Grande"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400\">A \u00e2nsia de transformar o cais Mau\u00e1 num meganeg\u00f3cio imobili\u00e1rio levou muita gente a acreditar que a atividade portu\u00e1ria havia sido extinta em Porto Alegre. Ledo engodo. Contribuiu para essa cren\u00e7a o ent\u00e3o governador Ivo Sartori ao incluir a discreta Superintend\u00eancia de Portos e Hidrovias (SPH) no rol de nove institui\u00e7\u00f5es estaduais extintas em 2017, sob o pretexto de enxugar a m\u00e1quina p\u00fablica. Extinguiu em parte, enxugou um pouco.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">No entanto, o mais antigo cais da capital, constru\u00eddo em pedra no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, est\u00e1 inteiro em meio ao caos reinante desde\u00a0 a concess\u00e3o da \u00e1rea hist\u00f3rica a um grupo particular mutante. J\u00e1 com os telhados despencando, os armaz\u00e9ns centen\u00e1rios est\u00e3o vazios e sem manuten\u00e7\u00e3o, os guindastes inativos, mas o pr\u00e9dio de quatro andares na Avenida Mau\u00e1 segue abrigando os funcion\u00e1rios remanescentes da SPH, amparados por uma liminar judicial.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Mesmo semivazio, o edif\u00edcio marrom de quatro andares da Av. Mau\u00e1\u00a0\u00a0resiste como uma esp\u00e9cie de baluarte pronto para impedir que a cidade descarte o melhor de sua mem\u00f3ria portu\u00e1ria, armazenada n\u00e3o apenas nas pedras do cais e nos armaz\u00e9ns, mas na biblioteca do 1\u00ba andar, onde um guardi\u00e3o improvisado cuida de um patrim\u00f4nio hist\u00f3rico de valor inestim\u00e1vel. Desenhista naval admitido em 1980, Ademir Machado \u00e9 o nome do her\u00f3i solit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">De sua mesa junto \u00e0 janela, esse volunt\u00e1rio do cais avista os grandes cascos em tr\u00e2nsito no canal de navega\u00e7\u00e3o e torce para que cumpram suas rotas levando suas cargas sem percal\u00e7os. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 kafkiana. A manuten\u00e7\u00e3o prec\u00e1ria da hidrovia gera riscos de acidentes cuja preven\u00e7\u00e3o cabe ainda ao pessoal da extinta SPH, alojado na Superintend\u00eancia do Porto de Rio Grande, mas na pr\u00e1tica trabalhando no pr\u00e9dio da Avenida Mau\u00e1.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Limpa e bem cuidada, a biblioteca do Cais Mau\u00e1 \u00e9 uma das mais completas do Brasil em assuntos de navega\u00e7\u00e3o e transporte hidrovi\u00e1rio. \u00c9 frequentada sobretudo por estudantes e t\u00e9cnicos, mas tamb\u00e9m pode atender o p\u00fablico leigo eventualmente interessado na hist\u00f3ria das hidrovias. Possui tantos documentos, estudos e projetos que poderia se tornar o n\u00facleo central de um museu do porto, assunto que est\u00e1 longe de figurar na ordem do dia dos gestores p\u00fablicos ancorados na capital.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\u00a0Com o lament\u00e1vel encalhe do projeto de revitaliza\u00e7\u00e3o do Cais Mau\u00e1, a ex-SPH est\u00e1 na imin\u00eancia de retomar a \u00e1rea concedida \u00e0 iniciativa privada, que sequer pagou os alugu\u00e9is da \u00e1rea em uso ao longo dos anos do contrato. Um dos piv\u00f4s do imbr\u00f3glio da concess\u00e3o, a SPH \u00e9 que deveria receber o dinheiro do aluguel do cais, segundo um acordo firmado entre os entes p\u00fablicos respons\u00e1veis, anos atr\u00e1s. Extinta por um lado, a pobre autarquia portohidrovi\u00e1ria levou calote do outro. Agora, no entanto, sua resist\u00eancia em abandonar o pr\u00e9dio come\u00e7a a fazer sentido.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Sim, enquanto o Cais Mau\u00e1 vazio corre o risco de transformar-se na maior tapera do Rio Grande, o porto da capital opera alegremente em outros cais sob a supervis\u00e3o do pessoal da ex-SPH. Por causa do Muro da Mau\u00e1, a popula\u00e7\u00e3o n\u00e3o v\u00ea que os navios seguem em atividade no Cais Marcilio Dias, no Cais Navegantes, no rio Gravata\u00ed, no terminal Santa Clara da Copesul no Jacu\u00ed em Triunfo e, claro, em Pelotas e Rio Grande, a grande porta de entrada e sa\u00edda de cargas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Com seu quil\u00f4metro de cais \u00edntegro, o Mau\u00e1 poderia receber outras embarca\u00e7\u00f5es al\u00e9m dos catamar\u00e3s da Catsul, do barco de turismo Cisne Branco e das chatas de servi\u00e7o da SPH. Para acolher navios de carga, bastaria uma dragagem de aprofundamento do calado. Nesse caso, seria preciso resolver o n\u00f3 vi\u00e1rio que seria criado pelo congestionamento de caminh\u00f5es na Mau\u00e1, se bem que esse problema foi completamente negligenciado no caso do projeto de revitaliza\u00e7\u00e3o. E se o Puerto Mau\u00e1 estivesse operando pra valer? A m\u00eddia estaria condenando os trombos vi\u00e1rios?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">O Cais Mau\u00e1 \u00e9 um dos maiores emblemas da hist\u00f3ria de Porto Alegre e do Estado. Um peda\u00e7o da alma da cidade, como o Mercado P\u00fablico, o Gas\u00f4metro, a Rua da Praia, o Theatro S\u00e3o Pedro, a Santa Casa. Esse nome, Cais Mau\u00e1, tem apenas um s\u00e9culo e homenageia o ga\u00facho Irineu Evangelista de Souza, o Bar\u00e3o de Mau\u00e1 (1813-1889), fundador da Estrada de Ferro Central do Brasil (1854).<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Como aconteceu em muitas cidades ribeirinhas, foi na beira do Gua\u00edba que a capital come\u00e7ou no s\u00e9culo XVIII, Desde as origens a cidade foi dominada pela horizontalidade. A \u00e1gua sempre foi o denominador comum. Gua\u00edba, em tupi, \u00e9 sin\u00f4nimo de muita \u00e1gua.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Quem chega de avi\u00e3o ou se aproxima pela BR-290 ou pela BR-116 n\u00e3o consegue ficar indiferente ao mundar\u00e9u de \u00e1gua que circunda a capital ga\u00facha. De qualquer foto ou v\u00eddeo \u00e9 imposs\u00edvel excluir a imensid\u00e3o l\u00edquida em contraste com o aglomerado de constru\u00e7\u00f5es que abrigam resid\u00eancias, escrit\u00f3rios e reparti\u00e7\u00f5es p\u00fablicas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">A raz\u00e3o mais forte para tanta edifica\u00e7\u00e3o \u00e9 que o porto era o lugar mais rico da cidade. Por ali passavam os melhores produtos, as grandes cargas. N\u00e3o foi por acaso que na curt\u00edssima Avenida Sep\u00falveda, com apenas um quarteir\u00e3o entre o p\u00f3rtico do porto e a Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega, foram constru\u00eddos frente a frente dois pr\u00e9dios monumentais.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">De um lado, a Alf\u00e2ndega federal, do outro, a Secretaria da Fazenda do Estado &#8212; duas fortalezas fiscais \u00e0 espreita da riqueza que passava por ali e, a partir dos anos 1950, passou a circular, principalmente, nas rodovias, hoje respons\u00e1veis por 80% do transporte de cargas do RS, paradoxalmente o estado mais bem provido de vias naveg\u00e1veis, depois do Amazonas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Enquanto durou o vai-n\u00e3o vai do empreendimento tur\u00edstico-imobili\u00e1rio enfim encalhado, a capital confirmou sua voca\u00e7\u00e3o portu\u00e1ria ao construir com uma frota m\u00ednima de tr\u00eas catamar\u00e3s uma ponte hidrovi\u00e1ria com Gua\u00edba, o maior sucesso log\u00edstico da administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica ga\u00facha nos \u00faltimos anos. Al\u00e9m disso, de Gua\u00edba para Rio Grande, a Celulose Riograndense intensificou o uso da Laguna dos Patos como canal de transporte de celulose; no retorno, suas barca\u00e7as voltam carregadas de toras de madeira embarcadas no porto de Pelotas, que retomou as atividades que fazem parte de sua hist\u00f3ria bicenten\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">Embora mudem os locais de atracagem dos navios e movimenta\u00e7\u00e3o de cargas, a navega\u00e7\u00e3o continua viva no Rio Grande do Sul e mant\u00e9m Porto Alegre nas suas rotas.\u00a0A quem duvidar dessa informa\u00e7\u00e3o, recomenda-se uma visita ao edif\u00edcio da SPH na Avenida Mau\u00e1, 1050.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A \u00e2nsia de transformar o cais Mau\u00e1 num meganeg\u00f3cio imobili\u00e1rio levou muita gente a acreditar que a atividade portu\u00e1ria havia sido extinta em Porto Alegre. Ledo engodo. 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