{"id":80498,"date":"2020-01-12T19:46:25","date_gmt":"2020-01-12T22:46:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/?p=80498"},"modified":"2020-01-12T19:46:25","modified_gmt":"2020-01-12T22:46:25","slug":"geraldo-hasse-pardo-moraes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/geraldo-hasse-pardo-moraes\/","title":{"rendered":"GERALDO HASSE \/ Pardo Moraes"},"content":{"rendered":"<p>Nada \u00e9 mais trivial do que a morte, mas s\u00f3 nos damos conta de sua virul\u00eancia quando ela passa a foice no nosso quintal. Ou no nosso jardim. E leva algu\u00e9m pr\u00f3ximo, querido ou muito respeitado \u2013 justo quando a gente menos espera.<br \/>\nHay que se registrar a perda s\u00fabita de Carlos Moraes, ga\u00facho de Lavras do Sul, falecido aos 78 anos no dia 14 de dezembro em S\u00e3o Paulo, onde viveu a maior parte da exist\u00eancia dividida entre o sacerd\u00f3cio, o jornalismo e a literatura.<br \/>\nNos semin\u00e1rios em que estudou (em Pelotas e Viam\u00e3o), era chamado de Nego Moraes por ter a pele morena dos \u201cpelos duros\u201d (descendentes de portugueses, espanh\u00f3is e a\u00e7orianos) do Pampa ga\u00facho. Ao ficar grisalho, na maturidade, gostava de tratar os contempor\u00e2neos e a si mesmo com os adjetivos &#8220;pardo velho&#8221;, cujo som fazia todos se lembrarem do substantivo &#8220;padre&#8221; que nunca se separou dele.<br \/>\nComo jornalista, trabalhou nas revistas Realidade, Psicologia Atual e \u00cdcaro, publica\u00e7\u00e3o de bordo da Varig \u2013 todas sediadas em S\u00e3o Paulo, onde ele chegou em 1971, liberado dos votos religiosos pelo Vaticano e absolvido pela Justi\u00e7a Militar de uma intriga armada contra ele em Bag\u00e9, onde trabalhou como padre.<br \/>\nNa Paulic\u00e9ia, achou que a grande cidade colocara sobre seus ombros \u201cum capote cinza\u201d, alus\u00e3o ao anonimato e \u00e0 solid\u00e3o que caracterizam a vida nas metr\u00f3poles.<br \/>\nTorcedor do Internacional de Porto Alegre, apaixonou-se pela torcida do Corinthians, na qual encontrou uma esp\u00e9cie de manifesta\u00e7\u00e3o da for\u00e7a divina.<br \/>\nPai de dois filhos (nascidos no Chile) e av\u00f4 de tr\u00eas netos (idem), Moraes casou-se duas vezes e escreveu outros livros como O LOBISANJO (Vozes, 1970), A VINGAN\u00c7A DO TIM\u00c3O (2002) e COMO SER FELIZ SEM DAR CERTO, mas seu livro mais marcante \u00e9 AGORA DEUS VAI TE PEGAR L\u00c1 FORA (Record, 268 p\u00e1ginas, 2004), no qual conta, de forma muito bem-humorada, como foi sua temporada na cadeia p\u00fablica de Bag\u00e9, onde esteve preso sob a acusa\u00e7\u00e3o de pregar a subvers\u00e3o pol\u00edtica mediante serm\u00f5es sobre a escassez de justi\u00e7a social no Brasil e no mundo.<br \/>\nAo contr\u00e1rio do que se possa pensar, AGORA DEUS VAI TE PEGAR L\u00c1 FORA \u00e9 uma narrativa sem amargura ou ressentimentos sobre um dos \u201ccausos\u201d mais bizarros da \u00e9poca da ditadura militar (1964\/85). Se fosse menos t\u00edmido e tivesse se mantido no seio da Igreja, o padre de Lavras teria talvez galgado os degraus da hierarquia cat\u00f3lica. N\u00e3o nos olvidemos do padre argentino eleito Papa.<br \/>\nComo pregador, Moraes foi t\u00e3o \u201csubversivo\u201d quanto o \u201ccardeal vermelho\u201d D. Helder C\u00e2mara (vigiado e atacado, nunca foi preso), mas entrou em cana por pregar a igualdade numa cidade com cinco quart\u00e9is com o agravante de ser a terra natal do general M\u00e9dici, que chefiou o governo no per\u00edodo 1969\/1973, os \u201canos de chumbo\u201d.<br \/>\nComo escritor, Moraes elevou-se um degrau acima do frei Leonardo Boff, \u201ccondenado\u201d pela Igreja Cat\u00f3lica a manter-se em \u201csil\u00eancio obsequioso\u201d. Mas Boff se manteve fiel \u00e0 teologia da liberta\u00e7\u00e3o, enquanto Moraes preferiu pairar num &#8220;corredor&#8221; metaf\u00f3rico entre a esquerda e a direita.<br \/>\nNos seus \u00faltimos anos de vida, ele se dedicou a escrever um ensaio sobre a vida de Jesus \u00a0\u2013 \u00a0desde a inf\u00e2ncia at\u00e9 sua transfigura\u00e7\u00e3o em filho de Deus por decis\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica chefiada pelo imperador romano Constantino no s\u00e9culo IV; e da\u00ed em diante, com Jesus sendo usado por charlat\u00e3es, picaretas e outros l\u00edderes, foi um deus-nos-acuda.<br \/>\nAinda n\u00e3o publicado (foi conclu\u00eddo alguns dias antes da morte do autor), EM BUSCA DO PRIMEIRO JESUS \u00e9 um livro indignado com a explora\u00e7\u00e3o das car\u00eancias humanas pelo mercantilismo religioso.<br \/>\nCrist\u00e3o at\u00e9 debaixo d\u2019\u00e1gua \u2013 apesar de dispensado dos votos religiosos, Moraes manteve seu trabalho como \u201cpastor de almas\u201d, comparecendo \u00e0 casa de amigos que reclamavam sua presen\u00e7a para diversas fun\u00e7\u00f5es religiosas \u00a0\u2013, ele chicoteia todas as igrejas em seu ensaio.<br \/>\nLeia abaixo um trecho extra\u00eddo do copi\u00e3o enviado por Moraes a amigos em meados de 2018:<br \/>\n<em><strong>\u201cPor que nos tempos modernos h\u00e1 tanta gente respeit\u00e1vel irritada com as religi\u00f5es?<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>J\u00e1 no s\u00e9culo 18, Philippe Pinel (1745-1826), o pai da moderna psiquiatria, parece que n\u00e3o estava brincando quando afirmou que s\u00f3 conhecia duas doen\u00e7as praticamente incur\u00e1veis: o incha\u00e7o do ego e o fanatismo religioso.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Chocado talvez com alguns horrores desse fanatismo, o \u00a0cientista Steven Weinberg, Pr\u00eamio Nobel de F\u00edsica de 1979, chegou a dizer: \u201cCom ou sem religi\u00e3o ter\u00edamos pessoas boas fazendo \u00a0o bem e pessoas m\u00e1s fazendo o mal. Mas para que pessoas boas fa\u00e7am coisas m\u00e1s \u00e9 necess\u00e1ria a religi\u00e3o\u201d.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Quando, em sua famosa m\u00fasica Imagine, John Lennon sonha um novo mundo, faz quest\u00e3o de ressaltar que ele ser\u00e1 &#8211; sem religi\u00e3o!<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Vis\u00f5es assim t\u00e3o pessimistas suscitam perguntas igualmente inc\u00f4modas.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Se todas as religi\u00f5es se mostram t\u00e3o plenas das melhores inten\u00e7\u00f5es, onde e como elas se pervertem?<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Quando e por que, na hist\u00f3ria da humanidade, a pureza e a f\u00e9 deram de matar mais do que o pecado e a d\u00favida?<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Por que tantas religi\u00f5es insistem em partir para um controle minucioso e totalit\u00e1rio das consci\u00eancias em vez de uma serena e misericordiosa \u00a0ilumina\u00e7\u00e3o da vida?<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>E por que, \u00e0s vezes, dentre os grandes filhos de uma puta deste mundo, os mais convictos, os mais inating\u00edveis e, n\u00e3o raro, os mais cru\u00e9is s\u00e3o os filhos de uma puta em nome de Deus?<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Uma resposta \u00fanica para tantas e t\u00e3o exasperadas perguntas n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, mas tudo indica que esse desencanto todo diz respeito principalmente aos arreglos mundanos das institui\u00e7\u00f5es religiosas em si, sem levar em conta \u00a0todo o bem, todo o amor, \u00a0todos os rituais e cantos de \u00a0esperan\u00e7a com que \u00a0pessoas de f\u00e9 \u00a0iluminam \u00a0e sempre iluminaram milh\u00f5es de vidas \u00a0 neste mundo. Um pequeno exemplo tirado de um jornal. Numa entrevista, dois brilhantes irm\u00e3os intelectuais de esquerda relembram suas vidas, os primeiros duros anos em que, \u00f3rf\u00e3os de pai, viram a m\u00e3e aguentar a barra da fam\u00edlia toda com extrema valentia. No fim, um deles s\u00f3 lamenta: &#8220;\u00c9, ela s\u00f3 era meio carola, coitada&#8221;. Pergunta: e onde eles acham que ela buscou for\u00e7as e confian\u00e7a para aguentar a dif\u00edcil barra? Em Marx, Engels ou Noam Chomski?<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>\u00a0<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Mas \u00e9 preciso reconhecer: as comunidades dos que cr\u00eaem nunca haver\u00e3o de ser \u00a0perfeitas e ainda bem que \u00a0cristianismo \u00e9 a religi\u00e3o da extrema exig\u00eancia e da extrema miseric\u00f3rdia. \u00a0Belamente diz o ap\u00f3stolo Paulo que em vasos de barro carregamos nossos tesouros. Algu\u00e9m igualmente inspirado escreveu que todos n\u00f3s, de uma forma ou de outra, seremos sempre respingados pela lama do mundo, o importante \u00e9 que ela n\u00e3o nos chegue ao cora\u00e7\u00e3o. Por isso \u00e9 t\u00e3o crucial tentar distinguir, sempre, \u00a0o tesouro do barro, \u00a0que s\u00f3 assim \u00a0ser\u00e1 poss\u00edvel, para uma Igreja e ou qualquer \u00a0crist\u00e3o, sentir-se tentado e at\u00e9 respingado pelas sordidez \u00a0em volta, \u00a0mas sem nunca \u00a0entregar o cora\u00e7\u00e3o. \u00a0H\u00e1 muitos s\u00e9culos o Livro dos Prov\u00e9rbios (4:23) j\u00e1 \u00a0sugeria que, \u00a0acima de todas as coisas deste mundo, o que mais importa \u00e9 \u00a0preservar o cora\u00e7\u00e3o, pois \u00e9 dele que prov\u00eam as grandes fontes da vida. Era do que Jesus mais queria saber: o cora\u00e7\u00e3o. Para o resto, para os sistemas locais de salva\u00e7\u00e3o e pureza, \u00a0ele n\u00e3o parecia \u00a0ligar muito.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>\u00a0<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Quando uma Igreja entrega o cora\u00e7\u00e3o? Tudo sugere que o que o mais perverte as religi\u00f5es \u00e9 a facilidade com que se rendem aos deuses deste mundo, o poder, a gan\u00e2ncia, as vaidades e assim \u00a0mundanizadas nada de novo podem de trazer &#8211; ao mundo. E \u00e9 pena porque, como acabamos de ver, \u00a0elas representam \u00a0experi\u00eancias e valores sagrados que v\u00eam de longe, muito longe e ainda hoje teriam \u00a0muito a contribuir com os melhores sonhos da humanidade. Ou especialmente hoje, pois, apesar de toda a amargura com que a modernidade \u00a0foi vista pelos papas do s\u00e9culo 19, ela s\u00f3 trouxe boas perspectivas n\u00e3o s\u00f3 para a Igreja Cat\u00f3lica como \u00a0para todas as religi\u00f5es que n\u00e3o queiram viver apenas da baixa escolaridade ou alto grau de desamparo dos seus fi\u00e9is.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>\u00a0<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>S\u00f3 para citar algumas das grandes b\u00ean\u00e7\u00e3os que o mundo moderno trouxe para as Igrejas:<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Com o advento da democracia laica, elas ficaram livres da tenta\u00e7\u00e3o de implantar na marra o Reino de Deus na terra, como tantas vezes \u00a0tentaram.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Com o advento do estado de direito, elas foram dispensadas de julgar a tudo e a todos, com grande economia, no caso da Cat\u00f3lica, de latim e lenha nos tribunais eclesi\u00e1sticos.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Com o fortalecimento das ci\u00eancias, as Igrejas n\u00e3o precisam mais perder tempo explicando biblicamente a origem e funcionamento do Universo.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Com a evolu\u00e7\u00e3o da medicina e da psiquiatria, elas foram dispensadas de curar ou atribuir ao dem\u00f4nio doen\u00e7as que hoje contam com nomes e tratamentos bem definidos.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Com o advento do Estado de Bem\u2013Estar Social, das ONGs e das Funda\u00e7\u00f5es, elas n\u00e3o s\u00e3o mais a \u00fanica institui\u00e7\u00e3o a se preocupar com a educa\u00e7\u00e3o e a mis\u00e9ria, embora todas tenham feito e continuem fazendo obras comoventes nessa \u00e1rea.<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>Livres enfim dos rolos e ambi\u00e7\u00f5es mundanas, as religi\u00f5es \u00a0podem agora, mais do que nunca cuidar de \u00e1reas de transforma\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e do mundo onde a democracia, a ci\u00eancia, a economia, \u00a0o direito e a medicina n\u00e3o t\u00eam obtido grandes resultados.\u201d<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>\u00a0<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>\u00a0<\/strong><\/em><br \/>\n<em><strong>LEMBRETE DE OCASI\u00c3O<\/strong><\/em><br \/>\n<strong><em>Se falta l\u00e3 para alguns, n\u00e3o \u00e9 por culpa das ovelhas.<\/em><\/strong><br \/>\nCarlos Moraes (1941-2019)<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nada \u00e9 mais trivial do que a morte, mas s\u00f3 nos damos conta de sua virul\u00eancia quando ela passa a foice no nosso quintal. 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Causa preocupa\u00e7\u00e3o o novo megaempreendimento de celulose da empresa chilena CMPC em Barra do Ribeiro (RS), pr\u00f3ximo\u2026","rel":"","context":"Em &quot;An\u00e1lise&amp;Opini\u00e3o&quot;","block_context":{"text":"An\u00e1lise&amp;Opini\u00e3o","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/category\/analiseopiniao\/"},"img":{"alt_text":"","src":"https:\/\/i0.wp.com\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/comite-contra-celulose.jpg?resize=350%2C200&ssl=1","width":350,"height":200},"classes":[]}],"jetpack_shortlink":"https:\/\/wp.me\/pbKo0s-kWm","jetpack_sharing_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80498","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/11"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=80498"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/80498\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=80498"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=80498"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=80498"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}