{"id":82536,"date":"2020-05-31T17:18:17","date_gmt":"2020-05-31T20:18:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/analise\/?p=82536"},"modified":"2020-05-31T17:18:17","modified_gmt":"2020-05-31T20:18:17","slug":"luiz-olyntho-telles-da-silva-uma-parabola-para-os-dias-de-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/luiz-olyntho-telles-da-silva-uma-parabola-para-os-dias-de-hoje\/","title":{"rendered":"LUIZ-OLYNTHO TELLES DA SILVA\/ Uma par\u00e1bola para os dias de hoje"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz-Olyntho Telles da Silva<\/strong><\/p>\n<p>Terminava o ano de 1348 e com ele a devastadora peste negra. A Europa estava um caos. Aos sobreviventes tocava elaborar o luto. Muitos perderam seus pais, av\u00f3s, amigos e irm\u00e3os, sem falar nas fam\u00edlias das quais n\u00e3o sobrou ningu\u00e9m. Boccaccio foi um desses que sofreu todas essas perdas e encontrou na escrita um meio de trabalhar sua dor. Da\u00ed saiu seu <em>Decameron<\/em>, organizado em torno de dez jornadas nas quais se contam, a cada dia, dez novelas. Santo Ambr\u00f3sio j\u00e1 havia louvado os seis dias da cria\u00e7\u00e3o, intitulados com uma express\u00e3o grega, o <em>Hexameron<\/em>, e Boccaccio achou por bem repetir a ideia para os seus dez conjuntos de dez, por vezes luxuriosos, ora melanc\u00f3licos, ing\u00eanuos, ora espirituosos, etc., etc.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria que escolhi para hoje, est\u00e1 na base da forma\u00e7\u00e3o dessas locu\u00e7\u00f5es que os franceses chamam de <em>mot d\u2019esprit<\/em>, um dito espirituoso, um dito que requer intelig\u00eancia para ser compreendido.<\/p>\n<p>Estamos j\u00e1 quase ao final da sexta jornada, o dia se prepara para come\u00e7ar a perder suas cores, acendem-se os candelabros e a rainha Elissa come\u00e7a a nona hist\u00f3ria, anunciando que sua conclus\u00e3o ser\u00e1 com uma senten\u00e7a t\u00e3o brilhante que talvez ainda n\u00e3o se tenha narrado nenhuma com tanta sabedoria.<\/p>\n<p>Em tempos passados, continuou ela, houve em Floren\u00e7a costumes muito galantes, agora perdidos pela avareza que junto com a riqueza prosperou. Entre os h\u00e1bitos banidos estava o de cavalheiros de diferentes bairros da cidade reunirem-se a cada tanto para jantar, convidando, quando era o caso, algum estrangeiro, ou mesmo algum expoente conterr\u00e2neo para homenagear e, a cada vez, era um que pagava a conta. Formavam assim diferentes brigadas que cavalgavam juntos e exibiam-se em justas nos dias de festa. Entre elas, estava a brigada de Messer Betto Brunelleschi, antepassado do famoso arquiteto Filipo Brunelleschi \u2013 construtor da c\u00fapula do Duomo, da igreja de S\u00e3o Louren\u00e7o, do pal\u00e1cio Riccardi e do pal\u00e1cio Pitti \u2013, e que muito se esfor\u00e7ou, junto de seus companheiros, para incorporar Guido Cavalcanti \u00e0s suas fileiras. Filho de Messer Cavalcante dei Cavalcanti, Guido era um importante poeta, amigo de Dante Alighieri, homem educado, bem falante, de boa apar\u00eancia e muito rico; sempre voltado \u00e0s suas medita\u00e7\u00f5es, alheava-se de outros homens e, dedicado ao epicurismo, diziam que buscava demonstrar a inexist\u00eancia de Deus. Ent\u00e3o, certa manh\u00e3, quando Guido fazia seu trajeto habitual, ao passar pelo cemit\u00e9rio San Giovanni, onde havia grandes sarc\u00f3fagos de m\u00e1rmore (hoje em Santa Reparata), al\u00e9m de muitos outros, e estando ele entre aquelas colunas de p\u00f3rfiro, daquelas rochas vermelhas contempor\u00e2neas do per\u00edodo pr\u00e9-cambriano \u2013 um presente dos pisanos para Floren\u00e7a, em retribui\u00e7\u00e3o \u00e0 guarda que lhes fizeram quando foram conquistar a ilha de Maiorca \u2013, avistou-o Messer Betto que vinha com sua brigada, a cavalo, pela pra\u00e7a de Santa Reparata, e logo teve uma ideia: &#8211; <em>Andiamo a dargli briga<\/em>. <em>Vamos incomod\u00e1-lo um pouco<\/em>, traduziu Maur\u00edcio Santana Dias para a Ed. Cosac Naify, em 2013, enquanto Urbano Tavares Rodrigues, em 1976, ao fazer a tradu\u00e7\u00e3o para a Ed. Formar, em coedi\u00e7\u00e3o com a Libraria Bertrand, de Portugal, preferiu <em>Vamos disfrut\u00e1-lo um pouco <\/em>(escrito assim, com<em> i<\/em> mesmo). Enfim, tratava-se de <em>implicar<\/em> um tanto com Guido, de fazer <em>bullying<\/em>, como se diria hoje, e, decididos, esporearam seus cavalos. Antes que Guido se desse conta, o cercaram fazendo-lhe a seguinte pergunta: <em>Guido, voc\u00ea se recusa a entrar em nossa brigada; mas, quando descobrir afinal que Deus n\u00e3o existe, o que far\u00e1?<\/em> Sem dar-se por achado, Guido logo respondeu: <em>Senhores, estais em vossa casa, podeis dizer-me o que quiserdes<\/em>. A seguir, \u00e1gil que era, saltou por sobre uma alta tumba e sumiu-se por entre os sarc\u00f3fagos. Os brigadianos, pasmos, ficaram a olhar entre si. Aquele homem era um <em>smemorato<\/em> \u2013 inconsciente, traduziu Maur\u00edcio Santana Dias; louco, preferiu Urbano Tavares Rodrigues \u2013, sua resposta n\u00e3o fazia sentido. Foi ent\u00e3o que Messer Betto, voltando-se para os companheiros, falou: &#8211; <em>Os <\/em>smemorati<em> s\u00e3o voc\u00eas que n\u00e3o entenderam nada: com poucas palavras e na maior eleg\u00e2ncia, ele nos disse a pior das vilanias. Vejam, esses t\u00famulos s\u00e3o as casas dos mortos, a\u00ed est\u00e3o os defuntos; mas ele diz que s\u00e3o nossas casas para nos mostrar que n\u00f3s e os ignorantes como n\u00f3s, em compara\u00e7\u00e3o a ele e aos fil\u00f3sofos, somos piores que os mortos. Logo, se estamos aqui, estamos em nossa casa.<\/em> Assim foi constru\u00edda a brilhante senten\u00e7a anunciada pela rainha Elissa e, tendo todos entendido a tirada espirituosa de Guido Cavalcanti, nunca mais o incomodaram e Messer Betto passou a ser considerado um cavalheiro sutil e inteligente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz-Olyntho Telles da Silva Terminava o ano de 1348 e com ele a devastadora peste negra. A Europa estava um caos. Aos sobreviventes tocava elaborar o luto. Muitos perderam seus pais, av\u00f3s, amigos e irm\u00e3os, sem falar nas fam\u00edlias das quais n\u00e3o sobrou ningu\u00e9m. 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