{"id":84801,"date":"2026-05-13T13:47:52","date_gmt":"2026-05-13T16:47:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=84801"},"modified":"2026-05-13T17:00:46","modified_gmt":"2026-05-13T20:00:46","slug":"a-lei-aurea-libertou-os-corpos-mas-preservou-as-correntes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/a-lei-aurea-libertou-os-corpos-mas-preservou-as-correntes\/","title":{"rendered":"A Lei \u00c1urea libertou os corpos, mas preservou as correntes"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Nossa heran\u00e7a africana ocupa um lugar amb\u00edguo demais: \u00e9<br>simultaneamente origem de orgulho cultural e alvo hist\u00f3rico de exclus\u00e3o social.<\/em><br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 datas que permanecem suspensas sobre um pa\u00eds como uma pergunta sem resposta definitiva. O 13 de maio de 1888 \u00e9 uma dessas anomalias hist\u00f3ricas: um acontecimento oficialmente encerrado, mas moralmente inconcluso. A assinatura da Lei \u00c1urea costuma ser apresentada como ponto final de uma era de brutalidade; no entanto, quanto mais observo a forma\u00e7\u00e3o brasileira, mais me parece que aquela assinatura inaugurou outra esp\u00e9cie de arquitetura de exclus\u00e3o \u2014 menos vis\u00edvel, talvez, por\u00e9m mais sofisticada e duradoura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil aboliu a escravid\u00e3o sem abolir a estrutura mental que a sustentava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe algo de profundamente desconcertante nessa constata\u00e7\u00e3o. Porque ela destr\u00f3i a fantasia confort\u00e1vel de que sociedades se regeneram atrav\u00e9s de decretos. A hist\u00f3ria raramente funciona assim. Institui\u00e7\u00f5es mudam mais r\u00e1pido do que imagin\u00e1rios coletivos. Leis podem ser promulgadas numa tarde; civiliza\u00e7\u00f5es levam s\u00e9culos para desaprender suas crueldades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja precisamente por isso que o 13 de maio provoque um mal-estar t\u00e3o singular na consci\u00eancia nacional. A data n\u00e3o permite comemora\u00e7\u00f5es puras. H\u00e1 sempre alguma coisa que resiste ao tom festivo, como se o pr\u00f3prio passado recusasse ser encerrado com solenidade oficial. E talvez recuse mesmo. Afinal, a escravid\u00e3o brasileira n\u00e3o foi apenas um sistema econ\u00f4mico: foi uma pedagogia social da desigualdade. Ela ensinou o pa\u00eds a naturalizar hierarquias humanas, a transformar privil\u00e9gios em paisagem e viol\u00eancia em h\u00e1bito administrativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda hoje percebo como o Brasil possui uma estranha intimidade com a assimetria. H\u00e1 uma familiaridade quase est\u00e9tica com o abismo social. O luxo e a precariedade convivem aqui sem esc\u00e2ndalo verdadeiro, separados por poucos metros, como se a desigualdade tivesse adquirido estatuto de fen\u00f4meno natural, semelhante ao clima ou ao relevo. Essa normaliza\u00e7\u00e3o talvez seja uma das heran\u00e7as mais profundas da escravid\u00e3o: ela n\u00e3o moldou apenas a economia nacional; moldou a percep\u00e7\u00e3o moral da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, no entanto, \u2014 talvez resida a\u00ed o aspecto mais complexo da experi\u00eancia brasileira \u2014 foi exatamente sob esse regime de desumaniza\u00e7\u00e3o que floresceu uma das culturas mais sofisticadas do mundo moderno.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma contradi\u00e7\u00e3o vertiginosa no Brasil. O pa\u00eds construiu parte decisiva de sua identidade est\u00e9tica a partir daquilo que tentou destruir. A m\u00fasica brasileira, a linguagem corporal, os ritmos, as culin\u00e1rias, as formas de religiosidade e a pr\u00f3pria ideia de brasilidade foram profundamente atravessadas pela experi\u00eancia africana. Isso significa que a na\u00e7\u00e3o se tornou culturalmente dependente daquilo que politicamente marginalizou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Poucas trag\u00e9dias hist\u00f3ricas produziram um paradoxo t\u00e3o intenso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0s vezes tenho a impress\u00e3o de que o Brasil jamais resolveu verdadeiramente sua rela\u00e7\u00e3o com a heran\u00e7a africana porque ela ocupa um lugar amb\u00edguo demais: \u00e9 simultaneamente origem de orgulho cultural e alvo hist\u00f3rico de exclus\u00e3o social. O pa\u00eds exalta o samba enquanto suspeita dos corpos que o inventaram. Celebra a capoeira como patrim\u00f4nio enquanto continua tratando certos jovens negros como amea\u00e7a presumida. Consome a est\u00e9tica negra, mas frequentemente teme sua presen\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa duplicidade talvez revele algo mais profundo sobre o funcionamento das sociedades modernas. Elas possuem enorme capacidade de absorver culturalmente aquilo que recusam humanamente. Transformam resist\u00eancia em entretenimento, dor hist\u00f3rica em s\u00edmbolo tur\u00edstico, mem\u00f3ria em decora\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica desprovida de consequ\u00eancia \u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 imposs\u00edvel pensar o 13 de maio sem perceber esse mecanismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque a aboli\u00e7\u00e3o brasileira carregou consigo uma viol\u00eancia peculiar: concedeu liberdade formal sem produzir pertencimento real. Milh\u00f5es de pessoas deixaram juridicamente de ser propriedade sem que lhes fosse oferecida qualquer arquitetura concreta de cidadania. Nenhuma reforma estrutural acompanhou o gesto abolicionista. Nenhuma redistribui\u00e7\u00e3o significativa de terra. Nenhum projeto consistente de educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. Nenhuma tentativa s\u00e9ria de integra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A liberdade chegou desacompanhada de mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa talvez seja uma das defini\u00e7\u00f5es mais brutais de abandono hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 curioso perceber como o imagin\u00e1rio nacional preferiu durante d\u00e9cadas concentrar sua aten\u00e7\u00e3o quase exclusivamente na figura da Princesa Isabel, como se a hist\u00f3ria da aboli\u00e7\u00e3o pudesse ser reduzida ao gesto benevolente de uma personagem imperial. Sempre desconfio de narrativas excessivamente personalistas quando se trata de processos hist\u00f3ricos complexos. Elas costumam funcionar como mecanismos de simplifica\u00e7\u00e3o moral. Produzem her\u00f3is providenciais e eliminam tens\u00f5es estruturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escravid\u00e3o brasileira n\u00e3o terminou apenas porque uma princesa decidiu encerr\u00e1-la. Ela terminou tamb\u00e9m porque havia rebeli\u00f5es, fugas, quilombos, imprensa abolicionista, press\u00e3o internacional, crise econ\u00f4mica, articula\u00e7\u00e3o intelectual e sobretudo porque existia uma massa humana que jamais aceitou plenamente sua condi\u00e7\u00e3o de objeto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez uma das maiores distor\u00e7\u00f5es da mem\u00f3ria hist\u00f3rica brasileira tenha sido apagar o protagonismo da resist\u00eancia negra no pr\u00f3prio processo de aboli\u00e7\u00e3o. Existe uma tend\u00eancia recorrente de representar pessoas escravizadas apenas como v\u00edtimas passivas da Hist\u00f3ria, quando na verdade elas produziram continuamente formas de enfrentamento \u2014 abertas ou subterr\u00e2neas, organizadas ou fragment\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quilombos n\u00e3o eram apenas esconderijos. Eram experi\u00eancias radicais de imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignleft size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"800\" height=\"554\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-8.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-84807\" style=\"aspect-ratio:1.4441171566720392;width:421px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-8.png 800w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-8-300x208.png 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-8-768x532.png 768w\" sizes=\"(max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A exist\u00eancia de comunidades aut\u00f4nomas negras em pleno sistema escravocrata talvez contenha uma das reflex\u00f5es mais impressionantes sobre liberdade em toda a hist\u00f3ria brasileira. Porque liberdade, nesses casos, n\u00e3o surgia como abstra\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica iluminista nem como concess\u00e3o estatal; surgia como necessidade existencial concreta. Era constru\u00edda clandestinamente, em territ\u00f3rios improvisados, atrav\u00e9s da recusa obstinada \u00e0 l\u00f3gica da propriedade humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 algo profundamente filos\u00f3fico nisso: a liberdade humana frequentemente nasce antes de possuir reconhecimento jur\u00eddico. Ela come\u00e7a como insubmiss\u00e3o interior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez seja precisamente esse elemento que torna a cultura afro-brasileira t\u00e3o poderosa. Ela n\u00e3o representa apenas contribui\u00e7\u00e3o est\u00e9tica; representa sobreviv\u00eancia simb\u00f3lica. Cada manifesta\u00e7\u00e3o cultural preservada apesar da viol\u00eancia hist\u00f3rica carrega consigo uma esp\u00e9cie de desafio metaf\u00edsico lan\u00e7ado contra a tentativa de apagamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que sobrevive depois da opress\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa pergunta atravessa silenciosamente o Brasil inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela est\u00e1 nos terreiros que resistiram \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o policial e religiosa. Est\u00e1 na perman\u00eancia de ritmos que atravessaram s\u00e9culos. Est\u00e1 na linguagem cotidiana impregnada de heran\u00e7as africanas muitas vezes invis\u00edveis para quem as utiliza. Est\u00e1 at\u00e9 mesmo na maneira brasileira de compreender corpo, festa, musicalidade e conviv\u00eancia coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez toda cultura seja, no fundo, uma forma de mem\u00f3ria que se recusa a morrer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas existe tamb\u00e9m outro aspecto do 13 de maio que me inquieta: a facilidade com que sociedades transformam marcos hist\u00f3ricos em \u00e1libis morais. Como se abolir oficialmente a escravid\u00e3o bastasse para absolver o pa\u00eds de suas continuidades estruturais. O problema das consci\u00eancias nacionais \u00e9 que elas frequentemente preferem cerim\u00f4nias simb\u00f3licas a transforma\u00e7\u00f5es reais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil gosta de datas. Gosta de monumentos, homenagens, discursos p\u00fablicos. Mas raramente demonstra o mesmo entusiasmo diante de mudan\u00e7as profundas capazes de alterar distribui\u00e7\u00f5es concretas de poder. Talvez porque mudan\u00e7as reais custem privil\u00e9gios reais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso o debate sobre mem\u00f3ria hist\u00f3rica costuma gerar tanto desconforto. Ele obriga a sociedade a reconhecer que o passado n\u00e3o passou inteiramente. Obriga a admitir que desigualdades contempor\u00e2neas n\u00e3o surgiram espontaneamente nem resultam exclusivamente de fracassos individuais. H\u00e1 uma arquitetura hist\u00f3rica sustentando o presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E isso possui consequ\u00eancias \u00e9ticas inevit\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nenhuma na\u00e7\u00e3o pode compreender sua pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o ignorando os mecanismos sobre os quais ergueu sua prosperidade. No caso brasileiro, essa prosperidade foi constru\u00edda durante s\u00e9culos atrav\u00e9s da explora\u00e7\u00e3o sistem\u00e1tica de corpos negros. N\u00e3o reconhecer essa evid\u00eancia produz uma esp\u00e9cie de amn\u00e9sia moral coletiva \u2014 e povos amn\u00e9sicos tornam-se incapazes de compreender a si mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas tamb\u00e9m n\u00e3o acredito que a mem\u00f3ria deva servir apenas ao ressentimento. Existe uma diferen\u00e7a importante entre consci\u00eancia hist\u00f3rica e aprisionamento hist\u00f3rico. O objetivo de revisitar o passado n\u00e3o deveria ser cultivar culpa est\u00e9ril, e sim ampliar lucidez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lucidez talvez seja a palavra central.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque o 13 de maio exige precisamente isso: lucidez suficiente para reconhecer simultaneamente o horror da escravid\u00e3o, a insufici\u00eancia da aboli\u00e7\u00e3o e a extraordin\u00e1ria pot\u00eancia cultural produzida por aqueles que sobreviveram ao sistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 um equil\u00edbrio dif\u00edcil. Muitas narrativas caem ou na romantiza\u00e7\u00e3o conciliat\u00f3ria ou na vis\u00e3o puramente tr\u00e1gica da experi\u00eancia brasileira. Nenhuma delas me satisfaz inteiramente. O Brasil n\u00e3o \u00e9 apenas viol\u00eancia hist\u00f3rica, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 apenas miscigena\u00e7\u00e3o festiva. \u00c9 uma civiliza\u00e7\u00e3o constru\u00edda sobre tens\u00f5es permanentes entre exclus\u00e3o e inven\u00e7\u00e3o, brutalidade e sofistica\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez por isso o pa\u00eds produza sentimentos t\u00e3o contradit\u00f3rios em quem tenta compreend\u00ea-lo seriamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 momentos em que o Brasil parece moralmente exausto de si mesmo. Em outros, parece revelar uma vitalidade cultural quase inexplic\u00e1vel. E suspeito que essas duas dimens\u00f5es estejam conectadas. Parte da criatividade brasileira nasceu justamente da necessidade hist\u00f3rica de reinventar exist\u00eancia sob condi\u00e7\u00f5es adversas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Transformar dor em linguagem talvez seja uma das opera\u00e7\u00f5es mais humanas que existem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando penso no 13 de maio, n\u00e3o vejo exatamente uma celebra\u00e7\u00e3o nacional. Vejo antes uma esp\u00e9cie de espelho inc\u00f4modo colocado diante do pa\u00eds. Um espelho que revela n\u00e3o apenas aquilo que fomos, mas aquilo que ainda toleramos ser.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez o verdadeiro sentido dessa data esteja menos na ideia de conclus\u00e3o do que na ideia de responsabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porque liberdade n\u00e3o \u00e9 um acontecimento encerrado no tempo. Liberdade \u00e9 manuten\u00e7\u00e3o cont\u00ednua da dignidade humana contra todas as formas \u2014 antigas ou sofisticadas \u2014 de desumaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O restante \u00e9 apenas cerim\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">*Ilustra\u00e7\u00e3o: reprodu\u00e7\u00e3o da litografia <em>Jogar Capo\u00ebra <\/em>(ou <em>Dan\u00e7a da Guerra<\/em>), um dos primeiros registros visuais da pr\u00e1tica da capoeira no pa\u00eds, do alem\u00e3o Johann Moritz Rugendas, que viajou pelo Brasil no s\u00e9culo XIX.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nossa heran\u00e7a africana ocupa um lugar amb\u00edguo demais: \u00e9simultaneamente origem de orgulho cultural e alvo hist\u00f3rico de exclus\u00e3o social. Por Cristiano Goldschmidt H\u00e1 datas que permanecem suspensas sobre um pa\u00eds como uma pergunta sem resposta definitiva. 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