{"id":82577,"date":"2020-06-22T12:10:23","date_gmt":"2020-06-22T15:10:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/analise\/?p=82577"},"modified":"2020-06-22T20:03:45","modified_gmt":"2020-06-22T23:03:45","slug":"jorge-barcellos-reflexoes-sobre-pandemia-e-politica-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/jorge-barcellos-reflexoes-sobre-pandemia-e-politica-no-brasil\/","title":{"rendered":"JORGE BARCELLOS\/Reflex\u00f5es sobre pandemia e pol\u00edtica no Brasil"},"content":{"rendered":"<p>O recente artigo de Larry Diamont, publicado pela <em>Foreigh Affairs<\/em> (dispon\u00edvel em\u00a0 <a href=\"http:\/\/fam.ag\/3ddmozz\">http:\/\/fam.ag\/3ddmozz<\/a>) no \u00faltimo dia 13 de junho, merece aten\u00e7\u00e3o dos brasileiros.<\/p>\n<p>O autor \u00e9 membro s\u00eanior da Hoover Institution e do Freeman Spogli Institute for International Studies da Stanford University e autor de \u201cVentos ruins: salvando a democracia da raiva russa\u201d e \u201cAmbi\u00e7\u00e3o Chinesa e Complac\u00eancia Americana\u201d. Nascido em dois de outubro de 1951, o soci\u00f3logo pol\u00edtico americano \u00e9 um dos principais estudiosos contempor\u00e2neos do campo dos estudos sobre democracia. Ainda que seja um pesquisador de um <em>think tank<\/em> de pol\u00edticas conservadoras, suas ideias sobre politica e democracia merecem aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Diamont est\u00e1 preocupado com as rela\u00e7\u00f5es entre a pandemia e o surgimento de novos autoritarismos. \u00a0Ele lembra que no final de mar\u00e7o, o l\u00edder filipino Rodrigo Duterte lan\u00e7ou uma lei que lhe concedeu amplos poderes de emerg\u00eancia para combater o novo coronav\u00edrus, como realocar o or\u00e7amento nacional como julgasse conveniente e dirigir pessoalmente hospitais. Diamont lembra com aten\u00e7\u00e3o que ele berrou &#8220;N\u00e3o desafie o governo, voc\u00ea vai perder&#8221; em um discurso amea\u00e7ador na televis\u00e3o.<\/p>\n<p>Na mesma linha, logo em seguida, o primeiro-ministro h\u00fangaro, Viktor Orban, aprovou uma legisla\u00e7\u00e3o de emerg\u00eancia ainda mais abrangente que lhe permitia suspender leis existentes, decretar novas e prender indiv\u00edduos considerados delituosos por promover &#8220;falsidades&#8221; sobre a pandemia ou &#8220;obstru\u00e7\u00e3o&#8221;. Diz Diamont: \u201cas tomadas de poder devido \u00e0 pandemia de COVID-19 de Duterte e Orban eram especialmente descaradas, mas estavam longe de serem as \u00fanicas tentativas de l\u00edderes ou partidos autorit\u00e1rios de usar a atual crise da sa\u00fade como uma desculpa para reduzir as liberdades civis ou minar o estado de direito\u201d.<\/p>\n<p>Esse ponto \u00e9 fundamental no pensamento do autor. A constata\u00e7\u00e3o de que a pandemia \u00e9 um risco para a democracia n\u00e3o \u00e9 exclusiva de Diamont, j\u00e1 que, outros autores de esquerda, como Slavoj Zizek e Giorgio Agamben j\u00e1 apontaram essa caracter\u00edstica emergente na politica. A novidade \u00e9 o ponto ser defendido inclusive por soci\u00f3logos conservadores como Diamont, numa das mais prestigiosas &#8211; e tamb\u00e9m considerada conservadora &#8211; revista de pol\u00edtica internacional.<\/p>\n<p>A an\u00e1lise de Diamont \u00e9 interessante por fazer dividir o mapa dos regimes p\u00f3s-pandemia em regimes autorit\u00e1rios como os de Bangladesh, Bielorr\u00fassia, Camboja, China, Egito, El Salvador, S\u00edria, Tail\u00e2ndia, Turquia, Uganda, Venezuela e Vietn\u00e3 que chegaram a prender cr\u00edticos, trabalhadores da sa\u00fade, jornalistas e membros da oposi\u00e7\u00e3o durante a pandemia e os regimes democr\u00e1ticos sob ataque, sob ataque, como Brasil, \u00cdndia e Pol\u00f4nia, onde l\u00edderes populistas ou partidos no poder de direita aproveitam a crise para aumentar seu poder ou enfraquecer a oposi\u00e7\u00e3o. Diz Diamond \u201clevar\u00e1 algum tempo, provavelmente anos, at\u00e9 que todo o impacto da pandemia na democracia em todo o mundo possa ser julgado. A extens\u00e3o do dano depender\u00e1 de quanto tempo dura a crise da sa\u00fade e de quanto prejudica as economias e as sociedades. Tamb\u00e9m depender\u00e1 de como as democracias se saem, em compara\u00e7\u00e3o com as autocracias, para conter os efeitos econ\u00f4micos e a sa\u00fade do v\u00edrus, de quem ganha a corrida para uma vacina e, de maneira mais ampla, de quem &#8211; China, Estados Unidos ou pa\u00edses democr\u00e1ticos coletivamente &#8211; \u00e9 visto como o fornecedor mais generoso e eficaz de bens p\u00fablicos globais para combater a pandemia\u201d.<\/p>\n<p>Ao localizar o Brasil entre as democracias que est\u00e3o sob ataque, Diamond nos fornece uma pista importante para avaliar o governo Jair Bolsonaro. Democracia sob ataque de quem? Aqui pelo menos, a resposta \u00f3bvia \u00e9: do pr\u00f3prio presidente, que insatisfeito com o diagn\u00f3stico dos especialistas da necessidade de isolamento, luta para que a atividade econ\u00f4mica retorne a normalidade \u201cCNPJs podem morrer\u201d, afirma. Isso tamb\u00e9m significa que o julgamento de seu governo n\u00e3o \u00e9 feito apenas pela oposi\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m repercute internacionalmente e depende de quanto tempo durar\u00e1 a pandemia no Brasil. Segundo especialistas, com o andamento das atuais pol\u00edticas, estamos na subida da onda e novos repiques poder\u00e3o ocorrer como ocorreu no Rio Grande do Sul, onde na primeira quinzena do m\u00eas de junho, os casos aumentaram e o governador Eduardo Leite e o prefeito de Porto Alegre Nelson Marchezan Jr teve de adotar medidas restritivas. Para as outras refer\u00eancias apontadas por Diamont, o Brasil n\u00e3o faz competi\u00e7\u00e3o: est\u00e1 longe de descobrir por si pr\u00f3prio uma vacina, apesar da contribui\u00e7\u00e3o inestim\u00e1vel de seus centros de pesquisa, mas n\u00e3o pode ser desprezado porque contribui para uma, oferecendo sua popula\u00e7\u00e3o como cobaia de testes: quem descobrir a vacina ter\u00e1 tido ajuda do Brasil. Por outro lado, ao contr\u00e1rio das grandes pot\u00eancias, n\u00e3o \u00e9 fornecedor, mas consumidor de insumos para o combate a pandemia, exceto se, adaptar a sua ind\u00fastria farmac\u00eautica para a produ\u00e7\u00e3o de grandes quantidades de vacina quando adquirir os direitos.<\/p>\n<p>Diamond acerta quando aponta que o crit\u00e9rio para avaliar o car\u00e1ter democr\u00e1tico dos pa\u00edses na pandemia depende da capacidade das institui\u00e7\u00f5es em circunscreverem os enormes aumentos de poder governamental. Essa tens\u00e3o existe no Brasil, com as prerrogativas que vem, ainda que lentamente, na opini\u00e3o dos cr\u00edticos, com a assun\u00e7\u00e3o de prerrogativas do Supremo Tribunal Federal, seja no encaminhamento de resolu\u00e7\u00f5es que garantem autonomia de governos estaduais e municipais no controle da pandemia ou quest\u00f5es envolvendo inqu\u00e9rito sobre as Fake News, que avan\u00e7am em atores ligados ao presidente. Essa atua\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m envolve a capacidade do Congresso Nacional em resistir \u00e0s iniciativas do Prefeito, como o fez recentemente com a recusa do projeto que autorizava maior interfer\u00eancia do ministro da Educa\u00e7\u00e3o na elei\u00e7\u00e3o de reitores de universidades brasileiras, que foi simplesmente devolvido a presid\u00eancia pelo Senado. As institui\u00e7\u00f5es n\u00e3o s\u00e3o perfeitas, mas no seu limite, tem dado demonstra\u00e7\u00f5es de resist\u00eancia no Brasil, e isso introduz um exemplo n\u00e3o citado por Diamont.<\/p>\n<p>Diamont defende que h\u00e1 poucas raz\u00f5es para se tranquilizar sobre as perspectivas globais para a democracia e muitas raz\u00f5es para se preocupar \u201cA pandemia nos atingiu durante o per\u00edodo mais dif\u00edcil da democracia desde o final da Guerra Fria, e os regimes autorit\u00e1rios e pretensos autorit\u00e1rios n\u00e3o perderam tempo em explor\u00e1-la para ampliar e fortalecer seu poder. Pode haver mais perigo no horizonte, \u00e0 medida que os governos democr\u00e1ticos pesam os dilemas do uso de novas tecnologias de vigil\u00e2ncia para combater o v\u00edrus e a realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es regulares em meio a uma pandemia\u201d. O argumento de Diamont \u00e9 importante para checagem da perspectiva brasileira. Em nosso caso, o per\u00edodo hist\u00f3rico de refer\u00eancia \u00e9 o regime autorit\u00e1rio, onde de 1964 a 1977 o pais viveu seu pior regime de governo, com centraliza\u00e7\u00e3o do poder e autoritarismo. Pensava-se que n\u00e3o havia perigo ap\u00f3s a promulga\u00e7\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, mas a elei\u00e7\u00e3o de um governo de direita com Jair Bolsonaro, segundo seus cr\u00edticos, vem representando uma amea\u00e7a \u00e0 democracia no pa\u00eds. Por exemplo, a recente iniciativa de censura a um cartunista pela publica\u00e7\u00e3o de uma charge em que criticava o governo \u00e9 apontada por cr\u00edticos como elemento que comprova a inten\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria e antidemocr\u00e1tica do atual governo. Por outro lado, ao contr\u00e1rio do que o argumento de Diamont sugere, o caso brasileiro n\u00e3o se revela autorit\u00e1rio pela ado\u00e7\u00e3o de novas tecnologias de controle.<\/p>\n<p>Minha tese \u00e9 que no Brasil, houve uma dissid\u00eancia na defesa da tecnologia: enquanto Diamond afirma que a tecnologia \u00e9 adotada por governos que querem combater a pandemia, o caso do governo brasileiro \u00e9 o contr\u00e1rio, ele n\u00e3o quer combater na verdade, j\u00e1 que adota medica\u00e7\u00e3o de refer\u00eancia, a cloroquina, j\u00e1 rejeitada por \u00f3rg\u00e3os internacionais e luta contra o isolamento e a forma de divulga\u00e7\u00e3o de dados. Enquanto que para o governo federal, tecnologia e informa\u00e7\u00e3o s\u00e3o o que menos importa, a dissid\u00eancia se d\u00e1 em rela\u00e7\u00e3o a estados e munic\u00edpios, que tem o interesse real de combater a pandemia e precisam da tecnologia, logo da informa\u00e7\u00e3o para isso ao menos para o controle da taxa de circula\u00e7\u00e3o para efeitos de tomada de decis\u00e3o quanto a medidas sanit\u00e1rias.<\/p>\n<p>Estamos numa espiral descendente da democracia? Isso depende do sucesso do presidente em sua politica. Se houver resist\u00eancia das institui\u00e7\u00f5es, tenderemos a ficar numa linha reta onde a cada a\u00e7\u00e3o corresponder\u00e1 uma rea\u00e7\u00e3o. O problema maior que vejo \u00e9 o cansa\u00e7o das institui\u00e7\u00f5es, da sociedade, porque as iniciativas contra democr\u00e1ticas s\u00e3o di\u00e1rias e a rea\u00e7\u00e3o \u00e9 dificultada pelo contexto da pandemia que impede a popula\u00e7\u00e3o ir as ruas para se manifestar.<\/p>\n<p>As pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es, com suas modalidades de trabalho on-line, sess\u00f5es on-line, ainda reagem de forma lenta \u00e0s iniciativas do presidente. Se a democracia decrescer, poder\u00e1 ser revertida, como diz Diamont, \u201cmas exigir\u00e1 sociedades civis mobilizadas, gest\u00e3o democr\u00e1tica eficaz da crise da sa\u00fade e uma renova\u00e7\u00e3o da lideran\u00e7a\u201d. Isso, em termos nacionais, significa que projetos sociais democr\u00e1ticos emplaquem nas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, mas isso depende tamb\u00e9m do avan\u00e7o da direita em nosso pais. Ela se revelou presente nos 30% da popula\u00e7\u00e3o que apoiam de forma incondicional o presidente. A pergunta \u00e9: entramos na pandemia com esse percentual, mas \u00e9 garantido que ele se mantenha at\u00e9 o final da pandemia?<\/p>\n<p>Diamont lembra que a democracia n\u00e3o vacilou com a pandemia, ela vinha declinando nos \u00faltimos 14 anos segundo os estudos da Freedom House, uma eros\u00e3o de direitos pol\u00edticos e liberdades civis respons\u00e1veis pela revers\u00e3o do padr\u00e3o dos 15 anos anteriores da Guerra Fria \u201cEnquanto golpes militares e executivos autorit\u00e1rios se tornaram mais raros, mais e mais l\u00edderes eleitos gradualmente evisceraram as democracias de dentro. Os pol\u00edticos que inicialmente chegaram ao poder por meio de elei\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas &#8211; como Orban, na Hungria, Hugo Ch\u00e1vez, na Venezuela, Recep Tayyip Erdogan, na Turquia, e Sheikh Hasina, em Bangladesh \u2013 cooptaram tribunais e outras institui\u00e7\u00f5es independentes, al\u00e9m de fazerem cerco \u00e0 imprensa, a oposi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a sociedade civil; sem falar que procuraram subverter ou impedir as elei\u00e7\u00f5es que poderiam remov\u00ea-los.\u201d Por essa raz\u00e3o, a corros\u00e3o da democracia ampliou-se em todo o mundo e ao mesmo tempo e menos pa\u00edses fizeram a transi\u00e7\u00e3o para a democracia.<\/p>\n<p>Diamont aponta que de 2015 a 2019 mais pa\u00edses fizeram a transi\u00e7\u00e3o da democracia para a autocracia, termo que o autor usa para definir os regimes onde h\u00e1 um \u00fanico detentor de poder.\u00a0 Autocracia vem do grego auto (por si pr\u00f3prio) e kratos (poder), o poder por si pr\u00f3prio, isto \u00e9, de um poder que est\u00e1 concentrado em um \u00fanico governante, podendo ser este um l\u00edder, um comit\u00ea, um partido, uma assembleia, etc. A pergunta \u00e9: essa defini\u00e7\u00e3o se aplica ao governo Jair Bolsonaro? Entendo que ele quer ser autocr\u00e1tico, ter controle absoluto em todos os n\u00edveis do Estado, mas ele n\u00e3o consegue pelo funcionamento ainda do sistema de pesos e contrapesos. V\u00e1rias vezes j\u00e1 manifestou seu desejo pela ditadura militar, brandiu de forma autorit\u00e1ria em reuni\u00f5es ministeriais, mas a sa\u00edda autorit\u00e1ria, felizmente, ainda n\u00e3o se efetivou. Ainda que o termo autocracia utilizado pelo autor n\u00e3o tenha funcionalidade para descrever a concentra\u00e7\u00e3o ou controle do poder estatal, serve para avaliar o seu quanto de legitimidade democr\u00e1tica. O governo de Jair Bolsonaro n\u00e3o \u00e9 autocr\u00e1tico ainda, mas com certeza, alimenta um desejo explicito por s\u00ea-lo. Entretanto, n\u00e3o podemos negar a import\u00e2ncia do levantamento de Diamond, j\u00e1 que aponta que a popula\u00e7\u00e3o de pa\u00edses democr\u00e1ticos caiu justamente neste ano, 2020, a primeira vez que chega a menos de 50% desde o final da Guerra Fria, e que entre elas, est\u00e1 a decad\u00eancia de democracias que se pensava consolidada como a \u00cdndia, Israel e Pol\u00f4nia. Estaria o Brasil nesta linha e os efeitos do governo Jair Bolsonaro se manifestar\u00e3o em breve? Dif\u00edcil dizer. Ou estar\u00edamos, como aponta Diamond, alinhados ao caso de degrada\u00e7\u00e3o mais sutil e pouco notados da democracia como \u00e9 o caso da Cor\u00e9ia do Sul? Diamond lembra o constante decl\u00ednio na qualidade da democracia nos Estados Unidos, cujo Presidente Trump oscila entre apoiar formalmente Jair Bolsonaro como aliado, como o fez no inicio do mandato, ou desprezar totalmente, como fez com a pirataria que realizou em cargas destinadas ao Brasil para o combate a pandemia.<\/p>\n<p>A ideia \u00e9 Diamond inspira \u00e9 que o COVID-19 chegou ao pais quando os brasileiros cr\u00edticos come\u00e7aram a constatar a amea\u00e7a \u00e0 democracia representada pelo governo Jair Bolsonaro. Se a crise da pandemia ir\u00e1 fazer com que o presidente siga o caminho de Erdogan e Orban, consolidando poderes autorit\u00e1rios \u00e9 dif\u00edcil dizer, pois dependem do sucesso de suas campanhas contra seus cr\u00edticos, m\u00eddia e oposi\u00e7\u00e3o, no caso \u00faltimo, o PT e o PSOL. Vivemos um tempo de tend\u00eancia democr\u00e1tica negativa? Depende do sucesso das pr\u00e1ticas repressivas, o que parece, ainda n\u00e3o se consolidou. Mas a pandemia ainda n\u00e3o acabou e o governo muito menos. Mas o que ainda o governo pode fazer? A implanta\u00e7\u00e3o de sistemas de vigil\u00e2ncia, na linha defendida por Diamond, n\u00e3o aconteceu a n\u00edvel federal, apenas em n\u00edvel dos estados e munic\u00edpios e nada leva a crer que seja algo al\u00e9m de diagnosticar o percentual de pessoas nas ruas das cidades seja promovido de forma nacional. A privacidade est\u00e1 amea\u00e7ada? Provavelmente n\u00e3o, j\u00e1 que as empresas, ao menos no Rio Grande do Sul, declararam que os aplicativos est\u00e3o localizando a partir de crit\u00e9rios gerais e dando indica\u00e7\u00f5es aos governos. \u00c9 a mesma ferramenta criticada por Diamond, mas ainda est\u00e1 em termos n\u00e3o ofensivos, por assim dizer \u201dOs aplicativos geralmente funcionam ao acessar a localiza\u00e7\u00e3o GPS de um telefone e seu alcance de comunica\u00e7\u00e3o Bluetooth. Quando algu\u00e9m que testou positivo para COVID-19 entra em contato com outras pessoas, o software alerta esses contatos e os aconselha a se auto isolarem. Com a devida supervis\u00e3o democr\u00e1tica e restri\u00e7\u00f5es, esses aplicativos podem ser armas poderosas na luta para controlar o v\u00edrus. Mas sem esses limites, eles podem ser usados \u200b\u200bpara espionar cidad\u00e3os particulares e expandir o controle social\u201d, diz Diamond.<\/p>\n<p>O temor \u00e9 que aconte\u00e7a no Brasil o que pode acontecer na \u00cdndia, onde muitos temem que o aplicativo de rastreamento possa se tornar uma ferramenta de vigil\u00e2ncia em massa em um governo j\u00e1 empenhado em atropelar as liberdades civis. Ainda que os ataques do governo Jair Bolsonaro sejam semelhantes aos de Modi, primeiro-ministro eleito em 2014 na \u00cdndia, em termos de liberdade de imprensa, toler\u00e2ncia religiosa, independ\u00eancia judicial e respeito \u00e0 dissid\u00eancia, no Brasil a cada ataque houve rea\u00e7\u00f5es correspondentes: quando o governo atacou um chargista, imediatamente rea\u00e7\u00f5es no pais foram articuladas, o STF mant\u00e9m autonomia e cobra atitudes do Presidente, enfim, no Brasil ainda o vi\u00e9s autorit\u00e1rio testa os limites das institui\u00e7\u00f5es. Em ambos os pa\u00edses, h\u00e1 o perigo da narrativa que \u00e9 assumida pelos seguidores extremistas e tamb\u00e9m tolerada pelo presidente brasileiro e pelo primeiro-ministro indiano. Diz Diamond \u201cModi usou a crise do COVID-19 para centralizar a autoridade sobre as receitas \u00e0 custa dos estados e parlamentos da \u00cdndia e para retirar o controle dos governos estaduais dos partidos da oposi\u00e7\u00e3o\u201d. No Brasil isso n\u00e3o aconteceu porque muitos governadores e prefeitos tinham for\u00e7a pol\u00edtica para se opuser as diretrizes nacionais, e assim desobedeceram a press\u00e3o para liberar a economia em seus estados e recusaram tratamentos propostos como o uso da cloroquina. Isso n\u00e3o significa que o governo seja indiferente \u00e0 informa\u00e7\u00e3o. Recentemente nas redes sociais, servidores p\u00fablicos do minist\u00e9rio da sa\u00fade alertaram para um novo manual de \u00e9tica que cerceia as manifesta\u00e7\u00f5es de servidores nas redes sociais. Mesmo usando como o argumento de avalia\u00e7\u00e3o da progress\u00e3o, os servidores entendem que revela vigil\u00e2ncia sobre a vida privada do servidor, algo inaceit\u00e1vel no contexto democr\u00e1tico. No caso indiano, diz Diamond \u201cuma suspeita razo\u00e1vel persiste e s\u00f3 pode diminuir se a \u00cdndia fizer o que todas as democracias devem fazer &#8211; nomear um ombudsman independente para garantir que as regras sobre privacidade, coleta de dados, os aplicativos e tecnologias de rastreamento de doen\u00e7as devem ser fundamentados em leis, deliberadas publicamente, transparentes, limitadas \u00e0 dura\u00e7\u00e3o da emerg\u00eancia e restritas aos requisitos espec\u00edficos de combate ao v\u00edrus.\u201d.<\/p>\n<p>Outro ponto apontado por Diamond relaciona-se diretamente com a situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica do Brasil: o coronavirus tornou a realiza\u00e7\u00e3o das elei\u00e7\u00f5es municipais um enigma log\u00edstico \u201cMuitas democracias t\u00eam que decidir o que representa a maior amea\u00e7a: realizar elei\u00e7\u00f5es dentro do prazo, quando a oposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode fazer campanha, os trabalhadores e os monitores podem n\u00e3o aparecer, e um grande n\u00famero de pessoas n\u00e3o se sente seguro indo \u00e0s urnas; ou adiar elei\u00e7\u00f5es e perpetuar no poder governos impopulares que os eleitores poderiam ter expulsado.\u201d Foi o que aconteceu com o debate sobre as elei\u00e7\u00f5es municipais no Brasil, onde se oscilou entre preservar a realiza\u00e7\u00e3o em 2020 ou transferir para 2021, fazendo um governo \u201cbi\u00f4nico\u201d. A solu\u00e7\u00e3o encontrada foi atrasar ao m\u00e1ximo o calend\u00e1rio eleitoral, que termina no final do ano, e n\u00e3o tr\u00eas meses antes, como de costume. Diamond traz a informa\u00e7\u00e3o de que de acordo com a IDEA, uma organiza\u00e7\u00e3o intergovernamental internacional que apoia a democracia em todo o mundo, mais de 60 pa\u00edses e territ\u00f3rios adiaram as elei\u00e7\u00f5es no n\u00edvel nacional ou (muito mais frequentemente) subnacional devido \u00e0 pandemia. Diamond cita a recomenda\u00e7\u00e3o da funda\u00e7\u00e3o Kofi Annan de que qualquer decis\u00e3o de adiamento de elei\u00e7\u00f5es deve ser acordada por governo e oposi\u00e7\u00e3o e comunicadas ao p\u00fablico, quer dizer, atrasos devem ser fundamentos e leis e proporcionais ao perigo do v\u00edrus.<\/p>\n<p>O pais n\u00e3o sabe como estar\u00e1 no final do ano para realizar as elei\u00e7\u00f5es. H\u00e1 estimativas que a pandemia no Brasil continue pelo ano de 2021. O motivo \u00e9 o repique provocado pelo \u201cabre e fecha\u201d da economia pelos governantes. Mas ser\u00e1 poss\u00edvel fazer campanhas pol\u00edticas organizadas ainda no segundo semestre de 2020? Isso depende do est\u00e1gio da pandemia, se numa curva ascendente ou descendente. Outra op\u00e7\u00e3o \u00e9 a testagem politica das redes sociais: ser\u00e1 suficiente o dom\u00ednio da internet para obter sucesso nas elei\u00e7\u00f5es? O modelo que elegeu Jair Bolsonaro, um presidente que n\u00e3o participou de debates e chegou \u00e0 presid\u00eancia pela for\u00e7a das redes de whatsapp se repetir\u00e1? \u00c9 dif\u00edcil dizer, j\u00e1 que a sociedade est\u00e1 mais consciente quanto as Fake News e parte da base de sustenta\u00e7\u00e3o das redes de whatsapp da direita foi derrubada. Um exemplo das possibilidades de rea\u00e7\u00e3o vem do fato de que partidos de oposi\u00e7\u00e3o venceram as elei\u00e7\u00f5es municipais de Praga em 2018 e em Budapeste em 2019. Diz Diamond: \u201cMesmo na aus\u00eancia de uma perturba\u00e7\u00e3o eleitoral nacional, campanhas municipais semelhantes que envolvem quest\u00f5es pr\u00e1ticas e transcendem divis\u00f5es pol\u00edticas podem limitar a capacidade dos autocratas de consolidar o poder ap\u00f3s a pandemia. A opini\u00e3o p\u00fablica tamb\u00e9m pode ajudar a defender os limites desgastados da democracia\u201d. Mesmo pa\u00edses de grande vi\u00e9s autorit\u00e1rio, como Filipinas, sofreram derrotas, diz Diamont, onde foi enviado ao Congresso projeto para autorizar o presidente a assumir temporariamente o controle de qualquer empresa p\u00fablica ou privada. A resist\u00eancia do Congresso e do p\u00fablico for\u00e7ou uma linguagem muito mais restrita.<\/p>\n<p>Diamond, como bom americanista, afirma que a recupera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica global depende da a\u00e7\u00e3o dos&#8230; Estados Unidos!. Entendo que a hip\u00f3tese do autor, que coloca a perspectiva em torno do comportamento dos EUA e China \u00e9 uma reminisc\u00eancia da bipolariza\u00e7\u00e3o da Guerra Fria. Ap\u00f3s a perda de hegemonia da URSS, quem veio para ficar em seu lugar? A eleva\u00e7\u00e3o da China a parceiro mundial dos EUA n\u00e3o \u00e9 exclusiva de Diamont, j\u00e1 que Branko Milanovic, em Capitalismo sem rivais, o futuro do sistema que domina o mundo (Todavia, 2020) tamb\u00e9m parte dessa mesma tese. Para Diamond, a China est\u00e1 usando deliberadamente a pandemia para destruir a governan\u00e7a democr\u00e1tica e mostrar sua capacidade de lidar com emerg\u00eancias p\u00fablicas \u201cIronicamente, a \u201coutra\u201d sociedade chinesa &#8211; Taiwan &#8211; exp\u00f4s de maneira v\u00edvida a mentira de que uma governan\u00e7a competente em uma pandemia exige a extin\u00e7\u00e3o da liberdade\u201d. H\u00e1 diversos pa\u00edses como Austr\u00e1lia, Alemanha, Israel, Jap\u00e3o, Nova Zel\u00e2ndia e Cor\u00e9ia do Sul que tiveram bom desempenho em conter o v\u00edrus \u201cOs governos bem-sucedidos responderam cedo e atentamente, com testes e rastreamento de contatos generalizados, e eles se comunicaram com seus p\u00fablicos de maneira transparente e coordenada, colocando os profissionais de sa\u00fade em primeiro plano.\u201d<\/p>\n<p>Diamond critica os EUA justamente nesse ponto, capacidade de rea\u00e7\u00e3o, que foi decepcionante nos Estados Unidos. E o pior, como o presidente Jair Bolsonaro \u00e9 devoto seguidor do presidente americano, a trag\u00e9dia \u00e9 que estamos logo atr\u00e1s em n\u00famero de mortes. Ambos compartilharam as mesmas atitudes \u201cdesrespeitou rotineiramente imperativos elementares como usar m\u00e1scaras, respeitar a ci\u00eancia, confiar na lideran\u00e7a da sa\u00fade p\u00fablica e n\u00e3o promover curas de vodu. O dano tem sido incalcul\u00e1vel &#8211; n\u00e3o apenas na vida americana, mas tamb\u00e9m na estima global pela democracia americana e, portanto, pela pr\u00f3pria democracia.\u201d N\u00e3o \u00e9 a descri\u00e7\u00e3o exata do que aconteceu no Brasil?<\/p>\n<p>Na verdade \u00e9 o contr\u00e1rio do que prev\u00ea Diamond. A recupera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica global depende em grande parte da recupera\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica nos diversos pa\u00edses que est\u00e3o com a democracia sob amea\u00e7a. N\u00e3o s\u00e3o os EUA que devem manter a casa em ordem, o que os EUA faz, o que o autor n\u00e3o menciona \u00e9 que a li\u00e7\u00e3o de casa americana\u00a0 &#8211; o aumento dos suprimentos de ventiladores e equipamentos de prote\u00e7\u00e3o \u2013 \u00e9 feita a custa de&#8230;pirataria de governo!. N\u00e3o \u00e9 de um pais sem uma lideran\u00e7a nacional de vis\u00e3o estrat\u00e9gica, que os EUA n\u00e3o t\u00eam como reconhece Diamond, de que depende o retorno da democracia global. Ela depende da rea\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es afetadas por l\u00edderes autorit\u00e1rios nos demais pa\u00edses \u201cO governo dos EUA deve n\u00e3o apenas estimular seu povo a agir com responsabilidade, mas tamb\u00e9m liderar o esfor\u00e7o internacional para distribuir equipamentos de prote\u00e7\u00e3o e &#8211; \u00e0 medida que estiverem dispon\u00edveis &#8211; vacinas e medicamentos. Ent\u00e3o, quando o coronav\u00edrus for derrotado, os Estados Unidos dever\u00e3o retomar sua lideran\u00e7a nas democracias globais em defesa da liberdade e contra o autoritarismo, a corrup\u00e7\u00e3o e o bullying\u201d, diz Diamond.\u00a0 Francamente, com Donald Trump na Presid\u00eancia algu\u00e9m acredita que esses objetivos ser\u00e3o alcan\u00e7ados? \u00c9 claro que n\u00e3o, depende fundamentalmente, das demais institui\u00e7\u00f5es americanas.<\/p>\n<p>O mesmo vale para o Brasil, onde suas institui\u00e7\u00f5es tem a grande fun\u00e7\u00e3o de reorientar a balan\u00e7a da democracia. Se os EUA deixarem de piratear produtos de prote\u00e7\u00e3o destinados ao Brasil j\u00e1 ser\u00e1 uma grande coisa. Se o fim da Guerra Fria representou a decad\u00eancia da URSS no cen\u00e1rio mundial e a disputa de seu lugar de poder por outras grandes pot\u00eancias europeias e asi\u00e1ticas, agora parece que a pandemia representa o decl\u00ednio dos EUA no cen\u00e1rio mundial n\u00e3o mais bipolar, mas multipolar. E nesse sentido, a Am\u00e9rica Latina, como a \u00c1sia, poder\u00e1 disputar espa\u00e7o em condi\u00e7\u00f5es melhores no cen\u00e1rio de poder internacional. Mas para isso, a \u00faltima li\u00e7\u00e3o da pandemia \u00e9, com certeza, que os cidad\u00e3os precisam aprender a votar melhor.<\/p>\n<p><strong>Jorge Barcellos<\/strong> \u00e9 historiador, Mestre e Doutor em Educa\u00e7\u00e3o pela UFRGS. \u00c9 autor de\u00a0 Educa\u00e7\u00e3o e Poder Legislativo (Aedos Editora, 2014) O Tribunal de Contas e a Educa\u00e7\u00e3o Municipal (Editora Fi, 2017) e A impossibilidade do real: introdu\u00e7\u00e3o ao pensamento de Jean Baudrillard (Editora Homo Pl\u00e1sticus,2018). \u00c9 colaborador de Sul21, Le Monde Diplomatique Brasil, Jornal do Brasil, Folha de S\u00e3o Paulo e do Jornal O Estado de Direito. Mant\u00e9m a p\u00e1gina jorgebarcellos.pro.br.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O recente artigo de Larry Diamont, publicado pela Foreigh Affairs (dispon\u00edvel em\u00a0 http:\/\/fam.ag\/3ddmozz) no \u00faltimo dia 13 de junho, merece aten\u00e7\u00e3o dos brasileiros. O autor \u00e9 membro s\u00eanior da Hoover Institution e do Freeman Spogli Institute for International Studies da Stanford University e autor de \u201cVentos ruins: salvando a democracia da raiva russa\u201d e \u201cAmbi\u00e7\u00e3o [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":11,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-82577","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analiseopiniao"],"aioseo_notices":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[{"id":84742,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/rejeicao-a-messias-quando-o-senado-tensiona-os-limites-da-democracia\/","url_meta":{"origin":82577,"position":0},"title":"Rejei\u00e7\u00e3o a Messias: quando o Senado tensiona os limites da democracia","author":"An\u00e1lise &amp; Opini\u00e3o","date":"30 de abril de 2026","format":false,"excerpt":"CRISTIANO GOLDSCHMIDT A rejei\u00e7\u00e3o, pelo Senado, da indica\u00e7\u00e3o de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal n\u00e3o \u00e9 um fato trivial \u2014 e trat\u00e1-la como um simples exerc\u00edcio de independ\u00eancia institucional seria, no m\u00ednimo, ing\u00eanuo. 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