{"id":82900,"date":"2020-12-29T17:55:54","date_gmt":"2020-12-29T20:55:54","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=82900"},"modified":"2020-12-29T18:03:13","modified_gmt":"2020-12-29T21:03:13","slug":"lourenco-cazarre-lacos-de-sangue-igreja-catolica-e-trabalho-duro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/lourenco-cazarre-lacos-de-sangue-igreja-catolica-e-trabalho-duro\/","title":{"rendered":"Louren\u00e7o Cazarr\u00e9 \/ La\u00e7os de sangue, igreja cat\u00f3lica e trabalho duro"},"content":{"rendered":"<p>Bem mais que um livro sobre a imigra\u00e7\u00e3o italiana dirigida ao Sul do Brasil no S\u00e9culo 19, <em>Tutti brasiliani<\/em> (Editora Libretos, 205 p\u00e1ginas), \u00e9 uma obra cujo verdadeiro centro \u00e9 o fant\u00e1stico desdobramento dessa onda migrat\u00f3ria j\u00e1 no Brasil, fen\u00f4meno que acabou por transformar o nosso pa\u00eds num dos maiores produtores de gr\u00e3os do mundo. Mas vamos com calma.<\/p>\n<p>Comecemos pela viagem dos Bortot para o Brasil, muito bem documentada, e que seguramente pode ser vista como uma mostra do que ocorreu com dezenas de milhares de outras fam\u00edlias. Usando um sobrenome que em sua mais remota origem pode ser franc\u00eas ou austr\u00edaco, os Bortot trabalhavam h\u00e1, no m\u00ednimo, tr\u00eas s\u00e9culos como meeiros de um grande propriet\u00e1rio de terras na regi\u00e3o de Belluno, nos Alpes italianos. L\u00e1, em uma pequena \u00e1rea, criavam uns poucos animais \u2013 vacas, ovelhas, burros, porcos e galinhas &#8211; e mantinham algumas culturas \u2013 videiras e trigo &#8211; que os sustentavam ao longo do ano. E, para refor\u00e7ar as prote\u00ednas, ca\u00e7avam p\u00e1ssaros com redes. Para fazer suas roupas, fiavam c\u00e2nhamo, l\u00e3 e linho. E esfolavam raposas, toupeiras e lebres para vender a pele.<\/p>\n<p>Em meados do s\u00e9culo 19, parte dessas fam\u00edlias italianas de muitos filhos, apertadas em s\u00edtios modestos, come\u00e7aram a migrar para a Am\u00e9rica em busca de melhores perspectivas de futuro. Na ordem de prefer\u00eancia: Estados Unidos, Argentina e Brasil.<\/p>\n<p>Os Bortot, que chegaram ao Brasil em 1893, receberam do governo (financiada, a ser paga em alguns anos) o que julgavam ser uma vasta por\u00e7\u00e3o de terra, vinte hectares, algo impens\u00e1vel no pa\u00eds de origem. Uma das curiosidades da onda italiana dirigida ao Sul do Brasil \u00e9 que, na quase totalidade, os emigrantes eram agricultores.<\/p>\n<p>No Rio Grande do Sul, eles foram contemplados om glebas na zona da Serra. Basicamente, terrenos inclinados, cobertos de mato e perdidos nos cafund\u00f3s intransit\u00e1veis. Os alem\u00e3es, que desembarcaram antes, a partir de 1825, receberam lotes \u00e0s margens dos rios. Por isso, como puderam desde logo comercializar seus produtos em Porto Alegre, enriqueceram mais rapidamente.<\/p>\n<p>No meio da mataria cerrada, os filhos de Dante Alighieri tiveram de se virar. Foi o que fizeram. Botaram abaixo as \u00e1rvores centen\u00e1rias e com elas ergueram suas casas. Quase todos eles, al\u00e9m das habilidades agr\u00edcolas, tinham no\u00e7\u00f5es de marcenaria, carpintaria e ferraria. Assim, utilizando-se de conhecimentos centen\u00e1rios trazidos da terrinha, passaram a criar seus porcos, a plantar trigo e a tratar de suas videiras. Comiam sua polenta e bebiam vinho e grapa. E passaram tamb\u00e9m a consumir os surpreendentes pinh\u00e3o e palmito. O excesso de produ\u00e7\u00e3o, quando havia, entrava no escambo por, digamos, sal e fumo. Uns abriram com\u00e9rcios para refor\u00e7ar o caixa. Outros, mais habilidosos, come\u00e7aram, nas raras horas vagas, a instalar moinhos e a fabricar carro\u00e7as e arados. Dessas ferrarias de fundo de quintal, surgiria, depois, a pujante Caxias do Sul, a Manchester guasca.<\/p>\n<p>Passados uns poucos anos, ressurgiu a necessidade de buscar novas terras, e mais baratas, para a descend\u00eancia crescente. Em 1920, os Bortot partiram para o Noroeste do Rio Grande do Sul, onde podiam adquirir propriedades maiores e, o que era o mais importante, com terrenos planos. Alguns dos filhos dos pioneiros fixaram-se em Paim Filho, numa regi\u00e3o cuja cidade mais importante \u00e9 hoje Sananduva.<\/p>\n<p>Depois, no come\u00e7o dos anos 1930, mais uma vez empurrados adiante pela redu\u00e7\u00e3o das propriedades, determinada pelos invent\u00e1rios, alguns dos Bortot partiram para o Sudoeste do Paran\u00e1. Fixaram-se em um pequeno vilarejo, que \u00e9 hoje Pato Branco (85 mil habitantes). O Sudoeste do Paran\u00e1 era ent\u00e3o, e seria por mais uns vinte anos, o nosso Faroeste.<\/p>\n<p>A descri\u00e7\u00e3o do crescimento das cidades paranaenses, fundadas majoritariamente, por descentes de italianos partidos do Rio Grande do Sul, \u00e9 um dos pontos altos do livro. O autor fala de incont\u00e1veis tiroteios, jagun\u00e7os assalariados, grileiros impiedosos, tocaias, viola\u00e7\u00f5es, assassinatos, falsifica\u00e7\u00e3o de documentos, terras tomadas \u00e0 bala e misteriosas empresas protegidas por pol\u00edticos inescrupulosos&#8230;<\/p>\n<p>Ao longo de sua saga, em duas oportunidades, os Bortot foram v\u00edtimas das muitas guerras travadas pelas elites intelectuais do Rio Grande do Sul \u2013 leia-se: caudilhos ricos formados em Direito em S\u00e3o Paulo, em geral palavrosos e arrogantes \u2013 que costumavam brigar, de vez em quando, por motivos impenetr\u00e1veis para gringos que mal arranhavam a l\u00edngua portuguesa. Na revolu\u00e7\u00e3o de 1893, os Bortot foram depenados. Tropas famintas comeram todos os animais e todos os gr\u00e3os. Repetiu-se o mesmo em 1923. E a gringada, o que poderia fazer? Ora, que fosse se queixar ao Papa porque n\u00e3o havia autoridade p\u00fablica brasileira \u00e0 qual pudessem apresentar a conta.<\/p>\n<p>L\u00ea-se o livro de Ivanir Jos\u00e9 Bortot como se fosse um romance sobre uma fam\u00edlia europeia que vem fazer a Am\u00e9rica. Exatamente como em um livro de fic\u00e7\u00e3o, a cada gera\u00e7\u00e3o, dois ou tr\u00eas membros do cl\u00e3 se destacam. Ora \u00e9 uma mulher forte que cria seus muitos filhos sem a ajuda do marido precocemente falecido. Ora \u00e9 um sujeito empreendedor que funda muitas empresas e d\u00e1 trabalho a irm\u00e3os, irm\u00e3s, cunhados e cunhadas. Ora \u00e9 um <em>nonno,<\/em> que guarda as mem\u00f3rias da fam\u00edlia, que pede ao neto que lhe segure a m\u00e3o no instante em que vai partir deste mundo. Ora \u00e9 o ingresso de algu\u00e9m &#8211; descendente de terceira gera\u00e7\u00e3o \u2013 em uma universidade.<\/p>\n<p>Sim, esse \u00e9 um fato muito importante para os imigrantes: a ocasi\u00e3o em que um neto ou um bisneto \u2013 pode ser de italiano, alem\u00e3o, polaco, portugu\u00eas ou ucraniano \u2013 enverga uma fatiota e senta-se a uma escrivaninha para ganhar, \u00e0s vezes em um m\u00eas, no conforto do ar-condicionado, o que seus ancestrais levavam d\u00e9cadas para amealhar sob o sol impiedoso.<\/p>\n<p>Esse livro ser\u00e1 ampliado no futuro, tenho certeza, porque a saga dos descentes de italianos do Rio Grande do Sul \u2013 e, tamb\u00e9m, dos alem\u00e3es e poloneses &#8211; ainda n\u00e3o foi contada. Partindo do Estado original, eles tomaram nos anos 1920 o Oeste de Santa Catarina. Chegaram ao Paran\u00e1 nos anos 1930 e continuaram a subir pelo mapa: Mato Grosso, Rond\u00f4nia, Par\u00e1 e Amazonas foram colonizados a partir de 1970. Depois, nos anos 1980, a di\u00e1spora ga\u00facha seguiu para o Sul do Maranh\u00e3o, o Norte de Goi\u00e1s (Tocantins) e o Oeste da Bahia. E, aparentemente, termina quando chega ao Sul do Piau\u00ed, em 1990. Em resumo, falta contar a epopeia dessa gente que forjou o semic\u00edrculo da produ\u00e7\u00e3o agr\u00edcola que sustenta, h\u00e1 v\u00e1rias d\u00e9cadas, as contas desta na\u00e7\u00e3o inzoneira, cartor\u00e1ria e carnavalesca.<\/p>\n<p>Por fim, destaco outra peculiaridade deste livro. Ivanir Bortot exerce o jornalismo h\u00e1 cerca de cinco d\u00e9cadas. Na maior parte desse tempo, atuou em publica\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0 economia. Da\u00ed que seu livro, desde as primeiras p\u00e1ginas, d\u00e1 n\u00fameros ao que est\u00e1 sendo descrito. Um porco custa tanto. Uma vaca equivale a tantas barricas de vinho. Esse fato, o fato de que toda coisa tem seu pre\u00e7o, em geral, \u00e9 pouco abordado nos livros escritos pelos historiadores genu\u00ednos, os de carteirinha. Nada contra os mestres catedr\u00e1ticos, mas no trabalho de Bortot vemos claramente como vai se formando o patrim\u00f4nio de uma fam\u00edlia ao longo de d\u00e9cadas. N\u00e3o apenas o patrim\u00f4nio palp\u00e1vel, f\u00edsico (casas, lojas, hot\u00e9is, serrarias, ve\u00edculos, culturas agr\u00edcolas, transportadoras, ind\u00fastrias), que aumenta \u00e0 for\u00e7a de muito suor e trabalho incessante. Mas n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso. Ivanir Bortot registra tamb\u00e9m os valores morais &#8211; impalp\u00e1veis, outra esp\u00e9cie de riqueza &#8211; que alicer\u00e7am o progresso. Valores como, por exemplo, a solidariedade, j\u00e1 que nesses grupos, por d\u00e9cadas, o patrim\u00f4nio \u00e9 um s\u00f3 e \u00e9 de todos. Uma solidariedade que \u00e9, ao mesmo tempo, a previd\u00eancia social e o plano de sa\u00fade da fam\u00edlia. A solidariedade que aflora toda vez que a trag\u00e9dia arrebenta com um deles.<\/p>\n<p>A confian\u00e7a alicer\u00e7ada nos la\u00e7os de sangue faz com que o controle dos neg\u00f3cios seja delegado \u00e0s m\u00e3os do mais talentoso, o l\u00edder nato, aquele que em geral \u00e9 aceito e reconhecido por todos ou pela maioria.<\/p>\n<p>Se fosse poss\u00edvel sintetizar esse movimento migrat\u00f3rio t\u00e3o importante na hist\u00f3ria nacional, talvez se pudesse dizer que os descendentes dos peninsulares instalados no Sul do Brasil h\u00e1 mais de um s\u00e9culo e tr\u00eas d\u00e9cadas \u2013 e que hoje se espalham do Norte ao Sul \u2013 constru\u00edram sua hist\u00f3ria baseados em tr\u00eas pilares: os la\u00e7os de sangue, os valores da igreja de Roma e a \u00e9tica do trabalho duro, incessante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bem mais que um livro sobre a imigra\u00e7\u00e3o italiana dirigida ao Sul do Brasil no S\u00e9culo 19, Tutti brasiliani (Editora Libretos, 205 p\u00e1ginas), \u00e9 uma obra cujo verdadeiro centro \u00e9 o fant\u00e1stico desdobramento dessa onda migrat\u00f3ria j\u00e1 no Brasil, fen\u00f4meno que acabou por transformar o nosso pa\u00eds num dos maiores produtores de gr\u00e3os do mundo. 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