{"id":83320,"date":"2021-11-18T07:27:38","date_gmt":"2021-11-18T10:27:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=83320"},"modified":"2021-11-18T07:27:38","modified_gmt":"2021-11-18T10:27:38","slug":"lourenco-cazarre-pesadelo-de-pedra-e-areia-movedica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/lourenco-cazarre-pesadelo-de-pedra-e-areia-movedica\/","title":{"rendered":"LOUREN\u00c7O CAZARR\u00c9: Pesadelo de pedra e areia movedi\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><strong>Louren\u00e7o Cazarr\u00e9<\/strong><\/p>\n<p>A obra foi t\u00e3o gigantesca que o t\u00edtulo do livro em que sua saga foi narrada exigiu dois subt\u00edtulos: &#8220;Sonhos de pedra \u2013 a hist\u00f3ria da constru\u00e7\u00e3o dos molhes \u2013 uma das maiores obras da engenharia mar\u00edtima&#8221;.<\/p>\n<p>Desde seu come\u00e7o, no in\u00edcio do s\u00e9culo 19, o porto do Rio Grande, no extremo Sul do pa\u00eds, foi um pesadelo para os navegantes. Para chegar at\u00e9 ele, as embarca\u00e7\u00f5es precisavam atravessar um trai\u00e7oeiro canal, de profundidades vari\u00e1veis, visto que a areia fina do fundo era deslocada o tempo todo pelas fortes correntes mar\u00edtimas.<\/p>\n<p>Surgem logo os pr\u00e1ticos &#8211; conhecedores dos vol\u00faveis bancos de areias e das correntes trai\u00e7oeiras &#8211; que conduzem os navios ao porto em seguran\u00e7a. Mas adiante, para esta mesma miss\u00e3o, \u00e9 fundada uma companhia de rebocadores, de propriedade do m\u00faltiplo Irineu Evangelista de Souza, o visconde de Mau\u00e1, o megaempres\u00e1rio do Imp\u00e9rio.<\/p>\n<p>L\u00e1 pelos anos 1870 come\u00e7am os estudos que acabariam levando \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de dois grandes bra\u00e7os de pedregulhos que avan\u00e7ariam por milhares de metros para dentro das \u00e1guas furiosas, geladas e cinzentas do Atl\u00e2ntico Sul.<\/p>\n<p>Um deles partiria da maior praia do mundo, a do Cassino, que vai de Rio Grande at\u00e9 a barra do Chu\u00ed, na fronteira com o Uruguai, num rali de 230 quil\u00f4metros sobre um arei\u00e3o fino permanentemente batido por ventos implac\u00e1veis que fazem voar latas de cerveja, cheias, nos dias de ver\u00e3o. O outro bra\u00e7o partiria de S\u00e3o Jos\u00e9 do Norte, uma pequena cidade perdida por tr\u00e1s de dunas ao final de uma \u00e1rida e quase sempre deserta rodoviazinha que corre junto ao mar, mais conhecida como a Estrada do Inferno.<\/p>\n<p>Essa obra cicl\u00f3pica ocorre, paralelamente, a constru\u00e7\u00e3o das duas mais importantes rotas mar\u00edtimas do universo: os canais de Suez e do Panam\u00e1. Alguns protagonistas da constru\u00e7\u00e3o brasileira, em um ou em outro momento, trabalharam nas outras duas. Afinal, naquela \u00e9poca, como hoje, os homens que sabiam amansar oceanos n\u00e3o eram t\u00e3o numerosos assim.<\/p>\n<p>A obra se estendeu por uns trinta anos. S\u00f3 foi conclu\u00edda em 1915, quando adentrou o canal de Rio Grande o navio-escola Benjamim Constant.<\/p>\n<p>Hoje deslizam em dire\u00e7\u00e3o do super porto de Rio Grande navios de 15 metros de calado. Mas, nas medi\u00e7\u00f5es iniciais, h\u00e1 dois s\u00e9culos, a fundura das \u00e1guas chegava em alguns pontos a pouco mais de dois metros. Por d\u00e9cadas, \u00e0s vezes os navios precisavam esperar semanas ou meses, fundeados em mar aberto, as condi\u00e7\u00f5es prop\u00edcias para ingressar no estreito e tempestuoso caminho at\u00e9 o ancoradouro sulista.<\/p>\n<p>Grosseiramente, o que se fez foi o seguinte. Ao longo de mais de uma d\u00e9cada, incessantemente, homens e m\u00e1quinas portentosas \u2013 entre as quais dois gigantescos guindastes \u2013 despejaram grandes blocos de pedra em duas linhas retas oceano a fora.<\/p>\n<p>Mas onde foram os construtores encontrar tantas pedras assim? Na vizinha cidade de Pelotas. L\u00e1 em dois distritos, Cap\u00e3o do Le\u00e3o e Monte Bonito, foram destru\u00eddos \u00e0 dinamite e picareta grandes maci\u00e7os gran\u00edticos. Em cenas que relembravam o erguimento das pir\u00e2mides, milhares de homens \u2013 muitos deles imigrantes europeus: franceses e espanh\u00f3is na maioria &#8211; trabalharam por muitos anos, em prec\u00e1rias condi\u00e7\u00f5es de seguran\u00e7a, nessas pedreiras. Os mortos por explos\u00f5es e deslizamentos n\u00e3o foram poucos. A pedra retalhada era depois levada de trem at\u00e9 dois finais de linha: um em S\u00e3o Jos\u00e9 do Norte e outro no Cassino, onde surgira em 1890 o primeiro balne\u00e1rio do Estado. A Biarritz ga\u00facha.<\/p>\n<p>Paralelamente, o tempo todo, dragas arrancavam a areia fina que dan\u00e7ava no fundo do canal. Esse era e \u00e9 ainda um trabalho herc\u00faleo. Desde cedo se descobriu que as areias submersas eram movedi\u00e7as porque elas acabavam engolindo a maioria dos incont\u00e1veis barcos que por ali so\u00e7obravam. Em m\u00e9dia foram registrados dois naufr\u00e1gios por ano na segunda metade do S\u00e9culo 19.<\/p>\n<p>Hoje ou no passado, uma obra de constru\u00e7\u00e3o brasileira \u00e9 sempre uma obra bem brasileira. Aqui e ali pipocam suspeitas. Quem est\u00e1 ganhando? Quanto? Como? Por qu\u00ea? Sempre h\u00e1 os que se dizem nacionalistas e que defendem &#8211; garantem eles &#8211; os mais leg\u00edtimos interesses da sua m\u00e3e, a P\u00e1tria amada. E sempre h\u00e1 tamb\u00e9m aqueles que os nacionalistas costumam chamar entreguistas, que seriam em teses operadores de interesses escusos, geralmente de pa\u00edses mais ricos ou de capitalistas mais espertos.<\/p>\n<p>A constru\u00e7\u00e3o dos molhes da barra do porto do Rio Grande, empreendimento car\u00edssimo, n\u00e3o teve roteiro muito diferente. Houve muitas brigas entre os envolvidos na tarefa: administradores p\u00fablicos, empres\u00e1rios e investidores estrangeiros.<\/p>\n<p>O autor do livro, o jornalista Kl\u00e9cio Santos &#8211; que h\u00e1 muito navega de escafandro nas \u00e1guas turvas da pol\u00edtica brasiliense &#8211; conta alguns epis\u00f3dios que nos remetem ao jornalismo pol\u00edtico dos dias atuais, em geral divulgado quase todo nas p\u00e1ginas policiais.<\/p>\n<p>Trecho que trata da possibilidade da constru\u00e7\u00e3o de um porto alternativo &#8211; na cidade de Torres, no Norte do Estado &#8211; ao de Rio Grande:<\/p>\n<p>\u201cAinda na Rep\u00fablica, o marechal Deodoro da Fonseca retornou a ideia, mas esbarrou na resist\u00eancia de seu minist\u00e9rio em destinar a concess\u00e3o do porto em Torres ao amigo pessoal Trajano Viriato de Medeiros\u201d.<\/p>\n<p>Outro trecho se refere a Ramiro Barcellos, pol\u00edtico e escritor ga\u00facho, que era genro de um grande capitalista de Rio Grande:<\/p>\n<p>\u201cUma discuss\u00e3o com o deputado Ildefonso Sim\u00f5es Lopes a bordo do paquete Orion, durante uma viagem ao Rio de Janeiro, quando Barcellos tentaria mudar cl\u00e1usulas do contrato, acabou nas p\u00e1ginas do Echo do Sul. A resist\u00eancia foi geral, mas a quest\u00e3o da desapropria\u00e7\u00e3o das terras de Otero se prolongou com den\u00fancias de extors\u00e3o, mencionadas at\u00e9 mesmo na biografia do investidor Percival Farquhar, escrita por Charles Gauld: \u00b4Os pol\u00edticos ga\u00fachos e o inspetor federal das obras \u2013 possivelmente um homem de Pinheiro Machado \u2013 criaram confus\u00e3o`. As terras onde seria constru\u00eddo o novo porto haviam sido adquiridas e teriam sido ofertadas como pre\u00e7os superfaturado\u201d.<\/p>\n<p>Parodiando certo livro da B\u00edblia, talvez se possa dizer: nada de novo sob o sol brasileiro.<\/p>\n<p>Mas a grande obra l\u00e1 est\u00e1. Uma constru\u00e7\u00e3o daquelas que n\u00e3o interessam muito aos pol\u00edticos. \u00a0Porque \u00e9 submersa. T\u00e3o pouco vis\u00edvel quanto uma rede de esgotos. Uma obra, que, enfim, n\u00e3o rende votos. Mas a verdade \u00e9 que os tais bra\u00e7os de pedra salvaram e enriqueceram uma cidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Resenha do livro Sonhos de pedra \u2013 a hist\u00f3ria da constru\u00e7\u00e3o dos molhes \u2013 uma das maiores obras da engenharia mar\u00edtima, de Kl\u00e9cio Santos, editora Cabrion, 235 p\u00e1ginas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Louren\u00e7o Cazarr\u00e9 A obra foi t\u00e3o gigantesca que o t\u00edtulo do livro em que sua saga foi narrada exigiu dois subt\u00edtulos: &#8220;Sonhos de pedra \u2013 a hist\u00f3ria da constru\u00e7\u00e3o dos molhes \u2013 uma das maiores obras da engenharia mar\u00edtima&#8221;. 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