{"id":84962,"date":"2026-06-17T12:00:56","date_gmt":"2026-06-17T15:00:56","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=84962"},"modified":"2026-06-17T12:00:58","modified_gmt":"2026-06-17T15:00:58","slug":"cuba-argentina-e-china-tres-espelhos-do-nosso-tempo-em-documentarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/cuba-argentina-e-china-tres-espelhos-do-nosso-tempo-em-documentarios\/","title":{"rendered":"Cuba, Argentina e China: tr\u00eas espelhos do nosso tempo em document\u00e1rios"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vivemos uma \u00e9poca paradoxal. Nunca houve tanta informa\u00e7\u00e3o dispon\u00edvel e, ao mesmo tempo, talvez nunca tenha sido t\u00e3o dif\u00edcil compreender a complexidade do mundo. A velocidade das redes sociais, a fragmenta\u00e7\u00e3o dos debates p\u00fablicos e a transforma\u00e7\u00e3o de quest\u00f5es hist\u00f3ricas em slogans instant\u00e2neos produziram um ambiente em que opini\u00f5es circulam com enorme facilidade, enquanto a reflex\u00e3o profunda se torna cada vez mais rara. Nesse contexto, o document\u00e1rio emerge n\u00e3o apenas como um g\u00eanero cinematogr\u00e1fico, mas como um instrumento de investiga\u00e7\u00e3o intelectual e de reconstru\u00e7\u00e3o da complexidade perdida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 precisamente nesse horizonte que se inscrevem os document\u00e1rios <em>Vai pra Cuba, Eduardo!<\/em> (2024), <em>Vai pra Argentina, Carajo!<\/em> (2025) e <em>Vai pra China, Eduardo!<\/em> (2026). Produzidos pelo Instituto Conhecimento Liberta (ICL), os tr\u00eas filmes constituem um projeto documental singular no audiovisual brasileiro contempor\u00e2neo. Concebida a partir de uma ideia original de Eduardo Moreira, a trilogia combina jornalismo investigativo, an\u00e1lise hist\u00f3rica e observa\u00e7\u00e3o de campo, tendo o pr\u00f3prio Moreira como principal condutor das entrevistas, das viagens e das investiga\u00e7\u00f5es realizadas em cada pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dire\u00e7\u00e3o da s\u00e9rie revela igualmente uma preocupa\u00e7\u00e3o com o rigor narrativo e a pluralidade de perspectivas. Os document\u00e1rios <em>Vai pra Cuba, Eduardo!<\/em> e <em>Vai pra China, Eduardo!<\/em> foram dirigidos por Juliana Baroni, enquanto <em>Vai pra Argentina, Carajo!<\/em> contou com dire\u00e7\u00e3o compartilhada entre Baroni e o jornalista e documentarista argentino Fabi\u00e1n Restivo. No caso de <em>Vai pra China, Eduardo!<\/em>, merece destaque ainda a dimens\u00e3o internacional da produ\u00e7\u00e3o. O document\u00e1rio foi realizado em coprodu\u00e7\u00e3o com o China Media Group (CMG), o maior conglomerado estatal de comunica\u00e7\u00e3o da China, respons\u00e1vel por ve\u00edculos de enorme alcance e relev\u00e2ncia, como a CCTV e a CGTN. Essa colabora\u00e7\u00e3o confere ao projeto uma amplitude rara, permitindo acesso a informa\u00e7\u00f5es, contextos e experi\u00eancias que dificilmente poderiam ser alcan\u00e7ados por uma produ\u00e7\u00e3o estrangeira convencional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A relev\u00e2ncia desses document\u00e1rios n\u00e3o reside apenas nos temas que abordam. Sua contribui\u00e7\u00e3o mais importante talvez seja de natureza epistemol\u00f3gica. Em uma \u00e9poca marcada pela polariza\u00e7\u00e3o, eles recuperam algo que deveria ser fundamental em qualquer sociedade democr\u00e1tica: a disposi\u00e7\u00e3o para compreender antes de julgar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O primeiro filme, <em>Vai pra Cuba, Eduardo!<\/em>, realiza uma tarefa particularmente necess\u00e1ria. Durante d\u00e9cadas, Cuba foi transformada em s\u00edmbolo. Para alguns, tornou-se a representa\u00e7\u00e3o de uma experi\u00eancia revolucion\u00e1ria de resist\u00eancia ao poder norte-americano. Para outros, converteu-se em exemplo definitivo do fracasso do socialismo. Em ambos os casos, a realidade concreta frequentemente desaparece sob o peso das disputas ideol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O document\u00e1rio procura romper esse mecanismo. Ao apresentar entrevistas, registros locais e aspectos da vida cotidiana da ilha, a obra desloca a discuss\u00e3o do terreno abstrato para o terreno humano. A quest\u00e3o central deixa de ser quem venceu o debate ideol\u00f3gico e passa a ser como vivem as pessoas submetidas a circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas espec\u00edficas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Particularmente relevante \u00e9 a aten\u00e7\u00e3o dedicada aos embargos internacionais e \u00e0s suas consequ\u00eancias. Independentemente das posi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que cada espectador possa adotar, \u00e9 imposs\u00edvel compreender a experi\u00eancia cubana sem considerar o impacto das restri\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas impostas ao pa\u00eds ao longo de d\u00e9cadas. O m\u00e9rito do document\u00e1rio est\u00e1 justamente em inserir esse elemento no debate sem transform\u00e1-lo em explica\u00e7\u00e3o \u00fanica para todos os problemas da ilha. O resultado \u00e9 um retrato mais complexo e, por isso mesmo, mais honesto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 tamb\u00e9m uma dimens\u00e3o \u00e9tica importante nessa abordagem. Ao inv\u00e9s de tratar Cuba como um conceito ou um experimento geopol\u00edtico, o filme devolve protagonismo aos cubanos. Essa escolha parece simples, mas representa uma contribui\u00e7\u00e3o significativa para a qualidade do debate p\u00fablico. Afinal, nenhuma an\u00e1lise s\u00e9ria sobre uma sociedade pode prescindir das vozes daqueles que a habitam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se o document\u00e1rio sobre Cuba convida o espectador a refletir sobre os efeitos hist\u00f3ricos do isolamento econ\u00f4mico, <em>Vai pra Argentina, Carajo!<\/em> desloca a aten\u00e7\u00e3o para uma experi\u00eancia pol\u00edtica contempor\u00e2nea cujos desdobramentos seguem mobilizando intensos debates dentro e fora da Am\u00e9rica Latina: o governo de Javier Milei e sua agenda de reformas econ\u00f4micas radicais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Argentina ocupa uma posi\u00e7\u00e3o singular na hist\u00f3ria da regi\u00e3o. Poucos pa\u00edses experimentaram de forma t\u00e3o intensa ciclos alternados de crescimento, crise, expectativas de recupera\u00e7\u00e3o e sucessivas frustra\u00e7\u00f5es. Nesse contexto, a ascens\u00e3o de Milei ao poder representou a promessa de uma ruptura profunda com modelos anteriores de gest\u00e3o econ\u00f4mica. O document\u00e1rio, entretanto, opta por examinar menos as promessas e mais os efeitos concretos dessa transforma\u00e7\u00e3o na vida cotidiana da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A participa\u00e7\u00e3o de Fabi\u00e1n Restivo na dire\u00e7\u00e3o acrescenta uma dimens\u00e3o particularmente relevante \u00e0 obra. Como jornalista e documentarista argentino, sua presen\u00e7a contribui para uma leitura mais pr\u00f3xima das tens\u00f5es sociais e econ\u00f4micas vividas no pa\u00eds, conferindo densidade local a uma investiga\u00e7\u00e3o que busca compreender os impactos reais das pol\u00edticas implementadas pelo governo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferentemente de an\u00e1lises centradas em indicadores macroecon\u00f4micos ou discursos oficiais, <em>Vai pra Argentina, Carajo!<\/em> volta seu olhar para as ruas, para os trabalhadores, para os aposentados, para os pequenos comerciantes e para aqueles que experimentam diretamente as consequ\u00eancias das mudan\u00e7as em curso. O resultado \u00e9 um retrato frequentemente duro e inquietante da realidade argentina contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"1021\" height=\"632\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/reproducao-icl-noticias.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-84963\" style=\"aspect-ratio:1.6155496655307333;width:558px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/reproducao-icl-noticias.jpeg 1021w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/reproducao-icl-noticias-300x186.jpeg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/reproducao-icl-noticias-768x475.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 1021px) 100vw, 1021px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Reprodu\u00e7\u00e3o ICL Not\u00edcias<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo do document\u00e1rio, a escalada do custo de vida aparece como um dos elementos centrais da narrativa. O aumento dos pre\u00e7os, a corros\u00e3o do poder de compra e a crescente dificuldade de acesso a bens e servi\u00e7os b\u00e1sicos s\u00e3o apresentados n\u00e3o como abstra\u00e7\u00f5es estat\u00edsticas, mas como experi\u00eancias concretas que afetam milh\u00f5es de pessoas. A infla\u00e7\u00e3o deixa de ser apenas um dado econ\u00f4mico e passa a ser percebida como uma for\u00e7a capaz de remodelar rotinas, expectativas e projetos de vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obra dedica especial aten\u00e7\u00e3o aos efeitos sociais decorrentes da pol\u00edtica de austeridade adotada pelo governo. Os severos cortes de gastos p\u00fablicos s\u00e3o analisados a partir de suas repercuss\u00f5es pr\u00e1ticas sobre servi\u00e7os, programas de assist\u00eancia e condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o mais vulner\u00e1vel. Nesse sentido, o document\u00e1rio estabelece uma cr\u00edtica consistente \u00e0 ideia de que ajustes econ\u00f4micos podem ser avaliados exclusivamente por indicadores fiscais, ignorando seus impactos humanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Particularmente marcante \u00e9 a forma como o filme registra o crescimento da popula\u00e7\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de rua e a amplia\u00e7\u00e3o dos sinais vis\u00edveis de precariza\u00e7\u00e3o social. As imagens e depoimentos reunidos ao longo da narrativa funcionam como um contraponto poderoso aos discursos que apresentam as reformas apenas sob a \u00f3tica da efici\u00eancia econ\u00f4mica. O document\u00e1rio sugere que qualquer avalia\u00e7\u00e3o s\u00e9ria de um projeto pol\u00edtico precisa considerar n\u00e3o apenas seus objetivos declarados, mas tamb\u00e9m seus custos sociais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa abordagem confere \u00e0 obra um car\u00e1ter claramente cr\u00edtico em rela\u00e7\u00e3o ao governo Milei. Contudo, sua for\u00e7a n\u00e3o reside na simples den\u00fancia ou na oposi\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. O que torna o document\u00e1rio relevante \u00e9 sua capacidade de conectar decis\u00f5es econ\u00f4micas abstratas \u00e0s experi\u00eancias concretas das pessoas afetadas por elas. Em vez de permanecer restrita ao plano ideol\u00f3gico, a cr\u00edtica ganha subst\u00e2ncia ao ser constru\u00edda por meio de testemunhos, observa\u00e7\u00f5es de campo e evid\u00eancias da vida cotidiana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao fazer esse movimento, <em>Vai pra Argentina, Carajo!<\/em> contribui para uma discuss\u00e3o mais ampla sobre os limites da austeridade, os significados do desenvolvimento econ\u00f4mico e as responsabilidades sociais do Estado. Mais do que um filme sobre a Argentina contempor\u00e2nea, a obra se transforma em uma reflex\u00e3o sobre os custos humanos das escolhas econ\u00f4micas e sobre a necessidade de avaliar projetos pol\u00edticos n\u00e3o apenas por seus resultados financeiros, mas tamb\u00e9m por seus efeitos sobre a dignidade e as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, o document\u00e1rio amplia significativamente o debate p\u00fablico. Sua contribui\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 em oferecer respostas definitivas, mas em recolocar no centro da discuss\u00e3o uma pergunta fundamental que frequentemente desaparece dos diagn\u00f3sticos econ\u00f4micos: para quem, afinal, servem as pol\u00edticas econ\u00f4micas e quais vidas s\u00e3o transformadas por elas?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 <em>Vai pra China, Eduardo!<\/em> enfrenta talvez um dos desafios intelectuais mais ambiciosos da trilogia. Falar sobre a China contempor\u00e2nea significa abordar uma das experi\u00eancias hist\u00f3ricas mais extraordin\u00e1rias dos \u00faltimos s\u00e9culos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em poucas d\u00e9cadas, o pa\u00eds realizou uma transforma\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica de propor\u00e7\u00f5es gigantescas, retirando centenas de milh\u00f5es de pessoas da pobreza e convertendo-se em uma das principais pot\u00eancias tecnol\u00f3gicas do planeta. Ao mesmo tempo, essa ascens\u00e3o levanta quest\u00f5es complexas sobre governan\u00e7a, vigil\u00e2ncia digital, intelig\u00eancia artificial, inova\u00e7\u00e3o e o futuro das rela\u00e7\u00f5es internacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O document\u00e1rio demonstra acerto ao concentrar parte de sua aten\u00e7\u00e3o no desenvolvimento tecnol\u00f3gico chin\u00eas. Em muitos aspectos, compreender a China contempor\u00e2nea significa compreender como tecnologia, planejamento estrat\u00e9gico e investimento em pesquisa passaram a desempenhar papel central na competi\u00e7\u00e3o global.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A coprodu\u00e7\u00e3o com o China Media Group revela-se especialmente significativa nesse contexto. Mais do que uma parceria institucional, ela simboliza uma tentativa concreta de construir pontes de compreens\u00e3o entre universos culturais frequentemente separados por estere\u00f3tipos, desconfian\u00e7as e narrativas simplificadoras. O acesso proporcionado por essa colabora\u00e7\u00e3o fortalece o car\u00e1ter investigativo da obra e amplia sua capacidade de oferecer um retrato mais abrangente da realidade chinesa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A discuss\u00e3o sobre intelig\u00eancia artificial adquire relev\u00e2ncia especial. Trata-se de um dos temas mais importantes do s\u00e9culo XXI, capaz de influenciar mercados de trabalho, sistemas educacionais, estruturas produtivas e at\u00e9 mesmo concep\u00e7\u00f5es de liberdade individual. Ao investigar a maneira como a China se posiciona nesse campo, o filme oferece ao p\u00fablico uma oportunidade de refletir sobre desafios que ultrapassam fronteiras nacionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, ainda, uma contribui\u00e7\u00e3o particularmente importante: o document\u00e1rio ajuda a combater vis\u00f5es caricaturais sobre a sociedade chinesa. Durante muito tempo, boa parte do debate ocidental oscilou entre a admira\u00e7\u00e3o acr\u00edtica e a desconfian\u00e7a absoluta. Nenhuma dessas posturas favorece a compreens\u00e3o. Conhecer uma sociedade exige observar suas contradi\u00e7\u00f5es, suas conquistas e seus dilemas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, a obra amplia horizontes intelectuais e incentiva um olhar mais sofisticado sobre o cen\u00e1rio internacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Considerados em conjunto, os tr\u00eas document\u00e1rios revelam uma caracter\u00edstica rara: a disposi\u00e7\u00e3o para atravessar fronteiras geogr\u00e1ficas e ideol\u00f3gicas sem abandonar o compromisso com a investiga\u00e7\u00e3o. Cuba, Argentina e China s\u00e3o apresentadas n\u00e3o como s\u00edmbolos destinados a confirmar cren\u00e7as pr\u00e9vias, mas como realidades complexas que desafiam interpreta\u00e7\u00f5es simplistas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa escolha possui enorme valor cultural. Em um per\u00edodo hist\u00f3rico marcado pela forma\u00e7\u00e3o de bolhas informacionais, iniciativas que promovem contato direto com diferentes experi\u00eancias nacionais desempenham fun\u00e7\u00e3o quase pedag\u00f3gica. Elas estimulam a curiosidade, ampliam repert\u00f3rios e fortalecem a capacidade cr\u00edtica dos espectadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m merece destaque a arquitetura coletiva do projeto. A ideia original concebida por Eduardo Moreira, sua presen\u00e7a permanente como entrevistador e investigador de campo, a dire\u00e7\u00e3o cuidadosa de Juliana Baroni, a contribui\u00e7\u00e3o de Fabi\u00e1n Restivo no cap\u00edtulo argentino e o trabalho de produ\u00e7\u00e3o do Instituto Conhecimento Liberta demonstram como o document\u00e1rio pode funcionar como uma verdadeira constru\u00e7\u00e3o colaborativa de conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Democracias saud\u00e1veis dependem de cidad\u00e3os capazes de analisar informa\u00e7\u00f5es, confrontar argumentos e compreender contextos. Document\u00e1rios que incentivam esse exerc\u00edcio contribuem para a forma\u00e7\u00e3o de uma esfera p\u00fablica mais qualificada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se trata de concordar integralmente com todas as conclus\u00f5es sugeridas pelas obras. O verdadeiro m\u00e9rito de um document\u00e1rio relevante n\u00e3o est\u00e1 em eliminar o debate, mas em enriquec\u00ea-lo. Sua fun\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 fornecer verdades definitivas, e sim oferecer elementos que permitam interpreta\u00e7\u00f5es mais informadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja justamente essa a principal contribui\u00e7\u00e3o da trilogia. Em vez de refor\u00e7ar certezas confort\u00e1veis, ela convida o espectador a realizar uma viagem intelectual. Cuba, Argentina e China aparecem como espelhos atrav\u00e9s dos quais podemos refletir n\u00e3o apenas sobre esses pa\u00edses, mas tamb\u00e9m sobre nossas pr\u00f3prias concep\u00e7\u00f5es de desenvolvimento, liberdade, justi\u00e7a social, tecnologia e poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num mundo saturado de opini\u00f5es instant\u00e2neas, essa disposi\u00e7\u00e3o para investigar, escutar e compreender constitui um gesto de rara import\u00e2ncia. E \u00e9 exatamente por isso que esses document\u00e1rios merecem aten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o apenas pelo que mostram, mas pelo tipo de olhar que ajudam a construir: um olhar mais atento \u00e0 complexidade humana e menos disposto a aceitar explica\u00e7\u00f5es simplificadoras para os grandes desafios do nosso tempo. Ao reunir investiga\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, experi\u00eancia de campo, coopera\u00e7\u00e3o internacional e reflex\u00e3o cr\u00edtica, a trilogia produzida pelo ICL consolida-se como uma das iniciativas documentais mais relevantes do per\u00edodo recente, contribuindo de maneira efetiva para ampliar o horizonte das discuss\u00f5es p\u00fablicas sobre pol\u00edtica, economia, sociedade e desenvolvimento no s\u00e9culo XXI.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Vivemos uma \u00e9poca paradoxal. 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