{"id":84847,"date":"2026-05-26T14:23:02","date_gmt":"2026-05-26T17:23:02","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=84847"},"modified":"2026-05-26T15:12:37","modified_gmt":"2026-05-26T18:12:37","slug":"a-restauracao-do-viaduto-da-borges-e-o-debate-sobre-pichacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/a-restauracao-do-viaduto-da-borges-e-o-debate-sobre-pichacao\/","title":{"rendered":"A restaura\u00e7\u00e3o do Viaduto da Borges e o debate sobre picha\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A restaura\u00e7\u00e3o do Viaduto Ot\u00e1vio Rocha representa uma tentativa de reconectar Porto Alegre com parte de sua pr\u00f3pria dignidade arquitet\u00f4nica e cultural.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 cidades que parecem carregar sua pr\u00f3pria consci\u00eancia nos edif\u00edcios e nos monumentos que atravessam gera\u00e7\u00f5es. Em Porto Alegre, poucos espa\u00e7os simbolizam t\u00e3o profundamente essa dimens\u00e3o hist\u00f3rica quanto o Viaduto Ot\u00e1vio Rocha, conhecido popularmente como Viaduto da Borges. Inaugurado em 1932, ele n\u00e3o \u00e9 apenas uma estrutura urbana destinada \u00e0 circula\u00e7\u00e3o de autom\u00f3veis e pedestres. \u00c9 um testemunho material da moderniza\u00e7\u00e3o da capital ga\u00facha, um marco arquitet\u00f4nico que atravessou transforma\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, sociais e culturais do Rio Grande do Sul e do Brasil ao longo de quase um s\u00e9culo. Por isso, o fato de o viaduto j\u00e1 ter sido alvo de picha\u00e7\u00f5es pouco tempo ap\u00f3s um extenso processo de restaura\u00e7\u00e3o provoca uma reflex\u00e3o que vai muito al\u00e9m da superf\u00edcie do concreto manchado por tinta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Depois de cerca de tr\u00eas anos e cinco meses de obras \u2014 iniciadas em novembro de 2022 e conclu\u00eddas no final de mar\u00e7o de 2026, quando os tapumes foram retirados \u2014 a cidade finalmente reencontrou um de seus patrim\u00f4nios hist\u00f3ricos totalmente revitalizado. A recupera\u00e7\u00e3o do viaduto exigiu investimentos p\u00fablicos significativos, mobiliza\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica especializada e um esfor\u00e7o coletivo que envolveu arquitetos, restauradores, engenheiros e trabalhadores da constru\u00e7\u00e3o civil. Restaurar um patrim\u00f4nio hist\u00f3rico nunca significa apenas \u201cconsertar\u201d uma constru\u00e7\u00e3o antiga. Significa recuperar a mem\u00f3ria simb\u00f3lica de uma cidade, preservar a identidade cultural de um povo e reafirmar que determinados espa\u00e7os pertencem \u00e0 coletividade e merecem ser transmitidos \u00e0s futuras gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-11-1024x768.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-84848\" style=\"width:587px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-11-1024x768.png 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-11-300x225.png 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-11-768x576.png 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-11.png 1280w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fotos: reprodu\u00e7\u00e3o das redes sociais do prefeito Sebasti\u00e3o Melo<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente nesse ponto que a picha\u00e7\u00e3o deixa de poder ser interpretada como um simples gesto juvenil, de rebeldia ou como uma forma leg\u00edtima de express\u00e3o art\u00edstica. H\u00e1 uma diferen\u00e7a profunda \u2014 est\u00e9tica, \u00e9tica e civilizat\u00f3ria \u2014 entre arte urbana e vandalismo. O grafite, quando realizado de maneira autorizada e integrada ao espa\u00e7o urbano, pode dialogar com a cidade, produzir beleza, provocar reflex\u00e3o e at\u00e9 revitalizar ambientes degradados. J\u00e1 a picha\u00e7\u00e3o feita sobre patrim\u00f4nio p\u00fablico restaurado opera em outra l\u00f3gica: a da destrui\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica do bem comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A insist\u00eancia contempor\u00e2nea em relativizar toda a\u00e7\u00e3o sob o argumento de que \u201ctoda express\u00e3o \u00e9 arte\u201d revela uma esp\u00e9cie de crise de crit\u00e9rios culturais. Nem tudo aquilo que transgride \u00e9 artisticamente relevante. Nem toda interven\u00e7\u00e3o visual constitui manifesta\u00e7\u00e3o est\u00e9tica. A hist\u00f3ria da arte demonstra exatamente o contr\u00e1rio: as grandes obras humanas, mesmo quando revolucion\u00e1rias, dialogam com t\u00e9cnica, inten\u00e7\u00e3o, elabora\u00e7\u00e3o e significado coletivo. A picha\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria de monumentos hist\u00f3ricos n\u00e3o amplia o patrim\u00f4nio cultural; ela o degrada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe ainda uma dimens\u00e3o filos\u00f3fica importante nesse debate. A preserva\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os p\u00fablicos exige uma \u00e9tica da conviv\u00eancia. O fil\u00f3sofo alem\u00e3o J\u00fcrgen Habermas escreveu longamente sobre a necessidade de constru\u00e7\u00e3o de uma esfera p\u00fablica baseada em racionalidade, participa\u00e7\u00e3o e respeito m\u00fatuo. Quando um patrim\u00f4nio hist\u00f3rico \u00e9 vandalizado logo ap\u00f3s sua restaura\u00e7\u00e3o, o que se rompe n\u00e3o \u00e9 apenas uma camada de tinta ou revestimento. Rompe-se simbolicamente a ideia de pacto social. A mensagem impl\u00edcita torna-se perturbadora: aquilo que pertence a todos pode ser apropriado destrutivamente por alguns.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sociedades marcadas por desigualdades profundas, \u00e9 comum que determinados grupos tentem justificar a picha\u00e7\u00e3o como forma de protesto contra exclus\u00f5es urbanas e sociais. Sem d\u00favida, o Brasil convive com graves problemas estruturais, marginaliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e abandono de periferias. Contudo, transformar patrim\u00f4nio p\u00fablico e hist\u00f3rico em alvo de vandalismo n\u00e3o corrige injusti\u00e7as sociais. Pelo contr\u00e1rio: frequentemente amplia processos de deteriora\u00e7\u00e3o urbana que atingem justamente a popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignright size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"461\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-12-461x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-84849\" style=\"aspect-ratio:0.45020618278845376;width:159px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-12-461x1024.png 461w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-12-135x300.png 135w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-12.png 576w\" sizes=\"(max-width: 461px) 100vw, 461px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma diferen\u00e7a importante entre rebeldia cr\u00edtica e destrui\u00e7\u00e3o inconsequente. A rebeldia leg\u00edtima historicamente produziu movimentos pol\u00edticos, culturais e intelectuais capazes de transformar sociedades. A destrui\u00e7\u00e3o vazia, ao contr\u00e1rio, frequentemente apenas reproduz ressentimento sem produzir qualquer elabora\u00e7\u00e3o coletiva positiva. A picha\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria costuma estar muito mais vinculada \u00e0 l\u00f3gica da imposi\u00e7\u00e3o territorial, da transgress\u00e3o pela transgress\u00e3o e da busca de visibilidade individual do que propriamente a um projeto social consistente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O soci\u00f3logo Zygmunt Bauman observa que vivemos em uma modernidade l\u00edquida, marcada pela fragilidade dos v\u00ednculos coletivos e pela eros\u00e3o do sentido de pertencimento. Talvez a depreda\u00e7\u00e3o de patrim\u00f4nios p\u00fablicos e hist\u00f3ricos revele exatamente isso: uma dificuldade crescente de perceber a cidade como extens\u00e3o de si mesmo. Quando o espa\u00e7o p\u00fablico deixa de ser entendido como patrim\u00f4nio compartilhado, ele passa a ser tratado como territ\u00f3rio sem valor simb\u00f3lico. A consequ\u00eancia \u00e9 uma cultura de deteriora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, em que o cidad\u00e3o deixa de agir como guardi\u00e3o da cidade para agir como mero usu\u00e1rio passageiro dela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso espec\u00edfico do Viaduto da Borges, a situa\u00e7\u00e3o adquire contornos ainda mais simb\u00f3licos porque se trata de uma estrutura profundamente integrada \u00e0 mem\u00f3ria afetiva de Porto Alegre. Centenas de milhares de pessoas atravessaram esse espa\u00e7o ao longo de d\u00e9cadas. Ali circulam trabalhadores, estudantes, artistas, ambulantes, moradores do centro hist\u00f3rico e turistas. O viaduto \u00e9 parte da biografia emocional da cidade. Sua restaura\u00e7\u00e3o representa tamb\u00e9m uma tentativa de recupera\u00e7\u00e3o do orgulho urbano de uma capital que, nos \u00faltimos anos, enfrentou enchentes devastadoras, crises econ\u00f4micas e um processo vis\u00edvel de degrada\u00e7\u00e3o de \u00e1reas centrais.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-13-768x1024.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-84850\" style=\"aspect-ratio:0.7500061291034348;width:654px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-13-768x1024.png 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-13-225x300.png 225w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/image-13.png 960w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando picha\u00e7\u00f5es surgem quase imediatamente ap\u00f3s a revitaliza\u00e7\u00e3o, instala-se inevitavelmente uma sensa\u00e7\u00e3o coletiva de frustra\u00e7\u00e3o. Muitos cidad\u00e3os percebem que recursos p\u00fablicos preciosos \u2014 que poderiam ser investidos em sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a ou assist\u00eancia social \u2014 precisar\u00e3o novamente ser direcionados para limpeza e repara\u00e7\u00e3o. Trata-se de uma dimens\u00e3o concreta frequentemente ignorada por quem romantiza o vandalismo urbano. A depreda\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico produz custos financeiros reais, pagos pela pr\u00f3pria sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante tamb\u00e9m refletir sobre a dimens\u00e3o psicol\u00f3gica da picha\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea. Em muitos casos, ela parece menos vinculada \u00e0 comunica\u00e7\u00e3o de uma mensagem e mais associada \u00e0 necessidade de afirma\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria atrav\u00e9s da marca territorial. O ato de deixar uma assinatura em locais de dif\u00edcil acesso frequentemente opera como demonstra\u00e7\u00e3o de desafio, risco e conquista de notoriedade dentro de determinados grupos. Nesse contexto, a cidade transforma-se em palco de competi\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica, e n\u00e3o em espa\u00e7o de constru\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Defender a preserva\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico n\u00e3o significa assumir uma postura elitista ou hostil \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es populares. Ao contr\u00e1rio: significa compreender que a mem\u00f3ria urbana pertence sobretudo ao povo. Monumentos hist\u00f3ricos n\u00e3o s\u00e3o propriedade abstrata do Estado; s\u00e3o parte da heran\u00e7a cultural coletiva. Destru\u00ed-los ou degrad\u00e1-los n\u00e3o \u00e9 um ato de emancipa\u00e7\u00e3o social, mas um empobrecimento da experi\u00eancia comum.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As grandes cidades do mundo que conseguiram preservar sua identidade hist\u00f3rica compreenderam algo fundamental: civiliza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 continuidade. Uma sociedade madura consegue conciliar inova\u00e7\u00e3o com preserva\u00e7\u00e3o, transforma\u00e7\u00e3o com mem\u00f3ria, liberdade individual com responsabilidade coletiva. Quando essa s\u00edntese fracassa, instala-se a cultura do descarte \u2014 n\u00e3o apenas de objetos, mas tamb\u00e9m de s\u00edmbolos, refer\u00eancias e hist\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Viaduto da Borges sobreviveu a mudan\u00e7as pol\u00edticas, crises econ\u00f4micas, transforma\u00e7\u00f5es urbanas e quase um s\u00e9culo de hist\u00f3ria brasileira. Sua restaura\u00e7\u00e3o representa uma tentativa de reconectar Porto Alegre com parte de sua pr\u00f3pria dignidade arquitet\u00f4nica e cultural. Que ele tenha sido alvo de picha\u00e7\u00f5es t\u00e3o rapidamente talvez revele n\u00e3o apenas um problema de seguran\u00e7a ou fiscaliza\u00e7\u00e3o \u2013 que precisam ser refor\u00e7adas \u2013, mas uma crise mais profunda de pertencimento e consci\u00eancia c\u00edvica. No fim, a verdadeira quest\u00e3o talvez seja esta: que tipo de rela\u00e7\u00e3o desejamos construir com a cidade em que vivemos? Uma rela\u00e7\u00e3o baseada no cuidado compartilhado ou na deteriora\u00e7\u00e3o cont\u00ednua? Porque uma cidade n\u00e3o \u00e9 feita apenas de concreto, ruas e viadutos. Ela \u00e9 feita tamb\u00e9m do grau de responsabilidade que seus habitantes desenvolvem diante daquilo que pertence a todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A restaura\u00e7\u00e3o do Viaduto Ot\u00e1vio Rocha representa uma tentativa de reconectar Porto Alegre com parte de sua pr\u00f3pria dignidade arquitet\u00f4nica e cultural. Por Cristiano Goldschmidt H\u00e1 cidades que parecem carregar sua pr\u00f3pria consci\u00eancia nos edif\u00edcios e nos monumentos que atravessam gera\u00e7\u00f5es. 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