{"id":82626,"date":"2020-07-09T20:39:07","date_gmt":"2020-07-09T23:39:07","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/analise\/?p=82626"},"modified":"2020-07-10T21:38:13","modified_gmt":"2020-07-11T00:38:13","slug":"luiz-olynto-telles-da-silva-adios-nonino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/luiz-olynto-telles-da-silva-adios-nonino\/","title":{"rendered":"LUIZ-OLYNTO TELLES DA SILVA \/ Adi\u00f3s Nonino"},"content":{"rendered":"<p>H\u00e1 tempos n\u00e3o vejo ressaltada a import\u00e2ncia da ascend\u00eancia familiar. N\u00e3o faz muito, quando algu\u00e9m se aproximava da casa, logo vinha a pergunta sobre sua origem. Ainda que n\u00e3o houvesse nenhuma garantia, pois ovelhas negras existem at\u00e9 nas melhores fam\u00edlias de Boston, o conhecimento da estirpe era sempre uma refer\u00eancia. Na falta de uma grande fortuna, os pais esfor\u00e7avam-se para legar aos filhos um bom e honesto nome, buscando assegurar-lhes uma nobre profiss\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei bem por qu\u00ea, mas esse questionamento parece n\u00e3o ter mais a mesma import\u00e2ncia. Verdade que cada um tem que vencer por si mesmo e isso desde sempre. Mas, para tanto, n\u00e3o se pode reconhecer a contribui\u00e7\u00e3o dos pais?<\/p>\n<p>Interroga\u00e7\u00f5es que me foram despertadas quando me caiu nas m\u00e3os a biografia de Eric Clapton. N\u00e3o conheceu o pai e tornou-se um dos maiores guitarristas de todos os tempos.<\/p>\n<p>Filho de uma m\u00e3e adolescente, foi criado pelos av\u00f3s, pensando que sua m\u00e3e fosse apenas a irm\u00e3 mais velha. De qualquer modo, e isto \u00e9 o importante, durante a inf\u00e2ncia acreditava ter pais, e o fato de os av\u00f3s o terem adotado n\u00e3o foi sem consequ\u00eancias, pois foi o av\u00f4 quem o iniciou, desde crian\u00e7a, na flauta doce. Quando sua m\u00e3e biol\u00f3gica teve outros casamentos e a verdade veio \u00e0 tona, tudo indicava ter-se aberto um vazio, um buraco na vida desse m\u00fasico not\u00e1vel, e veio o per\u00edodo das drogas. Depois, quando perdeu seu filhinho, Conors, de quatro anos, em um acidente, salvou-se no trabalho compondo <em>Tears in heaven<\/em>, <em>L\u00e1grimas no c\u00e9u<\/em>. \u00c9 depois disso que, tendo visto nos olhos de seu filho os olhos de seu pai, desse pai que jamais vira e que jamais soube quem era, ele comp\u00f5e uma de suas melhores m\u00fasicas, se n\u00e3o a melhor, <em>My father\u2019s eyes, Os olhos de meu pai<\/em>. Pareceu-me n\u00e3o haver forma melhor de expressar a nostalgia pela aus\u00eancia do pai. O curioso \u00e9 que seu pai, mesmo sendo m\u00fasico, e por certo tendo tomado conhecimento da fama de Eric Clapton, jamais suspeitou fosse ele seu filho, uma rela\u00e7\u00e3o vinda \u00e0 tona somente ap\u00f3s a morte desse pai.<\/p>\n<p>A partir da\u00ed comecei a interessar-me pela inf\u00e2ncia de outros g\u00eanios da m\u00fasica, todos t\u00e3o precoces como Eric Clapton.<\/p>\n<p>Tomando por crit\u00e9rio a data de nascimento, minha lista inicia com Vivaldi, em 1678. Seu pai, de profiss\u00e3o barbeiro, foi tamb\u00e9m um \u00f3timo violinista e, tendo reconhecido a aptid\u00e3o do filho, incentivou-o desde muito cedo. Bach, nascido em 1685, logo considerado o Pai da M\u00fasica, veio tamb\u00e9m de uma fam\u00edlia de m\u00fasicos e seu pai iniciou-o precocemente nos instrumentos de corda. Mozart nasceu quase um s\u00e9culo depois, em 1756, e era filho de um compositor, cantor e violonista profissional. Quando percebeu a extraordin\u00e1ria habilidade do menino, ao cravo, ainda aos quatro anos, passou a dar-lhe as primeiras aulas que lhe possibilitaram compor e tocar, aos cinco anos, alguns minuetos. Beethoven, de 1770, gra\u00e7as \u00e0 insist\u00eancia de seu pai, um respeitado Mestre-Escola e tamb\u00e9m um bom m\u00fasico amador, aos sete anos, deu seu primeiro concerto e, aos dez, conforme uma carta de seu mestre, Christian Gottlob Neefe, dominava todo o repert\u00f3rio de Johan Sebastian Bach. Chopin, que veio \u00e0 luz em 1810, era filho de uma pianista polonesa e de um franc\u00eas expatriado, professor de literatura francesa na Pol\u00f4nia. Aos sete anos j\u00e1 havia composto duas <em>polonaises<\/em> e aos vinte mudou-se definitivamente para a Fran\u00e7a, terra de seu pai.<\/p>\n<p>Como vemos, a presen\u00e7a e o incentivo paterno s\u00e3o sempre marcantes. Mas n\u00e3o quero terminar minha lista dos cl\u00e1ssicos europeus, \u00e0 qual teria muitos nomes ainda a serem acrescentados, sem mencionar, pelo menos, Richard Wagner, vindo ao mundo em 1813. Seu pai, um chefe de pol\u00edcia, morreu um ano ap\u00f3s seu nascimento e sua m\u00e3e, alguns meses depois, casou-se com Ludwig Geyes, um artista da pintura, da literatura e do teatro. Foi ele quem percebeu, antes dos oito anos de Richard, seu talento ao piano e o incentivou aos estudos musicais, embora ele preferisse, na ocasi\u00e3o, o teatro e a literatura; foi s\u00f3 aos quinze anos que passou a dedicar-se inteiramente \u00e0 m\u00fasica, fazendo da literatura sua aliada. Entre tantas \u00f3peras, comp\u00f4s <em>Os Mestres Cantores de Nuremberg<\/em>, cujas figuras principais s\u00e3o os mestres artes\u00e3os de distintas profiss\u00f5es que se juntam para cantar. Sejam joalheiros ou sapateiros, as pessoas valem por sua aptid\u00e3o na profiss\u00e3o, o mais das vezes aprendidas com os pais.<\/p>\n<p>Do lado de c\u00e1 do Atl\u00e2ntico tamb\u00e9m nasceram g\u00eanios. Um deles foi Heitor Villa-Lobos, em 1887, tamb\u00e9m incentivado pelo pai desde os primeiros anos de vida. Diretor da Biblioteca do Senado e m\u00fasico amador, tendo logo percebido a voca\u00e7\u00e3o musical de seu filho, iniciou-o ao viol\u00e3o e ao violoncelo. Aos seis anos, o pequeno Heitor j\u00e1 havia composto uma pe\u00e7a para viol\u00e3o e aos oito come\u00e7ou seu interesse por Bach. Entre tantos m\u00fasicos precoces, talvez o que tenha dado mostras de amadurecimento mais cedo, tenha sido Nelson Freire. Aos tr\u00eas anos tocava de ouvido as pe\u00e7as executadas pela irm\u00e3 mais velha ao piano. Nascido em Boa Esperan\u00e7a, no interior de Minas Gerais, em 1944, seus pais, reconhecendo o extraordin\u00e1rio dom de seu filho, mudaram-se para o Rio de Janeiro para que Nelsinho pudesse ter bons professores.<\/p>\n<p>Pessoalmente, permitam que lhes conte, tamb\u00e9m estive pr\u00f3ximo da genialidade. Quero dizer, tive um vizinho de minha idade, l\u00e1 pelos quatro anos, que era um violonista excepcional. Certa tarde fui brincar em sua casa e l\u00e1 estava ele, junto dos pais, tocando viol\u00e3o. Era um instrumento feito sob medida para seu tamanho, e seu pai havia-lhe acoplado, na lateral superior, uma gaitinha de boca. Enquanto ele tocava ambos, ao mesmo tempo, eu ficava abismado com aquela cena inusitada. Foi quando seu pai perguntou-me se eu tamb\u00e9m tocava viol\u00e3o. Imediatamente respondi que n\u00e3o, e acredito ter me sentido muito diminu\u00eddo com minha resposta, tanto que, tendo visto, em um dos cantos da sala, um cavaquinho que, \u00e0 minha ignor\u00e2ncia <em>ab ovo<\/em>, era apenas um viol\u00e3o pequeno, um brinquedo para crian\u00e7as, bem menor do que o do meu amiguinho, logo acrescentei: &#8211; Mas aquele ali \u2013 e apontei para o viol\u00e3ozinho \u2013, acho que toco. Poderia ter feito pior? Experimentei uma vez, duas vezes e, n\u00e3o tendo sa\u00eddo um som que dissesse algo a outro, s\u00f3 me restou sacudir a cabe\u00e7a, os olhos baixos, para um lado e para outro, em sinal de frustra\u00e7\u00e3o. De volta, em casa, muito envergonhado, meu pai salvou-me mostrando-me n\u00e3o haver motivo para tanto, pois, afinal, em casa n\u00e3o t\u00ednhamos instrumentos musicais; em nossa fam\u00edlia ningu\u00e9m se voltara para a m\u00fasica. Contudo, ele acrescentou: -Temos livros. E em seguida aprendi a ler.<\/p>\n<p>O apoio paterno mostra-se sempre muito importante no desenvolvimento de um filho, mesmo quando o pai n\u00e3o \u00e9 do mesmo sangue, como se diz. Depois de anos trabalhando com essas rela\u00e7\u00f5es, estou convencido de que pai \u00e9 aquele que adota o filho, seja ou n\u00e3o da mesma consanguinidade. Al\u00e9m desse vizinho, que depois se tornou diretor de uma orquestra famosa, conheci muitos que, incentivados pelos pais, est\u00e3o hoje completando suas forma\u00e7\u00f5es na m\u00fasica erudita.<\/p>\n<p>E, entre tantas biografias, h\u00e1 uma que ainda preciso mencionar. \u00c9 de outro vizinho, n\u00e3o da mesma rua, mas um vizinho nosso, de um pa\u00eds muito pr\u00f3ximo, que \u00e9 a Argentina. Trata-se de Astor Piazzolla, nascido em 1921. Seu pai apercebeu-se de sua voca\u00e7\u00e3o ainda em tenra idade e, ao completar oito anos, presenteou-o com um bandoneon. Morando em Nova Iorque desde os quatro anos, aos doze teve a oportunidade de participar de um filme, contracenando com ningu\u00e9m menos que Carlos Gardel em <em>El dia en que me quieras<\/em>. Pois durante um intervalo das filmagens (em que fazia o papel de um jornaleiro), por tr\u00e1s dos cen\u00e1rios, exibiu suas habilidades ao bandoneon para o grande astro das ribaltas. Gardel gostou e pediu-lhe para tocar um tango, ao que Astorzito teria respondido n\u00e3o haver ainda entendido direito o tango. &#8211; Pois ent\u00e3o, vaticinou Gardel, t\u00e3o logo o entendas, n\u00e3o o largar\u00e1s jamais! Nesta \u00e9poca, sempre incentivado pelo pai, teve a\u00ed os melhores professores de m\u00fasica cl\u00e1ssica, a come\u00e7ar pelo h\u00fangaro Bela Wilde, que fora aluno de Rachmaninoff. J\u00e1 adulto, foi a Paris estudar com Nadia Boulanger, considerada, na \u00e9poca, a melhor professora de m\u00fasica do mundo. Foi ela quem lhe disse: &#8211; Seu instrumento \u00e9 o bandoneon! E durante todos esses anos de estudos cl\u00e1ssicos, com participa\u00e7\u00f5es em grandes orquestras, como a de An\u00edbal Troilo, teve sempre junto a si o apoio do pai, seu grande amigo. Quando ele se foi, em 1959, Piazzolla comp\u00f4s, em sua homenagem, aquele que considerou seu melhor tango, <em>Adi\u00f3s Nonino<\/em>. <em>Nonino<\/em> \u2013 diminuitivo de <em>nono<\/em>, <em>av\u00f4<\/em> em italiano \u2013, era como seu filho carinhosamente o chamava. E quando escuto essa m\u00fasica, estou certo de que o adeus a\u00ed expresso n\u00e3o \u00e9 aquele adeus dito a quem se vai para sempre. O <em>adi\u00f3s<\/em> de Piazzolla, ao seu pai, significa que ele ficar\u00e1 para sempre no seu cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 tempos n\u00e3o vejo ressaltada a import\u00e2ncia da ascend\u00eancia familiar. N\u00e3o faz muito, quando algu\u00e9m se aproximava da casa, logo vinha a pergunta sobre sua origem. 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