{"id":84622,"date":"2026-04-13T20:13:45","date_gmt":"2026-04-13T23:13:45","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=84622"},"modified":"2026-04-13T20:13:46","modified_gmt":"2026-04-13T23:13:46","slug":"13-de-abril-queriam-transformar-o-hino-nacional-em-grito-de-guerra-mas-ele-insiste-em-ser-canto-de-paz","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/13-de-abril-queriam-transformar-o-hino-nacional-em-grito-de-guerra-mas-ele-insiste-em-ser-canto-de-paz\/","title":{"rendered":"13 de abril: Queriam transformar o Hino Nacional em grito de guerra, mas ele insiste em ser canto de paz"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CRISTIANO GOLDSCHMIDT<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No calend\u00e1rio das datas c\u00edvicas, o 13 de abril passa quase em sil\u00eancio, como um acorde sustentado que poucos escutam at\u00e9 o fim. N\u00e3o h\u00e1 fogos, n\u00e3o h\u00e1 desfiles grandiosos, n\u00e3o h\u00e1 a coreografia ensaiada das celebra\u00e7\u00f5es que se imp\u00f5em ao olhar. H\u00e1, antes, uma esp\u00e9cie de pausa \u2014 um intervalo discreto em que repousa a mem\u00f3ria de uma m\u00fasica que atravessou o tempo como um rio paciente, desses que contornam pedras sem jamais deixar de seguir. \u00c9 o Dia Nacional do Hino Brasileiro, e h\u00e1 algo de profundamente simb\u00f3lico nessa discri\u00e7\u00e3o: celebramos um canto que nasceu para unir, mas que hoje, tantas vezes, ecoa como territ\u00f3rio em disputa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes de ser grito de multid\u00e3o, o hino foi sussurro de cria\u00e7\u00e3o. Em 1831, quando o Brasil ainda tateava sua pr\u00f3pria identidade como quem aprende a reconhecer o pr\u00f3prio rosto no espelho, Francisco Manuel da Silva comp\u00f4s uma melodia para retratar um pa\u00eds em forma\u00e7\u00e3o \u2014 inst\u00e1vel, grandioso, cheio de promessas e contradi\u00e7\u00f5es. D\u00e9cadas depois, as palavras de Joaquim Os\u00f3rio Duque Estrada vieram como uma segunda camada de sentido, vestindo a m\u00fasica com imagens de bravura, natureza e destino. N\u00e3o era apenas uma can\u00e7\u00e3o: era uma tentativa \u2014 talvez imposs\u00edvel, talvez necess\u00e1ria \u2014 de dizer, em som e verso, o que significava existir como povo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery aligncenter has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"590\" height=\"817\" data-id=\"84623\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/imagem-do-poeta-brasileiro-joaquim-osorio-duque-estrada-autor-da-letra-do-hino-nacional-escaneada-do-livro-flora-de-maio-edicao-de-1902.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84623\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/imagem-do-poeta-brasileiro-joaquim-osorio-duque-estrada-autor-da-letra-do-hino-nacional-escaneada-do-livro-flora-de-maio-edicao-de-1902.jpg 590w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/imagem-do-poeta-brasileiro-joaquim-osorio-duque-estrada-autor-da-letra-do-hino-nacional-escaneada-do-livro-flora-de-maio-edicao-de-1902-217x300.jpg 217w\" sizes=\"(max-width: 590px) 100vw, 590px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imagem do poeta Joaquim Os\u00f3rio Duque Estrada, autor da letra do Hino Nacional, escaneada do livro &#8220;Flora de maio&#8221;, edi\u00e7\u00e3o de 1902.<\/figcaption><\/figure>\n<\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, no entanto, nosso hino nunca foi simples. H\u00e1 nele uma grandiosidade que beira o excesso, como se cada palavra precisasse erguer uma est\u00e1tua, como se cada verso carregasse a responsabilidade de eternizar uma ideia de p\u00e1tria. \u201cMargens pl\u00e1cidas\u201d, \u201cbrado retumbante\u201d, \u201cl\u00e1baro estrelado\u201d \u2014 o Brasil ali \u00e9 mais horizonte do que ch\u00e3o, mais promessa do que realidade. Talvez seja justamente por isso que ele persista: porque n\u00e3o descreve o que somos, mas insiste, teimosamente, no que ainda poder\u00edamos ser.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas toda beleza, quando deslocada, corre o risco de endurecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos tempos recentes, o hino tem sido capturado por vozes que j\u00e1 n\u00e3o querem cantar \u2014 querem delimitar. Ele surge em manifesta\u00e7\u00f5es carregadas de tens\u00e3o, entoado n\u00e3o como convite, mas como exig\u00eancia. Canta-se para marcar territ\u00f3rio, para distinguir quem pertence e quem deve ser colocado \u00e0 margem. Quem n\u00e3o canta, suspeito \u00e9; quem hesita, j\u00e1 se torna alvo. E assim, aquilo que nasceu como ponte vai sendo lentamente erguido como muro, pedra sobre pedra, nota sobre nota, at\u00e9 que o som j\u00e1 n\u00e3o acolhe \u2014 apenas separa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma viol\u00eancia sutil nesse processo, quase invis\u00edvel para quem n\u00e3o se det\u00e9m a escutar com aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata da destrui\u00e7\u00e3o do s\u00edmbolo, mas de sua tor\u00e7\u00e3o. O hino permanece reconhec\u00edvel, intacto em sua melodia, mas deslocado em seu sentido mais profundo. A m\u00fasica que deveria abra\u00e7ar passa a excluir. O canto coletivo se transforma em coro disciplinado, r\u00edgido, onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para varia\u00e7\u00f5es, apenas para repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez o mais tr\u00e1gico seja que esse processo empobrece n\u00e3o apenas o debate pol\u00edtico, mas a pr\u00f3pria experi\u00eancia cultural. Reduzir o hino a instrumento ideol\u00f3gico \u00e9 como transformar poesia em palavra de ordem: perde-se a ambiguidade, o mist\u00e9rio, a abertura que permite m\u00faltiplas leituras. O que antes era interpreta\u00e7\u00e3o vira obedi\u00eancia. O que antes era emo\u00e7\u00e3o compartilhada se converte em teste de fidelidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, o hino resiste \u2014 e talvez resista justamente por n\u00e3o caber inteiro em nenhuma tentativa de controle.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Resiste nas escolas onde crian\u00e7as trope\u00e7am nas palavras dif\u00edceis e ainda assim seguem cantando, inventando sentidos pr\u00f3prios. Resiste nos momentos em que algu\u00e9m, sozinho, escuta sua melodia e sente algo que n\u00e3o sabe nomear \u2014 uma mistura de pertencimento e estranhamento, de orgulho e d\u00favida, de proximidade e dist\u00e2ncia. Resiste porque n\u00e3o pertence a quem grita mais alto, mas a quem ainda \u00e9 capaz de escutar o que h\u00e1 de humano por tr\u00e1s das notas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque o hino, no fundo, nunca foi sobre unanimidade. Foi \u2014 e talvez ainda seja \u2014 sobre conviv\u00eancia. Sobre a dif\u00edcil tarefa de existir junto, apesar das diferen\u00e7as, apesar das discord\u00e2ncias, apesar das fissuras que insistem em atravessar o tecido social. Ele n\u00e3o exige concord\u00e2ncia plena; exige presen\u00e7a. N\u00e3o imp\u00f5e uma \u00fanica voz; pressup\u00f5e um coro imperfeito, feito de contrastes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste 13 de abril, celebrar o Hino Nacional talvez seja justamente recus\u00e1-lo como instrumento de imposi\u00e7\u00e3o. \u00c9 devolv\u00ea-lo ao seu estado mais fr\u00e1gil \u2014 e, por isso mesmo, mais poderoso: o de canto. Um canto que n\u00e3o apaga conflitos, mas tamb\u00e9m n\u00e3o os transforma em trincheiras. Um canto que n\u00e3o define quem \u00e9 mais brasileiro, mas pergunta, com delicadeza e inquieta\u00e7\u00e3o, o que significa ser.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez, no fim, seja essa a verdadeira subvers\u00e3o: cantar sem \u00f3dio em tempos repletos de gritos, ouvir sem medo em meio ao ru\u00eddo, reconhecer no outro n\u00e3o um inimigo, mas uma voz poss\u00edvel dentro do mesmo coro incompleto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque o hino pode at\u00e9 ser apropriado por alguns por um tempo \u2014 mas nunca ser\u00e1 totalmente possu\u00eddo. Ele escapa pelas brechas, ressoa nos lugares inesperados, reaparece onde menos se espera. Ele se reinventa na escuta de quem ainda acredita que o pa\u00eds n\u00e3o \u00e9 propriedade, mas constru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, apesar de tudo \u2014 das disputas, dos ru\u00eddos, das tentativas de captura \u2014 ele permanece.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o como ordem.<br>N\u00e3o como prova.<br>Mas como canto.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CRISTIANO GOLDSCHMIDT No calend\u00e1rio das datas c\u00edvicas, o 13 de abril passa quase em sil\u00eancio, como um acorde sustentado que poucos escutam at\u00e9 o fim. N\u00e3o h\u00e1 fogos, n\u00e3o h\u00e1 desfiles grandiosos, n\u00e3o h\u00e1 a coreografia ensaiada das celebra\u00e7\u00f5es que se imp\u00f5em ao olhar. 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