{"id":82607,"date":"2020-07-06T13:28:38","date_gmt":"2020-07-06T16:28:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/analise\/?p=82607"},"modified":"2020-07-06T13:28:38","modified_gmt":"2020-07-06T16:28:38","slug":"miriam-gusmao-o-velho-e-o-mar-da-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/miriam-gusmao-o-velho-e-o-mar-da-pandemia\/","title":{"rendered":"MIRIAM GUSM\u00c3O \/ O velho e o mar da pandemia"},"content":{"rendered":"<p>A incompet\u00eancia brasileira para enfrentar a pandemia do coronav\u00edrus produz a singular necessidade de prolongamento infinito da quarentena dos mais vulner\u00e1veis. Tende a ser a quarentena mais longa do mundo, por conta de um pa\u00eds que n\u00e3o teve a capacidade de fechar temporariamente a economia e a vida social, a fim de frear a velocidade de transmiss\u00e3o do v\u00edrus e torn\u00e1-lo control\u00e1vel. Governos irrespons\u00e1veis, empres\u00e1rios gananciosos e um grande contingente de pessoas ego\u00edstas, que se aglomeram teimosamente em locais p\u00fablicos e se recusam a usar a m\u00e1scara de prote\u00e7\u00e3o, sustentam o quadro desolador. Dentre tantas caracter\u00edsticas observ\u00e1veis nesse contexto, a situa\u00e7\u00e3o dos idosos vem \u00e0 tona, tanto como atestado da sociedade injusta e deca\u00edda em que vivemos, quanto como possibilidade de alguma reflex\u00e3o sobre a condi\u00e7\u00e3o humana. \u00c9 nesse sentido que tentamos descortinar, na incompletude deste breve texto, a condi\u00e7\u00e3o de uma pessoa idosa que vive sozinha numa casa ou apartamento de uma cidade brasileira e que se encontra em t\u00e3o prolongado isolamento social. Para isso, recorremos ao livro <em>O velho e o mar<\/em>, do escritor norte-americano Ernest Hemingway, situando a condi\u00e7\u00e3o do idoso brasileiro na pandemia como an\u00e1loga \u00e0 do velho pescador Santiago, isolado na imensid\u00e3o das \u00e1guas.<br \/>\nSantiago havia sido um grande pescador, admirado pelos seus colegas contempor\u00e2neos e pelo seu assistente Manol\u00edn, que desde crian\u00e7a aprendia o of\u00edcio com ele. Contudo, no presente da narrativa, fazia 84 dias que Santiago n\u00e3o conseguia pescar um peixe sequer. Passou a ser motivo de chacota dos jovens pescadores locais e perdeu o assistente, j\u00e1 que a fam\u00edlia de Manol\u00edn ordenara que ele fosse buscar o sustento, trabalhando com um profissional mais exitoso. Assim, Santiago lan\u00e7ou-se sozinho ao mar, e ao alto mar, em seu pequeno e desgastado barco. Enfrentando a f\u00faria das \u00e1guas, em absoluta solid\u00e3o, com uma das m\u00e3os machucada, o velho falava sozinho, o que poderia parecer caduquice, ao senso comum, mas que era um mon\u00f3logo &#8211; a conversa poss\u00edvel \u2013 e era puro pensamento sobre as mar\u00e9s da vida, os esfor\u00e7os, os infort\u00fanios e o sonho de vencer. O velho inventava sua estrat\u00e9gia de resist\u00eancia e sobrevivia, sem perder o objetivo de pescar, de superar o fracasso. Finalmente conseguiu capturar um peixe, mas foi um peixe enorme, gigante, realmente descomunal, que lhe exigiu redobrada habilidade, numa verdadeira luta de muitas e muitas horas. Conseguiu prender o peixe \u00e0 embarca\u00e7\u00e3o e come\u00e7ou a se dirigir para a costa, mas os tubar\u00f5es, pouco a pouco, devoraram sua presa e Santigo chegou \u00e0 costa apenas com a carca\u00e7a do peixe presa ao barco. Atracou, enrolou as velas, colocou o mastro nos ombros e, com muita dificuldade pelo cansa\u00e7o e o sofrimento do corpo, conseguiu chegar at\u00e9 a cabana humilde em que vivia, onde se jogou na cama r\u00fastica para dormir. Sobrou-lhe um amigo: Manol\u00edn veio com a caneca de caf\u00e9 quente e com amparo, dizendo-lhe que gostaria de voltar a ser seu assistente, que ainda tinha muito o que aprender com ele. \u201cVenceram-me, Manol\u00edn. A verdade \u00e9 que me venceram\u201d, disse o velho. E Manolin, que havia chorado de emo\u00e7\u00e3o quando buscou o caf\u00e9, tentou ajudar o amigo a ponderar: \u201cO peixe n\u00e3o; o peixe n\u00e3o te venceu\u201d.<br \/>\nMesmo que Hemingway, j\u00e1 no ano de lan\u00e7amento desse livro \u2013 1952 &#8211; tenha insistido que sua narrativa n\u00e3o era uma met\u00e1fora da vida real e sim uma simples hist\u00f3ria de um pescador e o mar, a obra sugere, inevitavelmente, uma reflex\u00e3o que a transcende. \u00c9 o segredo dos grandes textos, em que a aparente simplicidade sabe abrigar densidade e profundidade. As narrativas excelentes, por abordarem quest\u00f5es fundamentais da vida humana, s\u00e3o obras permanentemente abertas e conversam com diferentes circunst\u00e2ncias. Assim \u00e9 que podemos pensar, a partir de O velho e o mar, a solid\u00e3o de uma pessoa idosa, sozinha, no alto mar da pandemia do novo coronav\u00edrus. A chacota dos pescadores jovens diante da frustra\u00e7\u00e3o do velho pescador, desconsiderando tudo o que ele tenha realizado no passado, transporta-nos para o preconceito com os idosos nos dias atuais, que tem assumido a forma de grosseira intoler\u00e2ncia. S\u00e3o recorrentes nas redes sociais as gracinhas contra os velhos, as piadas de mau gosto e prec\u00e1ria elabora\u00e7\u00e3o. Nas ruas e locais p\u00fablicos das cidades, s\u00e3o frequentes os desaforos, os insultos, sempre usando pejorativamente a palavra velho(a). Muita gente j\u00e1 observou a cena de um idoso que, ao pagar uma conta numa lot\u00e9rica e, eventualmente, reclamar de algu\u00e9m que ali est\u00e1 tagarelando com a m\u00e1scara no queixo ou no pesco\u00e7o, ouvir como resposta uma frase usual: \u201cVai pra casa, v\u00e9io\u201d. Ou seja: os velhos que se recolham, que fiquem fechados em casa infinitamente, que sequer paguem contas ou deem uma pequena caminhada necess\u00e1ria \u00e0 sa\u00fade, enquanto os mais novos usufruam de tudo o que bem entendam e descumpram as medidas sanit\u00e1rias.<br \/>\nO descumprimento das medidas sanit\u00e1rias por pessoas jovens e de meia idade, que s\u00e3o as que, via de regra, aparecem nas fotografias e filmagens de locais de aglomera\u00e7\u00e3o, imp\u00f5e o prolongamento do confinamento das pessoas de grupos de risco, em especial os idosos. \u00c9 a irresponsabilidade de uns penalizando outros, numa sociedade em que o ego\u00edsmo impera e onde a empatia faz parte de um discurso vazio. Assim como o velho Santiago, na solid\u00e3o do alto mar, vivia a incerteza dos dias vindouros, os velhos do mar da pandemia no Brasil, sozinhos em suas quarentenas, vivem a dolorosa incerteza, sem saber at\u00e9 quando perdurar\u00e1 essa situa\u00e7\u00e3o. Todos os progn\u00f3sticos do t\u00e3o falado \u201cachatamento da curva\u201d do monitoramento dos cont\u00e1gios foram sucessivamente descartados e n\u00e3o h\u00e1 uma perspectiva confi\u00e1vel quanto a alguma data para que as portas possam ser abertas e os conv\u00edvios possam ser retomados com seguran\u00e7a.<br \/>\nComo o sol que queimava a pele indefesa de Santiago, ou os ventos que fustigavam seu rosto, as not\u00edcias e an\u00e1lises que colocam os velhos de hoje como estorvo, como despesa insuport\u00e1vel da Previd\u00eancia Social, a\u00e7oitam seus ouvidos e sua alma. Eles sabem que \u00e9 pura injusti\u00e7a e ingratid\u00e3o, pois trabalharam a vida toda e descontaram de seus vencimentos as contribui\u00e7\u00f5es que hoje comp\u00f5em sua geralmente parca aposentadoria. E muitos desses velhos ainda ajudam, com boa parte desses diminutos vencimentos, filhos desempregados ou netos. Como o pren\u00fancio de morte que os tubar\u00f5es, rondando o barco, representavam para Santiago, os crit\u00e9rios \u201ct\u00e9cnicos\u201d para uso dos insuficientes respiradores nos hospitais lotados s\u00e3o pren\u00fancios de morte para os velhos da quarentena. Os foli\u00f5es dos bares, das praias, dos parques, das festas nos casar\u00f5es, os agentes das aglomera\u00e7\u00f5es, ter\u00e3o a primazia, ser\u00e3o os escolhidos para viver, por serem mais jovens e pela aus\u00eancia de comorbidades. Ningu\u00e9m saber\u00e1 das riquezas das trajet\u00f3rias dos velhos da pandemia, do que fizeram e aconteceram, do que lutaram, do que superaram, do que ajudaram, do que cresceram, do que criaram, do que sonharam, do que ainda aguardavam. Seus anos de vida respondem a quesitos de descarte, s\u00e3o pontos negativos. As marcas da gen\u00e9tica e das viv\u00eancias em seus corpos nada mais s\u00e3o do que comorbidades. A consci\u00eancia de estar na \u00faltima etapa da vida, inerente \u00e0 velhice, que pode ser uma consci\u00eancia relativamente serena, que pode fazer parte dos pensamentos e sentimentos maduros, \u00e9 abalada pela possibilidade de um v\u00edrus mal combatido abreviar essa fase de modo abrupto.<br \/>\nMas h\u00e1 muitos velhos na quarentena a buscarem for\u00e7a interior que possa suplantar a mar\u00e9 ruim. H\u00e1 velhos que leem, que escrevem, que meditam, que cozinham, ou que regam plantas, ou que pintam, ou que moldam, ou que costuram, ou que criam objetos e que transformam sua casa em redoma que os possa salvar das hostilidades. H\u00e1 velhos que ainda cantam; doces vozes que, \u00e0s vezes, permeiam, quase inaud\u00edveis, o concreto das cidades. O velho Santiago n\u00e3o cantava mais, desde que ficara sozinho no mar. Ele apenas tecia seu mon\u00f3logo interior e, por vezes, falava alto. N\u00e3o lembrava desde quando adquirira o h\u00e1bito de falar em voz alta consigo mesmo, mas achava que era desde que deixara de contar com a companhia do amigo Manol\u00edn. Deve haver muitos velhos falando consigo mesmo nas quarentenas das cidades do Brasil. Deve haver muitos que deixaram de cantar e que deixaram de sorrir. Santiago mencionou que seu barco n\u00e3o tinha os r\u00e1dios de comunica\u00e7\u00e3o dos barcos das pessoas de posses. Hoje as facilidades de comunica\u00e7\u00e3o das modernas tecnologias n\u00e3o est\u00e3o acess\u00edveis para alguns velhos, num pa\u00eds t\u00e3o desigual como o Brasil, mas principalmente n\u00e3o s\u00e3o muito usadas por boa parte dos familiares que poderiam atenuar a solid\u00e3o dos velhos no mar da pandemia. Nada parecido com as sociedades primitivas, em que os anci\u00e3os eram encarados como s\u00e1bios e conselheiros, respeitados e queridos por todos. Nesta sociedade hostil de nossos dias, sorte do velho que tiver um amigo como Manol\u00edn, a aguardar por ele e a enconraj\u00e1-lo a seguir, ap\u00f3s a longa quarentena. Sorte do velho que venha a ouvir algu\u00e9m dizer-lhe que ainda tem muito a aprender com ele, mesmo que seus esfor\u00e7os, suas fa\u00e7anhas e o gigantesco produto de seu dedicado trabalho saiam em carca\u00e7a do mar da pandemia.<\/p>\n<p><em>*Miriam Gusm\u00e3o \u00e9 professora aposentada e jornalista.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A incompet\u00eancia brasileira para enfrentar a pandemia do coronav\u00edrus produz a singular necessidade de prolongamento infinito da quarentena dos mais vulner\u00e1veis. 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