{"id":85013,"date":"2026-07-03T13:00:43","date_gmt":"2026-07-03T16:00:43","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85013"},"modified":"2026-07-03T13:08:24","modified_gmt":"2026-07-03T16:08:24","slug":"10-anos-sem-abbas-kiarostami-o-legado-do-mestre-iraniano","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/10-anos-sem-abbas-kiarostami-o-legado-do-mestre-iraniano\/","title":{"rendered":"10 anos sem Abbas Kiarostami: o legado do mestre iraniano"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"661\" height=\"491\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/07\/abbas-kiarostami-foto-de-hamed-malekpour-para-a-agencia-de-noticias-tasnim.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85014\" style=\"width:588px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/07\/abbas-kiarostami-foto-de-hamed-malekpour-para-a-agencia-de-noticias-tasnim.jpg 661w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/07\/abbas-kiarostami-foto-de-hamed-malekpour-para-a-agencia-de-noticias-tasnim-300x223.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 661px) 100vw, 661px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Abbas Kiarostami | Foto de Hamed Malekpour para a Ag\u00eancia de Not\u00edcias Tasnim <\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma dura\u00e7\u00e3o \u2014 nem sempre exata, mas frequentemente pr\u00f3xima \u2014 em que a mem\u00f3ria transita do luto agudo para a sedimenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. Dez anos \u00e9 esse tempo em que a aus\u00eancia de um artista deixa de ser uma ferida aberta para se tornar uma lacuna estrutural na forma como compreendemos o mundo. Em 4 de julho de 2016, quando Abbas Kiarostami partiu em Paris, o cinema perdeu n\u00e3o apenas um de seus maiores diretores, mas o seu mais gentil fil\u00f3sofo da imagem. O mundo que ele deixou para tr\u00e1s, em 2016, ainda tateava as incertezas de uma era de p\u00f3s-verdade e fragmenta\u00e7\u00e3o digital, mas o mundo de 2026, onde nos encontramos agora, parece ter mergulhado definitivamente em uma satura\u00e7\u00e3o visual que torna o seu cinema mais do que um legado: torna-o um ant\u00eddoto. O sil\u00eancio que Kiarostami deixou n\u00e3o foi um v\u00e1cuo de produ\u00e7\u00e3o \u2014 sua influ\u00eancia ecoa em cada cineasta que ousa demorar o olhar \u2014, mas a aus\u00eancia de uma perspectiva: aquela capacidade quase m\u00edstica de encontrar o universal no particular, o eterno no ef\u00eamero e a verdade na mais descarada das encena\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A filosofia do olhar: O autom\u00f3vel como confession\u00e1rio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Kiarostami, a c\u00e2mera nunca foi um instrumento de captura passiva, mas uma ferramenta de interroga\u00e7\u00e3o constante que desafiava o espectador a completar a obra com sua pr\u00f3pria subjetividade. Talvez em nenhum outro lugar essa filosofia tenha sido t\u00e3o pungente quanto no interior dos autom\u00f3veis que serviram de cen\u00e1rio para obras-primas como <em>Gosto de Cereja<\/em> (1997) e <em>Dez<\/em> (2002). O carro, sob sua dire\u00e7\u00e3o, transmutou-se: de meio de transporte em est\u00fadio m\u00f3vel, de est\u00fadio m\u00f3vel em confession\u00e1rio laico. A intimidade era forjada pela proximidade f\u00edsica e pela paisagem que passava \u2014 imut\u00e1vel, indiferente \u2014 do lado de fora da janela. Ao confinar seus personagens a esse espa\u00e7o restrito, Kiarostami eliminava as distra\u00e7\u00f5es do mundo para focar na ess\u00eancia do di\u00e1logo e na microexpress\u00e3o da alma humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Gosto de Cereja<\/em>, a busca de um homem por algu\u00e9m que o enterre ap\u00f3s o suic\u00eddio n\u00e3o \u00e9 um exerc\u00edcio de niilismo, mas uma celebra\u00e7\u00e3o da vida mediada pelo olhar do outro, revelando que a reden\u00e7\u00e3o habita o sabor de uma fruta, o p\u00f4r do sol atrav\u00e9s de um para-brisa empoeirado. Nesse filme, a morte n\u00e3o \u00e9 o tema; \u00e9 apenas o pretexto para uma conversa sobre a raz\u00e3o de viver. Cada encontro dentro do carro \u00e9 uma pequena epifania, um instante em que a vida se justifica por sua pr\u00f3pria persist\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A fronteira borrada: A verdade da mentira<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A genialidade de Kiarostami residia na sua recusa em aceitar a dicotomia entre document\u00e1rio e fic\u00e7\u00e3o, uma fronteira que ele n\u00e3o apenas cruzou, mas que dissolveu com a precis\u00e3o de um alquimista. Em <em>Close-Up<\/em> (1990), ao reconstruir o caso real de um homem que se passou pelo cineasta Mohsen Makhmalbaf, ele criou uma obra que questiona a pr\u00f3pria natureza da identidade e do desejo de ser reconhecido. Da mesma forma, a chamada Trilogia de Koker \u2014 composta por <em>Onde Fica a Casa do Meu Amigo?<\/em> (1987), <em>E a Vida Continua<\/em> (1992) e <em>Atrav\u00e9s das Oliveiras<\/em> (1994) \u2014 representa um dos exerc\u00edcios metalingu\u00edsticos mais sofisticados da hist\u00f3ria da arte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao retornar ao local de um terremoto devastador para procurar os atores de seu filme anterior, Kiarostami transformou o &#8220;fazer cinema&#8221; no tema central da narrativa, revelando que a arte n\u00e3o \u00e9 um espelho da realidade, mas uma constru\u00e7\u00e3o que, paradoxalmente, \u00e9 a \u00fanica forma de alcan\u00e7armos uma verdade emocional profunda. Ele nos ensinou que a encena\u00e7\u00e3o \u00e9, frequentemente, o caminho mais direto para a honestidade \u2014 uma li\u00e7\u00e3o que desmente s\u00e9culos de desconfian\u00e7a entre arte e verdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O legado digital e a imagem fixa<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos seus \u00faltimos anos, Kiarostami abra\u00e7ou a tecnologia digital n\u00e3o como uma facilidade t\u00e9cnica, mas como uma nova fronteira para a experimenta\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Sua transi\u00e7\u00e3o para a fotografia e para obras experimentais culminou em <em>24 Frames<\/em> (2017), seu testamento visual p\u00f3stumo, onde ele deu vida a imagens est\u00e1ticas, fossem elas fotografias autorais ou pinturas cl\u00e1ssicas. Nesse projeto, cada quadro \u00e9 uma medita\u00e7\u00e3o sobre o tempo e o movimento, um convite para que o espectador recupere a capacidade de observar o detalhe m\u00ednimo: o balan\u00e7o de uma folha, o voo de um p\u00e1ssaro ou a queda da neve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa fase final de sua carreira revelou um artista que, embora mestre do di\u00e1logo, estava cada vez mais interessado no que as imagens dizem quando as palavras calam. O digital, para ele, era uma forma de libertar o cinema das amarras industriais e devolv\u00ea-lo \u00e0 sua ess\u00eancia de observa\u00e7\u00e3o pura, quase pict\u00f3rica, onde a tecnologia servia apenas para ampliar a sensibilidade humana. Em <em>24 Frames<\/em>, o tempo n\u00e3o passa \u2014 ele respira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Kiarostami em 2026: A fragilidade da mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chegamos a julho de 2026 e a relev\u00e2ncia de Abbas Kiarostami \u00e9 celebrada por cineastas e estudiosos em todo o mundo, um reconhecimento que demonstra como sua est\u00e9tica continua a fecundar a imagina\u00e7\u00e3o de jovens realizadores de todas as nacionalidades. No entanto, essa celebra\u00e7\u00e3o convive com a melancolia da perda material. A deteriora\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os que abrigaram sua obra \u2014 como sua antiga resid\u00eancia em Teer\u00e3 \u2014 serve como met\u00e1fora dolorosa para a fragilidade do legado f\u00edsico diante do tempo e da neglig\u00eancia pol\u00edtica. A deteriora\u00e7\u00e3o de sua casa nos lembra que, embora as ideias sejam perenes, os espa\u00e7os que as abrigaram s\u00e3o vulner\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Preservar Kiarostami em 2026 exige mais do que revisitar seus filmes: exige uma resist\u00eancia ativa contra o esquecimento e contra a simplifica\u00e7\u00e3o de sua obra, que muitas vezes \u00e9 reduzida a um exotismo geogr\u00e1fico, ignorando sua universalidade radical e seu compromisso inabal\u00e1vel com a dignidade do indiv\u00edduo. Sua import\u00e2ncia n\u00e3o reside em ser um &#8220;cineasta iraniano&#8221;, mas em ser um cineasta que, atrav\u00e9s da experi\u00eancia iraniana, tocou o cora\u00e7\u00e3o universal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A necessidade do olhar humano<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao completarmos uma d\u00e9cada sem a sua presen\u00e7a f\u00edsica, percebemos que o cinema de Abbas Kiarostami \u00e9 mais necess\u00e1rio hoje do que em qualquer outro momento da hist\u00f3ria. Em uma era dominada por algoritmos que antecipam nossos desejos e por uma est\u00e9tica de choque que anestesia a sensibilidade, a simplicidade de Kiarostami surge como um ato de rebeldia. Seus filmes n\u00e3o nos d\u00e3o respostas prontas; eles nos devolvem as perguntas fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele nos ensinou a olhar para a estrada, para a \u00e1rvore na colina e para o rosto do estranho com uma curiosidade desarmada e um respeito profundo. A complexidade da alma humana, para ele, n\u00e3o estava nos grandes dramas \u00e9picos, mas nos pequenos gestos de persist\u00eancia e na beleza resiliente da vida que insiste em continuar, mesmo ap\u00f3s os terremotos e as perdas. Dez anos depois, sua obra permanece como lembrete: o cinema n\u00e3o existe para explicar o mundo, apenas para nos deixar a s\u00f3s com o mist\u00e9rio das coisas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt H\u00e1 uma dura\u00e7\u00e3o \u2014 nem sempre exata, mas frequentemente pr\u00f3xima \u2014 em que a mem\u00f3ria transita do luto agudo para a sedimenta\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica. 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