{"id":83469,"date":"2022-04-11T00:07:30","date_gmt":"2022-04-11T03:07:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=83469"},"modified":"2022-04-11T00:07:30","modified_gmt":"2022-04-11T03:07:30","slug":"lourenco-cazarre-meninos-de-zinco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/lourenco-cazarre-meninos-de-zinco\/","title":{"rendered":"LOUREN\u00c7O CAZARR\u00c9\/ Meninos de zinco"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Meninos de zinco&#8221;<\/p>\n<p>Svetlana Aleksi\u00e9vitch<\/p>\n<p>Companhia das Letras, 366 p\u00e1ginas<\/p>\n<p><strong>Painel polif\u00f4nico de uma guerra<\/strong><\/p>\n<p>Louren\u00e7o Cazarr\u00e9<\/p>\n<p>Dias atr\u00e1s o Afeganist\u00e3o voltou a ser citado no notici\u00e1rio internacional por uma informa\u00e7\u00e3o sobre meninas que estariam, agora, sendo impedidas de ir \u00e0 escola. Era apenas uma notinha perdida em meio \u00e0 verdadeira borrasca de cenas assombrosas geradas pela Guerra da Ucr\u00e2nia. Mas uma notinha j\u00e1 esperada, claro.<\/p>\n<p>Ano passado, ap\u00f3s uma presen\u00e7a de quase vinte anos no Afeganist\u00e3o, for\u00e7as de pa\u00edses ocidentais \u2013 liderados pelos Estados Unidos \u2013 retiraram-se daquele pa\u00eds. O governo que deixaram por l\u00e1 desmoronou em poucas semanas e a na\u00e7\u00e3o de \u00e1speras, belas e inacess\u00edveis montanhas voltou ao regime teocr\u00e1tico anterior (1996-2001), fundamentalista isl\u00e2mico, o Talib\u00e3. A retirada dos \u00faltimos funcion\u00e1rios e soldados ocidentais foi plena de cenas b\u00edblicas. Como as centenas de pessoas desesperadas correndo sob os avi\u00f5es de transporte, com alguns homens al\u00e7ando voo agarrados \u00e0s rodas, para despencar em seguida. Como o dil\u00favio de homens, mulheres e crian\u00e7as que \u2013 muitos s\u00f3 com a roupa que vestiam &#8211; se movimentava desesperadamente em dire\u00e7\u00e3o ao aeroporto de Cabul.<\/p>\n<p><strong>Ca\u00e7ada<\/strong><\/p>\n<p>Os americanos e seus aliados europeus entraram no Afeganist\u00e3o, no come\u00e7o deste mil\u00eanio, para \u2013 diziam &#8211; ca\u00e7ar Osama Bin Laden, o c\u00e9rebro do ataque de 11 de setembro \u00e0s Torres G\u00eameas. Certamente sabiam onde estavam se metendo. Estavam enfiando seus p\u00e9s cal\u00e7ados com botas em um pa\u00eds dividido entre incont\u00e1veis cl\u00e3s acostumados a entreveros, entre os quais se destacava o famigerado Talib\u00e3, cujas proezas mais conhecidas mundialmente eram a implos\u00e3o de duas imensas est\u00e1tuas de Buda, esculpidas h\u00e1 mil e quinhentos anos num penhasco, e o veto \u00e0 presen\u00e7a de meninas nas escolas.<\/p>\n<p>Duas d\u00e9cadas ap\u00f3s o desembarque, contabilizando a morte de mais de tr\u00eas mil e quinhentos militares, essa for\u00e7a ocupante se retirou de forma destrambelhada, legando ao Talib\u00e3 um vast\u00edssimo e moderno equipamento (carros de combate e armas sofisticadas) que transformou aquele pa\u00eds paup\u00e9rrimo em uma pot\u00eancia militar consider\u00e1vel.<\/p>\n<p>N\u00e3o foi o primeiro fracasso de tropas forasteiras, n\u00e3o. Foi o terceiro.<\/p>\n<p>Os brit\u00e2nicos, no m\u00e1ximo esplendor da P\u00e9rfida Albion, foram os primeiros a serem expulsos de l\u00e1. Foram derrotados pelos nativos &#8211; invariavelmente barbados e com um turbante na cachola &#8211; ao cabo de tr\u00eas guerras que se estenderam por oito d\u00e9cadas, de 1839 a 1919.<\/p>\n<p><strong>L\u00eanin e St\u00e1lin<\/strong><\/p>\n<p>Os segundos foram os meninos nascidos e crescidos numa imensa p\u00e1tria inventada pela dupla L\u00eanin e St\u00e1lin. Vamos cham\u00e1-los russos para simplificar a reda\u00e7\u00e3o. Eles se apresentaram (russos n\u00e3o invadem, diz Putin) por l\u00e1 em 1979, quando ainda eram conhecidos como sovi\u00e9ticos, e se retiraram dez anos ap\u00f3s, com um saldo de 15 mil mortos e centenas de desaparecidos.<\/p>\n<p>Bem, os russos apareceram para dar respaldo a um rec\u00e9m-instalado governo \u201csocialista\u201d. Em tese, seus soldados eram internacionalistas entusiasmados e queriam ajudar o generoso povo afeg\u00e3o a livrar-se do seu inconceb\u00edvel atraso.<\/p>\n<p>O Afeganist\u00e3o era ent\u00e3o e continua sendo um pa\u00eds complicado. Todos os pa\u00edses o s\u00e3o, na verdade. Mas l\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o se divide entre quatro grandes etnias (pashtuns, 52%; tadjiques, 21 %; hazaras, 19%; usbeques, 5%). O islamismo, religi\u00e3o quase exclusiva, se reparte em dois ramos principais (sunitas, 80%, xiitas, 20%). A economia nacional gira em torno das drogas. De acordo com estudo da ONU, 93% dos opi\u00e1ceos produzidos no mundo saem de l\u00e1, bem como a maior parte (80%) da hero\u00edna consumida na Europa.<\/p>\n<p><strong>Uma jornalista baixinha<\/strong><\/p>\n<p>Por\u00e9m, no caminho dessa tropa russa &#8211; como diria um poeta &#8211; havia uma jornalista baixinha.<\/p>\n<p>O jornalismo, como se sabe, \u00e9 a profiss\u00e3o dos abelhudos. Jovens curiosos do mundo todo frequentemente viram jornalistas. Mas em alguns pa\u00edses essa inclina\u00e7\u00e3o pessoal pela busca da informa\u00e7\u00e3o \u2013 fofoca indigesta, segundo todos os poderosos &#8211; n\u00e3o basta. Em na\u00e7\u00f5es como a R\u00fassia, sovi\u00e9tica ou p\u00f3s, o sujeito ou sujeita precisa ter tamb\u00e9m coragem, e muita.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 o caso de uma ucraniana criada em Belarus chamada Svetlana Aleksi\u00e9vitch, ganhadora do Nobel de Literatura em 2015.\u00a0Que hoje &#8211; por via das d\u00favidas, por cautela &#8211; reside na Alemanha.<\/p>\n<p>Svetlana escreveu muitos livros. Um deles sobre a apavorante trag\u00e9dia de Chern\u00f3bil, cidade que hoje sabemos estar situada na Ucr\u00e2nia. Escreveu tamb\u00e9m um bel\u00edssimo livro sobre a atua\u00e7\u00e3o de senhoras e senhoritas nas for\u00e7as armadas russas durante a Segunda Guerra Mundial: A guerra n\u00e3o tem rosto de mulher. E tem ainda na sua prateleira pessoal um trabalho sobre a d\u00e9cada em que os sovi\u00e9ticos chafurdaram num p\u00e2ntano de sangue, loucura, desespero, corrup\u00e7\u00e3o e morte chamado Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>Guerreiros invenc\u00edveis<\/strong><\/p>\n<p>Dizem os historiadores que \u2013 ao entrar num pa\u00eds que na nossa imagina\u00e7\u00e3o n\u00e3o passa de uma intermin\u00e1vel cadeia de pir\u00e2mides de granito &#8211; os sovi\u00e9ticos queriam mostrar a seus grandes rivais (os americanos, pouco antes derrotados no Vietn\u00e3) que eles, sim, os her\u00f3is da Grande Guerra Patri\u00f3tica, eram guerreiros invenc\u00edveis.<\/p>\n<p>N\u00e3o eram ent\u00e3o e nem s\u00e3o agora, garantem os conhecedores da arte b\u00e9lica. Antes, perderam uma guerra para o Jap\u00e3o (1904-1905) e n\u00e3o conseguiram vencer a pequenina Finl\u00e2ndia (1939-1940).<\/p>\n<p>Agora, entraram na Ucr\u00e2nia para uma guerra-rel\u00e2mpago que deveria durar uns tr\u00eas dias e que culminaria com a fuga &#8211; talvez at\u00e9 mesmo fantasiado de dan\u00e7arino cossaco \u2013 do presidente Volodimir Zelensky. Seria uma guerra muito r\u00e1pida, ilustrada por bel\u00edssimas imagens televisivas: lindas mocinhas ucranianas colocando rosas vermelhas nas bocas dos canh\u00f5es dos tanques; e velhinhos encurvados, apoiados em bengalas, beijando agradecidos as m\u00e3os calosas dos fortes e bravos soldados de Moscou que ali estavam para libert\u00e1-los do nazismo renascido.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o foi o que ocorreu. Zelensky n\u00e3o fugiu e, pelo contr\u00e1rio, ordenou aos homens que levassem suas mulheres e filhos at\u00e9 a fronteira e que voltassem logo para lutar.<\/p>\n<p>Na Ucr\u00e2nia, os invasores russos atolaram-se num engarrafamento de sessenta quil\u00f4metros de blindados e carros de transporte. Os pneus dos caminh\u00f5es eram ruins e rebentavam. Os tanques eram velhos e fumacentos. A comida rareou. Em grande parte, talvez mais da metade, os soldados eram meninos de 18 anos, que podiam voltar a p\u00e9 para casa &#8211; algo imposs\u00edvel para os que foram enviados ao long\u00ednquo Afeganist\u00e3o.<\/p>\n<p>A invas\u00e3o russa da Ucr\u00e2nia \u2013 segundo analistas de quest\u00f5es guerreiras \u2013 serviu principalmente para tranquilizar os dirigentes dos pa\u00edses signat\u00e1rios do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte. Ou seja, serviu para mostrar aos generais das na\u00e7\u00f5es integrantes da Otan que o novo c\u00e9sar da terrinha da vodca n\u00e3o tem aquele ex\u00e9rcito fant\u00e1stico que costuma propagandear. Ali\u00e1s, j\u00e1 se fala que os russos tiveram que recorrer ao socorro (bem remunerado) de quem realmente sabe combater e matar: os nada gentis mercen\u00e1rios s\u00edrios e chechenos.<\/p>\n<p><strong>Incompet\u00eancia e corrup\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p>Talvez uma ideia mais pr\u00f3xima do que seja verdadeiramente o ex\u00e9rcito russo atual possa ser encontrada no livro Meninos de zinco. Caracter\u00edsticas marcantes: total incompet\u00eancia em log\u00edstica, falta de boa comida e de medicamentos b\u00e1sicos, armas e equipamentos obsoletos, viol\u00eancia extrema contra os advers\u00e1rios e igualmente entre os integrantes da pr\u00f3pria for\u00e7a e, acima de tudo, uma corrup\u00e7\u00e3o avassaladora em todos os n\u00edveis da administra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Svetlana esteve no Afeganist\u00e3o: \u201cSubi num helic\u00f3ptero&#8230; De cima vi centenas de caix\u00f5es de zinco preparados de antem\u00e3o, brilhando ao sol, belos e assustadores&#8230;\u201d<\/p>\n<p>Na verdade, Meninos de zinco \u00e9 muit\u00edssimo mais que um retrato de uma conflagra\u00e7\u00e3o. \u00c9 um libelo candente contra a guerra, contra todas as guerras. Essa obra gerou contra a jornalista um processo que se arrastou por anos e que est\u00e1, em parte, reproduzido nas p\u00e1ginas finais da edi\u00e7\u00e3o brasileira do livro.<\/p>\n<p><strong>Um painel polif\u00f4nico<\/strong><\/p>\n<p>A t\u00e9cnica de Svetlana \u00e9 aparentemente simples. Ela ouve centenas de pessoas sobre um determinado tema e depois transcreve as partes mais importantes (e impactantes) desses depoimentos. Trabalha com o ac\u00famulo de vozes fragment\u00e1rias. Sem discursos, sem frases feitas, sem slogans, ela avan\u00e7a. E esses pequenos retalhos &#8211; mon\u00f3logos, confiss\u00f5es, explos\u00f5es, del\u00edrios \u2013 acabam formando um painel polif\u00f4nico do assunto tratado.<\/p>\n<p>Seguindo o exemplo de Svetlana, reproduziremos aqui alguns retalhos de falas de gente que viveu e padeceu a Guerra do Afeganist\u00e3o \u2013 soldados, oficiais e mulheres que integraram as tropas. E ainda, e principalmente, m\u00e3es de meninos que voltaram para casa \u2013 estra\u00e7alhados seus corpos \u2013 em caix\u00f5es funer\u00e1rios de zinco.<\/p>\n<p><strong>Depoimentos<\/strong><\/p>\n<p>M\u00e3e:<\/p>\n<p>Ele matou um homem&#8230; Meu filho&#8230; Com uma machadinha de cozinha&#8230; Ele tinha voltado da guerra e a\u00ed matou&#8230;\u00a0 Anunciaram na tev\u00ea que pescadores tinham recolhido um cad\u00e1ver no lago da cidade&#8230; em pedacinhos&#8230; Uma amiga me ligou: Voc\u00ea leu? Foi um assassinato profissional&#8230; Estilo afeg\u00e3o&#8230;.<\/p>\n<p>Est\u00e1 escutando um latido de cachorro? N\u00e3o? Eu sempre escuto um latido de cachorro assim que come\u00e7o a contar isso.<\/p>\n<p>S\u00f3 teve uma vez que ele falou do Afeganist\u00e3o. Eu estava preparando um coelho. Tinha uma tigela com sangue&#8230; Ele molhou os dedos naquele sangue e olhou&#8230; E falou para si mesmo:<\/p>\n<p>&#8211; Trouxeram um amigo com a barriga destru\u00edda&#8230; Ele pediu que o matasse com um tiro&#8230; E eu o matei com um tiro&#8230;<\/p>\n<p>Soldado, atirador de granada:<\/p>\n<p>Dezoito cirurgias, quatro com anestesia geral&#8230; No hospital recebi uma carta de um amigo. Atrav\u00e9s dele fiquei sabendo que o nosso blindado tinha explodido numa mina&#8230; Ele tinha visto uma pessoa voando junto com o motor. Era eu.<\/p>\n<p>Depois de duas, tr\u00eas semanas n\u00e3o sobra nada de quem voc\u00ea era antes, s\u00f3 seu nome&#8230; Fomos ensinados: fica vivo quem atira primeiro&#8230;<\/p>\n<p>Vend\u00edamos muni\u00e7\u00e3o cozida&#8230; A bala cozida n\u00e3o voa, \u00e9 cuspida para fora do cano. A gente botava uns baldes e jogava l\u00e1 a muni\u00e7\u00e3o e cozinhava por duas horas! \u00c0 noite lev\u00e1vamos para vender. Comandantes e soldados, her\u00f3is e covardes, todos negociavam&#8230;<\/p>\n<p>Enfermeira:<\/p>\n<p>\u00c9 uma guerra justa, nos diziam, estamos ajudando o povo afeg\u00e3o a terminar com o feudalismo e a construir uma bela sociedade socialista&#8230;<\/p>\n<p>Os oficiais bebiam todo o \u00e1lcool, trat\u00e1vamos as feridas com gasolina. As feridas cicatrizavam mal&#8230; O sol ajudava. O sol forte mata os micr\u00f3bios&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o havia pijamas, chinelos, mas j\u00e1 tinham pendurado slogans, palavras de ordem e cartazes&#8230;<\/p>\n<p>A coisa mais desagrad\u00e1vel no Ex\u00e9rcito \u00e9 o ambiente de dela\u00e7\u00e3o, a ordem de delatar.<\/p>\n<p>Podia salvar, mas n\u00e3o consegui acordar o cirurgi\u00e3o b\u00eabado&#8230;<\/p>\n<p>Muitas vezes de uma pessoa s\u00f3 sobrava meio balde de carne&#8230; E escrev\u00edamos: morto num acidente de autom\u00f3vel, caiu num barranco, intoxica\u00e7\u00e3o alimentar&#8230;<\/p>\n<p>Ao lado, no kichlak (aldeia), os afeg\u00e3os andavam com nossos pijamas de hospital, com nossos len\u00e7\u00f3is na cabe\u00e7a como turbante. Sim, nossos meninos vendiam tudo&#8230;<\/p>\n<p>E eles vendiam armas, muni\u00e7\u00e3o para depois serem mortos por essas mesmas armas&#8230;<\/p>\n<p>Soldado, motorista:<\/p>\n<p>Os comandantes andavam meio agitados, cochichavam entre si. Estava chegando a hora do almo\u00e7o, come\u00e7aram a puxar caixas de vodca&#8230; Eles nos enfileiraram e ali mesmo anunciaram que em algumas horas um avi\u00e3o viria nos buscar &#8211; est\u00e1vamos a caminho da Rep\u00fablica do Afeganist\u00e3o para cumprir nosso dever militar.<\/p>\n<p>Quando minha esposa perguntou como seu marido tinha ido parar no Afeganist\u00e3o, responderam a ela: \u201cEle manifestou o desejo, voluntariamente\u201d.<\/p>\n<p>Soldado, artilheiro:<\/p>\n<p>Passamos num kichlak, pedimos algo para comer. Segundo as leis dele, se uma pessoa est\u00e1 na sua casa e tem fome, voc\u00ea n\u00e3o pode recusar comida. As mulheres nos sentaram \u00e0 mesa e nos deram comida. Quando fomos embora, espancaram essas mulheres e seus filhos com pedras e paus. Elas sabiam que iriam mat\u00e1-las, mas ainda assim n\u00e3o nos expulsaram&#8230;<\/p>\n<p>Funcion\u00e1ria:<\/p>\n<p>Nos postos nas montanhas o pessoal n\u00e3o v\u00ea ningu\u00e9m por anos. Vai um helic\u00f3ptero tr\u00eas vezes por semana. Eu fui. Um tenente se aproximou:<\/p>\n<p>-Mo\u00e7a, tire o len\u00e7o da cabe\u00e7a. Solte o cabelo. \u2013 Eu tinha cabelo comprido. &#8211; J\u00e1 faz dois anos que s\u00f3 veja a cabe\u00e7a raspada dos soldados.<\/p>\n<p>Os soldados&#8230; Os meninos&#8230; Eles saem daqui devastados&#8230; Viram muita coisa aqui&#8230; Como uma mulher que se vende&#8230; por duas latas de carne mo\u00edda.<\/p>\n<p>Subtenente, enfermeiro:<\/p>\n<p>Faltavam rem\u00e9dios.<\/p>\n<p>A metade (das seringas descart\u00e1veis) n\u00e3o sugava nem aspirava.<\/p>\n<p>Curativos el\u00e1sticos n\u00e3o tinha mesmo.<\/p>\n<p>O soldado sovi\u00e9tico \u00e9 o mais barato. O mais paciente, sem exig\u00eancias&#8230;. Era assim em 1941. Cinquenta anos depois ainda \u00e9 assim. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>Traz\u00edamos dinheiro das miss\u00f5es de combate&#8230; Quem tivesse a patente mais alta tomava da gente. Ali mesmo, diante dos nossos olhos, dividiam entre si.<\/p>\n<p>Na alf\u00e2ndega levavam os presentes que traz\u00edamos para casa: perfumes, len\u00e7os, rel\u00f3gios.<\/p>\n<p>&#8211; N\u00e3o \u00e9 permitido, pessoal.<\/p>\n<p>M\u00e3e:<\/p>\n<p>Ele era baixinho. Nasceu feito uma menina, pesava dois quilos, media trinta cent\u00edmetros. Eu tinha medo de segur\u00e1-lo&#8230;<\/p>\n<p>Eu o apertava contra mim:<\/p>\n<p>&#8211; Voc\u00ea \u00e9 meu raio de sol&#8230;<\/p>\n<p>Foi aceito no Ex\u00e9rcito. Eu rezava&#8230; para que n\u00e3o o espancassem. Eu tinha medo que os rapazes mais fortes fossem humilh\u00e1-lo. Ele dizia que eram capazes at\u00e9 de mandar limpar o banheiro com uma escova de dentes e lavar as cuecas dos outros.<\/p>\n<p>Eu estava esperando que ele voltasse para casa, faltava um m\u00eas para o final do servi\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>Primeiro veio o capit\u00e3o do centro de recrutamento:<\/p>\n<p>&#8211; For\u00e7a, m\u00e3e!<\/p>\n<p>Ca\u00ed no ch\u00e3o:<\/p>\n<p>&#8211; Meu raio de sol! &#8211; Me levantei e parti para cima do capit\u00e3o com os punhos fechados: &#8211; Por que voc\u00ea est\u00e1 vivo e meu filho n\u00e3o? Voc\u00ea \u00e9 t\u00e3o saud\u00e1vel e forte. E ele \u00e9 pequeno. Voc\u00ea \u00e9 um homem e ele \u00e9 um menino. Por que voc\u00ea est\u00e1 vivo?<br \/>\nSoldado, comunica\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>Eu s\u00f3 tinha um problema: onde roubar carregadores de muni\u00e7\u00e3o adicionais&#8230; No combate voc\u00ea pega o \u00faltimo carregador e a \u00faltima muni\u00e7\u00e3o \u2013 e p\u00f5e nos dentes. \u00c9 para voc\u00ea.<\/p>\n<p>Quando andamos de carro por Cabul, as mulheres jogavam paus e pedras nos nossos tanques. (Nos) xingavam com palavr\u00f5es russos sem sotaque, gritavam: Russo, v\u00e1 para casa&#8230;<\/p>\n<p>Vi num mesmo avi\u00e3o voltar para casa caix\u00f5es de zinco e malas com casacos de pele&#8230;<\/p>\n<p>Em nosso pa\u00eds cada gera\u00e7\u00e3o recebe sua guerra&#8230;<\/p>\n<p>M\u00e3e:<\/p>\n<p>Eles iam em fila ao banheiro&#8230; N\u00e3o tinham permiss\u00e3o para ir sozinhos porque, quando souberam que iam ser mandados para o Afeganist\u00e3o, um se enforcou no banheiro e outros dois cortaram os pulsos&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o sou louca, mas espero por ele. Contam um causo: trouxeram um caix\u00e3o para uma m\u00e3e, ela o enterrou. Depois de um ano, o filho voltou&#8230; Tamb\u00e9m estou esperando. N\u00e3o sou louca&#8230;<\/p>\n<p>Major, de um regimento de artilharia:<\/p>\n<p>De quem foi essa guerra? Das m\u00e3es. Elas combateram. E v\u00e3o combater at\u00e9 a morte. Cuidar, rogar por n\u00f3s. Por nossas almas&#8230;<\/p>\n<p>Por que quem tem dezoito anos, dezenove anos, mata com mais facilidade do que quem tem trinta? Eles n\u00e3o t\u00eam pena.<\/p>\n<p>Mas nos quart\u00e9is aqueles meninos tinham oito, dez camas vazias todo m\u00eas. Quem dormia nelas j\u00e1 estava na geladeira&#8230; No necrot\u00e9rio.<\/p>\n<p>Nas opera\u00e7\u00f5es \u2013 ali mesmo nos deit\u00e1vamos, ali mesmo, desculpe, faz\u00edamos as necessidades. Um prov\u00e9rbio de soldado: \u00e9 melhor ficar na pr\u00f3pria merda do que virar merda nas minas&#8230;<\/p>\n<p>Primeiro-tenente, de um pelot\u00e3o de morteiros:<\/p>\n<p>A guerra acabou. Agora v\u00e3o nos esconder em algum lugar mais distante. Encerrar. Isso j\u00e1 aconteceu com a guerra da Finl\u00e2ndia.<\/p>\n<p>Funcion\u00e1ria:<\/p>\n<p>N\u00e3o deixam as mulheres entrar no banheiro dos oficiais, porque as mulheres s\u00e3o sujas&#8230; E esses mesmos oficiais v\u00eam nos procurar&#8230; Para uma coisa s\u00f3&#8230; Para isso mesmo&#8230; Batem \u00e0 porta \u00e0 noite com uma garrafa de vinho. Na carteira t\u00eam fotos dos filhos, da esposa, eles nos mostram. \u00c9 normal&#8230;<\/p>\n<p>M\u00e3e:<\/p>\n<p>\u00c0 noite, eu me deito e pe\u00e7o:<\/p>\n<p>&#8211; Apare\u00e7a no meu sonho, filhinho. Venha fazer uma visita.<\/p>\n<p>Uma vez sonhei com um caix\u00e3o&#8230; A janelinha estava no lugar da cabe\u00e7a&#8230; Eu me inclinava para dar um beijo&#8230; Mas quem estava ali? N\u00e3o era meu filho&#8230; Era algu\u00e9m moreninho&#8230; Um menino afeg\u00e3o&#8230;<\/p>\n<p>Primeiro tenente, tradutor:<\/p>\n<p>Soldados com fome&#8230; Distr\u00f3ficos&#8230; Todo o corpo coberto de fur\u00fanculos. Avitaminose&#8230;<\/p>\n<p>As pupilas de algu\u00e9m morrendo por estilha\u00e7os perdidos que giram furiosamente&#8230;<\/p>\n<p>Nosso oficial ao lado de um afeg\u00e3o enforcado. Sorrindo.<\/p>\n<p>Soldado, batedor:<\/p>\n<p>Normalmente voc\u00ea abre a porta e joga uma granada, para n\u00e3o levar uma rajada de metralhadora. Para que arriscar? Joguei a granada e entrei: estavam ca\u00eddos uma mulher, dois meninos maiores e um beb\u00ea de colo. Numa esp\u00e9cie de caixinha&#8230; Em vez de ber\u00e7o&#8230;<\/p>\n<p>\u00c0 noite \u00e9 terr\u00edvel porque vejo&#8230; Nos sonhos n\u00e3o sou cego&#8230;<\/p>\n<p>Funcion\u00e1ria:<\/p>\n<p>Por acaso um hospital militar consegue funcionar sem mulheres? Os pacientes queimados&#8230; Desfigurados&#8230; Nem que seja s\u00f3 para colocar a m\u00e3o sobre a ferida, transmitir alguma energia. Isso \u00e9 compaix\u00e3o. \u00c9 trabalho para um cora\u00e7\u00e3o de mulher. Voc\u00ea acredita em mim? Acredita em n\u00f3s? Que nem todas l\u00e1 \u00e9ramos prostitutas?<\/p>\n<p>N\u00e3o d\u00ea meu nome. Considere que eu j\u00e1 n\u00e3o existo.<\/p>\n<p>M\u00e3e:<\/p>\n<p>Voc\u00ea corre para o cemit\u00e9rio como se fosse um encontro&#8230;<\/p>\n<p>Nos primeiros dias passei a noite l\u00e1&#8230; E n\u00e3o sentia medo&#8230;<\/p>\n<p>Fico ao lado dele at\u00e9 terminar a tarde. At\u00e9 chegar a noite. \u00c0s vezes grito e eu mesma n\u00e3o escuto at\u00e9 os p\u00e1ssaros sa\u00edrem voando&#8230; Um bando de corvos. Paro de gritar. Por todos esses quatro anos fui todo dia. S\u00f3 n\u00e3o fui por onze dias quando tive um in\u00edcio de enfarto. N\u00e3o me permitiam levantar. Mas eu me levantei, fui quietinha ao banheiro&#8230; Quer dizer, queria correr para encontrar meu filho, queria cair no t\u00famulo dele. Fugi com o uniforme do hospital&#8230;<\/p>\n<p>Antes disso tinha tido um sonho. Valera (apelido do filho) aparecia.<\/p>\n<p>&#8211; Mam\u00e3e n\u00e3o venha ao cemit\u00e9rio amanh\u00e3. N\u00e3o precisa.<\/p>\n<p>L\u00e1, no t\u00famulo&#8230; de certa forma meu filho mora ali&#8230; Calculei onde est\u00e1 a cabe\u00e7a dele&#8230; Me sento ao seu lado e conto tudinho a ele&#8230; Como foi minha manh\u00e3, como foi o dia&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Escrito em 28, 29 e 30 de mar\u00e7o de 2022.<\/p>\n<p>Revisado em 6 de abril.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Meninos de zinco&#8221; Svetlana Aleksi\u00e9vitch Companhia das Letras, 366 p\u00e1ginas Painel polif\u00f4nico de uma guerra Louren\u00e7o Cazarr\u00e9 Dias atr\u00e1s o Afeganist\u00e3o voltou a ser citado no notici\u00e1rio internacional por uma informa\u00e7\u00e3o sobre meninas que estariam, agora, sendo impedidas de ir \u00e0 escola. 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