{"id":84632,"date":"2026-04-14T14:52:59","date_gmt":"2026-04-14T17:52:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=84632"},"modified":"2026-04-14T16:39:19","modified_gmt":"2026-04-14T19:39:19","slug":"medicos-alertam-para-os-riscos-a-saude-de-nova-fabrica-de-celulose-da-cmpc","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/medicos-alertam-para-os-riscos-a-saude-de-nova-fabrica-de-celulose-da-cmpc\/","title":{"rendered":"M\u00e9dicos alertam para os riscos \u00e0 sa\u00fade de nova f\u00e1brica de celulose da CMPC"},"content":{"rendered":"\n<p><strong>ROSELAINE MURLIK *<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Represento um grupo de profissionais da medicina que, h\u00e1 alguns anos, estuda os diferentes impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e da polui\u00e7\u00e3o ambiental nos ecossistemas na sa\u00fade humana e do planeta.<\/p>\n\n\n\n<p>Causa preocupa\u00e7\u00e3o o novo megaempreendimento de celulose da empresa chilena CMPC em Barra do Ribeiro (RS), pr\u00f3ximo \u00e0 capital ga\u00facha, cujo Estudo de Impacto Ambiental n\u00e3o leva em considera\u00e7\u00e3o<strong>\u00a0<\/strong>in\u00fameros aspectos graves, inclusive \u00e0 sa\u00fade humana, os quais est\u00e3o relacionados, dentre outros, \u00e0 libera\u00e7\u00e3o de toxinas no ar e na \u00e1gua do Gua\u00edba &#8211; de onde prov\u00e9m a \u00e1gua para a popula\u00e7\u00e3o beber.<\/p>\n\n\n\n<p>A produ\u00e7\u00e3o de celulose pode impactar a sa\u00fade humana por m\u00faltiplas vias, incluindo a emiss\u00e3o e o descarte de contaminantes s\u00f3lidos, l\u00edquidos e gasosos e, de forma indireta, por efeitos relacionados ao estresse e \u00e0 cadeia alimentar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/medica-e-indigenista-roselaine-murlik-plenaria-cmpc-camara-poa-ramiro-sanchez-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84641\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/medica-e-indigenista-roselaine-murlik-plenaria-cmpc-camara-poa-ramiro-sanchez-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/medica-e-indigenista-roselaine-murlik-plenaria-cmpc-camara-poa-ramiro-sanchez-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/medica-e-indigenista-roselaine-murlik-plenaria-cmpc-camara-poa-ramiro-sanchez-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/medica-e-indigenista-roselaine-murlik-plenaria-cmpc-camara-poa-ramiro-sanchez.jpg 1100w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>M\u00e9dica e indigenista Roselaine Murlik durante audi\u00eancia na C\u00e2mara Municipal de Porto Alegre. Foto: Ramiro Sanchez<\/strong>\/J\u00c1<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>An\u00e1lises T\u00e9cnicas entregues \u00e0 FEPAM<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>No dia 14 de fevereiro de 2026,\u00a0juntamente com outros 10 documentos t\u00e9cnicos,<strong> <\/strong>produzidos por outros \u00f3rg\u00e3os,\u00a0entregamos \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o Estadual de Prote\u00e7\u00e3o Ambiental (FEPAM) uma an\u00e1lise que avalia os potenciais riscos \u00e0 sa\u00fade advindos da instala\u00e7\u00e3o e atividade do projeto da pretensa f\u00e1brica de celulose.<\/p>\n\n\n\n<p>Consideramos que h\u00e1 falhas metodol\u00f3gicas e omiss\u00f5es no EIA-RIMA apresentado para licenciamento do Projeto Natureza da CMPC. As cr\u00edticas n\u00e3o s\u00e3o apenas sobre os impactos ambientais f\u00edsicos, mas tamb\u00e9m sobre a insufici\u00eancia dos estudos apresentados pela empresa para mitigar riscos sociais e biol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Em resumo, as cr\u00edticas podem ser categorizadas nos seguintes eixos principais:<\/strong><br><br>\u2022&nbsp;<strong>Riscos \u00e0 Sa\u00fade Humana:<\/strong>&nbsp;n\u00e3o h\u00e1 avalia\u00e7\u00e3o do impacto \u00e0 sa\u00fade das popula\u00e7\u00f5es vizinhas, tanto pela polui\u00e7\u00e3o do ar quanto da \u00e1gua.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022\u00a0<strong>Qualidade da \u00c1gua e Efluentes:<\/strong>\u00a0temos questionamentos sobre a avalia\u00e7\u00e3o de efluentes l\u00edquidos e como esses impactos foram projetados no EIA-RIMA da CMPC.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022\u00a0<strong>Impactos sobre Povos Ind\u00edgenas e Comunidades Tradicionais:<\/strong>\u00a0a dimens\u00e3o antropol\u00f3gica e o impacto sobre o modo de vida dessas popula\u00e7\u00f5es n\u00e3o foram devidamente dimensionados.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022\u00a0<strong>Biodiversidade e Fauna:<\/strong>\u00a0temos questionamentos espec\u00edficos sobre a fauna vertebrada, sugerindo que o projeto pode amea\u00e7ar a fauna local.<\/p>\n\n\n\n<p>\u2022\u00a0<strong>Impacto no bioma Pampa:<\/strong>\u00a0o projeto afeta diretamente o Pampa, um bioma com vegeta\u00e7\u00e3o campestre singular e alta biodiversidade, muitas vezes subestimada em grandes empreendimentos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"496\" height=\"279\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/comite-contra-celulose.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84645\" style=\"aspect-ratio:1.7778213385606272;width:570px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/comite-contra-celulose.jpg 496w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/comite-contra-celulose-300x169.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 496px) 100vw, 496px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Especialistas de diversas \u00e1reas entregaram \u00e0 Fepam analises t\u00e9cnicas do EIA-RIMA. Foto: Divulga\u00e7\u00e3o<\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>A emiss\u00e3o de gases e part\u00edculas \u00e9 a via de impacto mais imediata, provocando aumento nos atendimentos de emerg\u00eancia para nebuliza\u00e7\u00f5es, medica\u00e7\u00f5es injet\u00e1veis, e crises de broncoespasmo em asm\u00e1ticos e com bronquite cr\u00f4nicas, maior demanda por medicamentos de uso cont\u00ednuo (corticoides, broncodilatadores). O que pode provocar interna\u00e7\u00f5es frequentes de crian\u00e7as e idosos (grupos mais vulner\u00e1veis) por pneumonia ou insufici\u00eancia respirat\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p>De fato, os efeitos da exposi\u00e7\u00e3o impactam com maior intensidade as crian\u00e7as (pulm\u00f5es em desenvolvimento, respiram mais r\u00e1pido &#8211; inalam mais poluentes por kg de peso), idosos (sistema imunol\u00f3gico mais fraco e maior preval\u00eancia de doen\u00e7as card\u00edacas\/pulmonares pr\u00e9vias), asm\u00e1ticos (reagem imediatamente a picos de SO2 e TRS) e gestantes (riscos de anomalias de desenvolvimento em embri\u00f5es ou fetos expostos via materna).<\/p>\n\n\n\n<p>Por sua vez, os compostos de enxofre (TRS) geram um odor extremamente desagrad\u00e1vel e percept\u00edvel mesmo em baix\u00edssimas concentra\u00e7\u00f5es. Embora nem sempre t\u00f3xico em n\u00edveis baixos, o mau cheiro constante causa n\u00e1useas, dores de cabe\u00e7a (cefaleia), ins\u00f4nia, estresse e ansiedade.<\/p>\n\n\n\n<p>A contamina\u00e7\u00e3o h\u00eddrica traz riscos a longo prazo, pois h\u00e1 subst\u00e2ncias persistentes e bioacumulativas. Elas podem entrar na cadeia alimentar atrav\u00e9s de peixes ou da \u00e1gua contaminada, sendo associadas \u00e0 dist\u00farbios end\u00f3crinos, problemas reprodutivos e aumento do risco de c\u00e2ncer (tabela 1). <\/p>\n\n\n\n<p>Muitos estudos de monitoramento ou acad\u00eamicos realizados na regi\u00e3o do lago Gua\u00edba indicam que a carga t\u00f3xica aguda (que mata peixes imediatamente) desapareceu com as novas tecnologias de produ\u00e7\u00e3o de celulose, mas persistem os riscos causados pela polui\u00e7\u00e3o cr\u00f4nica (acumulada no sedimento antigo) e os efeitos subletais (gen\u00e9tica dos peixes).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"633\" height=\"276\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/tab1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84633\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/tab1.jpg 633w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/tab1-300x131.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 633px) 100vw, 633px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Estas condi\u00e7\u00f5es demandam tratamentos de alta complexidade e alto custo (oncologia), e podem requerer monitoramento de sa\u00fade a longo prazo para popula\u00e7\u00f5es expostas. Al\u00e9m disso, h\u00e1 aumento de demanda para o tratamento de dermatites e alergias de contato em pessoas que utilizam os corpos d&#8217;\u00e1gua pr\u00f3ximos. <\/p>\n\n\n\n<p>Por fim, a exposi\u00e7\u00e3o ocupacional aos riscos f\u00edsicos e qu\u00edmicos dentro da f\u00e1brica podem resultar em acidentes com necessidade de reabilita\u00e7\u00e3o f\u00edsica e afastamentos laborais, que geram um custo social indireto \u00e0 sa\u00fade p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>Impactos da produ\u00e7\u00e3o de celulose na sa\u00fade humana <\/strong><strong><\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>\u25cf Sistema Respirat\u00f3rio e Olfativo (Via A\u00e9rea) &#8211; a forma de impacto mais imediata e comum, atrav\u00e9s de picos de emiss\u00f5es e exposi\u00e7\u00e3o prolongada<\/p>\n\n\n\n<p>\u25cf Irrita\u00e7\u00e3o Aguda e Cr\u00f4nica: Causada por \u00d3xidos de Nitrog\u00eanio (NOx), Di\u00f3xido de Enxofre (SO2) e Material Particulado (MP).  Efeito &#8211; Exacerba\u00e7\u00e3o de asma e outras doen\u00e7as obstrutivas das vias a\u00e9reas. Em crian\u00e7as e idosos, aumenta a incid\u00eancia de infec\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias (gripes, pneumonias) devido \u00e0 inflama\u00e7\u00e3o constante das vias a\u00e9reas.<\/p>\n\n\n\n<p>\u25cf Intoxica\u00e7\u00e3o e Inc\u00f4modo Olfativo (TRS): Causada por G\u00e1s Sulf\u00eddrico (H2S) e Mercaptanas (cheiro de ovo podre\/repolho). Efeito F\u00edsico &#8211; em baixas concentra\u00e7\u00f5es, causa n\u00e1useas, v\u00f4mitos e dores de cabe\u00e7a intensas (&#8220;cefaleia&#8221;). Pode causar irrita\u00e7\u00e3o nos olhos (conjuntivite qu\u00edmica); e efeito neurol\u00f3gico &#8211; o H2S \u00e9 neurot\u00f3xico em altas concentra\u00e7\u00f5es. Mesmo em n\u00edveis baixos (apenas cheiro) pode causar fadiga mental e dificuldade de concentra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>F\u00e1bricas de celulose eliminam bastante SO\u00b2 e compostos org\u00e2nicos vol\u00e1teis. Estes s\u00e3o muito irritantes e, nas vias a\u00e9reas, causam inflama\u00e7\u00f5es, broncoespasmo e infec\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias. Principalmente, nas regi\u00f5es mais pr\u00f3ximas e nos seus trabalhadores caso n\u00e3o haja filtros apropriados, equipamentos de prote\u00e7\u00e3o e ventila\u00e7\u00e3o adequada do ambiente de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p>Os sulfetos de hidrog\u00eanio e part\u00edculas finas de 2,5 micr\u00f4metros ou menos (material particulado &#8211; MP) t\u00eam enorme import\u00e2ncia como causas de doen\u00e7as respirat\u00f3rias. Este material particulado que as f\u00e1bricas eliminam, queimando res\u00edduos ou na secagem, entram no sangue atrav\u00e9s da respira\u00e7\u00e3o e inflamam br\u00f4nquios e alv\u00e9olos e, em princ\u00edpio, nem s\u00e3o percebidos, e v\u00e3o se acumulando ano a ano, manifestando-se depois com doen\u00e7a pulmonar cr\u00f4nica.<\/p>\n\n\n\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o ao impacto destas subst\u00e2ncias na sa\u00fade humana, podemos citar as seguintes refer\u00eancias: um artigo brasileiro, dos mais citados, avaliou 638 trabalhadores que tiveram reconhecidos os problemas respirat\u00f3rios como os principais associados \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o ocupacional em uma f\u00e1brica de celulose\u00b2. Paralelamente, h\u00e1 bastante material publicado internacionalmente que tamb\u00e9m comprova danos \u00e0 sa\u00fade respirat\u00f3ria, tanto com exposi\u00e7\u00e3o ocupacional como comunit\u00e1ria, provocando fun\u00e7\u00e3o pulmonar diminu\u00edda, sintomas respirat\u00f3rios, asma e doen\u00e7a obstrutiva mesmo em pessoas que moram em at\u00e9 30km destas ind\u00fastrias\u00b3. Existem trabalhos suecos mais recentes do in\u00edcio desta d\u00e9cada, sobre fun\u00e7\u00e3o pulmonar e mortalidade que refor\u00e7am o risco respirat\u00f3rio cr\u00f4nico em trabalhadores destas ind\u00fastrias.<\/p>\n\n\n\n<p>Entre os riscos respirat\u00f3rios entre trabalhadores, h\u00e1 alta exposi\u00e7\u00e3o a irritantes como cloro, compostos de enxofre reduzido e poeira (material particulado), o que leva \u00e0 disfun\u00e7\u00e3o pulmonar e sintomas respirat\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<p>Sabe-se que f\u00e1bricas modernas controlam um pouco melhor suas emiss\u00f5es, mas os riscos existem inclusive \u00e0s comunidades adjacentes e principalmente quando n\u00e3o h\u00e1 monitoramento constante. A vigil\u00e2ncia epidemiol\u00f3gica e o monitoramento oficial s\u00e3o fundamentais para a capta\u00e7\u00e3o rotineira de dados. Mas estas avalia\u00e7\u00f5es n\u00e3o se fazem com o mesmo dinamismo ou relev\u00e2ncia que o aumento da produ\u00e7\u00e3o dessas f\u00e1bricas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/20260407-0004-plenaria-cmpc-camara-poa-ramiro-sanchez-oaf1939-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84647\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/20260407-0004-plenaria-cmpc-camara-poa-ramiro-sanchez-oaf1939-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/20260407-0004-plenaria-cmpc-camara-poa-ramiro-sanchez-oaf1939-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/20260407-0004-plenaria-cmpc-camara-poa-ramiro-sanchez-oaf1939-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/20260407-0004-plenaria-cmpc-camara-poa-ramiro-sanchez-oaf1939.jpg 1100w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Audi\u00eancia P\u00fablica Popular em Porto Alegre discutiu os impactos da instala\u00e7\u00e3o de uma nova f\u00e1brica de celulose da CMPC em Barra do Ribeiro. Foto: Ramiro Sanchez\/J\u00c1 <\/strong><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u25cf Neurotoxicidade e Doen\u00e7as Org\u00e2nicas: Metais pesados (como c\u00e1dmio, cromo e chumbo) liberados nos efluentes est\u00e3o associados \u00e0 neurotoxicidade, doen\u00e7as card\u00edacas, doen\u00e7as renais e inibi\u00e7\u00e3o do crescimento.<\/p>\n\n\n\n<p>\u25cf Sistema Digestivo e End\u00f3crino (Via \u00c1gua e Alimentos) &#8211; impacto mais silencioso e de longo prazo (cr\u00f4nico), ligado principalmente \u00e0 ingest\u00e3o de \u00e1gua contaminada ou consumo de peixes.<\/p>\n\n\n\n<p>Para a sa\u00fade humana e o ecossistema, a via dos efluentes costuma ser considerada mais perigosa a longo prazo devido \u00e0 bioacumula\u00e7\u00e3o. Compostos Organoclorados (AOX), Dioxinas e Furanos (principalmente em f\u00e1bricas mais antigas ou sem tecnologia ECF) n\u00e3o se dissolvem bem na \u00e1gua, mas fixam-se na gordura dos peixes. Ao comer o peixe, o humano ingere a toxina concentrada. S\u00e3o subst\u00e2ncias cancer\u00edgenas e disruptores end\u00f3crinos, podendo causar infertilidade, problemas na tireoide e malforma\u00e7\u00f5es fetais. Se a capta\u00e7\u00e3o de \u00e1gua da cidade for abaixo da f\u00e1brica (jusante), o tratamento de \u00e1gua torna-se dif\u00edcil. A presen\u00e7a de fenois pode gerar gosto e odor ruim na \u00e1gua. Toxinas de algas podem causar danos graves ao f\u00edgado (hepatotoxicidade).<\/p>\n\n\n\n<p>\u25cf Sa\u00fade Mental e Psicossocial (impacto Invis\u00edvel) &#8211; Muitas vezes ignorado nos laudos t\u00e9cnicos, este \u00e9 um dos maiores geradores de reclama\u00e7\u00f5es em comunidades vizinhas a f\u00e1bricas de celulose.<\/p>\n\n\n\n<p>Estresse Cr\u00f4nico e Ansiedade ao viver sob a constante percep\u00e7\u00e3o de mau cheiro (&#8220;odor de celulose&#8221;) ativa mecanismos de estresse no c\u00e9rebro. Isso eleva os n\u00edveis de cortisol e causa ins\u00f4nia, irritabilidade, depress\u00e3o e sensa\u00e7\u00e3o de impot\u00eancia frente \u00e0 polui\u00e7\u00e3o<\/p>\n\n\n\n<p>\u25cf Perturba\u00e7\u00e3o do Sono: tanto o odor forte durante a noite (quando a dispers\u00e3o atmosf\u00e9rica \u00e9 pior devido \u00e0 invers\u00e3o t\u00e9rmica) quanto o ru\u00eddo industrial (picadores de madeira, caldeiras) prejudicam o descanso, levando a problemas cardiovasculares a longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u25cf Sa\u00fade Reprodutiva: Efeitos de Disruptores End\u00f3crinos (AOX, dioxinas &#8211; especialmente o TCDD, furanos), mat\u00e9ria particulada (especialmente MP 2,5), est\u00e3o associados a problemas de desenvolvimento do feto, incluindo anomalias cong\u00eanitas, perda da gravidez e baixo peso ao nascimento. Tamb\u00e9m est\u00e3o associados a problemas de fertilidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u25cf C\u00e2ncer: Mat\u00e9ria Particulada fina (MP2,5) \u00e9 classificada como um carcin\u00f3geno na Classe 1 pelo IARC (International Agency for Research on Cancer), associado principalmente ao c\u00e2ncer de pulm\u00e3o e de bexiga. Dioxinas, especialmente o TCDD, e furanos s\u00e3o altamente t\u00f3xicos e cancer\u00edgenos comprovados (Classe 1 pelo IARC). Desreguladores end\u00f3crinos tamb\u00e9m est\u00e3o associados \u00e0 carcinog\u00eanese ao alterar ou mimetizar o efeito de horm\u00f4nios.<\/p>\n\n\n\n<p>A Estimativa 2026: Incid\u00eancia de C\u00e2ncer no Brasil, do Instituto Nacional de C\u00e2ncer, prev\u00ea que as taxas estimadas de incid\u00eancia de neoplasias para o RS est\u00e3o entre as mais altas do pa\u00eds. Os tumores de traqueia, br\u00f4nquios e pulm\u00f5es t\u00eam as taxas mais elevadas do pa\u00eds; tumores de bexiga e tumores hematol\u00f3gicos (Linfoma n\u00e3o Hodgkin, Leucemias e Linfoma de Hodgkin) tamb\u00e9m t\u00eam risco superior \u00e0 m\u00e9dia brasileira, e a incid\u00eancia de c\u00e2ncer em crian\u00e7as e adolescentes (0 a 19 anos) no RS \u00e9 de 168,11 por milh\u00e3o, seguindo o padr\u00e3o da regi\u00e3o Sul, que det\u00e9m as maiores taxas estimadas do Brasil para ambos os sexos.<\/p>\n\n\n\n<p>Os Trihalometanos s\u00e3o produtos do tratamento do papel para branqueamento com o uso de cloro. A rea\u00e7\u00e3o do cloro com outros compostos presentes na \u00e1gua bruta no momento do tratamento resulta em subprodutos da clora\u00e7\u00e3o na \u00e1gua, como os (THM). Os trihalometanos (THM) s\u00e3o compostos de carbono simples que cont\u00eam halog\u00eanios. Esses incluem v\u00e1rios subprodutos dos processos de clora\u00e7\u00e3o da \u00e1gua (SOH &#8211; Subprodutos Org\u00e2nicos Halogenados). Entre os THMs est\u00e3o o bromof\u00f3rmio, o bromodiclorometano, o clorof\u00f3rmio, o clorodibromometano, o clorodifluorometano, o fluorof\u00f3rmio e o iodof\u00f3rmio. Outros subprodutos da desinfec\u00e7\u00e3o incluem os \u00e1cidos monocloroac\u00e9tico, dicloroac\u00e9tico, tricloroac\u00e9tico e haloacetonitrilas. Esses compostos est\u00e3o presentes na \u00e1gua pot\u00e1vel em quantidades que variam entre microgramas e nanogramas. S\u00e3o produtos frequentemente encontrados nos efluentes de f\u00e1bricas de celulose no processo de branqueamento que utilizam cloro.<\/p>\n\n\n\n<p>Ap\u00f3s os primeiros trabalhos publicados nos anos de 1970, muitos outros estudos t\u00eam sido conduzidos para avaliar a associa\u00e7\u00e3o entre a exposi\u00e7\u00e3o aos SOH e diversos potenciais riscos \u00e0 sa\u00fade, como alguns tipos de c\u00e2ncer, doen\u00e7as cardiovasculares, reprodu\u00e7\u00e3o e desenvolvimento fetal. Os dados relatados, a princ\u00edpio, sugerem associa\u00e7\u00e3o entre c\u00e2ncer de bexiga, c\u00f3lon e reto e a ingest\u00e3o de SOH6.<\/p>\n\n\n\n<p>A exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 mat\u00e9ria particulada (MP), especialmente, tamb\u00e9m \u00e9 preocupante quanto \u00e0 sa\u00fade reprodutiva. Dados de diferentes pa\u00edses, incluindo o Brasil, mostram que a proximidade de resid\u00eancia com minas ou usinas de carv\u00e3o est\u00e3o associados \u00e0 maior probabilidade de perdas gestacionais (natimortalidade), baixo peso ao nascimento e prematuridade. A associa\u00e7\u00e3o de exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 mat\u00e9ria particulada de 2,5 micr\u00f4metros (MP2,5) tamb\u00e9m est\u00e1 associada \u00e0 pr\u00e9-ecl\u00e2mpsia na gravidez (aumento da press\u00e3o arterial materna). <\/p>\n\n\n\n<p>Estudos associando defeitos cong\u00eanitos em rec\u00e9m-nascidos humanos e exposi\u00e7\u00e3o materna \u00e0 mat\u00e9ria particulada (MP2,5) mostraram associa\u00e7\u00f5es com alguns defeitos cong\u00eanitos, especialmente anomalias card\u00edacas cong\u00eanitas, defeitos de tubo neural e fendas labiopalatinas.<\/p>\n\n\n\n<p>A <strong>Tabela 2<\/strong> apresenta um sum\u00e1rio anal\u00edtico de trabalhos publicados em que as evid\u00eancias epidemiol\u00f3gicas de c\u00e2ncer de c\u00f3lon, reto e bexiga, aborto espont\u00e2neo, natimorto, anomalias respirat\u00f3rias, parto prematuro, feto pequeno para a idade gestacional, anomalias cardiovasculares, baixo peso ao nascer, anomalias no trato urin\u00e1rio, fenda labial e palatina, retardo do crescimento intrauterino, anomalias cromoss\u00f4micas s\u00e3o associadas \u00e0 exposi\u00e7\u00e3o aos SOH. Nas linhas, est\u00e3o os n\u00fameros de estudos de cada um destes efeitos relacionados com trihalometanos (THM), \u00e1gua clorada, bromof\u00f3rmio (BF), bromodiclorometano (BDCM), clorof\u00f3rmio (CF) e \u00e1cidos haloac\u00e9ticos (AHA). <\/p>\n\n\n\n<p>Foram relacionados 135 trabalhos cient\u00edficos, realizados ao longo de quase 30 anos (1981 &#8211; 2008), cujas pesquisas evidenciaram que os SOH, principalmente quando o cloro \u00e9 utilizado, est\u00e3o associados \u00e0 ocorr\u00eancia e a efeitos adversos \u00e0 sa\u00fade (mutag\u00eanicos, carcinog\u00eanicos e teratog\u00eanicos).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"640\" height=\"346\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/tab2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84634\" style=\"aspect-ratio:1.8498109130199891;width:642px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/tab2.jpg 640w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/tab2-300x162.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"629\" height=\"365\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/tab2-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84635\" style=\"aspect-ratio:1.7233815559254044;width:627px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/tab2-1.jpg 629w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/tab2-1-300x174.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 629px) 100vw, 629px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\"><strong>O coletivo \u201c Medicina em Alerta\u201d aponta as seguintes preocupa\u00e7\u00f5es com o Projeto Natureza:<\/strong><\/h2>\n\n\n\n<p>\u25cf No Volume 2, TOMO III &#8211; Diagn\u00f3stico Ambiental &#8211; Meio Socioecon\u00f4mico do Relat\u00f3rio T\u00e9cnico h\u00e1 uma descri\u00e7\u00e3o do sistema de sa\u00fade de Barra do Ribeiro e demais cidades afetadas pelo empreendimento. N\u00e3o h\u00e1 nenhuma refer\u00eancia sobre os impactos \u00e0 sa\u00fade humana resultantes dos produtos qu\u00edmicos emitidos na atmosfera durante a opera\u00e7\u00e3o, ou tampouco daqueles presentes nos efluentes, nem dos impactos a longo prazo causados pela bioacumula\u00e7\u00e3o progressiva de dioxinas e furanos em animais e seres humanos &#8211; no ser humano, a meia-vida das dioxinas \u00e9 estimada entre 7 a 11 anos.<\/p>\n\n\n\n<p>\u25cf A an\u00e1lise dos sistemas de sa\u00fade na cidade do empreendimento e na maioria das cidades vizinhas evidencia a escassez de leitos hospitalares ou de atendimento de urg\u00eancias. A demanda aumentada n\u00e3o ocorre apenas por grandes acidentes, mas frequentemente pelo aumento cr\u00f4nico da demanda por tratamento de doen\u00e7as respirat\u00f3rias, cardiovasculares e dermatol\u00f3gicas nas comunidades pr\u00f3ximas \u00e0s f\u00e1bricas e naquelas mais distantes que estar\u00e3o nas rotas dos ventos predominantes para a dispers\u00e3o de poluentes. A sobrecarga no sistema de sa\u00fade \u00e9 preocupante, sabendo-se da insufici\u00eancia das estruturas que existem na regi\u00e3o para atender a demanda atual de doen\u00e7as cr\u00f4nico-degenerativas e situa\u00e7\u00f5es agudas de maior complexidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u25cf Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s neoplasias, o Plano de A\u00e7\u00e3o Estadual de Oncologia Tri\u00eanio 2024-2026, da Secretaria de Sa\u00fade estadual, aponta n\u00f3s cr\u00edticos na rede de assist\u00eancia ao paciente oncol\u00f3gico, e cita a necessidade de amplia\u00e7\u00e3o dessa assist\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 refer\u00eancia ao aumento de casos de neoplasias decorrentes da instala\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica.<\/p>\n\n\n\n<p>\u25cf O Volume 3 \u2013 Avalia\u00e7\u00e3o de Impactos Ambientais, Progn\u00f3stico Ambiental e Conclus\u00f5es, apresenta como medidas mitigat\u00f3rias para o aumento da popula\u00e7\u00e3o instalar hospitais de campanha ou unidades m\u00f3veis de sa\u00fade para aumentar a capacidade de atendimento temporariamente e parcerias com hospitais privados para utilizar leitos dispon\u00edveis em caso de necessidade, garantindo atendimento r\u00e1pido e eficiente, al\u00e9m de estabelecer um Programa de Mitiga\u00e7\u00e3o de Interfer\u00eancia Urbana que prev\u00ea, abordar assuntos como sa\u00fade, higiene e seguran\u00e7a no Programa de Educa\u00e7\u00e3o Ambiental junto \u00e0 comunidade para situa\u00e7\u00f5es agudas de acidentes. Tais medidas n\u00e3o parecem suficientes para atender as novas necessidades de sa\u00fade &#8211; condi\u00e7\u00f5es agudas que demandam servi\u00e7os de emerg\u00eancia, e tratamento de doen\u00e7as cr\u00f4nico-degenerativas, entre elas neoplasias, que requerem estrutura\u00e7\u00e3o de servi\u00e7os de maior complexidade.<\/p>\n\n\n\n<p>\u25cf J\u00e1 h\u00e1 uma f\u00e1brica de celulose em Gua\u00edba; os efeitos do incremento \u00e0 polui\u00e7\u00e3o j\u00e1 lan\u00e7ada pela atual f\u00e1brica n\u00e3o est\u00e3o descritos. N\u00e3o h\u00e1 tamb\u00e9m refer\u00eancia \u00e0 necessidade de estabelecimento de um Plano de Vigil\u00e2ncia em Sa\u00fade Ambiental para monitoramento dos efeitos da polui\u00e7\u00e3o na popula\u00e7\u00e3o exposta. Este \u00e9 outro impacto na rede de aten\u00e7\u00e3o \u00e0 sa\u00fade n\u00e3o dimensionado. Diante de tantas evid\u00eancias dos impactos da ind\u00fastria de celulose sobre a sa\u00fade humana que n\u00e3o foram contempladas na documenta\u00e7\u00e3o apresentada para estabelecimento do Projeto, propomos que seja inclu\u00edda na EIA-RIMA uma Avalia\u00e7\u00e3o de Impacto \u00e0 Sa\u00fade (AIS).<\/p>\n\n\n\n<p>Segundo a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, a Avalia\u00e7\u00e3o de Impacto \u00e0 Sa\u00fade \u00e9 uma metodologia que engloba a identifica\u00e7\u00e3o, predi\u00e7\u00e3o e avalia\u00e7\u00e3o das esperadas mudan\u00e7as nos riscos (podendo ser tanto negativas como positivas, individual ou coletivas), causadas por uma pol\u00edtica, um programa, um plano ou projetos de desenvolvimento em uma popula\u00e7\u00e3o definida.<\/p>\n\n\n\n<p>A inclus\u00e3o de uma Avalia\u00e7\u00e3o de Impacto \u00e0 Sa\u00fade (AIS) \u00e9 um complemento necess\u00e1rio neste projeto porque o licenciamento ambiental padr\u00e3o (o EIA\/RIMA) frequentemente deixa lacunas cr\u00edticas sobre a sa\u00fade humana: Enquanto o EIA foca em &#8220;o que sai da chamin\u00e9&#8221; (se a emiss\u00e3o cumpre a lei), a AIS foca em &#8220;quem respira a fuma\u00e7a&#8221; (se as pessoas v\u00e3o adoecer, mesmo com a emiss\u00e3o dentro da lei).<\/p>\n\n\n\n<p>A legisla\u00e7\u00e3o ambiental define limites de emiss\u00e3o, mas uma f\u00e1brica pode estar 100% legal e, ainda assim, causar danos \u00e0 sa\u00fade. Os limites legais muitas vezes s\u00e3o m\u00e9dias generalistas que n\u00e3o consideram a sinergia entre poluentes (o &#8220;coquetel qu\u00edmico&#8221;) ou as condi\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas locais (como a invers\u00e3o t\u00e9rmica no inverno do RS, que prende a polui\u00e7\u00e3o no n\u00edvel do solo). A AIS avalia o risco biol\u00f3gico real, n\u00e3o apenas a burocracia do n\u00famero.<\/p>\n\n\n\n<p>O odor cr\u00f4nico (TRS) n\u00e3o \u00e9 somente um \u201ccheiro ruim\u201d &#8211; gera estresse, ansiedade, ins\u00f4nia e n\u00e1useas. A sa\u00fade, pela defini\u00e7\u00e3o da OMS, \u00e9 o &#8220;completo bem-estar f\u00edsico, mental e social&#8221;, n\u00e3o apenas a aus\u00eancia de doen\u00e7a. A AIS quantifica esse impacto na qualidade de vida e sa\u00fade mental da comunidade vizinha.<\/p>\n\n\n\n<p>Al\u00e9m disso, o licenciamento ambiental trata a popula\u00e7\u00e3o como homog\u00eanea. Uma concentra\u00e7\u00e3o de material particulado (MP2,5) que n\u00e3o afeta um adulto saud\u00e1vel pode ser gatilho para crise de asma em uma crian\u00e7a ou Doen\u00e7a Pulmonar Obstrutiva Cr\u00f4nica em um idoso. A AIS identifica quem vive na dire\u00e7\u00e3o do vento (pluma de dispers\u00e3o). Se houver escolas, hospitais ou bairros de baixa renda (que j\u00e1 t\u00eam sa\u00fade prec\u00e1ria) nessa zona, a f\u00e1brica precisa propor medidas de prote\u00e7\u00e3o extras.<\/p>\n\n\n\n<p>A Avalia\u00e7\u00e3o de Impacto \u00e0 Sa\u00fade atua como uma ferramenta preventiva e de transpar\u00eancia fundamental, pois conecta os dados t\u00e9cnicos de engenharia \u2014 como emiss\u00f5es atmosf\u00e9ricas e efluentes l\u00edquidos \u2014 diretamente aos desfechos na vida humana, permitindo identificar riscos invis\u00edveis no licenciamento ambiental comum.<\/p>\n\n\n\n<p> Ao simular cen\u00e1rios de exposi\u00e7\u00e3o, a AIS obriga o empreendedor a adotar as &#8220;Melhores Tecnologias Dispon\u00edveis&#8221; (BAT) para reduzir a carga t\u00f3xica (como a substitui\u00e7\u00e3o do cloro elementar no branqueamento) antes mesmo da constru\u00e7\u00e3o, garantindo uma opera\u00e7\u00e3o menos poluente. Simultaneamente, ela traduz a complexidade qu\u00edmica em informa\u00e7\u00f5es acess\u00edveis sobre morbidade e qualidade de vida, empoderando a comunidade local para que participe das audi\u00eancias p\u00fablicas n\u00e3o apenas com base no medo ou na promessa de empregos, mas com conhecimento cient\u00edfico claro para negociar contrapartidas, exigir monitoramento cont\u00ednuo e decidir sobre a aceitabilidade do projeto com autonomia real.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>* Assinam este documento pelo coletivo Medicina em Alerta <\/strong><strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Helena Barreto dos Santos, M\u00e9dica Internista CREMERS- 18044, <\/p>\n\n\n\n<p>Lav\u00ednia Sch\u00fcler Faccini, M\u00e9dica Geneticista &#8211; CREMERS 13.269, <\/p>\n\n\n\n<p>Roberto Targa Ferreira, M\u00e9dico Pneumologista, CREMERS 10887, <\/p>\n\n\n\n<p>Suzane Cerutti Kummer &#8211; M\u00e9dica Pediatra CREMERS 18226, <\/p>\n\n\n\n<p>Rafaela Brugalli Zandavalli, M\u00e9dica de Fam\u00edlia e Comunidade, CREMERS 43067, <\/p>\n\n\n\n<p>Olga Garcia Falceto, Psiquiatra da Inf\u00e2ncia e Adolesc\u00eancia &#8211; CREMERS 5446,<\/p>\n\n\n\n<p>Elisabeth Susana Wartchow &#8211; M\u00e9dica de Fam\u00edlia e Comunidade CREMERS 11767, <\/p>\n\n\n\n<p>Enrique Falceto de Barros &#8211; M\u00e9dico de Fam\u00edlia e Comunidade &#8211; CREMERS 31955, <\/p>\n\n\n\n<p>Anna Cl\u00e1udia Dilda, &#8211; M\u00e9dica de Fam\u00edlia e Comunidade &#8211; CREMERS 47020,<\/p>\n\n\n\n<p>Alexandre Bublitz, M\u00e9dico Pediatra &#8211; CREMERS 38807, <\/p>\n\n\n\n<p>Soraya Malafaia Colares, M\u00e9dica Pediatra &#8211; CREMERS 14372, <\/p>\n\n\n\n<p>Bianca Machado da Cruz, M\u00ebdica Emergencista &#8211; CREMERS 43515, <\/p>\n\n\n\n<p>Paulo Zambrano Wageck, M\u00e9dico Ortopedista e Traumatologista &#8211; CREMERS 26250, <\/p>\n\n\n\n<p>Mayara Floss, M\u00e9dica de Fam\u00edlia e Comunidade &#8211; CRMSC 24848, e<\/p>\n\n\n\n<p>Roselaine Murlik &#8211; M\u00e9dica de Fam\u00edlia e Comunidade &#8211; CREMERS 26629.<br><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ROSELAINE MURLIK * Represento um grupo de profissionais da medicina que, h\u00e1 alguns anos, estuda os diferentes impactos das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas e da polui\u00e7\u00e3o ambiental nos ecossistemas na sa\u00fade humana e do planeta. Causa preocupa\u00e7\u00e3o o novo megaempreendimento de celulose da empresa chilena CMPC em Barra do Ribeiro (RS), pr\u00f3ximo \u00e0 capital ga\u00facha, cujo Estudo [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":0,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"jetpack_post_was_ever_published":false,"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":true,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2}},"categories":[2],"tags":[],"class_list":["post-84632","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-analiseopiniao"],"aioseo_notices":[],"jetpack_publicize_connections":[],"jetpack_featured_media_url":"","jetpack-related-posts":[{"id":84564,"url":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/a-nova-celulose-a-beira-do-guaiba-e-o-risco-de-repetir-a-borregaard\/","url_meta":{"origin":84632,"position":0},"title":"A nova celulose \u00e0 beira do Gua\u00edba e o risco de repetir a Borregaard","author":"An\u00e1lise &amp; Opini\u00e3o","date":"6 de mar\u00e7o de 2026","format":false,"excerpt":"ELMAR BONES No dia 16 de mar\u00e7o de 1972 foi inaugurada a Ind\u00fastria de Celulose Borregaard, em Gua\u00edba, com a presen\u00e7a das mais altas autoridades e manchetes ufanistas em todos os jornais. Inaugura\u00e7\u00e3o da f\u00e1brica em Gua\u00edba, no ano de 1972. 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