{"id":84856,"date":"2026-05-29T18:04:15","date_gmt":"2026-05-29T21:04:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=84856"},"modified":"2026-05-29T18:04:18","modified_gmt":"2026-05-29T21:04:18","slug":"a-colecao-de-gilberto-chateaubriand-como-cartografia-afetiva-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/a-colecao-de-gilberto-chateaubriand-como-cartografia-afetiva-do-brasil\/","title":{"rendered":"A cole\u00e7\u00e3o de Gilberto Chateaubriand como cartografia afetiva do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A grande intelig\u00eancia da exposi\u00e7\u00e3o proposta pelos curadores est\u00e1 justamente em evitar a armadilha do monumento celebrat\u00f3rio.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"765\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/1-aldemir-martins-jogadores-de-futebol-1966-guache-e-grafite-sobre-papel-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x765.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84857\" style=\"aspect-ratio:1.338737089815662;width:749px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/1-aldemir-martins-jogadores-de-futebol-1966-guache-e-grafite-sobre-papel-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x765.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/1-aldemir-martins-jogadores-de-futebol-1966-guache-e-grafite-sobre-papel-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-300x224.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/1-aldemir-martins-jogadores-de-futebol-1966-guache-e-grafite-sobre-papel-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x574.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/1-aldemir-martins-jogadores-de-futebol-1966-guache-e-grafite-sobre-papel-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1536x1147.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/1-aldemir-martins-jogadores-de-futebol-1966-guache-e-grafite-sobre-papel-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-2048x1530.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Aldemir Martins. Jogadores de futebol, 1966. Guache e grafite sobre papel. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 algo de profundamente brasileiro \u2014 no melhor e no pior sentido do termo \u2014 na experi\u00eancia de percorrer a exposi\u00e7\u00e3o <em>100 anos de arte: Gilberto Chateaubriand<\/em>, em cartaz no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro at\u00e9 7 de junho de 2026. A mostra, com curadoria de Pablo Lafuente e Raquel Barreto (Phelipe Rezende assina como curador assistente), n\u00e3o se limita a organizar obras segundo uma narrativa historiogr\u00e1fica convencional. Ela parece antes propor um mergulho numa esp\u00e9cie de inconsciente visual do pa\u00eds \u2014 um territ\u00f3rio em que modernidade, viol\u00eancia, sensualidade, utopia, precariedade e inven\u00e7\u00e3o convivem sem jamais alcan\u00e7ar s\u00edntese pac\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A grande intelig\u00eancia da exposi\u00e7\u00e3o proposta pelos curadores est\u00e1 justamente em evitar a armadilha do monumento celebrat\u00f3rio. Seria f\u00e1cil transformar a trajet\u00f3ria de Gilberto Chateaubriand em mera consagra\u00e7\u00e3o institucional: o colecionador vision\u00e1rio, o mecenas decisivo, o homem que reuniu uma das mais importantes cole\u00e7\u00f5es de arte brasileira do s\u00e9culo XX. Nada disso deixa de existir ali. Mas a exposi\u00e7\u00e3o prefere outra via: mostrar que toda cole\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma autobiografia fragmentada, uma forma de imaginar o pa\u00eds por meio das obsess\u00f5es pessoais de quem coleciona. O visitante percebe rapidamente que n\u00e3o est\u00e1 diante de um invent\u00e1rio neutro da produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica nacional, mas de uma constela\u00e7\u00e3o subjetiva de escolhas, afetos, riscos e perman\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"819\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/2-geza-heller-sem-titulo-1957-guache-sobre-aglomerado-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x819.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84858\" style=\"aspect-ratio:1.249664396768446;width:742px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/2-geza-heller-sem-titulo-1957-guache-sobre-aglomerado-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x819.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/2-geza-heller-sem-titulo-1957-guache-sobre-aglomerado-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-300x240.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/2-geza-heller-sem-titulo-1957-guache-sobre-aglomerado-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x615.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/2-geza-heller-sem-titulo-1957-guache-sobre-aglomerado-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1536x1229.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/2-geza-heller-sem-titulo-1957-guache-sobre-aglomerado-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-2048x1639.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">G\u00e9za Heller. Sem t\u00edtulo, 1957. Guache sobre aglomerado. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, o que emerge das salas do MAM n\u00e3o \u00e9 apenas uma hist\u00f3ria da arte brasileira, mas uma hist\u00f3ria do olhar brasileiro sobre si mesmo. Um olhar frequentemente contradit\u00f3rio, dividido entre o fasc\u00ednio pela ideia de na\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia dolorosa de que o Brasil talvez seja, desde sempre, uma promessa inconclusa. H\u00e1 algo de vertiginoso em perceber como diferentes gera\u00e7\u00f5es de artistas tentaram responder, cada uma \u00e0 sua maneira, \u00e0 mesma pergunta essencial: o que significa produzir imagens num pa\u00eds fundado sobre desigualdades extremas, viol\u00eancias coloniais persistentes e sucessivos projetos interrompidos de moderniza\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"873\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/3-norberto-nicola-arlequim-1999-la-fibras-vegetais-e-pigmentos-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-873x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84859\" style=\"aspect-ratio:0.8525518274914662;width:658px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/3-norberto-nicola-arlequim-1999-la-fibras-vegetais-e-pigmentos-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-873x1024.jpg 873w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/3-norberto-nicola-arlequim-1999-la-fibras-vegetais-e-pigmentos-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-256x300.jpg 256w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/3-norberto-nicola-arlequim-1999-la-fibras-vegetais-e-pigmentos-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x901.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/3-norberto-nicola-arlequim-1999-la-fibras-vegetais-e-pigmentos-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1309x1536.jpg 1309w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/3-norberto-nicola-arlequim-1999-la-fibras-vegetais-e-pigmentos-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1746x2048.jpg 1746w\" sizes=\"(max-width: 873px) 100vw, 873px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Norberto Nicola. Arlequim, 1999. L\u00e3, fibras vegetais e pigmentos. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A exposi\u00e7\u00e3o ganha enorme for\u00e7a ao abandonar a linearidade cronol\u00f3gica em favor de n\u00facleos tem\u00e1ticos que se atravessam. \u201cIlha das esculturas\u201d, \u201cAl\u00e9m do real\u201d, \u201cConstruindo paisagens\u201d, \u201cCorpos relacionais\u201d, \u201cHist\u00f3ria como conflito\u201d e \u201cRetratos brasileiros\u201d funcionam menos como compartimentos estanques do que como zonas de contamina\u00e7\u00e3o po\u00e9tica e hist\u00f3rica. Esse procedimento impede a comodidade pedag\u00f3gica da evolu\u00e7\u00e3o linear simplificada e cria encontros improv\u00e1veis entre artistas de diferentes \u00e9pocas. H\u00e1 momentos em que obras de Candido Portinari parecem dialogar menos com seus contempor\u00e2neos hist\u00f3ricos do que com tens\u00f5es presentes em produ\u00e7\u00f5es de Ros\u00e2ngela Renn\u00f3 ou Arjan Martins. O passado deixa ent\u00e3o de ser arquivo morto e passa a operar como mat\u00e9ria viva, contaminada pelas urg\u00eancias do presente. O tempo hist\u00f3rico deixa de obedecer \u00e0 l\u00f3gica linear dos manuais e passa a funcionar como campo de sobreviv\u00eancias, ecos e reincid\u00eancias.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"882\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/4-alberto-da-veiga-guignard-oleo-sobre-madeira-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x882.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84860\" style=\"aspect-ratio:1.1610140845070422;width:675px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/4-alberto-da-veiga-guignard-oleo-sobre-madeira-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x882.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/4-alberto-da-veiga-guignard-oleo-sobre-madeira-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-300x258.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/4-alberto-da-veiga-guignard-oleo-sobre-madeira-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x661.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/4-alberto-da-veiga-guignard-oleo-sobre-madeira-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1536x1323.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/4-alberto-da-veiga-guignard-oleo-sobre-madeira-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-2048x1764.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Alberto da Veiga Guignard. \u00d3leo sobre madeira. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O n\u00facleo \u201cConstruindo paisagens\u201d talvez seja um dos momentos mais reveladores da mostra. N\u00e3o porque apresente apenas representa\u00e7\u00f5es geogr\u00e1ficas do Brasil, mas porque explicita o quanto toda paisagem nacional \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica. Ao reunir artistas como Anita Malfatti, Antonio Gomide, Caetano de Almeida, Carlos Vergara, G\u00e9za Heller e Jos\u00e9 Pancetti, o eixo evidencia diferentes maneiras de imaginar visualmente o territ\u00f3rio brasileiro ao longo do s\u00e9culo XX e in\u00edcio do XXI. Em diferentes linguagens e temporalidades, surgem atmosferas que n\u00e3o descrevem simplesmente um pa\u00eds, mas inventam formas de pertencimento. O Brasil aparece ali como fic\u00e7\u00e3o est\u00e9tica compartilhada \u2014 algo entre o sonho tropical modernista e a vertigem de um territ\u00f3rio eternamente por decifrar.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"457\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/5-caetano-de-almeida-lusco-fusco-1993-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x457.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84861\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/5-caetano-de-almeida-lusco-fusco-1993-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x457.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/5-caetano-de-almeida-lusco-fusco-1993-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-300x134.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/5-caetano-de-almeida-lusco-fusco-1993-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x343.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/5-caetano-de-almeida-lusco-fusco-1993-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1536x686.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/5-caetano-de-almeida-lusco-fusco-1993-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-2048x915.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Caetano de Almeida. Lusco-fusco, 1993. \u00d3leo sobre tela. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa percep\u00e7\u00e3o \u00e9 particularmente importante porque a arte brasileira participou ativamente da fabrica\u00e7\u00e3o visual da ideia de na\u00e7\u00e3o ao longo do s\u00e9culo XX. Desde as utopias modernistas at\u00e9 os deslocamentos cr\u00edticos contempor\u00e2neos, a paisagem nunca foi apenas natureza: ela foi projeto pol\u00edtico, inven\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica e mecanismo de identidade. Em muitos trabalhos presentes na mostra, percebe-se uma oscila\u00e7\u00e3o permanente entre deslumbramento e estranhamento. A exuber\u00e2ncia tropical aparece atravessada pela sensa\u00e7\u00e3o de artificialidade, como se o pa\u00eds estivesse sempre encenando a si mesmo diante de um espelho hist\u00f3rico inst\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u00e9 no eixo \u201cHist\u00f3ria como conflito\u201d que a exposi\u00e7\u00e3o atinge sua temperatura cr\u00edtica mais contundente. A presen\u00e7a de artistas como Adir Sodr\u00e9, Ana Bella Geiger, Antonio Manuel, C\u00edcero Dias, Glauco Rodrigues, Leonilson, Manuel Messias dos Santos, Ros\u00e2ngela Renn\u00f3 e Rubens Gerchman evidencia como diferentes gera\u00e7\u00f5es transformaram a arte em instrumento de tens\u00e3o cr\u00edtica diante das contradi\u00e7\u00f5es nacionais. H\u00e1 obras que parecem recusar qualquer tentativa de pacifica\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica. Em muitos momentos, a arte reaparece como campo de atrito pol\u00edtico, como den\u00fancia das viol\u00eancias estruturais que atravessam a experi\u00eancia brasileira. N\u00e3o se trata de ilustra\u00e7\u00e3o militante, mas de uma percep\u00e7\u00e3o aguda de que o pa\u00eds foi constru\u00eddo sobre mecanismos hist\u00f3ricos de exclus\u00e3o cuja perman\u00eancia continua inscrita no presente. O impacto desse n\u00facleo nasce justamente do modo como diferentes gera\u00e7\u00f5es art\u00edsticas convergem em torno dessa consci\u00eancia hist\u00f3rica traum\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"888\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/6-adir-sodre-sem-titulo-1982-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x888.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84862\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/6-adir-sodre-sem-titulo-1982-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x888.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/6-adir-sodre-sem-titulo-1982-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-300x260.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/6-adir-sodre-sem-titulo-1982-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x666.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/6-adir-sodre-sem-titulo-1982-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1536x1333.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/6-adir-sodre-sem-titulo-1982-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-2048x1777.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Adir Sodr\u00e9. Sem t\u00edtulo, 1982. \u00d3leo sobre tela. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mostra acerta ao n\u00e3o transformar a viol\u00eancia brasileira em espet\u00e1culo est\u00e9tico facilmente consum\u00edvel. Em vez disso, ela sugere que certas feridas hist\u00f3ricas talvez sejam irrepresent\u00e1veis em sentido pleno. Muitos trabalhos parecem operar justamente na zona da aus\u00eancia, da mem\u00f3ria interrompida, do vest\u00edgio e daquilo que resiste \u00e0 narrativa oficial. Em alguns momentos, a sensa\u00e7\u00e3o \u00e9 a de caminhar por um arquivo de fantasmas nacionais: rastros da escravid\u00e3o, da repress\u00e3o pol\u00edtica, das desigualdades sociais naturalizadas e dos sucessivos apagamentos que estruturaram a hist\u00f3ria do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa percep\u00e7\u00e3o torna a exposi\u00e7\u00e3o especialmente atual. Em tempos de satura\u00e7\u00e3o imag\u00e9tica, revisionismos superficiais e espetaculariza\u00e7\u00e3o cultural, <em>100 anos de arte<\/em> devolve densidade hist\u00f3rica ao olhar. Ela lembra que a arte brasileira nunca foi apenas exerc\u00edcio formal ou entretenimento sofisticado para elites ilustradas. Em seus melhores momentos, ela funcionou como laborat\u00f3rio cr\u00edtico da sensibilidade nacional. Mais do que representar o Brasil, muitos artistas reunidos na cole\u00e7\u00e3o parecem ter tentado compreender os mecanismos invis\u00edveis que organizam a experi\u00eancia brasileira.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"847\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/7-djanira-sobrado-de-azulejjos-1961-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x847.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84863\" style=\"aspect-ratio:1.2091727085941006;width:720px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/7-djanira-sobrado-de-azulejjos-1961-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x847.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/7-djanira-sobrado-de-azulejjos-1961-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-300x248.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/7-djanira-sobrado-de-azulejjos-1961-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x635.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/7-djanira-sobrado-de-azulejjos-1961-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1536x1270.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/7-djanira-sobrado-de-azulejjos-1961-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-2048x1694.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Djanira. Sobrado de Azulejos, 1961. \u00d3leo sobre tela. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, o n\u00facleo \u201cRetratos brasileiros\u201d assume import\u00e2ncia decisiva dentro da exposi\u00e7\u00e3o. Reunindo artistas como Aldemir Martins, Angelo de Aquino, Anita Malfatti, Antonio Gomide, Arjan Martins, Candido Portinari, Claudia Andujar, Djanira, Emiliano Di Cavalcanti, Gustavo Speridi\u00e3o, Leda Catunda e Orlando Teruz, o eixo revela como a imagem do povo brasileiro foi sendo constru\u00edda, deformada, idealizada ou tensionada ao longo de diferentes per\u00edodos hist\u00f3ricos. O retrato deixa ent\u00e3o de ser apenas representa\u00e7\u00e3o individual para se transformar em reflex\u00e3o coletiva sobre identidade, pertencimento e exclus\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"701\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/8-arjan-martins-sem-titulo-2013-acrilica-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x701.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84864\" style=\"width:681px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/8-arjan-martins-sem-titulo-2013-acrilica-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x701.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/8-arjan-martins-sem-titulo-2013-acrilica-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-300x205.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/8-arjan-martins-sem-titulo-2013-acrilica-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x526.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/8-arjan-martins-sem-titulo-2013-acrilica-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1536x1051.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/8-arjan-martins-sem-titulo-2013-acrilica-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-2048x1402.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Arjan Martins. Sem t\u00edtulo, 2013. acr\u00edlica sobre tela. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda um aspecto particularmente comovente na maneira como a exposi\u00e7\u00e3o permite perceber a coexist\u00eancia de diferentes Brasis dentro de uma mesma narrativa visual. O pa\u00eds urbano e industrializado convive com o Brasil popular, ritual\u00edstico, perif\u00e9rico, ind\u00edgena e afrodescendente. Em muitos momentos, a mostra parece revelar justamente o fracasso hist\u00f3rico das elites brasileiras em aceitar plenamente essa multiplicidade constitutiva. Artistas como Heitor dos Prazeres, Rubem Valentim ou Walter Firmo ajudam a construir uma esp\u00e9cie de contra-hist\u00f3ria sens\u00edvel do pa\u00eds \u2014 menos ligada \u00e0 narrativa oficial da moderniza\u00e7\u00e3o e mais conectada \u00e0s perman\u00eancias culturais que sobreviveram apesar da viol\u00eancia hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"842\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/9-orlando-teruz-futebol-1966-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x842.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84865\" style=\"aspect-ratio:1.2162675788673507;width:709px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/9-orlando-teruz-futebol-1966-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x842.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/9-orlando-teruz-futebol-1966-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-300x247.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/9-orlando-teruz-futebol-1966-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x631.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/9-orlando-teruz-futebol-1966-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1536x1263.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/9-orlando-teruz-futebol-1966-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-2048x1684.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Orlando Teruz. Futebol, 1966. \u00d3leo sobre tela. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m impressiona a maneira como a exposi\u00e7\u00e3o evidencia transforma\u00e7\u00f5es na pr\u00f3pria ideia de objeto art\u00edstico ao longo do s\u00e9culo XX. Ao atravessar pinturas modernistas, experimenta\u00e7\u00f5es conceituais, instala\u00e7\u00f5es, fotografias e trabalhos que dissolvem fronteiras entre arte e vida, o visitante percebe que a arte brasileira foi, em grande parte, uma longa investiga\u00e7\u00e3o sobre liberdade. Liberdade formal, pol\u00edtica, corporal e at\u00e9 espiritual. N\u00facleos como \u201cCorpos relacionais\u201d e \u201cAl\u00e9m do real\u201d aprofundam essa percep\u00e7\u00e3o ao apresentar obras em que desejo, subjetividade, transcend\u00eancia e experi\u00eancia sensorial tornam-se elementos centrais da cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em artistas como Ernesto Neto, ou nas reverbera\u00e7\u00f5es deixadas por experi\u00eancias neoconcretas que atravessam boa parte da produ\u00e7\u00e3o contempor\u00e2nea brasileira, existe sempre a tentativa de romper os limites tradicionais da contempla\u00e7\u00e3o passiva para transformar a experi\u00eancia est\u00e9tica em experi\u00eancia existencial. O corpo deixa de ocupar posi\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria e passa a funcionar como territ\u00f3rio de troca, vulnerabilidade, erotismo, mem\u00f3ria e inven\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse aspecto \u00e9 fundamental porque evidencia uma caracter\u00edstica singular da arte brasileira moderna e contempor\u00e2nea: sua recusa recorrente em separar radicalmente est\u00e9tica e vida. Ao contr\u00e1rio de certas tradi\u00e7\u00f5es europeias marcadas pela autonomia formal absoluta da obra, muitos artistas brasileiros parecem buscar justamente zonas de contamina\u00e7\u00e3o entre experi\u00eancia cotidiana, corpo, pol\u00edtica e espiritualidade. A arte deixa ent\u00e3o de ser objeto distante de contempla\u00e7\u00e3o intelectualizada para se tornar experi\u00eancia sensorial, afetiva e coletiva.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"910\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/10-emiliano-di-cavalcanti-mocas-com-violoes-1937-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x910.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84866\" style=\"aspect-ratio:1.1252499945056154;width:746px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/10-emiliano-di-cavalcanti-mocas-com-violoes-1937-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x910.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/10-emiliano-di-cavalcanti-mocas-com-violoes-1937-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-300x267.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/10-emiliano-di-cavalcanti-mocas-com-violoes-1937-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x683.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/10-emiliano-di-cavalcanti-mocas-com-violoes-1937-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1536x1365.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/10-emiliano-di-cavalcanti-mocas-com-violoes-1937-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-2048x1820.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Emiliano Di Cavalcanti. Mo\u00e7as com viol\u00f5es, 1937. \u00d3leo sobre tela. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O n\u00facleo \u201cIlha das esculturas\u201d, por sua vez, amplia ainda mais essa percep\u00e7\u00e3o ao enfatizar a presen\u00e7a f\u00edsica da obra no espa\u00e7o. Em muitos trabalhos tridimensionais presentes na mostra, a mat\u00e9ria parece adquirir autonomia simb\u00f3lica, como se madeira, metal, pedra, tecido ou resina carregassem em si mesmos tens\u00f5es hist\u00f3ricas e afetivas. N\u00e3o se trata apenas de volume ou ocupa\u00e7\u00e3o espacial, mas de uma investiga\u00e7\u00e3o sobre presen\u00e7a, densidade e perman\u00eancia. As esculturas instauram pausas de sil\u00eancio dentro da exposi\u00e7\u00e3o, obrigando o visitante a desacelerar o olhar diante da materialidade das formas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez seja justamente a\u00ed que a mostra alcance sua dimens\u00e3o mais profunda: ela sugere que a arte brasileira n\u00e3o pode ser compreendida apenas por categorias estil\u00edsticas ou per\u00edodos hist\u00f3ricos, porque nasce de um pa\u00eds permanentemente inacabado. H\u00e1 algo de inst\u00e1vel, h\u00edbrido e at\u00e9 contradit\u00f3rio em quase todas as obras reunidas. Em vez da seguran\u00e7a cl\u00e1ssica das tradi\u00e7\u00f5es europeias, o que emerge \u00e9 uma est\u00e9tica da tens\u00e3o. Uma arte produzida num territ\u00f3rio em que modernidade e atraso, sofistica\u00e7\u00e3o e precariedade, erudi\u00e7\u00e3o e cultura popular coexistem de forma brutalmente entrela\u00e7ada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E talvez seja precisamente isso que distingue a Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand de tantas cole\u00e7\u00f5es privadas transformadas em s\u00edmbolo de prest\u00edgio social: nela permanece vis\u00edvel o risco. H\u00e1 escolhas estranhas, apostas improv\u00e1veis, tens\u00f5es n\u00e3o resolvidas. A cole\u00e7\u00e3o n\u00e3o transmite a assepsia corporativa que frequentemente contamina grandes acervos contempor\u00e2neos. Pelo contr\u00e1rio: ela preserva certa desordem vital. \u00c9 como se o colecionador tivesse compreendido que colecionar arte n\u00e3o significa acumular objetos valiosos, mas construir rela\u00e7\u00f5es afetivas, intelectuais e at\u00e9 espirituais com imagens capazes de sobreviver ao tempo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"891\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/11-jose-pancetti-enterro-1945-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x891.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84867\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/11-jose-pancetti-enterro-1945-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x891.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/11-jose-pancetti-enterro-1945-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-300x261.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/11-jose-pancetti-enterro-1945-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x668.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/11-jose-pancetti-enterro-1945-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1536x1337.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/11-jose-pancetti-enterro-1945-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-2048x1782.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Jos\u00e9 Pancetti. Enterro, 1945. \u00d3leo sobre tela. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe inclusive algo de profundamente antiecon\u00f4mico nessa cole\u00e7\u00e3o \u2014 e isso talvez explique parte de sua relev\u00e2ncia hist\u00f3rica. Em uma \u00e9poca em que o mercado internacional frequentemente transforma obras em ativos financeiros e artistas em marcas globais, a Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand ainda preserva a sensa\u00e7\u00e3o de descoberta pessoal. Mesmo nos trabalhos mais consagrados, permanece percept\u00edvel o gesto subjetivo do colecionador: algu\u00e9m interessado menos em estabilizar consensos do que em acompanhar a pulsa\u00e7\u00e3o viva da arte brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse aspecto, a presen\u00e7a de artistas como Leonilson, Tunga ou Mestre Didi aponta para algo essencial: a arte brasileira talvez encontre sua maior pot\u00eancia justamente quando abandona a obsess\u00e3o europeizante pela racionalidade total e se abre ao corpo, ao rito, ao mist\u00e9rio e \u00e0 instabilidade. H\u00e1 em muitas obras da exposi\u00e7\u00e3o uma espiritualidade difusa, n\u00e3o necessariamente religiosa, mas ligada \u00e0 tentativa de produzir sentidos diante de um pa\u00eds marcado por rupturas permanentes e identidades fragmentadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o melanc\u00f3lica que atravessa toda a exposi\u00e7\u00e3o. N\u00e3o uma melancolia nost\u00e1lgica, mas hist\u00f3rica. Ao reunir um s\u00e9culo de produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica brasileira, a mostra deixa evidente quantos projetos de pa\u00eds foram interrompidos, deformados ou destru\u00eddos ao longo desse percurso. A moderniza\u00e7\u00e3o prometida pelos modernistas, a emancipa\u00e7\u00e3o popular sonhada em diferentes momentos do s\u00e9culo XX, a utopia coletiva insinuada pelas vanguardas \u2014 tudo parece surgir simultaneamente como pot\u00eancia e ru\u00edna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez por isso algumas obras contempor\u00e2neas presentes na exposi\u00e7\u00e3o adquiram uma for\u00e7a particularmente perturbadora. Elas n\u00e3o aparecem como \u201csupera\u00e7\u00e3o\u201d do modernismo, mas como testemunho de um pa\u00eds que continua atravessado pelas mesmas fraturas fundamentais: desigualdade, racismo estrutural, viol\u00eancia institucional, apagamentos hist\u00f3ricos. O di\u00e1logo entre diferentes gera\u00e7\u00f5es de artistas evidencia menos uma linha evolutiva do que uma repeti\u00e7\u00e3o traum\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"446\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/12-carlos-vergara-sem-titulo-serie-carnaval-c1979-guache-nanquim-e-papel-recortado-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x446.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84868\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/12-carlos-vergara-sem-titulo-serie-carnaval-c1979-guache-nanquim-e-papel-recortado-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x446.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/12-carlos-vergara-sem-titulo-serie-carnaval-c1979-guache-nanquim-e-papel-recortado-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-300x131.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/12-carlos-vergara-sem-titulo-serie-carnaval-c1979-guache-nanquim-e-papel-recortado-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x334.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/12-carlos-vergara-sem-titulo-serie-carnaval-c1979-guache-nanquim-e-papel-recortado-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1536x668.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/12-carlos-vergara-sem-titulo-serie-carnaval-c1979-guache-nanquim-e-papel-recortado-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-2048x891.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Carlos Vergara. Sem t\u00edtulo, s\u00e9rie Carnaval. c1979. Guache, nanquim e papel recortado. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, a exposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o produz cinismo. H\u00e1 nela uma defesa radical da imagina\u00e7\u00e3o como for\u00e7a pol\u00edtica. Em tempos marcados pelo pragmatismo brutal das redes, pela acelera\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e pela redu\u00e7\u00e3o da cultura a mercadoria de consumo r\u00e1pido, caminhar pelas salas do MAM Rio devolve ao espectador uma experi\u00eancia rara: a lentid\u00e3o do pensamento sens\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E isso talvez seja o maior legado de Gilberto Chateaubriand. Mais do que reunir obras fundamentais, ele ajudou a preservar a possibilidade de uma conversa cont\u00ednua entre diferentes tempos da arte brasileira. Sua cole\u00e7\u00e3o n\u00e3o funciona como mausol\u00e9u, mas como organismo vivo. As obras n\u00e3o parecem encerradas em si mesmas; elas continuam perguntando algo ao presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A curadoria de Pablo Lafuente e Raquel Barreto (Phelipe Rezende assina como curador assistente) compreende isso com admir\u00e1vel lucidez. Em vez de transformar a cole\u00e7\u00e3o em desfile de nomes consagrados, prefere construir zonas de tens\u00e3o, aproxima\u00e7\u00f5es inesperadas, choques silenciosos entre imagens. A exposi\u00e7\u00e3o n\u00e3o entrega respostas prontas ao visitante; ela o obriga a percorrer as ambiguidades do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"865\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/13-flavio-shiro-sem-titulo-1949-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x865.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84869\" style=\"width:690px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/13-flavio-shiro-sem-titulo-1949-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1024x865.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/13-flavio-shiro-sem-titulo-1949-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-300x253.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/13-flavio-shiro-sem-titulo-1949-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-768x648.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/13-flavio-shiro-sem-titulo-1949-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-1536x1297.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/13-flavio-shiro-sem-titulo-1949-oleo-sobre-tela-colecao-gilberto-chateaubriand-mam-rio-2048x1729.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Fl\u00e1vio Shir\u00f3. Sem t\u00edtulo, 1949. \u00d3leo sobre tela. Cole\u00e7\u00e3o Gilberto Chateaubriand &#8211; MAM Rio<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao final da visita, permanece uma sensa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil de nomear. Algo entre fasc\u00ednio e inquieta\u00e7\u00e3o. Como se a exposi\u00e7\u00e3o revelasse que a arte brasileira, em sua express\u00e3o mais profunda, nunca tratou apenas de est\u00e9tica. Tratou sempre da tentativa \u2014 muitas vezes fracassada, mas persistentemente bela \u2014 de imaginar um Brasil poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/100-anos-de-arte-gilberto-chateaubriand-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84870\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/100-anos-de-arte-gilberto-chateaubriand-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/100-anos-de-arte-gilberto-chateaubriand-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/100-anos-de-arte-gilberto-chateaubriand-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/100-anos-de-arte-gilberto-chateaubriand-1536x864.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/05\/100-anos-de-arte-gilberto-chateaubriand-2048x1153.jpg 2048w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A exposi\u00e7\u00e3o fica no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro at\u00e9 7 de junho<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A grande intelig\u00eancia da exposi\u00e7\u00e3o proposta pelos curadores est\u00e1 justamente em evitar a armadilha do monumento celebrat\u00f3rio. 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