{"id":84913,"date":"2026-06-09T12:33:18","date_gmt":"2026-06-09T15:33:18","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=84913"},"modified":"2026-06-09T12:33:20","modified_gmt":"2026-06-09T15:33:20","slug":"peru-memoria-e-poder-quando-as-democracias-flertam-com-fantasmas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/peru-memoria-e-poder-quando-as-democracias-flertam-com-fantasmas\/","title":{"rendered":"Peru, mem\u00f3ria e poder: quando as democracias flertam com fantasmas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por tr\u00e1s de cada elei\u00e7\u00e3o existe uma disputa de projetos. Mas existem momentos em que o processo eleitoral transcende a simples escolha entre programas de governo e se transforma em algo mais profundo: um julgamento coletivo da mem\u00f3ria hist\u00f3rica de uma na\u00e7\u00e3o. O Peru vive um desses momentos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A presen\u00e7a recorrente de Keiko Fujimori como protagonista da pol\u00edtica peruana obriga o pa\u00eds a revisitar um dos per\u00edodos mais controversos de sua hist\u00f3ria recente. Filha e herdeira pol\u00edtica de Alberto Fujimori, presidente que governou o Peru entre 1990 e 2000, ela carrega consigo n\u00e3o apenas um sobrenome, mas um legado que continua dividindo profundamente a sociedade peruana. A pr\u00f3pria persist\u00eancia desse debate revela uma quest\u00e3o que ultrapassa as fronteiras do Peru e alcan\u00e7a qualquer democracia contempor\u00e2nea: o que acontece quando sociedades que sofreram experi\u00eancias autorit\u00e1rias passam a considerar, novamente, a entrega do poder a representantes diretos dos mesmos grupos pol\u00edticos que protagonizaram esses processos?<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1005\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/keiko-fujimori-foto-reproduzida-de-seu-facebook-1005x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84914\" style=\"aspect-ratio:0.9814633772308164;width:540px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/keiko-fujimori-foto-reproduzida-de-seu-facebook-1005x1024.jpeg 1005w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/keiko-fujimori-foto-reproduzida-de-seu-facebook-294x300.jpeg 294w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/keiko-fujimori-foto-reproduzida-de-seu-facebook-768x782.jpeg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/keiko-fujimori-foto-reproduzida-de-seu-facebook.jpeg 1378w\" sizes=\"(max-width: 1005px) 100vw, 1005px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Keiko Fujimori| \/ Foto reproduzida de seu Facebook<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A d\u00e9cada de 1990 permanece como uma das mais complexas da hist\u00f3ria peruana. Alberto Fujimori chegou ao poder em meio a uma grave crise econ\u00f4mica e a uma intensa escalada da viol\u00eancia promovida por grupos insurgentes. Seus defensores costumam destacar o combate ao terrorismo e a estabiliza\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Seus cr\u00edticos, entretanto, lembram que tais resultados vieram acompanhados de pr\u00e1ticas incompat\u00edveis com os princ\u00edpios fundamentais de uma democracia constitucional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O epis\u00f3dio mais emblem\u00e1tico ocorreu em 1992, quando Fujimori promoveu o chamado autogolpe, dissolvendo o Congresso e intervindo no Poder Judici\u00e1rio para concentrar poderes em suas m\u00e3os. O gesto representou uma ruptura institucional profunda e demonstrou como o discurso da efici\u00eancia pode servir de justificativa para a eros\u00e3o gradual das garantias democr\u00e1ticas. Posteriormente, vieram \u00e0 tona esc\u00e2ndalos de corrup\u00e7\u00e3o, esquemas de espionagem pol\u00edtica e graves viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos, que culminaram em condena\u00e7\u00f5es judiciais e consolidaram a imagem internacional do regime como uma experi\u00eancia autorit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Contudo, a grande quest\u00e3o n\u00e3o reside apenas no passado. Ela reside na forma como esse passado continua sendo mobilizado politicamente no presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se existe um aspecto particularmente perturbador na trajet\u00f3ria pol\u00edtica de Keiko Fujimori, ele reside no fato de que sua carreira jamais conseguiu desvincular-se integralmente da heran\u00e7a hist\u00f3rica que a tornou conhecida nacionalmente. Ao contr\u00e1rio de lideran\u00e7as que procuram construir uma identidade pr\u00f3pria e aut\u00f4noma, sua principal for\u00e7a pol\u00edtica sempre esteve associada \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o, \u00e0 reinterpreta\u00e7\u00e3o e, em certa medida, \u00e0 reabilita\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria pol\u00edtica do pai, Alberto Fujimori. Essa escolha n\u00e3o \u00e9 apenas simb\u00f3lica. Ela representa uma disputa permanente pela narrativa hist\u00f3rica do pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema n\u00e3o est\u00e1 em v\u00ednculos familiares. Democracias n\u00e3o operam com crit\u00e9rios heredit\u00e1rios de culpa. Filhos n\u00e3o respondem pelos atos de seus pais. O problema surge quando a heran\u00e7a reivindicada inclui precisamente o fechamento do Congresso, a submiss\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es aos interesses do Executivo, den\u00fancias de corrup\u00e7\u00e3o sist\u00eamica e viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos reconhecidas judicialmente. Nesse contexto, a exalta\u00e7\u00e3o do legado fujimorista deixa de ser uma simples estrat\u00e9gia eleitoral e passa a representar um embate sobre os pr\u00f3prios limites \u00e9ticos da mem\u00f3ria pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais do que uma candidatura individual, Keiko Fujimori tornou-se a express\u00e3o contempor\u00e2nea de um movimento pol\u00edtico que, ao longo dos anos, demonstrou dificuldade em realizar uma autocr\u00edtica profunda sobre os abusos cometidos durante a d\u00e9cada de 1990. A aus\u00eancia dessa revis\u00e3o hist\u00f3rica produz uma consequ\u00eancia preocupante: a normaliza\u00e7\u00e3o gradual de pr\u00e1ticas autorit\u00e1rias sob o argumento de que determinados resultados econ\u00f4micos ou de seguran\u00e7a p\u00fablica seriam suficientes para compensar os danos provocados \u00e0 ordem democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez resida a\u00ed uma das maiores fragilidades do fujimorismo como projeto pol\u00edtico. Sua narrativa frequentemente convida a sociedade a recordar os supostos \u00eaxitos do per\u00edodo, mas se nega a reconhecer e a enfrentar com igual intensidade os custos institucionais que acompanharam esses resultados. Nenhuma democracia madura pode aceitar que a efici\u00eancia administrativa funcione como absolvi\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica para a concentra\u00e7\u00e3o de poder ou para a relativiza\u00e7\u00e3o ou degrada\u00e7\u00e3o dos direitos fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A experi\u00eancia hist\u00f3rica demonstra que regimes autorit\u00e1rios raramente se apresentam como autorit\u00e1rios. Em geral, surgem revestidos por promessas de ordem, estabilidade, prosperidade ou combate ao crime. A sedu\u00e7\u00e3o dessas promessas reside justamente em sua aparente simplicidade. Problemas complexos recebem solu\u00e7\u00f5es r\u00e1pidas; institui\u00e7\u00f5es s\u00e3o retratadas como obst\u00e1culos; mecanismos de controle passam a ser vistos como entraves \u00e0 governabilidade. \u00c9 exatamente nesse ponto que as democracias come\u00e7am a correr riscos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A hist\u00f3ria pol\u00edtica contempor\u00e2nea mostra que as democracias dificilmente morrem de maneira abrupta. Na maior parte dos casos, elas s\u00e3o corro\u00eddas lentamente. O processo come\u00e7a pela desqualifica\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, avan\u00e7a pela concentra\u00e7\u00e3o gradual de poder e culmina na normaliza\u00e7\u00e3o de pr\u00e1ticas que anteriormente seriam consideradas incompat\u00edveis com a vida democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por essa raz\u00e3o, a mem\u00f3ria hist\u00f3rica desempenha papel central. N\u00e3o se trata de cultivar ressentimentos ou de transformar o passado em uma pris\u00e3o permanente. Trata-se de compreender que sociedades maduras precisam ser capazes de reconhecer seus erros para evitar repeti-los.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso peruano n\u00e3o \u00e9 isolado. Em diversas partes do mundo, fam\u00edlias associadas a governos autorit\u00e1rios conseguiram preservar influ\u00eancia pol\u00edtica por d\u00e9cadas, transformando sobrenomes em patrim\u00f4nios eleitorais. Trata-se de um fen\u00f4meno que deveria provocar reflex\u00e3o profunda em qualquer sociedade democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existe algo de profundamente desconfort\u00e1vel \u2014 e at\u00e9 mesmo vergonhoso do ponto de vista hist\u00f3rico \u2014 quando na\u00e7\u00f5es que sofreram com a concentra\u00e7\u00e3o de poder, a fragiliza\u00e7\u00e3o institucional e a supress\u00e3o de direitos passam a aceitar com naturalidade a perpetua\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de grupos familiares diretamente ligados a esses processos. N\u00e3o se trata de negar direitos pol\u00edticos a ningu\u00e9m. Trata-se de questionar o que leva uma sociedade a transformar em heran\u00e7a eleitoral experi\u00eancias que deveriam servir como advert\u00eancia hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando descendentes pol\u00edticos ou familiares de l\u00edderes associados a rupturas democr\u00e1ticas permanecem como for\u00e7as centrais do sistema pol\u00edtico durante d\u00e9cadas, evidencia-se uma incapacidade coletiva de renova\u00e7\u00e3o. Revela-se a dificuldade de construir novas lideran\u00e7as, novos consensos e novas refer\u00eancias \u00e9ticas para a vida p\u00fablica. Trata-se de um sintoma que n\u00e3o deveria ser motivo de orgulho nacional, mas de inquieta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A verdadeira quest\u00e3o n\u00e3o \u00e9 se Keiko Fujimori reproduzir\u00e1 \u2013 caso eleita \u2013 as nefastas pr\u00e1ticas do passado de seu pai. A quest\u00e3o mais relevante \u00e9 outra: por que uma democracia que conheceu os altos custos do autoritarismo continua sendo chamada, repetidamente, a decidir entre alternativas que mant\u00eam viva a sombra desse mesmo passado? Essa pergunta talvez seja mais importante do que qualquer resultado eleitoral, porque diz respeito n\u00e3o apenas ao futuro do Peru, mas \u00e0 capacidade das democracias contempor\u00e2neas de aprender com seus pr\u00f3prios erros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso peruano, a discuss\u00e3o sobre o fujimorismo permanece viva justamente porque o pa\u00eds ainda busca responder perguntas fundamentais sobre sua identidade democr\u00e1tica. At\u00e9 que ponto supostos resultados econ\u00f4micos positivos podem justificar abusos institucionais? \u00c9 poss\u00edvel separar efici\u00eancia administrativa de pr\u00e1ticas autorit\u00e1rias? O combate \u00e0 criminalidade pode servir como argumento para flexibilizar garantias constitucionais? Essas quest\u00f5es n\u00e3o pertencem apenas ao Peru. Elas atravessam praticamente todas as democracias contempor\u00e2neas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mais importante do que o destino eleitoral de qualquer candidatura espec\u00edfica \u00e9 a capacidade da sociedade de avaliar criticamente os legados pol\u00edticos que se apresentam diante dela. O verdadeiro risco para uma democracia n\u00e3o est\u00e1 necessariamente em uma pessoa ou em um partido. Est\u00e1 na disposi\u00e7\u00e3o coletiva de relativizar princ\u00edpios democr\u00e1ticos em nome de solu\u00e7\u00f5es aparentemente simples para problemas complexos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando isso ocorre, a hist\u00f3ria deixa de ser uma fonte de aprendizado e passa a ser um ciclo de repeti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Peru encontra-se diante de uma escolha que possui significado muito al\u00e9m de suas fronteiras. Independentemente do resultado eleitoral, o debate em curso recorda uma verdade frequentemente esquecida: democracias n\u00e3o s\u00e3o patrim\u00f4nios permanentes. Elas exigem vigil\u00e2ncia constante, mem\u00f3ria ativa e compromisso inegoci\u00e1vel com as institui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma sociedade pode sobreviver a crises econ\u00f4micas, esc\u00e2ndalos pol\u00edticos e per\u00edodos de instabilidade. O que dificilmente supera sem consequ\u00eancias profundas \u00e9 a perda da capacidade de distinguir entre a for\u00e7a leg\u00edtima das institui\u00e7\u00f5es e a sedu\u00e7\u00e3o recorrente dos projetos pol\u00edticos que prometem concentrar poder em nome da salva\u00e7\u00e3o nacional. A hist\u00f3ria latino-americana est\u00e1 repleta de exemplos desse equ\u00edvoco. O desafio das novas gera\u00e7\u00f5es \u00e9 garantir que eles permane\u00e7am apenas como hist\u00f3ria \u2014 e jamais voltem a se apresentar como destino. Que este n\u00e3o seja o destino atual do Peru.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Por tr\u00e1s de cada elei\u00e7\u00e3o existe uma disputa de projetos. Mas existem momentos em que o processo eleitoral transcende a simples escolha entre programas de governo e se transforma em algo mais profundo: um julgamento coletivo da mem\u00f3ria hist\u00f3rica de uma na\u00e7\u00e3o. O Peru vive um desses momentos. 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Por Cristiano Goldschmidt H\u00e1 datas que permanecem suspensas sobre um pa\u00eds como uma pergunta sem resposta definitiva. 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