{"id":82567,"date":"2020-06-16T16:16:46","date_gmt":"2020-06-16T19:16:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/analise\/?p=82567"},"modified":"2020-09-07T14:37:12","modified_gmt":"2020-09-07T17:37:12","slug":"luiz-olintho-o-retorno-da-peste","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/luiz-olintho-o-retorno-da-peste\/","title":{"rendered":"LUIZ-OLINTHO\/O retorno da Peste"},"content":{"rendered":"<p><strong>Luiz-Olyntho Telles da Silva<\/strong><\/p>\n<p>A pandemia pegou-me de surpresa. N\u00e3o que ela tivesse surgido de repente, n\u00e3o. Sabe como \u00e9, voc\u00ea v\u00ea o mal, ao longe, e pensa que n\u00e3o tem nada a ver consigo, por\u00e9m, quando menos espera, ele est\u00e1 for\u00e7ando sua porta e n\u00f3s sem saber como nos defendermos de um inimigo invis\u00edvel.<\/p>\n<p>Quando a epidemia surgiu, l\u00e1 no Oriente, n\u00e3o parecia grande coisa. Aquele pessoal estava acostumado ao uso de m\u00e1scaras. O ar de suas cidades, diziam-nos, era t\u00e3o polu\u00eddo que o uso de prote\u00e7\u00e3o, para andar na rua, era praticamente obrigat\u00f3rio. Ent\u00e3o, usar m\u00e1scara para proteger-se de um v\u00edrus de gripe n\u00e3o tinha nada de extraordin\u00e1rio. Mas eis que, como uma onda, seguindo o caminho do retorno de Marco Polo, quando esteve na China, o v\u00edrus alcan\u00e7a a It\u00e1lia, desde o calcanhar at\u00e9 os grandes lagos, onde prolifera a ind\u00fastria da moda, e transforma-se em um tsunami alagando toda a Europa.<\/p>\n<p>O horror tomava conta do Velho Mundo. Uma ang\u00fastia come\u00e7a a apertar nosso peito. Os amigos que moram a\u00ed, como estariam? As not\u00edcias, em sua maioria, eram alarmantes, embora o contato telef\u00f4nico com os parentes fosse mais tranquilizador: frente ao assombroso n\u00famero de mortos, proclamado pelas as not\u00edcias, o sofrimento de um filho que estava l\u00e1, de um pai ou um irm\u00e3o em viagem de f\u00e9rias, devia-se apenas ao confinamento. Mas eis que uns conterr\u00e2neos, regressando de uma festa de casamento, em Miami, aterrissaram na Bahia doentes, contaminados. O v\u00edrus chin\u00eas chegara ao Brasil e, em poucos dias, a pandemia come\u00e7ava a devorar tamb\u00e9m os ga\u00fachos.<\/p>\n<p>Embora, pela idade, esteja no grupo de risco, pessoalmente, n\u00e3o me considero um velho. Acredito que esta quest\u00e3o et\u00e1ria tenha muito de subjetivo. N\u00e3o basta contar as voltas ao redor do sol. Ali\u00e1s, quando penso em quanto tempo ainda tenho de vida, costumava encontrar um limite na idade em que meu pai faleceu, e pensava nos anos que tinha pela frente, at\u00e9 alcan\u00e7\u00e1-lo, nos seus setenta e cinco anos; mas agora, com essa amea\u00e7a iminente, j\u00e1 n\u00e3o consigo pensar em anos. Cada mal-estar, cada dorzinha de garganta, mesmo sem febre, leva-me a contar os dias de incuba\u00e7\u00e3o deste Sars CoV-2. E, passando as dores, quando voltam, recome\u00e7o a contagem dos \u00faltimos dias. Assim, j\u00e1 n\u00e3o sei como contar a idade. Ora n\u00e3o sei se alcan\u00e7arei meu pai, o que antes parecia muito certo, ora tendo a acreditar que j\u00e1 o ultrapassei, mas a verdade \u00e9 que tenho pensado muito nele.<\/p>\n<p>Embora fosse bem humorado, com um olhar especial para ver o lado engra\u00e7ado das coisas, meu pai n\u00e3o era de falar muito sobre sua vida. Participou em duas revolu\u00e7\u00f5es e nunca disse uma palavra sobre isso. Uma \u00fanica vez ouvi, de um camarada de caserna dele, em uma visita breve a nossa casa, que ele era muito r\u00e1pido em montar e desmontar uma metralhadora INA. Mas, dele mesmo, nunca ouvi nada. Contudo, uma vez, j\u00e1 n\u00e3o lembro o motivo, contou-me que, ainda menino, ficara muito chocado ao ver, durante a Gripe Espanhola, as pessoas jogarem os cad\u00e1veres dos mortos da fam\u00edlia em uma carro\u00e7a que ia passando pela rua, de casa em casa. Talvez tivesse a\u00ed come\u00e7ado a preocupar-se com a morte. Sua curta descri\u00e7\u00e3o calou-me fundo. At\u00e9 hoje, quando lembro esse epis\u00f3dio, ainda visualizo a carro\u00e7a, com todos os seus detalhes: o carroceiro, fazendo as vezes de Caronte, num canto triste, de quem reza, repetindo os nomes dos bois, Vai Barroso, vai Pitanga, enquanto, com uma vara na m\u00e3o, ia fustigando os animais presos \u00e0 canga pelas cravelhas, as madeiras de cabre\u00fava, j\u00e1 sem cor, mas ainda perfumadas, os ferros enferrujados das travas e a portinhola de tr\u00e1s aberta, as rodas enormes, da altura da carro\u00e7a, rangendo no duro eixo de ip\u00ea, como se chorassem pelos cad\u00e1veres empilhados, uns por cima dos outros, indo alguns enrolados em mortalhas, outros na \u00faltima camisola. Por certo n\u00e3o era a melhor imagem para algu\u00e9m introduzir-se no tema, embora eu n\u00e3o saiba se h\u00e1 uma imagem que, para isso, seja melhor do que outra. Papai n\u00e3o tinha boas lembran\u00e7as da morte e, se dela n\u00e3o fugia, n\u00e3o a procurava. Lembro de sua frase repetida quando havia vel\u00f3rio: &#8211; Quem n\u00e3o \u00e9 visto, n\u00e3o \u00e9 lembrado! E n\u00e3o ia. Nas minhas entranhas algo apertava. Pontadas de medo, diziam-me. Acredito ter herdado um pouco desse medo e, confesso, os vel\u00f3rios sempre me deixam muito triste.<\/p>\n<p>Foi ent\u00e3o que me veio \u00e0 lembran\u00e7a este antigo conto sufi: \u00e9 a hist\u00f3ria de um homem que, caminhando nos arredodres de Bagd\u00e1, encontrou-se, de repente, com a Peste e, logo ap\u00f3s recuperar-se do susto, perguntou-lhe:<\/p>\n<p>&#8211; Onde voc\u00ea vai?<\/p>\n<p>A Peste respondeu-lhe, t\u00e3o r\u00e1pida quanto c\u00e1ustica:<\/p>\n<p>&#8211; Vou a Bagd\u00e1 matar dez mil pessoas.<\/p>\n<p>Dias depois, ambos voltaram a encontrar-se no caminho e o homem, indignado, queixa-se de ter sido enganado:<\/p>\n<p>&#8211; Dissestes-me que ias matar dez mil pessoas e matastes quarenta mil!<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o, disse a Peste. Matei s\u00f3 dez mil, como prometido, os demais morreram de medo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Luiz-Olyntho Telles da Silva A pandemia pegou-me de surpresa. N\u00e3o que ela tivesse surgido de repente, n\u00e3o. Sabe como \u00e9, voc\u00ea v\u00ea o mal, ao longe, e pensa que n\u00e3o tem nada a ver consigo, por\u00e9m, quando menos espera, ele est\u00e1 for\u00e7ando sua porta e n\u00f3s sem saber como nos defendermos de um inimigo invis\u00edvel. 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