{"id":78031,"date":"2019-10-04T00:17:02","date_gmt":"2019-10-04T03:17:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=78031"},"modified":"2019-10-04T00:17:02","modified_gmt":"2019-10-04T03:17:02","slug":"carvao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/carvao\/","title":{"rendered":"Carv\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Filho e neto de ferrovi\u00e1rios, vivi minha inf\u00e2ncia \u00e0 beira dos trilhos, no tempo em que os trens eram puxados por locomotivas a carv\u00e3o.<br \/>\nAntes eram movidas a lenha e cheguei a ver: tinha um vag\u00e3o s\u00f3 para levar a carga de lenha, duas vezes maior do que a parte da fornalha e da caldeira, o motor da locomotiva.<br \/>\nDois homens se revezavam jogando constantemente achas na fornalha. Imensas pilhas de lenha ocupavam quase todo o recinto da esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria.<br \/>\nO carv\u00e3o foi um salto tecnol\u00f3gico: sumiram as pilhas de lenha, aumentou a velocidade, a locomotiva ficou mais potente, puxava o dobro de vag\u00f5es, o tempo das viagens encurtou, um homem com uma p\u00e1 abastecia a fornalha.<br \/>\nCerta \u00e9poca fomos morar num local, junto a um enorme reservat\u00f3rio onde as locomotiva \u201cbebiam \u00e1gua\u201d para encher a caldeira e, nos trens de passageiros, abastecer as torneiras e banheiros.<br \/>\nDepois, mudamos para perto da carvoeira, onde as locomotivas manobravam para se abastecer de carv\u00e3o. Um cone, como um funil, sobre os trilhos era carregado de carv\u00e3o por um guindaste.<br \/>\nA locomotiva estacionava embaixo e recebia sua carga, num \u201ctender\u201d, tr\u00eas vezes menor do que no tempo da lenha.<br \/>\nQuando adolescente, aquela locomotiva que entrava em curva na esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria de Santana do Livramento \u00e0s sete da noite, soltando fa\u00edscas e vapores, puxando o trem de passageiros que sa\u00edra de Porto Alegre 24 horas antes&#8230; era a materializa\u00e7\u00e3o do progresso, do mundo civilizado de que carec\u00edamos naquela pasmaceira fronteiri\u00e7a.<br \/>\nFa\u00e7o essas reminisc\u00eancias para n\u00e3o deixar d\u00favidas de que sou suspeito nessa discuss\u00e3o t\u00e3o acirrada que se trava em torno do projeto de uma nova mina de carv\u00e3o na regi\u00e3o do Jacu\u00ed. Mas n\u00e3o posso deixar de entrar nela.<br \/>\nN\u00e3o consigo ver o carv\u00e3o como um vil\u00e3o, algo a ser criminalizado, banido. Vejo uma insensatez nesse radicalismo.<br \/>\nO carv\u00e3o \u00e9 um mineral complexo, resultado de 260 milh\u00f5es de anos de transforma\u00e7\u00f5es na crosta terrestre. Queima, produz calor, gera energia.<br \/>\nO professor Rualdo Menegat diz que o carv\u00e3o \u00e9 um \u201clix\u00e3o qu\u00edmico\u201d, tal a quantidade de subst\u00e2ncias e metais pesados que cont\u00e9m.<br \/>\nPesquisas futuras podem revelar que o carv\u00e3o \u00e9 um \u201cmanancial qu\u00edmico\u201d tal a quantidade de subst\u00e2ncias e metais que ele cont\u00e9m.<br \/>\nN\u00e3o desconhe\u00e7o os riscos e o impacto da queima e da minera\u00e7\u00e3o do carv\u00e3o, nem a gravidade e a urg\u00eancia da quest\u00e3o clim\u00e1tica.<br \/>\nMas n\u00e3o consigo achar sensato abrir m\u00e3o do carv\u00e3o que temos. Primeiro que na conjuntura atual \u00e9 uma fonte de energia inevit\u00e1vel \u2013 no setor el\u00e9trico, n\u00e3o \u00a0h\u00e1 ningu\u00e9m que descarte o carv\u00e3o da matriz energ\u00e9tica.<br \/>\nUma base t\u00e9rmica \u00e9 imprescind\u00edvel, \u00e9 o que dizem todos, inclusive hist\u00f3ricos defensores da energia renov\u00e1vel.<br \/>\nSegundo: negar definitivamente o carv\u00e3o, \u00e9 abrir m\u00e3o de melhorar o conhecimento sobre ele.<br \/>\nJ\u00e1 se sabe que \u00e9 poss\u00edvel at\u00e9 extrair g\u00e1s do carv\u00e3o subterr\u00e2neo sem nem tir\u00e1-lo de l\u00e1.<br \/>\nJ\u00e1 tivemos pesquisas muito avan\u00e7adas sobre uso mais sustent\u00e1vel do carv\u00e3o, que deram para tr\u00e1s, exatamente pela falta de vis\u00e3o, pelo preconceito. Eminentes pesquisadores tiveram seus trabalhos de muitos anos, truncados abruptamente.<br \/>\nQuestionar uma nova mina, exigir avalia\u00e7\u00e3o de todos os riscos e as mitiga\u00e7\u00f5es e contrapartidas poss\u00edveis, antes de qualquer decis\u00e3o, vet\u00e1-la se for o caso, est\u00e1 certo.<br \/>\nMas extrapolar para uma condena\u00e7\u00e3o absoluta e total da maior riqueza mineral que o Estado tem, maior em potencial energ\u00e9tico que as reservas do pr\u00e9-sal, me parece no m\u00ednimo arrog\u00e2ncia.<br \/>\nLembra um amigo meu que fazia quest\u00e3o de pagar a conta sempre, mesmo quando seu cheque n\u00e3o tinha fundos.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Filho e neto de ferrovi\u00e1rios, vivi minha inf\u00e2ncia \u00e0 beira dos trilhos, no tempo em que os trens eram puxados por locomotivas a carv\u00e3o. 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