{"id":82560,"date":"2020-06-17T14:44:55","date_gmt":"2020-06-17T17:44:55","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/analise\/?p=82560"},"modified":"2020-06-17T14:58:54","modified_gmt":"2020-06-17T17:58:54","slug":"felipe-quintas-em-defesa-das-estatuas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/felipe-quintas-em-defesa-das-estatuas\/","title":{"rendered":"FELIPE QUINTAS\/ Em defesa das est\u00e1tuas"},"content":{"rendered":"<p><em>Felipe Maruf Quintas*<\/em><\/p>\n<p>A erup\u00e7\u00e3o de protestos de cunho identit\u00e1rio-racialista em v\u00e1rios pa\u00edses\u00a0 nas \u00faltimas semanas teve, como um dos seus desdobramentos, a derrubada da est\u00e1tua do traficante de escravos Edward Colston (1636-1721) em Bristol, Inglaterra.<\/p>\n<p>N\u00e3o deixa de ser positivo o fato de os ingleses entenderem, por pouco que seja, o protagonismo do seu pr\u00f3prio pa\u00eds na escravid\u00e3o moderna.\u00a0Por\u00e9m, o envolvimento ingl\u00eas na escravid\u00e3o vai muito al\u00e9m da figura de Colston.<\/p>\n<p>Caso queiram fazer \u201cjusti\u00e7a hist\u00f3rica\u201d, nos termos que prop\u00f5em para tal, os manifestantes ingleses deveriam destruir o seu pa\u00eds como um todo.<\/p>\n<p>Ao contr\u00e1rio do que diz a historiografia angl\u00f3fila, que situa a Albion como baluarte do abolicionismo e o iberismo como reposit\u00f3rio exclusivo da escravid\u00e3o, a escravid\u00e3o moderna e a ascens\u00e3o pol\u00edtica, econ\u00f4mica e ideol\u00f3gica da Inglaterra est\u00e3o intimamente associadas.<\/p>\n<p>Como o historiador Laurentino Gomes muito bem coloca no volume I do seu livro\u00a0Escravid\u00e3o, a Inglaterra fora a maior traficante de escravos no s\u00e9culo XVIII, e a pr\u00f3pria rainha Elizabeth I (1558-1603) era s\u00f3cia do primeiro grande traficante ingl\u00eas, John Hawkins.<\/p>\n<p>Pr\u00f3ceres do liberalismo ingl\u00eas, como John Locke e Thomas Malthus, estiveram intimamente associados \u00e0 escravid\u00e3o: Locke era acionista da Royal African Company, constitu\u00edda com o objetivo \u00fanico de traficar escravos e Malthus era professor da universidade da East India Company, de forte participa\u00e7\u00e3o no com\u00e9rcio de cativos na \u00c1frica e na \u00c1sia.<\/p>\n<p>Como \u00e9 amplamente sabido, a Revolu\u00e7\u00e3o Industrial inglesa dificilmente teria ocorrido sem o fornecimento, \u00e0 ind\u00fastria t\u00eaxtil deste pa\u00eds, de algod\u00e3o cultivado por escravos no sul dos EUA.<\/p>\n<p>Na Guerra de Secess\u00e3o, o Reino Unido manteve-se oficialmente neutro, embora grande parte da aristocracia brit\u00e2nica apoiasse os confederados, pr\u00f3-escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de tudo isso, o escravismo ingl\u00eas n\u00e3o vitimou apenas os povos africanos e asi\u00e1ticos, mas o pr\u00f3prio povo ingl\u00eas.<\/p>\n<p>Como exp\u00f5e o pensador alem\u00e3o Karl Marx no livro I da sua obra magna\u00a0O Capital,uma lei do primeiro ano de reinado de Eduardo VI, em 1547, determinava que uma pessoa que se recusasse a trabalhar se tornaria escrava de quem a houvesse denunciado por vadiagem.<\/p>\n<p>Eram permitidos todos os castigos f\u00edsicos e todas as pr\u00e1ticas ocorrentes na escravid\u00e3o de negros ao sul do Equador. \u00a0Esse \u00e9 um exemplo de que a escravid\u00e3o nunca foi um fen\u00f4meno estritamente racial, ao contr\u00e1rio do apregoado pelo identitarismo racialista.<\/p>\n<p>O psitacismo de setores pol\u00edticos brasileiros ditos progressistas n\u00e3o tardou em demandar, por meio de redes sociais como o\u00a0Twitter, a derrubada e a vandaliza\u00e7\u00e3o de monumentos hist\u00f3ricos do nosso Pa\u00eds, como est\u00e1tuas da Princesa Isabel, de Get\u00falio Vargas, do Duque de Caxias, de Borba Gato e do Monumento aos Bandeirantes.<\/p>\n<p>Segundo tais setores, as personagens hist\u00f3ricas homenageadas seriam equivalentes a Edward Colston e simbolizariam o racismo e a escravid\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o restam d\u00favidas, pelo menos entre os minimamente esclarecidos e bem-intencionados, do absurdo e da desonestidade de exigir, a pretexto de luta antirracismo, a derrubada das est\u00e1tuas da Princesa Isabel e de Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>Ela assinou a Lei \u00c1urea, sempre se identificou com o abolicionismo, cercou-se de abolicionistas negros como Andr\u00e9 Rebou\u00e7as e Jos\u00e9 do Patroc\u00ednio e apoiava a cria\u00e7\u00e3o de um Fundo de indeniza\u00e7\u00e3o para os negros libertos, no \u00e2mbito de uma reforma agr\u00e1ria em favor deles.<\/p>\n<p>Vargas, a seu turno, desfez grande parte do legado de desigualdade e subdesenvolvimento da escravid\u00e3o ao criar in\u00fameras leis trabalhistas e sociais, promover a educa\u00e7\u00e3o e a sa\u00fade p\u00fablicas e estimular a industrializa\u00e7\u00e3o e o desenvolvimento das regi\u00f5es mais prec\u00e1rias.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m legalizou a capoeira em 1937 \u2013 como ele disse em 1953, a capoeira era o \u00fanico esporte verdadeiramente brasileiro. J\u00e1 na d\u00e9cada de 1930, seu governo tirou o samba da marginalidade a que at\u00e9 ent\u00e3o se encontrava para elev\u00e1-lo a \u00edcone cultural da brasilidade, financiando inclusive as escolas de samba cariocas.<\/p>\n<p>A derrubada das est\u00e1tuas da Princesa Isabel e de Get\u00falio Vargas, ent\u00e3o, atende a interesses olig\u00e1rquicos, antinacionais e racistas, n\u00e3o aos interesses nacionais e populares. De que lado est\u00e3o os nossos pretensos combatentes antirracistas?<\/p>\n<p>Se as obras da Princesa Isabel e de Get\u00falio Vargas para o fim da escravid\u00e3o e do seu legado e para a constru\u00e7\u00e3o do Brasil soberano e justo s\u00e3o razoavelmente conhecidas do grande p\u00fablico, o mesmo n\u00e3o se d\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o ao Duque de Caxias e aos bandeirantes.<\/p>\n<p>Isso facilita a depreda\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria desses construtores da Na\u00e7\u00e3o, edificada em monumentos que, frequentemente, s\u00e3o alvos da f\u00faria identit\u00e1ria.<\/p>\n<p>Grande parte da historiografia e do ensino de hist\u00f3ria retrata o Duque de Caxias como mero opressor do povo paraguaio, ignorando a responsabilidade de Solano L\u00f3pez pela deflagra\u00e7\u00e3o da Guerra do Paraguai, bem como o fato de Caxias ter sido, ainda muito jovem, um dos principais combatentes da Guerra de Independ\u00eancia contra os portugueses na Bahia, onde as batalhas foram mais dram\u00e1ticas.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m colaborou para manter a unidade nacional ao reprimir, durante a Reg\u00eancia, revoltas separatistas comandadas por oligarquias locais.<\/p>\n<p>No caso da Farroupilha, alforriou, em 1845, os negros que participaram seja de um lado ou de outro, contrariando instru\u00e7\u00f5es recebidas do Gabinete Liberal, que determinavam o envio \u00e0 Corte dos escravos que fizeram parte das tropas rebeldes, provavelmente para se tornarem propriedade imperial.<\/p>\n<p>Caxias, al\u00e9m de combatente da Independ\u00eancia e da unidade nacional \u2013 sem as quais seria imposs\u00edvel abolir a escravid\u00e3o e superar o seu legado de subdesenvolvimento -, tamb\u00e9m foi um dos primeiros a colocar em pr\u00e1tica o abolicionismo.<\/p>\n<p>Da mesma forma, essa historiografia e esse ensino de hist\u00f3ria retratam os bandeirantes como meros predadores de \u00edndios e esmagadores de quilombos, pintando-os nas cores sombrias de \u201cbrancos, racistas e mis\u00f3ginos\u201d, ignorando ou escondendo a enorme contribui\u00e7\u00e3o dada por eles \u00e0s configura\u00e7\u00f5es territorial e demogr\u00e1fica do Brasil.<\/p>\n<p>Foram os bandeirantes os respons\u00e1veis por estender, a partir de S\u00e3o Paulo, as fronteiras brasileiras al\u00e9m do Tratado de Tordesilhas, adentrando o continente e preenchendo-o de Brasil.<\/p>\n<p>A magnitude do esfor\u00e7o humano empreendido por eles revela-se no exemplo da marcha de 12 mil km conduzida por Raposo Tavares entre 1648 e 1652, ap\u00f3s ele ter combatido os holandeses entre 1639 e 1642.<\/p>\n<p>Tendo alcan\u00e7ado os Andes, atravessou Rond\u00f4nia, chegou ao rio Amazonas pelos rios Mamor\u00e9 e Madeira e, por meio daquele, aportou em Bel\u00e9m. A interioriza\u00e7\u00e3o das fronteiras e do povoamento contrap\u00f4s-se \u00e0 l\u00f3gica colonial e escravocrata de concentra\u00e7\u00e3o populacional e econ\u00f4mica no litoral.<\/p>\n<p>Enquanto o escravismo e o colonialismo limitavam o Brasil a sua costa mar\u00edtima e a uma posi\u00e7\u00e3o geoecon\u00f4mica subordinada \u00e0 metr\u00f3pole de al\u00e9m-mar e aos circuitos comerciais por ela estabelecidos no Atl\u00e2ntico, o bandeirantismo, ao explorar a continentalidade brasileira e mapear as condi\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas dos sert\u00f5es, perfurou os pr\u00f3prios limites coloniais de Tordesilhas \u2013 anulados somente durante a Uni\u00e3o Ib\u00e9rica (1580-1640) \u2013 e abriu caminhos alternativos aos escravistas e atlantistas para a forma\u00e7\u00e3o brasileira, interiorizando o povoamento e as rotas de com\u00e9rcio.<\/p>\n<p>O Tratado de Madrid, firmado em 1750, ao seguir o princ\u00edpio do uti- possidetis,reconheceu como territ\u00f3rio brasileiro grandes por\u00e7\u00f5es de terra a oeste que haviam sido incorporadas ao \u00e2mbito brasileiro pela a\u00e7\u00e3o desbravadora dos bandeirantes.<\/p>\n<p>Esse tratado, ao substituir o de Tordesilhas e p\u00f4r termo \u00e0s disputas entre Portugal e Espanha pela delimita\u00e7\u00e3o das fronteiras na Am\u00e9rica do Sul, institucionalizou a obra bandeirante e a incorporou, de uma vez por todas, \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da nacionalidade brasileira.<\/p>\n<p>O bandeirantismo, al\u00e9m de contribuir para a defini\u00e7\u00e3o da base territorial brasileira, tamb\u00e9m foi central para definir a identidade mesti\u00e7a do nosso Pa\u00eds.<\/p>\n<p>O perfil ind\u00edgena e mameluco das bandeiras em tudo contrasta com a falsa vis\u00e3o de que seria um fen\u00f4meno eminentemente branco e racista.<\/p>\n<p>A sociedade paulista, de onde surgiram os bandeirantes, apresentava grande influ\u00eancia ind\u00edgena e pouca distin\u00e7\u00e3o entre brancos e mamelucos.<\/p>\n<p>Desse modo, o bandeirantismo representou a ocupa\u00e7\u00e3o do continente e a forma\u00e7\u00e3o do Brasil pela massa mesti\u00e7a. Como escreve o historiador Boris Fausto em seu livro\u00a0Hist\u00f3ria do Brasil, \u201co n\u00famero de mamelucos e \u00edndios sempre superou o dos brancos. A grande bandeira de Manuel Preto e Raposo Tavares que atacou a regi\u00e3o do Gua\u00edra em 1629, por exemplo, era composta de 69 brancos, 900 mamelucos e 2 mil ind\u00edgenas\u201d (p. 83).<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o do tipo sertanejo e a correlata ocupa\u00e7\u00e3o do Vale do S\u00e3o Francisco, espraiando-se pelas adjac\u00eancias, tamb\u00e9m s\u00e3o devidas ao bandeirantismo, como registra Euclides da Cunha em\u00a0Os Sert\u00f5es.<\/p>\n<p>Esse grupo, amplamente considerado um dos mais representativos da brasilidade, originou-se da migra\u00e7\u00e3o dos paulistas para aquela regi\u00e3o, desde o s\u00e9culo XVII, e sua simult\u00e2nea miscigena\u00e7\u00e3o com os ind\u00edgenas locais, fazendo despontar \u201clogo uma ra\u00e7a de curibocas puros quase sem mescla de sangue africano, facilmente denunciada, hoje, pelo tipo normal daqueles sertanejos\u201d (p. 190)[1].<\/p>\n<p>Consequ\u00eancias indiretas do bandeirantismo tamb\u00e9m foram cruciais para a forma\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica brasileira.<\/p>\n<p>A explora\u00e7\u00e3o de metais preciosos em Minas Gerais, cujas jazidas haviam sido descobertas pelos bandeirantes, propiciou o deslocamento do eixo pol\u00edtico, econ\u00f4mico e demogr\u00e1fico do Nordeste para o Centro-Sul.<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m gerou alguma articula\u00e7\u00e3o entre pontos distantes do Brasil, como o adensamento do com\u00e9rcio entre Bahia e Minas e entre ambas e o Sul.<\/p>\n<p>Desse modo, o Brasil estruturou-se como Na\u00e7\u00e3o antes mesmo da sua Independ\u00eancia, que foi a culmin\u00e2ncia de um processo hist\u00f3rico de integra\u00e7\u00e3o nacional, tanto f\u00edsica quanto social, forjada, em grande parte, pelo bandeirantismo.<\/p>\n<p>O vasto territ\u00f3rio e a unidade psicossocial brasileira pela mesti\u00e7agem, que devemos aos bandeirantes, s\u00e3o recursos nacionais de poder indispens\u00e1veis \u00e0 edifica\u00e7\u00e3o de uma Na\u00e7\u00e3o coesa e econ\u00f4mica e socialmente<\/p>\n<p>Os ataques \u00e0 mem\u00f3ria dos bandeirantes, de Caxias, da Princesa Isabel e de Get\u00falio Vargas e aos monumentos que a simbolizam nada mais s\u00e3o, portanto, do que ataques ao Brasil e \u00e0 sua unidade, \u00e0 sua hist\u00f3ria e ao seu povo.<\/p>\n<p>O identitarismo racialista, do qual se revestem os v\u00e2ndalos e seus defensores, propugna o divisionismo \u00e9tnico em vez da uni\u00e3o patri\u00f3tica, enfraquecendo a capacidade da Na\u00e7\u00e3o de atingir seus objetivos aut\u00eanticos.<\/p>\n<p>Atenta contra a centralidade da Quest\u00e3o Nacional e a import\u00e2ncia da hist\u00f3ria e dos valores p\u00e1trios, visando liquidar as bases de um projeto nacional \u00e0 altura das nossas potencialidades.<\/p>\n<p>Os ingleses que se resolvam sozinhos com o seu passado de pot\u00eancia escravocrata, se assim quiserem. As figuras hist\u00f3ricas brasileiras mencionadas nada t\u00eam a ver com Edward Colston, servindo, ent\u00e3o, como referenciais para a emancipa\u00e7\u00e3o nacional brasileira.<\/p>\n<p>Os monumentos que as homenageiam devem ser preservados e reverenciados como marcos da constru\u00e7\u00e3o nacional, sem a qual n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel o verdadeiro e necess\u00e1rio combate ao racismo e ao legado da escravid\u00e3o no Brasil.<\/p>\n<p><em>*Mestre e doutorando em Ci\u00eancia Pol\u00edtica na Universidade Federal Fluminense (UFF).<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Felipe Maruf Quintas* A erup\u00e7\u00e3o de protestos de cunho identit\u00e1rio-racialista em v\u00e1rios pa\u00edses\u00a0 nas \u00faltimas semanas teve, como um dos seus desdobramentos, a derrubada da est\u00e1tua do traficante de escravos Edward Colston (1636-1721) em Bristol, Inglaterra. 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