{"id":84900,"date":"2026-06-05T12:27:38","date_gmt":"2026-06-05T15:27:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=84900"},"modified":"2026-06-10T01:48:49","modified_gmt":"2026-06-10T04:48:49","slug":"5-de-junho-meio-ambiente-poder-e-o-futuro-da-civilizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/5-de-junho-meio-ambiente-poder-e-o-futuro-da-civilizacao\/","title":{"rendered":"5 de junho: Meio Ambiente, poder e o futuro da civiliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>O conflito ambiental brasileiro nunca foi apenas ecol\u00f3gico. Ele \u00e9 econ\u00f4mico, pol\u00edtico, social e civilizat\u00f3rio<\/em><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"537\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/vista-aerea-da-regiao-central-de-porto-alegre-afetada-pelas-fortes-chuvas-no-rio-grande-do-sul-em-maio-de-2024-foto-de-ricardo-stuckert-presidencia-da-republica.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84902\" style=\"width:671px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/vista-aerea-da-regiao-central-de-porto-alegre-afetada-pelas-fortes-chuvas-no-rio-grande-do-sul-em-maio-de-2024-foto-de-ricardo-stuckert-presidencia-da-republica.jpeg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/vista-aerea-da-regiao-central-de-porto-alegre-afetada-pelas-fortes-chuvas-no-rio-grande-do-sul-em-maio-de-2024-foto-de-ricardo-stuckert-presidencia-da-republica-300x210.jpeg 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Vista a\u00e9rea da regi\u00e3o central de Porto Alegre afetada pelas fortes chuvas no Rio Grande do Sul em maio de 2024. Foto de Ricardo Stuckert\/PR\/J\u00c1<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>CRISTIANO GOLDSCHMIDT<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, chega em um momento hist\u00f3rico no qual a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o entre humanidade e natureza parece exigir uma revis\u00e3o profunda. Em um planeta atravessado por eventos clim\u00e1ticos extremos, inc\u00eandios de escala continental, secas hist\u00f3ricas, enchentes devastadoras e deslocamentos humanos causados pelo colapso ambiental, a data assume um significado que vai muito al\u00e9m das campanhas de conscientiza\u00e7\u00e3o e dos discursos institucionais. O que est\u00e1 em quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apenas o destino das florestas, dos rios ou das esp\u00e9cies amea\u00e7adas, mas a sustentabilidade de um modelo civilizat\u00f3rio fundado na expans\u00e3o incessante do consumo, na transforma\u00e7\u00e3o da natureza em mercadoria e na convic\u00e7\u00e3o de que o crescimento econ\u00f4mico pode avan\u00e7ar sem limites em um mundo inevitavelmente limitado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 algo de profundamente contradit\u00f3rio em nosso tempo. Nunca se produziu tanto conhecimento cient\u00edfico sobre o funcionamento dos ecossistemas, e nunca se destruiu tanto. Nunca se falou tanto em sustentabilidade, e nunca houve tamanho avan\u00e7o de monoculturas extensivas, minera\u00e7\u00e3o predat\u00f3ria, explora\u00e7\u00e3o f\u00f3ssil e devasta\u00e7\u00e3o de \u00e1reas protegidas. A palavra \u201cverde\u201d, indevidamente apropriada pelo <em>marketing <\/em>corporativo, tornou-se muitas vezes uma est\u00e9tica vazia, um ornamento discursivo incapaz de alterar estruturas profundas de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil ocupa posi\u00e7\u00e3o central nessa encruzilhada hist\u00f3rica. Nenhum outro pa\u00eds re\u00fane simultaneamente tamanha biodiversidade, t\u00e3o vasta disponibilidade de \u00e1gua doce, t\u00e3o grande extens\u00e3o de florestas tropicais e tamanho protagonismo no agroneg\u00f3cio global. Essa condi\u00e7\u00e3o faz do territ\u00f3rio brasileiro n\u00e3o apenas um patrim\u00f4nio nacional, mas um elemento decisivo para o equil\u00edbrio clim\u00e1tico planet\u00e1rio. A Amaz\u00f4nia, o Cerrado, a Mata Atl\u00e2ntica, o Pantanal, a Caatinga e o Pampa deixaram de ser apenas biomas brasileiros; tornaram-se pe\u00e7as fundamentais da estabilidade ecol\u00f3gica da Terra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 precisamente por isso que o debate ambiental no Brasil costuma ser t\u00e3o feroz. Em torno da natureza brasileira movimentam-se interesses bilion\u00e1rios: exporta\u00e7\u00f5es agr\u00edcolas, expans\u00e3o pecu\u00e1ria, minera\u00e7\u00e3o, especula\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria, mercado internacional de <em>commodities<\/em>, infraestrutura log\u00edstica e explora\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. Ou seja, o conflito ambiental brasileiro nunca foi apenas ecol\u00f3gico; ele \u00e9 econ\u00f4mico, pol\u00edtico, social e civilizat\u00f3rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos \u00faltimos anos, contudo, o pa\u00eds voltou a apresentar indicadores importantes de redu\u00e7\u00e3o do desmatamento, especialmente na Amaz\u00f4nia e no Cerrado. Dados oficiais apontaram queda significativa nos \u00edndices de devasta\u00e7\u00e3o desses biomas, consolidando uma tend\u00eancia de retra\u00e7\u00e3o observada desde 2023. A Amaz\u00f4nia alcan\u00e7ou uma das menores taxas de desmatamento da \u00faltima d\u00e9cada, resultado atribu\u00eddo ao fortalecimento da fiscaliza\u00e7\u00e3o ambiental, \u00e0 retomada de opera\u00e7\u00f5es de controle territorial e \u00e0 reconstru\u00e7\u00e3o institucional de \u00f3rg\u00e3os que haviam sofrido forte esvaziamento nos anos anteriores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse cen\u00e1rio, o nome de Marina Silva voltou a ocupar papel central na pol\u00edtica ambiental brasileira. Figura hist\u00f3rica do ambientalismo latino-americano, Marina representa uma trajet\u00f3ria rara na vida p\u00fablica contempor\u00e2nea: a de algu\u00e9m cuja atua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica permanece profundamente vinculada a uma experi\u00eancia existencial concreta. Filha da Amaz\u00f4nia, seringueira, alfabetizada apenas na adolesc\u00eancia, ela construiu uma carreira marcada pela defesa persistente da floresta e dos povos tradicionais. Sua presen\u00e7a no Minist\u00e9rio do Meio Ambiente devolveu ao Brasil parte do protagonismo clim\u00e1tico internacional perdido na d\u00e9cada anterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso n\u00e3o significa, evidentemente, aus\u00eancia de contradi\u00e7\u00f5es. O governo brasileiro continua pressionado por interesses desenvolvimentistas internos, inclusive dentro da pr\u00f3pria estrutura estatal. A tens\u00e3o entre prote\u00e7\u00e3o ambiental e expans\u00e3o econ\u00f4mica permanece viva em debates sobre explora\u00e7\u00e3o de petr\u00f3leo, licenciamento ambiental, obras de infraestrutura e expans\u00e3o agr\u00edcola. O Brasil contempor\u00e2neo parece dividido entre dois projetos de pa\u00eds: um que compreende a preserva\u00e7\u00e3o ambiental como eixo estrat\u00e9gico do futuro e outro que ainda enxerga a natureza como mera fronteira econ\u00f4mica dispon\u00edvel \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o infinita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A Amaz\u00f4nia no centro da geopol\u00edtica clim\u00e1tica<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A realiza\u00e7\u00e3o da COP30, em novembro de 2025, em Bel\u00e9m, no cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia, representou um momento hist\u00f3rico para a diplomacia clim\u00e1tica internacional e para a imagem do Brasil no exterior. Pela primeira vez, a principal confer\u00eancia clim\u00e1tica do planeta ocorreu dentro da maior floresta tropical do mundo, deslocando simbolicamente o centro do debate ambiental para um territ\u00f3rio que h\u00e1 d\u00e9cadas ocupa posi\u00e7\u00e3o decisiva no equil\u00edbrio ecol\u00f3gico global. O encontro consolidou o retorno do Brasil ao centro das negocia\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas internacionais e fortaleceu a percep\u00e7\u00e3o de que a Amaz\u00f4nia deve ser tratada como quest\u00e3o estrat\u00e9gica para a sobreviv\u00eancia planet\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, a COP30 tamb\u00e9m exp\u00f4s os limites da governan\u00e7a clim\u00e1tica contempor\u00e2nea. Apesar de avan\u00e7os diplom\u00e1ticos relevantes, persistiram impasses relacionados \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o progressiva dos combust\u00edveis f\u00f3sseis, ao financiamento clim\u00e1tico e \u00e0 capacidade real dos pa\u00edses de cumprir metas ambientais ambiciosas sem alterar profundamente seus modelos econ\u00f4micos. A confer\u00eancia evidenciou uma contradi\u00e7\u00e3o que atravessa todo o debate ambiental contempor\u00e2neo: nunca houve tamanho ac\u00famulo de conhecimento cient\u00edfico sobre a crise clim\u00e1tica e, ainda assim, interesses econ\u00f4micos e geopol\u00edticos continuam retardando medidas estruturais compat\u00edveis com a gravidade da emerg\u00eancia planet\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil chegou \u00e0 COP30 carregando tanto credenciais positivas quanto profundas ambiguidades. De um lado, apresentou redu\u00e7\u00e3o do desmatamento, reconstru\u00e7\u00e3o parcial da governan\u00e7a ambiental e fortalecimento do discurso clim\u00e1tico internacional. De outro, continuou convivendo com expans\u00e3o descontrolada de monoculturas, press\u00e3o crescente sobre terras ind\u00edgenas, viol\u00eancia fundi\u00e1ria e avan\u00e7o da pecu\u00e1ria sobre \u00e1reas de preserva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os biomas brasileiros sob press\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A expans\u00e3o do agroneg\u00f3cio brasileiro constitui um dos grandes dilemas nacionais. \u00c9 imposs\u00edvel compreender a economia do pa\u00eds sem reconhecer a import\u00e2ncia do setor agr\u00edcola para exporta\u00e7\u00f5es, gera\u00e7\u00e3o de divisas e abastecimento global. Entretanto, tamb\u00e9m \u00e9 imposs\u00edvel ignorar os efeitos destrutivos de determinados segmentos do modelo agroexportador contempor\u00e2neo. A l\u00f3gica da monocultura extensiva empobrece o solo, reduz biodiversidade, amplia depend\u00eancia qu\u00edmica, destr\u00f3i corredores ecol\u00f3gicos e transforma vastas \u00e1reas naturais em paisagens homog\u00eaneas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Cerrado, considerado por muitos cientistas o bioma mais amea\u00e7ado do Brasil, o avan\u00e7o da soja e da pecu\u00e1ria j\u00e1 provocou perdas ambientais gigantescas. A Caatinga enfrenta desertifica\u00e7\u00e3o crescente. O Pantanal sofre com queimadas devastadoras agravadas pelas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. A Mata Atl\u00e2ntica, embora mais protegida hoje do que em d\u00e9cadas anteriores, continua fragmentada e pressionada pela urbaniza\u00e7\u00e3o. Mesmo os Pampas ga\u00fachos, frequentemente esquecidos no debate ambiental nacional, enfrentam eros\u00e3o de biodiversidade causada por monoculturas e silvicultura intensiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O legado dos pioneiros do ambientalismo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Rio Grande do Sul, ali\u00e1s, a consci\u00eancia ambiental possui figuras hist\u00f3ricas fundamentais. Jos\u00e9 Lutzenberger permanece como uma das vozes mais importantes do pensamento ecol\u00f3gico brasileiro do s\u00e9culo XX. Muito antes da pauta ambiental ganhar centralidade global, Lutzenberger j\u00e1 denunciava os efeitos t\u00f3xicos dos agrot\u00f3xicos, a devasta\u00e7\u00e3o dos solos e o car\u00e1ter suicida de um modelo agr\u00edcola baseado exclusivamente na produtividade imediata. Sua atua\u00e7\u00e3o tinha algo de vision\u00e1rio e, ao mesmo tempo, profundamente humanista. Ele compreendia que destruir ecossistemas significava tamb\u00e9m destruir culturas, mem\u00f3rias e formas de vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao lado dele, Augusto Carneiro exerceu papel decisivo na constru\u00e7\u00e3o do movimento ecol\u00f3gico ga\u00facho e brasileiro. Fundador da AGAPAN, Augusto Carneiro ajudou a transformar o ambientalismo em a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica concreta, articulando sociedade civil, universidades e movimentos sociais em torno da defesa ambiental. Ambos pertencem a uma gera\u00e7\u00e3o que lutou quando ainda era comum tratar ambientalistas como sonhadores inconvenientes ou inimigos do progresso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, paradoxalmente, muitas das advert\u00eancias feitas por esses pioneiros tornaram-se realidade. As enchentes hist\u00f3ricas que devastaram o Rio Grande do Sul recentemente revelaram de maneira brutal o impacto combinado de mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, urbaniza\u00e7\u00e3o desordenada, destrui\u00e7\u00e3o de \u00e1reas \u00famidas e aus\u00eancia de planejamento ambiental consistente. A trag\u00e9dia ga\u00facha evidenciou que a crise clim\u00e1tica deixou de ser hip\u00f3tese futura; ela j\u00e1 redefine o presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Imprensa, pol\u00edtica e os impasses do desenvolvimento<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, o papel da imprensa torna-se decisivo. A grande m\u00eddia brasileira avan\u00e7ou consideravelmente na cobertura ambiental nas \u00faltimas d\u00e9cadas. Hoje h\u00e1 mais espa\u00e7o para reportagens sobre clima, biodiversidade e desmatamento do que havia no passado. Entretanto, permanece uma cobertura muitas vezes epis\u00f3dica, concentrada em trag\u00e9dias imediatas ou eventos internacionais. Falta, em grande parte da imprensa, incorporar a quest\u00e3o ambiental como eixo permanente da cobertura econ\u00f4mica, pol\u00edtica e social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Frequentemente, jornais e emissoras ainda tratam o meio ambiente como tema setorial, quase decorativo, quando na verdade ele atravessa todas as dimens\u00f5es da vida contempor\u00e2nea: infla\u00e7\u00e3o de alimentos, migra\u00e7\u00f5es, sa\u00fade p\u00fablica, energia, infraestrutura, seguran\u00e7a h\u00eddrica e desigualdade social. Al\u00e9m disso, parte significativa da m\u00eddia mant\u00e9m rela\u00e7\u00e3o amb\u00edgua com setores econ\u00f4micos diretamente associados \u00e0 degrada\u00e7\u00e3o ambiental, especialmente devido \u00e0 depend\u00eancia publicit\u00e1ria de grandes grupos empresariais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro elemento central desse debate \u00e9 a atua\u00e7\u00e3o da chamada bancada ruralista no Congresso Nacional. Trata-se de uma das for\u00e7as pol\u00edticas mais organizadas e influentes do pa\u00eds. Seus integrantes frequentemente argumentam em defesa da seguran\u00e7a alimentar, da competitividade econ\u00f4mica e da soberania produtiva brasileira. Cr\u00edticos, por\u00e9m, apontam que parte significativa dessa bancada atua sistematicamente para flexibilizar licenciamento ambiental, enfraquecer \u00f3rg\u00e3os de fiscaliza\u00e7\u00e3o, reduzir prote\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas e ampliar possibilidades de explora\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica em \u00e1reas sens\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A escolha do s\u00e9culo XXI<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conflito, portanto, n\u00e3o \u00e9 simples. N\u00e3o se trata de uma oposi\u00e7\u00e3o caricatural entre \u201cprodu\u00e7\u00e3o\u201d e \u201cpreserva\u00e7\u00e3o\u201d. O verdadeiro desafio consiste em redefinir o pr\u00f3prio conceito de desenvolvimento. O s\u00e9culo XXI exige abandonar a falsa dicotomia segundo a qual proteger a natureza impediria crescimento econ\u00f4mico. O futuro provavelmente pertencer\u00e1 justamente \u00e0s economias capazes de combinar inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, preserva\u00e7\u00e3o ecol\u00f3gica e redu\u00e7\u00e3o das desigualdades sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Dia Mundial do Meio Ambiente deveria servir menos para celebra\u00e7\u00f5es protocolares e mais para um exerc\u00edcio radical de lucidez coletiva. A humanidade ingressou numa era em que a pr\u00f3pria estabilidade clim\u00e1tica deixou de ser garantida. A antiga ilus\u00e3o moderna de dom\u00ednio absoluto sobre a natureza come\u00e7a a ruir diante de inc\u00eandios, secas, tempestades e colapsos ambientais cada vez mais frequentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez a pergunta decisiva j\u00e1 n\u00e3o seja apenas como salvar o planeta \u2014 a Terra continuar\u00e1 existindo \u2014, mas como salvar as condi\u00e7\u00f5es civilizat\u00f3rias que tornaram poss\u00edvel a experi\u00eancia humana tal como a conhecemos. O debate ambiental tornou-se, em \u00faltima inst\u00e2ncia, um debate sobre mem\u00f3ria, perman\u00eancia e futuro. Sobre aquilo que desejamos legar \u00e0s pr\u00f3ximas gera\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E o Brasil, com toda sua exuber\u00e2ncia natural e todas as suas contradi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, ocupa posi\u00e7\u00e3o central nessa escolha.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O conflito ambiental brasileiro nunca foi apenas ecol\u00f3gico. Ele \u00e9 econ\u00f4mico, pol\u00edtico, social e civilizat\u00f3rio CRISTIANO GOLDSCHMIDT O Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado em 5 de junho, chega em um momento hist\u00f3rico no qual a pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o entre humanidade e natureza parece exigir uma revis\u00e3o profunda. 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