{"id":82365,"date":"2020-04-19T14:19:56","date_gmt":"2020-04-19T17:19:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/analise\/?p=82365"},"modified":"2020-04-19T14:19:56","modified_gmt":"2020-04-19T17:19:56","slug":"josy-z-matos-relatos-de-uma-quarentena-parte-i","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/josy-z-matos-relatos-de-uma-quarentena-parte-i\/","title":{"rendered":"JOSY Z. MATOS\/Relatos de uma quarentena \u2013 Parte I"},"content":{"rendered":"<p><strong>Josy Z. de Matos *<\/strong><br \/>\n<em>De Alicante\/Espanha <\/em><\/p>\n<p>O caminho que me trouxe at\u00e9 Alicante, na Espanha, no dia 28 de janeiro de 2019, come\u00e7ou muito antes, quando terminei o mestrado em 2000 e recebi uma bolsa destinada a estudantes latino-americanos para fazer o doutorado na Universidade de Alicante. Entre idas e vindas, fiquei oito anos. Retornei ao Brasil e passei no concurso da Funda\u00e7\u00e3o Zoobot\u00e2nica do RS, em Porto Alegre. Depois de um desastrado governo ga\u00facho, que extinguiu a FZB, decidi retornar a Alicante para fazer um p\u00f3s-doutorado junto ao Grupo de Pesquisa em Bot\u00e2nica e Conserva\u00e7\u00e3o Vegetal na mesma universidade. Minha pesquisa trata da diversidade gen\u00e9tica e conserva\u00e7\u00e3o de cactos do RS.<\/p>\n<figure id=\"attachment_82366\" aria-describedby=\"caption-attachment-82366\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-82366 size-full\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/analise\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2338-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2338-scaled.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2338-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2338-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2338-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2338-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2338-1200x900.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-82366\" class=\"wp-caption-text\">In\u00edcio do isolamento volunt\u00e1rio em mar\u00e7o. Fotos: Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<p>Aqui tenho muitos amigos, ent\u00e3o a adapta\u00e7\u00e3o sempre \u00e9 bem f\u00e1cil. Mas o mais dif\u00edcil de estar aqui \u00e9 a dist\u00e2ncia dos meus filhos, Eduardo e Elis. Eduardo veio passar as f\u00e9rias comigo e voltou ao Brasil no dia 16 de fevereiro, quando o Covid-19 estava come\u00e7ando a aparecer por aqui, com dois casos registrados na Espanha. Um m\u00eas depois, foi decretado o confinamento obrigat\u00f3rio e assim come\u00e7ou esta fase t\u00e3o dif\u00edcil da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p>No dia 12 de mar\u00e7o de 2020 decidi entrar em isolamento volunt\u00e1rio. Nesse dia, fui ao fisioterapeuta, Andr\u00e9s, para tratar o meu quadril. Conversamos sobre o coronav\u00edrus e os tempos dif\u00edceis que ainda estavam por vir. Ele me disse que fechariam a cl\u00ednica e s\u00f3 atenderiam emerg\u00eancias, mas que isso ainda dependia das medidas que o governo tomaria.<\/p>\n<p>Depois fui \u00e0 universidade, cheguei tarde, passava das 13h e quase todos j\u00e1 tinham sa\u00eddo para almo\u00e7ar. Benito, meu orientador, estava l\u00e1, organizando algumas coisas porque achava que a partir de segunda a universidade fecharia. Conversamos um pouco e eu lhe disse que n\u00e3o voltaria \u00e0 uni nos pr\u00f3ximos dias, que entraria em isolamento volunt\u00e1rio, ao que ele concordou comigo. \u201cN\u00e3o se preocupe, Josy, na segunda-feira a universidade provavelmente vai fechar\u201d.<\/p>\n<p>Depois disso, fui para a casa, passei pelo supermercado, comprei algumas coisas pensando em ficar uma semana enclausurada. \u00c0 noite, conversei com minha colega de apartamento, Ariana, e concordamos que o isolamento seria o melhor a fazer nessa situa\u00e7\u00e3o. Ela me disse: tenho que ir \u00e0 uni amanh\u00e3, mas vou trazer tudo que necessito para trabalhar em casa. Ariana est\u00e1 fazendo um doutorado com moscas, est\u00e1 na fase final da tese.<\/p>\n<p>Naqueles primeiros dias, nada estava claro, sab\u00edamos apenas que a China estava com um n\u00famero grande de pessoas contagiadas pelo covid-19. Pelos registros chineses, em 22 de janeiro, havia 571 contaminados e, quase dois meses depois, em 12 de mar\u00e7o, eram 80.813 casos e 3.176 mortos. A epidemia tinha tomado propor\u00e7\u00f5es assustadoras.<\/p>\n<p>Na Espanha os casos come\u00e7aram em 15 de fevereiro. Eu estava viajando com meu filho Eduardo, que veio passar umas f\u00e9rias comigo. Estivemos em Roma primeiro, depois Edimburgo, Glasgow e Londres, e voltamos \u00e0 Alicante.<\/p>\n<p>Na It\u00e1lia, j\u00e1 se falava em contaminados no in\u00edcio de fevereiro, mas o foco era Milano e n\u00e3o ficamos preocupados. Em Londres, comecei a tossir mas como n\u00e3o tive febre, deduzimos que era um simples resfriado. No dia 3 de mar\u00e7o, faleceu a primeira pessoa na Espanha e dez dias depois, quando entrei na quarentena, j\u00e1 eram 133 mortos.<\/p>\n<p>O governo espanhol j\u00e1 estava discutindo as medidas de preven\u00e7\u00e3o e, dia 15, no domingo, o presidente do governo socialista, Pedro Sanchez, informou em rede nacional que adotariam a quarentena. J\u00e1 eram 7.988 infectados. A partir da\u00ed, estava proibido sair \u00e0s ruas, exceto para ir ao supermercado e farm\u00e1cia. Autorizados a sair somente para trabalhar em atividades de primeiras necessidades.<\/p>\n<p>Nesse momento voc\u00ea pensa: agora vai ficar tudo bem, daqui uns dias voltar\u00e1 tudo ao normal. Mas as cosias nunca funcionam como n\u00f3s pensamos e a vida ficou mais dif\u00edcil. No come\u00e7o \u00e9 tudo piada, o mundo foi invadido por memes e charges de como enfrentar uma quarentena. Tudo ainda era muito leve, mas os dias v\u00e3o passando e as not\u00edcias s\u00f3 pioram, mais contaminados, mais mortes, mais incertezas.<\/p>\n<p><img decoding=\"async\" class=\"alignleft wp-image-82367 size-medium\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/analise\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/Mascara-225x300.jpg\" alt=\"\" width=\"225\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/Mascara-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/Mascara-scaled.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/Mascara-1152x1536.jpg 1152w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/Mascara-1536x2048.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/Mascara-1200x1600.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 225px) 100vw, 225px\" \/>Da\u00ed, v\u00eam os momentos de ang\u00fastia, de pensar na vida que foi e na vida que vir\u00e1. Mas, na primeira semana de confinamento, ainda havia muitas controv\u00e9rsias e incertezas.<\/p>\n<p>\u00c9 impressionante como neste momento em que o mundo consegue produzir mais informa\u00e7\u00f5es sobre qualquer assunto e coloc\u00e1-las \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do p\u00fablico de diferentes maneiras, especialmente com a ajuda da internet, surgem tantas informa\u00e7\u00f5es falsas e tantos \u201cs\u00e1bios de plant\u00e3o\u201d. Todos entendem de todos os assuntos. Blogueiros que sabem mais que cientistas, pol\u00edticos sabem mais do que professores, e, obviamente, qualquer um sabe mais do que os m\u00e9dicos. Esses \u201cespertos\u201d divulgam suas teorias sobre a doen\u00e7a, a origem do v\u00edrus e, \u00e9 claro, as teorias de conspira\u00e7\u00e3o, para todos os gostos.<\/p>\n<p>Depois da primeira semana, e mesmo acompanhando o processo na China, onde o v\u00edrus come\u00e7ou a se espalhar, a \u00fanica certeza era que os n\u00fameros seguiriam crescendo. Come\u00e7am a faltar equipamentos de prote\u00e7\u00e3o individual (EPIs) para o pessoal sanit\u00e1rio utilizar, que seriam as m\u00e1scaras, luvas e roupas hospitalares. Assim, come\u00e7am a aparecer tamb\u00e9m os primeiros sanit\u00e1rios contaminados, enfermeiros, m\u00e9dicos, auxiliares e o pessoal de limpeza dos hospitais.<\/p>\n<p>O governo tenta desesperadamente comprar mais EPIs e respiradouros, mas esbarra na falta de material no mercado, subida absurda dos pre\u00e7os e exig\u00eancia de pagamento adiantado, isso sem falar nas fraudes. A Espanha comprou kits de testes r\u00e1pidos que prometiam 80% de certeza na detec\u00e7\u00e3o do v\u00edrus e, ao serem testados, se viu que a precis\u00e3o era de 30%. Esse material foi devolvido, mas o tempo perdido n\u00e3o se recupera. Pessoas inescrupulosas tentando ganhar dinheiro a qualquer custo, e o custo, neste momento, \u00e9 a vida de milhares.<\/p>\n<p>Por outro lado, vimos tamb\u00e9m diversas pessoas trabalhando como volunt\u00e1rios para auxiliar os sanit\u00e1rios a conter o v\u00edrus, pessoas ajudando a anci\u00f5es que n\u00e3o tinham quem os ajudasse, empres\u00e1rios produzindo \u00e1lcool em gel, m\u00e1scaras, respiradouros, luvas, alguns famosos doando dinheiro para comprar equipamentos, lojas de esportes doando todas as m\u00e1scaras de mergulho que poderiam ser adaptadas como respiradouros, etc. Solidariedade ainda existe.<\/p>\n<p>Enquanto assistia e lia o que outros pa\u00edses estavam fazendo para enfrentar esta crise sanit\u00e1ria, todos considerando o isolamento social extremamente necess\u00e1rio para se evitar novas contamina\u00e7\u00f5es e mais mortes, no Brasil, o abomin\u00e1vel presidente tentando colocar o pa\u00eds no caos e chamando o trabalhador para ir \u00e0s ruas e voltar a trabalhar, alegando que o v\u00edrus era uma \u201cgripezinha\u201d. Assistimos as primeiras \u00a0carreatas em algumas capitais brasileiras sob o lema \u201cO Brasil n\u00e3o pode parar\u201d. Pode e deve!<\/p>\n<p>Felizmente, apesar da press\u00e3o vinda do Planalto, muitos governadores e prefeitos adotaram o isolamento atendendo, pelo menos em parte, as recomenda\u00e7\u00f5es de cientistas.<\/p>\n<p>Entrando na terceira semana de isolamento na Espanha, em 31 de mar\u00e7o, com novas regras mais restritivas.\u00a0Nesse dia, o n\u00famero de mortes caiu para 748 e o n\u00famero de novos casos registrados diariamente tamb\u00e9m caiu, de 7.846 (dia 30\/03) para 6.461 (31\/03).<\/p>\n<p>No entanto, o maior n\u00famero de mortos se deu no dia 02 de abril, quando chegamos a atingir 961 mortes, sendo este considerado o pico da quarentena na Espanha. Quando isso acontece, a emo\u00e7\u00e3o toma conta, o sentimento \u00e9 de impot\u00eancia diante de tanto sofrimento. E a solidariedade se torna imprescind\u00edvel para continuarmos vivendo. Como me disse uma amiga chilena, Marta, nesse dia: j\u00e1 vir\u00e1 a primavera esperada!<\/p>\n<figure id=\"attachment_82368\" aria-describedby=\"caption-attachment-82368\" style=\"width: 1024px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-82368 size-full\" style=\"font-weight: bold;background-color: transparent;text-align: inherit\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/analise\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2382-scaled.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"768\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2382-scaled.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2382-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2382-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2382-1536x1152.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2382-2048x1536.jpg 2048w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2020\/04\/DSCN2382-1200x900.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-82368\" class=\"wp-caption-text\">Alicante, Espanha . Arquivo pessoal<\/figcaption><\/figure>\n<div class=\"mceTemp\"><\/div>\n<p>Ap\u00f3s a P\u00e1scoa, depois que se firmasse a queda nos n\u00fameros de novas contamina\u00e7\u00f5es (3.804) e mortos (603), a Espanha liberou o funcionamento dos estabelecimentos de comida para entrega, de servi\u00e7os como eletricidade, encanamento, centros m\u00e9dicos, etc. E o governo j\u00e1 estuda como realizar o retorno \u00e0s atividades de uma maneira segura.<\/p>\n<p>E com a esperan\u00e7a de que esse novo mundo que vamos iniciar seja mais igualit\u00e1rio e as rela\u00e7\u00f5es mais humanit\u00e1rias!<\/p>\n<p><strong><em>* <\/em><\/strong><strong><em>Bi\u00f3loga, doutora em Biodiversidade e Conserva\u00e7\u00e3o Ambiental. <\/em><\/strong><strong><em>Museu de Ci\u00eancias Naturais\/SEMA-RS.\u00a0\u00a0<\/em><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Josy Z. de Matos * De Alicante\/Espanha O caminho que me trouxe at\u00e9 Alicante, na Espanha, no dia 28 de janeiro de 2019, come\u00e7ou muito antes, quando terminei o mestrado em 2000 e recebi uma bolsa destinada a estudantes latino-americanos para fazer o doutorado na Universidade de Alicante. 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