{"id":84842,"date":"2026-05-25T11:29:21","date_gmt":"2026-05-25T14:29:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=84842"},"modified":"2026-05-25T11:29:23","modified_gmt":"2026-05-25T14:29:23","slug":"a-geometria-como-pensamento-rubem-valentim-no-mam-rio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/a-geometria-como-pensamento-rubem-valentim-no-mam-rio\/","title":{"rendered":"A geometria como pensamento: Rubem Valentim no MAM Rio"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A obra de Valentim n\u00e3o se oferece como imagem de impacto imediato, mas como estrutura que exige perman\u00eancia do olhar.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A exposi\u00e7\u00e3o <em>Rubem Valentim: a ordem do sens\u00edvel<\/em>, em cartaz no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, n\u00e3o se apresenta como simples revis\u00e3o de carreira, embora cumpra tamb\u00e9m esse papel com not\u00e1vel rigor. O que ela organiza, de modo mais profundo, \u00e9 um campo de fric\u00e7\u00e3o entre duas leituras frequentemente empobrecidas quando tratam do artista: de um lado, a filia\u00e7\u00e3o \u00e0 abstra\u00e7\u00e3o geom\u00e9trica brasileira; de outro, a persist\u00eancia de um vocabul\u00e1rio simb\u00f3lico de matriz afro-brasileira que n\u00e3o se deixa reduzir a ilustra\u00e7\u00e3o cultural. A primeira sala j\u00e1 indica esse equil\u00edbrio delicado. N\u00e3o h\u00e1 efeito de entrada espetacular, mas uma esp\u00e9cie de conten\u00e7\u00e3o luminosa, quase como se as obras exigissem sil\u00eancio antes de qualquer interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignright size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/exposicao-rubem-valentim-no-mam-rj-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84843\" style=\"width:485px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/exposicao-rubem-valentim-no-mam-rj-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/exposicao-rubem-valentim-no-mam-rj-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/exposicao-rubem-valentim-no-mam-rj-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/exposicao-rubem-valentim-no-mam-rj-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/exposicao-rubem-valentim-no-mam-rj-2048x1153.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A curadoria de Raquel Barreto e Phelipe Rezende opera com uma intelig\u00eancia expositiva que recusa a pedagogia excessiva. Em vez de conduzir o visitante por uma narrativa linear ou ilustrativa, o percurso se estrutura como uma s\u00e9rie de aproxima\u00e7\u00f5es sucessivas, em que cada n\u00facleo de obras reorganiza a percep\u00e7\u00e3o do anterior. H\u00e1 uma l\u00f3gica de montagem que n\u00e3o busca esclarecer de imediato, mas fazer com que o olhar se habitue a uma gram\u00e1tica pr\u00f3pria. Em certos momentos, essa constru\u00e7\u00e3o produz a impress\u00e3o de que a obra de Valentim n\u00e3o evolui no sentido convencional, mas se desdobra por acumula\u00e7\u00e3o interna, como sistemas que se reconfiguram sem abandonar seus princ\u00edpios estruturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 dif\u00edcil sustentar, diante desse conjunto, a leitura simplificada que aproxima Valentim apenas do concretismo ou do vocabul\u00e1rio construtivo internacional. Embora essa dimens\u00e3o esteja presente, ela aparece sempre atravessada por outra ordem de determina\u00e7\u00e3o, mais densa e menos facilmente classific\u00e1vel. Os signos que estruturam sua obra \u2014 formas axiais, emblemas sint\u00e9ticos, refer\u00eancias a sistemas simb\u00f3licos afro-religiosos \u2014 n\u00e3o funcionam como cita\u00e7\u00f5es externas, mas como operadores internos de sentido. Eles n\u00e3o s\u00e3o aplicados sobre a forma; s\u00e3o constitutivos dela. Nesse sentido, a geometria em Valentim n\u00e3o \u00e9 um princ\u00edpio neutro de organiza\u00e7\u00e3o, mas um campo tensionado por uma carga simb\u00f3lica que reorganiza sua pr\u00f3pria l\u00f3gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja justamente nesse ponto que a exposi\u00e7\u00e3o alcan\u00e7a sua maior for\u00e7a interpretativa: ao tornar vis\u00edvel que n\u00e3o h\u00e1 oposi\u00e7\u00e3o simples entre constru\u00e7\u00e3o formal e densidade simb\u00f3lica. O que se apresenta \u00e9 um pensamento visual em que essas duas dimens\u00f5es coexistem de maneira insepar\u00e1vel. Em diversas pinturas, a estrutura geom\u00e9trica funciona como um sistema de conten\u00e7\u00e3o e, ao mesmo tempo, como campo de irradia\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. A repeti\u00e7\u00e3o de formas n\u00e3o produz estagna\u00e7\u00e3o, mas varia\u00e7\u00e3o controlada, como se cada elemento carregasse uma pequena diferen\u00e7a interna que impede qualquer leitura definitiva.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignright size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/rubem-valentim-no-mam-rio-de-janeiro-1-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84844\" style=\"aspect-ratio:1.777037345550465;width:524px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/rubem-valentim-no-mam-rio-de-janeiro-1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/rubem-valentim-no-mam-rio-de-janeiro-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/rubem-valentim-no-mam-rio-de-janeiro-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/rubem-valentim-no-mam-rio-de-janeiro-1-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/rubem-valentim-no-mam-rio-de-janeiro-1-2048x1153.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na experi\u00eancia concreta da visita, h\u00e1 um momento em que essa l\u00f3gica deixa de ser apenas intelectual e passa a afetar a percep\u00e7\u00e3o corporal do espectador. Diante de obras de maior escala, percebe-se que o corpo n\u00e3o \u00e9 exterior ao sistema visual, mas parte dele. A frontalidade das composi\u00e7\u00f5es, a estabilidade dos eixos e a precis\u00e3o das propor\u00e7\u00f5es criam uma esp\u00e9cie de gravidade pr\u00f3pria, que organiza o olhar e o impede de se dispersar. N\u00e3o se trata de impacto imediato, mas de uma forma de reten\u00e7\u00e3o progressiva, em que o tempo de observa\u00e7\u00e3o se torna componente essencial da obra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As pinturas, nesse contexto, revelam um rigor que n\u00e3o deve ser confundido com rigidez. Valentim trabalha com estruturas de forte organiza\u00e7\u00e3o interna \u2014 simetrias, grades impl\u00edcitas, eixos verticais e horizontais \u2014, mas sempre introduz pequenas varia\u00e7\u00f5es que deslocam o sistema sem romp\u00ea-lo. A cor desempenha papel decisivo nesse processo. Em vez de paleta expansiva, h\u00e1 uma economia crom\u00e1tica que intensifica as rela\u00e7\u00f5es entre os elementos. Pretos densos, brancos cortantes, vermelhos e verdes pontuais funcionam como vetores de orienta\u00e7\u00e3o visual, quase como marcas de um sistema de leitura que n\u00e3o se oferece de forma imediata.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses princ\u00edpios se prolongam de maneira particularmente interessante nas esculturas e relevos, que ampliam a l\u00f3gica pict\u00f3rica para o espa\u00e7o tridimensional. Em vez de modelagem cont\u00ednua, Valentim constr\u00f3i estruturas a partir de planos justapostos, cortes precisos e encaixes que produzem uma sensa\u00e7\u00e3o de montagem consciente. S\u00e3o formas verticais que evocam certa monumentalidade, mas sem recorrer a naturalismo ou narrativa figurativa. O que se imp\u00f5e \u00e9 a l\u00f3gica construtiva: cada elemento parece existir em fun\u00e7\u00e3o de uma ordem interna que organiza o conjunto como sistema.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas obras tridimensionais instauram tamb\u00e9m uma rela\u00e7\u00e3o espec\u00edfica com o espa\u00e7o expositivo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A arquitetura aberta, marcada por planos amplos e circula\u00e7\u00e3o fluida, n\u00e3o funciona como mero suporte neutro, mas como campo de ativa\u00e7\u00e3o das pe\u00e7as. As esculturas respondem a esse ambiente com uma presen\u00e7a que reorganiza a percep\u00e7\u00e3o do entorno, criando eixos de orienta\u00e7\u00e3o que atravessam o espa\u00e7o. O visitante n\u00e3o apenas observa os objetos, mas se v\u00ea implicado em um sistema espacial que se constr\u00f3i \u00e0 medida que \u00e9 percorrido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A curadoria de Raquel Barreto e Phelipe Rezende refor\u00e7a essa dimens\u00e3o ao evitar compartimenta\u00e7\u00f5es r\u00edgidas entre pintura, relevo e escultura. Em vez disso, estabelece um percurso em que essas categorias se tornam porosas, permitindo que o visitante perceba continuidades estruturais entre suportes distintos. Essa escolha n\u00e3o simplifica a obra de Valentim; ao contr\u00e1rio, evidencia sua coer\u00eancia interna, na qual diferentes meios s\u00e3o mobilizados para investigar problemas semelhantes de organiza\u00e7\u00e3o formal e simb\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro aspecto relevante da exposi\u00e7\u00e3o \u00e9 a maneira como ela trata a repeti\u00e7\u00e3o. Em Valentim, repetir n\u00e3o significa reiterar o mesmo, mas explorar varia\u00e7\u00f5es m\u00ednimas dentro de um sistema relativamente est\u00e1vel. Essa opera\u00e7\u00e3o se torna vis\u00edvel quando obras de diferentes per\u00edodos s\u00e3o colocadas em di\u00e1logo: o que muda n\u00e3o \u00e9 o vocabul\u00e1rio, mas a intensidade das rela\u00e7\u00f5es internas. Pequenos deslocamentos de cor, ajustes de propor\u00e7\u00e3o ou reorganiza\u00e7\u00f5es dos eixos produzem efeitos significativos, revelando uma obra que se constr\u00f3i mais por refinamento cont\u00ednuo do que por rupturas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse regime de varia\u00e7\u00e3o controlada tamb\u00e9m se relaciona a uma forma espec\u00edfica de temporalidade. A obra de Valentim n\u00e3o se oferece como imagem de impacto imediato, mas como estrutura que exige perman\u00eancia do olhar. A cada retorno, novos v\u00ednculos se estabelecem entre os elementos, como se a obra estivesse sempre ligeiramente \u00e0 frente da leitura que dela se faz. Essa defasagem produtiva entre ver e compreender \u00e9 um dos aspectos mais consistentes da experi\u00eancia proposta pela exposi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignleft size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/rubem-valentim-no-mam-rio-de-janeiro-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84845\" style=\"aspect-ratio:1.777037345550465;width:457px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/rubem-valentim-no-mam-rio-de-janeiro-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/rubem-valentim-no-mam-rio-de-janeiro-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/rubem-valentim-no-mam-rio-de-janeiro-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/rubem-valentim-no-mam-rio-de-janeiro-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/rubem-valentim-no-mam-rio-de-janeiro-2048x1153.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em termos mais amplos, pode-se dizer que <em>Rubem Valentim: a ordem do sens\u00edvel<\/em> apresenta um artista que constr\u00f3i um sistema visual em que forma e pensamento n\u00e3o se separam. A geometria, longe de funcionar como abstra\u00e7\u00e3o aut\u00f4noma, \u00e9 atravessada por camadas simb\u00f3licas que lhe conferem densidade hist\u00f3rica e cultural. O resultado n\u00e3o \u00e9 s\u00edntese harmoniosa, mas um campo de tens\u00e3o permanente, no qual diferentes regimes de sentido coexistem sem se anular. Ao final do percurso, o que permanece n\u00e3o \u00e9 uma interpreta\u00e7\u00e3o fechada, mas a sensa\u00e7\u00e3o de ter sido exposto a um modo de organiza\u00e7\u00e3o do vis\u00edvel que resiste a leituras simplificadoras. Valentim aparece aqui como algu\u00e9m que transforma a forma em pensamento e o pensamento em forma, sem hierarquia entre ambos. E talvez seja precisamente nessa recusa de separa\u00e7\u00e3o que sua obra encontra sua for\u00e7a mais persistente: a de sustentar, no interior da geometria, uma complexidade que continua operando mesmo depois que o olhar se afasta.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A obra de Valentim n\u00e3o se oferece como imagem de impacto imediato, mas como estrutura que exige perman\u00eancia do olhar. 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