{"id":84989,"date":"2026-06-26T12:59:27","date_gmt":"2026-06-26T15:59:27","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=84989"},"modified":"2026-06-26T12:59:29","modified_gmt":"2026-06-26T15:59:29","slug":"quando-a-terra-treme-e-a-humanidade-falha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/quando-a-terra-treme-e-a-humanidade-falha\/","title":{"rendered":"Quando a Terra treme e a humanidade falha"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Alguns acontecimentos desafiam qualquer tentativa de explica\u00e7\u00e3o. O instante em que a terra rompe o pacto de sil\u00eancio que mant\u00e9m com a humanidade talvez seja um deles. Um terremoto n\u00e3o pede licen\u00e7a, n\u00e3o escolhe o momento oportuno nem distingue fronteiras, ideologias, cren\u00e7as ou classes sociais. Apenas acontece. E quando acontece, recorda-nos uma verdade que insistimos em esquecer: por mais grandiosa que seja a obra constru\u00edda pelas m\u00e3os humanas, continuamos habitando um planeta dotado de for\u00e7as pr\u00f3prias diante das quais nossa tecnologia, nosso poder econ\u00f4mico e nossas pretens\u00f5es de controle ainda revelam seus limites.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi exatamente essa lembran\u00e7a que voltou a ecoar diante do terremoto que atingiu a Venezuela. Em poucos segundos, fam\u00edlias inteiras viram desaparecer a seguran\u00e7a do cotidiano. Casas deixaram de ser abrigo. Ruas transformaram-se em corredores de incerteza. O medo invadiu uma rotina que para muitos j\u00e1 era de dificuldades e milh\u00f5es de pessoas passaram a viver a angustiante expectativa de reencontrar parentes, contabilizar perdas e reconstruir aquilo que parecia s\u00f3lido at\u00e9 o instante anterior.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"768\" height=\"442\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-84990\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/image-2.png 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/06\/image-2-300x173.png 300w\" sizes=\"(max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Terremoto na Venezuela foi em 24\/6\/26 | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o Reuters\/Ag\u00eancia Brasil<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante da dimens\u00e3o de trag\u00e9dias naturais, os n\u00fameros impressionam e as imagens chocam. Mas nenhuma estat\u00edstica consegue traduzir a dor silenciosa de quem perde um filho, uma m\u00e3e, um companheiro ou simplesmente o lugar que chamava de lar. A verdadeira extens\u00e3o de um desastre nunca cabe nos boletins oficiais. Ela permanece inscrita na mem\u00f3ria daqueles que sobreviveram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo da hist\u00f3ria, aprendemos a conviver com fen\u00f4menos que escapam completamente \u00e0 nossa vontade. Terremotos, erup\u00e7\u00f5es vulc\u00e2nicas, furac\u00f5es, secas prolongadas, enchentes e tsunamis fazem parte da din\u00e2mica de um planeta em permanente transforma\u00e7\u00e3o. S\u00e3o express\u00f5es da pr\u00f3pria vida geol\u00f3gica da Terra, cuja exist\u00eancia antecede em bilh\u00f5es de anos a presen\u00e7a humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa constata\u00e7\u00e3o deveria produzir humildade. Entretanto, produzimos, muitas vezes, exatamente o contr\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se existem trag\u00e9dias inevit\u00e1veis, h\u00e1 tamb\u00e9m aquelas que s\u00e3o cuidadosamente arquitetadas pelo pr\u00f3prio homem. Enquanto a natureza, ocasionalmente, rompe seu equil\u00edbrio e imp\u00f5e sofrimento, o ser humano parece empenhado em fabricar desastres cotidianos que poderiam simplesmente n\u00e3o existir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja essa a contradi\u00e7\u00e3o mais dolorosa do nosso tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como se n\u00e3o bastassem os desafios impostos pelas for\u00e7as naturais, insistimos em ampliar o sofrimento coletivo por decis\u00e3o pr\u00f3pria. Enquanto equipes de resgate procuram sobreviventes entre os escombros deixados por terremotos, outras pessoas, em diferentes regi\u00f5es do planeta, precisam fugir n\u00e3o dos movimentos da crosta terrestre, mas das ofensivas conduzidas por tanques, m\u00edsseis e avi\u00f5es de guerra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A guerra entre R\u00fassia e Ucr\u00e2nia j\u00e1 produziu uma sucess\u00e3o de cidades destru\u00eddas, fam\u00edlias fragmentadas e gera\u00e7\u00f5es marcadas pelo trauma. No Oriente M\u00e9dio, sucessivos ciclos de viol\u00eancia continuam transformando crian\u00e7as em refugiadas antes mesmo que tenham conhecido plenamente a inf\u00e2ncia. Em ambos os casos, n\u00e3o foi a natureza que decidiu espalhar destrui\u00e7\u00e3o. Foram escolhas humanas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa diferen\u00e7a \u00e9 moralmente decisiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante de um terremoto, resta-nos socorrer, reconstruir e confortar. Diante de uma guerra, antes de reconstruir, \u00e9 preciso perguntar por que aceitamos que ela exista. Afinal, terremotos pertencem \u00e0 geologia. Guerras pertencem \u00e0 pol\u00edtica, ao poder, ao fanatismo, aos interesses econ\u00f4micos e \u00e0 incapacidade de reconhecermos no outro algu\u00e9m igualmente digno de viver em paz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vivemos uma \u00e9poca curiosa. Nunca produzimos tanto conhecimento cient\u00edfico. Nunca dominamos tecnologias t\u00e3o sofisticadas. Somos capazes de enviar sondas a milh\u00f5es de quil\u00f4metros da Terra, desenvolver intelig\u00eancia artificial, decifrar parte do c\u00f3digo gen\u00e9tico da vida e estabelecer comunica\u00e7\u00e3o instant\u00e2nea entre continentes. Apesar disso, permanecemos incapazes de resolver aquilo que talvez seja o problema mais elementar da civiliza\u00e7\u00e3o: aprender a conviver sem transformar diferen\u00e7as em motivo para destrui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m enfrentamos outra trag\u00e9dia silenciosa, concebida lentamente ao longo de d\u00e9cadas. A degrada\u00e7\u00e3o ambiental deliberadamente provocada altera ecossistemas, intensifica eventos clim\u00e1ticos extremos, compromete a disponibilidade de \u00e1gua, acelera a perda da biodiversidade e amplia a vulnerabilidade de popula\u00e7\u00f5es inteiras. Embora um terremoto n\u00e3o seja consequ\u00eancia das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, ele se soma a um cen\u00e1rio global em que desastres naturais encontram sociedades frequentemente fragilizadas por escolhas econ\u00f4micas e pol\u00edticas equivocadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 a Terra que se tornou mais cruel. Em muitos aspectos, somos n\u00f3s que a tornamos mais dif\u00edcil de habitar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez por isso cada trag\u00e9dia devesse produzir mais do que como\u00e7\u00e3o passageira. Deveria produzir consci\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sofrimento dos venezuelanos n\u00e3o pertence apenas \u00e0 Venezuela. Assim como a dor dos ucranianos n\u00e3o pertence exclusivamente \u00e0 Ucr\u00e2nia, e o drama vivido por milhares de fam\u00edlias no Oriente M\u00e9dio n\u00e3o diz respeito apenas \u00e0quela regi\u00e3o. Num mundo profundamente interligado, toda dor humana ultrapassa fronteiras. Cada desastre revela nossa vulnerabilidade compartilhada. Cada v\u00edtima nos recorda que a nacionalidade \u00e9 um acidente geogr\u00e1fico; a condi\u00e7\u00e3o humana, por\u00e9m, \u00e9 universal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 momentos em que a solidariedade deixa de ser virtude para tornar-se necessidade civilizat\u00f3ria. N\u00e3o se trata apenas de enviar ajuda humanit\u00e1ria, alimentos ou recursos materiais \u2014 embora tudo isso seja indispens\u00e1vel. Trata-se de preservar a capacidade de sentir a dor alheia como algo que tamb\u00e9m nos diz respeito. Uma sociedade come\u00e7a a fracassar quando se acostuma ao sofrimento dos outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez nunca consigamos impedir que a terra volte a tremer. Certamente continuaremos convivendo com fen\u00f4menos naturais que escapam ao nosso controle. Mas h\u00e1 uma escolha que permanece inteiramente sob nossa responsabilidade: decidir se continuaremos produzindo guerras, alimentando discursos de \u00f3dio, devastando o meio ambiente e multiplicando sofrimentos evit\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A natureza j\u00e1 imp\u00f5e desafios suficientes. N\u00e3o dever\u00edamos competir com ela na produ\u00e7\u00e3o de trag\u00e9dias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que o terremoto na Venezuela n\u00e3o seja lembrado apenas como mais um epis\u00f3dio registrado nas p\u00e1ginas do notici\u00e1rio internacional. Que ele permane\u00e7a como um convite \u00e0 compaix\u00e3o e, sobretudo, como um lembrete de que, diante da imensid\u00e3o das for\u00e7as da natureza, todos pertencemos \u00e0 mesma condi\u00e7\u00e3o humana. Se somos incapazes de impedir que a Terra se mova sob nossos p\u00e9s, ainda podemos escolher caminhar juntos sobre ela com mais solidariedade, mais responsabilidade e muito mais paz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Alguns acontecimentos desafiam qualquer tentativa de explica\u00e7\u00e3o. O instante em que a terra rompe o pacto de sil\u00eancio que mant\u00e9m com a humanidade talvez seja um deles. Um terremoto n\u00e3o pede licen\u00e7a, n\u00e3o escolhe o momento oportuno nem distingue fronteiras, ideologias, cren\u00e7as ou classes sociais. Apenas acontece. 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