{"id":84690,"date":"2026-04-17T15:44:33","date_gmt":"2026-04-17T18:44:33","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=84690"},"modified":"2026-04-17T15:44:33","modified_gmt":"2026-04-17T18:44:33","slug":"17-de-abril-de-1996-30-anos-do-massacre-de-eldorado-do-carajas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/17-de-abril-de-1996-30-anos-do-massacre-de-eldorado-do-carajas\/","title":{"rendered":"17 de abril de 1996: 30 anos do Massacre de Eldorado do Caraj\u00e1s"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"666\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/mc006-1024x666.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84689\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/mc006-1024x666.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/mc006-300x195.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/mc006-768x499.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/mc006-1536x999.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/04\/mc006.jpg 1816w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Cruz marca o local do massacre em Eldorado dos Caraj\u00e1s, Par\u00e1. Foto: Marcello Casal Jr.\/Arquivo ABr<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><br><strong>CRISTIANO GOLDSCHMIDT<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 datas que n\u00e3o passam. Ficam suspensas no tempo como poeira vermelha sobre a pele \u2014 insistem, infiltram-se, recusam o esquecimento. Abril, no sul do Par\u00e1, \u00e9 sempre um m\u00eas que arde. N\u00e3o apenas pelo calor, nem pela terra exposta das estradas, mas pelo que ficou impregnado nela: a mem\u00f3ria de um pa\u00eds que, diante do clamor por justi\u00e7a, respondeu com o peso das armas.<\/p>\n\n\n\n<p>Trinta anos depois, o que aconteceu no Massacre de Eldorado do Caraj\u00e1s ainda n\u00e3o terminou de acontecer.<\/p>\n\n\n\n<p>A estrada PA-150, naquele 17 de abril de 1996, n\u00e3o era apenas caminho: era palco. Centenas de trabalhadores rurais ligados ao Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra seguiam em marcha, depois de dias de deslocamento e de espera por negocia\u00e7\u00e3o. Estavam acampados, cansados, pressionando por desapropria\u00e7\u00f5es prometidas e nunca cumpridas. N\u00e3o pediam mais do que aquilo que a Constitui\u00e7\u00e3o j\u00e1 previa \u2014 mas, no Brasil, entre o direito escrito e o direito vivido, h\u00e1 sempre um abismo.<\/p>\n\n\n\n<p>Do outro lado, veio a Pol\u00edcia Militar do Par\u00e1. N\u00e3o veio para escutar. Veio para desobstruir. A ordem era liberar a estrada, custasse o que custasse. E custou. O que se seguiu n\u00e3o foi apenas confronto: foi uma execu\u00e7\u00e3o que resultou em 21 mortes. Dezenas de feridos. Trabalhadores cercados, muitos sem possibilidade de fuga, atingidos \u00e0 queima-roupa. Corpos ca\u00eddos no asfalto e na terra, ferramentas transformadas em s\u00edmbolos de impot\u00eancia diante de fuzis.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o foi um acidente. Tampouco um descontrole moment\u00e2neo.\u00a0O massacre carrega a assinatura de uma l\u00f3gica antiga, quase colonial, que entende a terra como privil\u00e9gio e o pobre como obst\u00e1culo.\u00a0O que se viu ali n\u00e3o foi apenas repress\u00e3o: foi uma mensagem. E mensagens, quando dadas em tiros, s\u00e3o sempre dif\u00edceis de apagar.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 relatos de feridos impedidos de receber socorro imediato, de sobreviventes perseguidos mesmo depois da dispers\u00e3o, de uma viol\u00eancia que ultrapassou qualquer justificativa de manuten\u00e7\u00e3o da ordem. A estrada, que deveria ligar cidades, naquele dia separou mundos \u2014 o dos que podiam mandar e o dos que s\u00f3 podiam resistir.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 quem tente enquadrar o epis\u00f3dio como um ponto fora da curva. Mas a curva, no Brasil, \u00e9 longa e tortuosa. Antes de Caraj\u00e1s, vieram outros sil\u00eancios armados; depois dele, tamb\u00e9m. O que muda s\u00e3o os nomes, os rostos, \u00e0s vezes a geografia. A estrutura permanece \u2014 uma engrenagem que transforma reivindica\u00e7\u00e3o em amea\u00e7a e resist\u00eancia em crime.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela tarde, a estrada ficou marcada por corpos e por algo ainda mais persistente: a evid\u00eancia de que a lei nem sempre se aplica da mesma forma.\u00a0Anos depois, alguns comandantes da opera\u00e7\u00e3o foram condenados, mas a responsabiliza\u00e7\u00e3o nunca alcan\u00e7ou toda a cadeia de decis\u00f5es que tornou poss\u00edvel a trag\u00e9dia.\u00a0A sensa\u00e7\u00e3o de justi\u00e7a incompleta permanece como uma sombra \u2014 porque justi\u00e7a n\u00e3o \u00e9 apenas punir executores, \u00e9 tamb\u00e9m enfrentar as estruturas que autorizam a viol\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Trinta anos \u00e9 tempo suficiente para que uma gera\u00e7\u00e3o inteira cres\u00e7a sem ter visto o que aconteceu. E, ainda assim, herde suas consequ\u00eancias. Porque o massacre n\u00e3o se limita aos que estavam l\u00e1. Ele ecoa nas ocupa\u00e7\u00f5es que continuam sendo tratadas como caso de pol\u00edcia, nas lideran\u00e7as amea\u00e7adas, nos conflitos agr\u00e1rios que persistem como uma ferida aberta no mapa.<\/p>\n\n\n\n<p>O Brasil urbano, muitas vezes, observa tudo isso \u00e0 dist\u00e2ncia, como se fosse outra realidade. Mas h\u00e1 um fio invis\u00edvel que liga a estrada de terra aos centros asfaltados: o alimento que chega \u00e0 mesa, o modelo de desenvolvimento que se escolhe sustentar, o sil\u00eancio que se aceita manter. Ignorar Caraj\u00e1s \u00e9, de certo modo, participar do seu esquecimento \u2014 e o esquecimento \u00e9 a forma mais eficiente de repeti\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Uma cr\u00f4nica, por natureza, lida com o cotidiano. Mas h\u00e1 cotidianos que s\u00e3o constru\u00eddos sobre ru\u00ednas. O de muitos trabalhadores rurais no pa\u00eds ainda carrega o peso daquele abril. N\u00e3o como lembran\u00e7a distante, mas como aviso permanente. A terra continua sendo disputada n\u00e3o apenas com documentos, mas com coragem \u2014 e, \u00e0s vezes, com sangue.<\/p>\n\n\n\n<p>H\u00e1 tamb\u00e9m, contudo, um outro lado da mem\u00f3ria: o da persist\u00eancia. Porque, apesar de tudo, as vozes que foram silenciadas naquele dia n\u00e3o desapareceram completamente. Elas se espalharam. Est\u00e3o nos acampamentos que resistem, nas marchas que insistem, nos nomes que continuam sendo pronunciados em assembleias e encontros. H\u00e1 uma dignidade teimosa nisso \u2014 uma recusa em deixar que a hist\u00f3ria seja contada apenas pelos vencedores.<\/p>\n\n\n\n<p>Talvez o maior inc\u00f4modo de relembrar Eldorado do Caraj\u00e1s seja justamente este: perceber que ele n\u00e3o pertence ao passado. Ele \u00e9 uma pergunta que ainda n\u00e3o foi respondida. Que pa\u00eds se constr\u00f3i quando a reivindica\u00e7\u00e3o por direitos b\u00e1sicos \u00e9 recebida como afronta? Que futuro se desenha quando a terra \u2014 origem de tudo \u2014 permanece concentrada nas m\u00e3os de poucos?<\/p>\n\n\n\n<p>Trinta anos depois, o asfalto cobre parte das marcas, mas n\u00e3o as apaga. A poeira continua ali, invis\u00edvel aos olhos apressados, mas pronta para se erguer ao menor movimento. E a mem\u00f3ria, essa mat\u00e9ria indom\u00e1vel, segue fazendo o que sabe fazer: voltar.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltar como inc\u00f4modo. Como den\u00fancia. Como lembran\u00e7a de que h\u00e1 hist\u00f3rias que n\u00e3o podem ser encerradas enquanto n\u00e3o forem verdadeiramente compreendidas.<\/p>\n\n\n\n<p>E, talvez, como um pedido \u2014 n\u00e3o por piedade, mas por responsabilidade. Porque lembrar n\u00e3o \u00e9 apenas um gesto de respeito ao passado. \u00c9 uma forma de interrogar o presente.<\/p>\n\n\n\n<p>E, quem sabe, impedir que ele se repita.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>CRISTIANO GOLDSCHMIDT H\u00e1 datas que n\u00e3o passam. 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