{"id":82514,"date":"2020-05-25T23:04:43","date_gmt":"2020-05-26T02:04:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/analise\/?p=82514"},"modified":"2020-05-25T23:04:43","modified_gmt":"2020-05-26T02:04:43","slug":"a-torre-eiffel-luiz-olyntho-telles-da-silva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/a-torre-eiffel-luiz-olyntho-telles-da-silva\/","title":{"rendered":"A TORRE EIFFEL\/ Luiz Olyntho Telles da Silva"},"content":{"rendered":"<p><em>&#8220;A grandeza da ora\u00e7\u00e3o reside, em primeiro<\/em><em> lugar, em n\u00e3o ser respondida, e em n\u00e3o entrar nessa troca a feiura de um com\u00e9rcio&#8221;.<\/em><\/p>\n<p><em>SAINT-EXUP\u00c9RY, Cidadela.<\/em><\/p>\n<p>***<\/p>\n<p>Conheci a Torre Eiffel no princ\u00edpio dos anos 80 e fiquei t\u00e3o impressionado que ao longo dos anos voltei a visit\u00e1-la algumas vezes. O amplo jardim circundante, as fontes, os museus pr\u00f3ximos, tudo dizia de seu valor.<\/p>\n<p>Lembro-me ainda, na primeira vez, de ter tirado uma foto, apoiado em uma de suas bases, buscando seguir suas linhas em dire\u00e7\u00e3o aos c\u00e9us. Outra vez, foi em uma ensolarada manh\u00e3 de um domingo outonal.<\/p>\n<p>Tinha terminado de dar um passeio pelos jardins do Trocadero e come\u00e7ava a descer a Avenue du Pr\u00e9sident Wilson, quando fui abordado por uma jovem; queria saber se podia indicar-lhe a dire\u00e7\u00e3o para chegar \u00e0 Torre.<\/p>\n<p>Imaginem, era francesa e nunca a vira de perto; morava no interior e, h\u00e1 seis meses, viajava semanalmente a Paris para estudar bal\u00e9. Naquela manh\u00e3, roubava-se um tempo para conhecer o grande monumento.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso dizer que voltei dez passos para apresentar-lhe, pessoalmente, o s\u00edmbolo maior da cidade luz? Ah!<\/p>\n<p>E o entardecer no \u00faltimo domingo de ver\u00e3o que a\u00ed estive?! Eu sentara em um bar da Avenue Desaix com a Avenue de Suffren, o Firmine, com uma ampla vis\u00e3o do Champ de Mars, para aguardar o p\u00f4r-do-sol, degustando uma <em>pression<\/em> bem fria.<\/p>\n<p>Seria pr\u00f3ximo das dezoito horas. \u00c0s vinte horas o dia continuava claro e, \u00e0s vinte e uma, com a sensa\u00e7\u00e3o de que esse dia n\u00e3o terminaria nunca, encomendei uma por\u00e7\u00e3o de carpaccio e preparei-me para jantar.<\/p>\n<p>Estava informado de que a noite, nesta \u00e9poca do ano, e nessa regi\u00e3o, custava a cair, mas nunca imaginara tardasse tanto.<\/p>\n<p>Foi exatamente \u00e0s vinte e tr\u00eas horas quando, num repente, como se as luzes do dia tivessem sido desligadas no interruptor, que a noite entrou e, ato cont\u00ednuo, num \u00e1timo, acenderam-se as luzes da Torre Eiffel, por inteiro. Um espet\u00e1culo deslumbrante!<\/p>\n<p>As obras de Eiffel, desde que o conheci, constitu\u00edram-se em um marco para mim. Nem falo da impress\u00e3o que me causou o Elevador de Santa Justa, em Lisboa, do qual, embora conste, hoje se duvida de sua efetiva participa\u00e7\u00e3o no projeto, mas suas pontes, como a Dona Maria Pia, unindo a cidade do Porto \u00e0 Vila Nova de Gaia, por sobre o rio Douro, e os seus monumentos, como a estrutura da Est\u00e1tua da Liberdade, em Nova Iorque, sempre me pareceram not\u00e1veis.<\/p>\n<p>Pois outro dia, lendo um pequeno livro de Ferenc Moln\u00e1r, <em>O Poste de Vapor<\/em>, quando contava que a primeira ponte, ligando Buda a Peste, por sobre o Dan\u00fabio, a Ponte Margarida, fora tamb\u00e9m um projeto dele, bem antes de ser famoso, um pequeno coment\u00e1rio chamou-me a aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Verdade que ele diz muitas coisas interessantes a\u00ed. Ele menciona, por exemplo, para mostrar como v\u00e3o se processando sua associa\u00e7\u00e3o de ideias, Jean Giraudoux.<\/p>\n<p>Seus pensamentos percorrem o fio das estruturas e Moln\u00e1r lembra-se da Ora\u00e7\u00e3o sobre a Torre Eiffel, um dos cap\u00edtulos do livro <em>Julieta no pa\u00eds dos homens<\/em>, desse autor, onde conta que, tendo subido um dia na Torre, enquanto observava Paris, ocorreu-lhe pensar que confian\u00e7a teve na lei das massas o engenheiro que construiu esta torre de ferro!<\/p>\n<p>Mas o ponto que mais me tocou foi a compara\u00e7\u00e3o da ponte com a torre: a ponte tinha a vantagem de estar deitada! Pois foi neste momento que se formou, para mim, como uma Gestalt, a imagem que quero contar-lhes.<\/p>\n<p>Precisei relatar os antecedentes para verem como sou lento, ou como pode ser lenta a formula\u00e7\u00e3o de certas ideias.<\/p>\n<p>Pois o que percebi, naquele momento, foi que a Torre Eiffel pode ser vista assim: suas quatro grandes bases representam os quatro cantos do mundo com as m\u00e3os postas, noite e dia, em ora\u00e7\u00e3o, voltadas aos c\u00e9us.<\/p>\n<p>E ent\u00e3o compreendi que assim deveriam ser todas as ora\u00e7\u00f5es, obras para o usufruto e deleite de todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;A grandeza da ora\u00e7\u00e3o reside, em primeiro lugar, em n\u00e3o ser respondida, e em n\u00e3o entrar nessa troca a feiura de um com\u00e9rcio&#8221;. 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