{"id":83206,"date":"2021-08-26T22:46:44","date_gmt":"2021-08-27T01:46:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=83206"},"modified":"2021-08-27T23:22:50","modified_gmt":"2021-08-28T02:22:50","slug":"elmar-bones-o-sangue-de-vargas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/elmar-bones-o-sangue-de-vargas\/","title":{"rendered":"ELMAR BONES \/ O sangue de Vargas"},"content":{"rendered":"<p>24 de agosto de 1954<\/p>\n<p>A aula mal havia iniciado, a professora foi chamada \u00e0 sala da diretora e voltou chorando. N\u00e3o haveria aula naquele dia, todos pra casa.<\/p>\n<p>No corredor ouvi: \u201cGet\u00falio se matou\u201d. \u201cMataram ele, com certeza\u201d, disse uma velha professora.<\/p>\n<p>Em casa, encontrei minha m\u00e3e na cozinha, chorando. Me abra\u00e7ou, solu\u00e7ava: \u201cMorreu o pai da gente\u201d.<\/p>\n<p>Get\u00falio Vargas era o &#8216;pai dos pobres&#8217; e a como\u00e7\u00e3o que tomou conta do pobrerio naquele sub\u00farbio de Santana do Livramento foi como se de fato tivessem perdido o pai.<\/p>\n<p>Homens choravam nos botecos, indigna\u00e7\u00e3o gritada nas ruas, alguns saiam para juntar-se aos grupos que se formavam na esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria, dispostos a embarcar para o Rio de Janeiro.<\/p>\n<p>A R\u00e1dio Cultura intercalava \u201cm\u00fasicas f\u00fanebres\u201d com as not\u00edcias do quebra-quebra em Porto Alegre, da multid\u00e3o que tomava conta das ruas do Rio de Janeiro. Parecia que o mundo vinha abaixo.<\/p>\n<p>(Nas aulas de m\u00fasica que tive com Enio Squeff \u00a0descobri que aquela melodia que soava\u00a0 aterradora\u00a0 entre as not\u00edcias era o r\u00e9quiem que Johannes Brahms comp\u00f4s quando morreu sua m\u00e3e).<\/p>\n<p>No fim o terremoto popular que parecia brotar do fundo da terra dissipou-se \u00a0e o que Get\u00falio conseguiu \u00e0 custa da pr\u00f3pria vida foi protelar o golpe por dez anos.<\/p>\n<p>Brizola com a Legalidade, em 1961, foi o \u00faltimo basti\u00e3o da resist\u00eancia getulista, que seria aniquilada com o golpe 1964.<\/p>\n<p>Um golpe contra\u00a0 um projeto nacionalista populista, de concilia\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o social que, na \u00f3tica da guerra fria, estava abrindo caminho para o comunismo.<\/p>\n<p>Seria uma interven\u00e7\u00e3o transit\u00f3ria dos militares para extirpar a corrup\u00e7\u00e3o, conjurar a amea\u00e7a comunista e, em seguida, restabelecer o poder pelo voto.<\/p>\n<p>Resultou num regime militar que durou 21 anos, sem encontrar o rumo certo.<\/p>\n<p>Foi derrubado n\u00e3o s\u00f3 pela pol\u00edtica dos por\u00f5es que adotou, mas principalmente pelo modelo econ\u00f4mico de vi\u00e9s getulista que o general Ernesto Geisel tentou implantar.<\/p>\n<p>\u201cDeus n\u00e3o me traria de t\u00e3o longe para ser o s\u00edndico da cat\u00e1strofe\u201d, disse Jos\u00e9 Sarney ao assumir a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica como o primeiro civil, desde o golpe de 64.<\/p>\n<p>Sarney era da \u201cala jovem\u201d da UDN, o partido que comandou a derrubada de Vargas, quando os militares tomaram o poder. Foi aliado do regime desde o primeiro instante.<\/p>\n<p>Pode-se dizer que a\u00ed, em 1985, quando Sarney se tornou presidente pelo voto indireto (e n\u00e3o quando os milicos derrubaram Jango) se deu a derrota definitiva de Get\u00falio Vargas.<\/p>\n<p>Na primeira elei\u00e7\u00e3o direta, em 1989, Fernando Collor, tamb\u00e9m da vertente udenista\/arenista, sucedeu Sarney, derrotando Lula e Brizola, dois herdeiros da heran\u00e7a trabalhista de Vargas, que se dividiram.<\/p>\n<p>Era mais uma p\u00e1 de terra em cima\u00a0 daquele cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Para completar, o sucessor de Collor, Fernando Henrique Cardoso, assumiu declarando que seu prop\u00f3sito era \u201csepultar a era Vargas\u201d, negando suas ra\u00edzes social-nacionalistas. (Seu pai defendeu &#8220;O Petr\u00f3leo \u00e9 Nosso&#8221;).<\/p>\n<p>Mas eis que de repente, quando parecia \u00a0coberta por v\u00e1rias camadas de terra, a utopia de Vargas renasceu com a elei\u00e7\u00e3o de Lula em 2002.<\/p>\n<p>E, por d\u00e9cada e meia, pareceu que a na\u00e7\u00e3o havia se reencontrado com o seu velho projeto nacional desenvolvimentista, de concilia\u00e7\u00e3o de classes e inclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>O que veio depois de 2015 est\u00e1 na mem\u00f3ria de todos. Mas parece que a hidra tem sete cabe\u00e7as e a\u00ed est\u00e1 Lula, liderando todas as pesquisas, com a bandeira do projeto \u00a0nacional desenvolvimentista, de concilia\u00e7\u00e3o e inclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>A\u00a0 difusa utopia pela qual Vargas deu um tiro no peito em 24 de agosto de 1954.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>24 de agosto de 1954 A aula mal havia iniciado, a professora foi chamada \u00e0 sala da diretora e voltou chorando. N\u00e3o haveria aula naquele dia, todos pra casa. No corredor ouvi: \u201cGet\u00falio se matou\u201d. \u201cMataram ele, com certeza\u201d, disse uma velha professora. Em casa, encontrei minha m\u00e3e na cozinha, chorando. 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