{"id":85091,"date":"2026-08-17T14:47:44","date_gmt":"2026-08-17T17:47:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85091"},"modified":"2026-08-17T14:47:46","modified_gmt":"2026-08-17T17:47:46","slug":"lancamento-em-porto-alegre-jogo-e-teoria-do-duende-de-garcia-lorca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/lancamento-em-porto-alegre-jogo-e-teoria-do-duende-de-garcia-lorca\/","title":{"rendered":"Lan\u00e7amento em Porto Alegre: Jogo e teoria do duende, de Garc\u00eda Lorca"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Federico Garc\u00eda Lorca n\u00e3o escreveu <em>Jogo e teoria do duende<\/em> para ser lido com dist\u00e2ncia, como quem consulta uma teoria j\u00e1 acabada. A confer\u00eancia exige do leitor uma aten\u00e7\u00e3o inquieta, porque suas ideias avan\u00e7am entre a experi\u00eancia art\u00edstica, a mem\u00f3ria cultural e uma esp\u00e9cie de pressentimento diante da morte. Desde as primeiras p\u00e1ginas, percebe-se que o duende n\u00e3o ser\u00e1 apresentado como um conceito est\u00e1vel, pronto para ser explicado, mas como uma for\u00e7a que se manifesta na pr\u00f3pria linguagem e modifica o modo como olhamos para a arte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A edi\u00e7\u00e3o brasileira preparada por Benhur Bortolotto compreende essa natureza movedi\u00e7a e n\u00e3o tenta domesticar Lorca por meio de uma falsa transpar\u00eancia. Ao contr\u00e1rio, o volume se constr\u00f3i como uma interlocu\u00e7\u00e3o cuidadosa entre o texto, sua hist\u00f3ria material, a tradu\u00e7\u00e3o, as anota\u00e7\u00f5es e o posf\u00e1cio. Cada uma dessas camadas preserva sua autonomia, mas todas se iluminam reciprocamente. O resultado \u00e9 um livro que n\u00e3o apenas restitui ao leitor brasileiro uma das mais c\u00e9lebres formula\u00e7\u00f5es de Lorca sobre a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica, como tamb\u00e9m oferece os instrumentos necess\u00e1rios para perceber a complexidade hist\u00f3rica, cultural e liter\u00e1ria que sustenta a confer\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"937\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/capa-jogo-e-teoria-do-duende-1024x937.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85092\" style=\"aspect-ratio:1.0928744321761332;width:499px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/capa-jogo-e-teoria-do-duende-1024x937.jpeg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/capa-jogo-e-teoria-do-duende-300x275.jpeg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/capa-jogo-e-teoria-do-duende-768x703.jpeg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/capa-jogo-e-teoria-do-duende-1536x1405.jpeg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/capa-jogo-e-teoria-do-duende.jpeg 1600w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A for\u00e7a de Lorca nasce, em primeiro lugar, de sua capacidade de distinguir o duende de duas figuras tradicionais da inspira\u00e7\u00e3o, a musa e o anjo. A musa fornece intelig\u00eancia, m\u00e9todo, disciplina; o anjo concede gra\u00e7a, luminosidade, impulso exterior. O duende, contudo, n\u00e3o chega como d\u00e1diva. Ele irrompe desde baixo, vindo das regi\u00f5es profundas da experi\u00eancia, daquilo que n\u00e3o se oferece voluntariamente \u00e0 consci\u00eancia. N\u00e3o \u00e9 uma presen\u00e7a confort\u00e1vel. \u00c9 uma luta. N\u00e3o se encontra na superf\u00edcie da voz, mas no sangue, na carne, na exposi\u00e7\u00e3o do artista diante da possibilidade do fracasso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa diferen\u00e7a transforma a confer\u00eancia em algo muito mais radical do que uma reflex\u00e3o sobre a arte espanhola. Lorca n\u00e3o pretende catalogar caracter\u00edsticas nacionais nem estabelecer uma metaf\u00edsica folcl\u00f3rica da Andaluzia. O que lhe interessa \u00e9 uma zona de intensidade em que a cria\u00e7\u00e3o se torna insepar\u00e1vel da morte, do risco e da imperfei\u00e7\u00e3o. O duende n\u00e3o \u00e9 o belo em sua forma pacificada, nem o sublime em sua ascens\u00e3o abstrata. Ele nasce quando a forma se v\u00ea atravessada por uma resist\u00eancia que n\u00e3o consegue eliminar. Por isso, seu dom\u00ednio \u00e9 o do canto, da dan\u00e7a, da tauromaquia, da pintura e da poesia, artes nas quais o corpo permanece vis\u00edvel, ainda que transfigurado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Elaborada e apresentada no in\u00edcio da d\u00e9cada de 1930, a confer\u00eancia possui a energia de uma fala dirigida a ouvintes concretos. Lorca n\u00e3o escreve como quem organiza um sistema filos\u00f3fico, mas como quem convoca a aten\u00e7\u00e3o de uma sala para um fen\u00f4meno que s\u00f3 pode ser compreendido quando se aproxima da experi\u00eancia. A teoria surge em movimento, entre exemplos, imagens e hist\u00f3rias. O pensamento n\u00e3o se separa da voz que o pronuncia, e o conceito se torna insepar\u00e1vel do modo como \u00e9 enunciado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lorca escreve como quem conhece o poder da imagem e desconfia da pobreza da explica\u00e7\u00e3o. Sua confer\u00eancia n\u00e3o deseja resolver o duende, mas circund\u00e1-lo por exemplos, hist\u00f3rias e apari\u00e7\u00f5es. Pastora Pav\u00f3n, a Ni\u00f1a de los Peines, ocupa nesse universo uma posi\u00e7\u00e3o decisiva. O epis\u00f3dio da cantora que, numa taberna de C\u00e1diz, alcan\u00e7a uma intensidade inesperada ao cantar mostra que o duende n\u00e3o corresponde ao virtuosismo t\u00e9cnico. A t\u00e9cnica pode preparar a apari\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a garante. O canto s\u00f3 se torna verdadeiramente perigoso quando a artista j\u00e1 n\u00e3o parece controlar inteiramente a pr\u00f3pria voz, quando a voz se converte em lugar de passagem de uma experi\u00eancia mais funda e mais antiga do que o indiv\u00edduo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 tamb\u00e9m nesse ponto que a tradu\u00e7\u00e3o de Benhur Bortolotto enfrenta uma das dificuldades essenciais do volume. Traduzir Lorca n\u00e3o significa apenas transportar palavras espanholas para o portugu\u00eas. Significa reconstruir uma temperatura, uma cad\u00eancia, um sistema de imagens e uma tens\u00e3o entre clareza e indetermina\u00e7\u00e3o. Lorca \u00e9 um escritor que pensa por met\u00e1foras sem abandonar a precis\u00e3o dos sentidos. Sua prosa pode soar oracular, mas n\u00e3o \u00e9 vaga. Ela avan\u00e7a por contrastes, analogias, exemplos art\u00edsticos e formula\u00e7\u00f5es que parecem simples at\u00e9 o momento em que come\u00e7am a repercutir na consci\u00eancia do leitor.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tradu\u00e7\u00e3o se mostra especialmente feliz ao conservar a oralidade solene da confer\u00eancia. H\u00e1 no texto um interlocutor impl\u00edcito, um p\u00fablico diante do qual o pensamento se encena sem perder sua gravidade. A frase de Lorca precisa soar dita, n\u00e3o apenas impressa. Ela traz a vibra\u00e7\u00e3o de uma voz que se dirige a ouvintes reais e que, ao mesmo tempo, os arrasta para uma esfera em que a literatura, a m\u00fasica e a morte passam a obedecer a uma mesma l\u00f3gica subterr\u00e2nea. Bortolotto preserva essa natureza performativa, permitindo que a linguagem mantenha sua musculatura oral e sua densidade po\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A edi\u00e7\u00e3o de uma confer\u00eancia como essa envolve, por\u00e9m, problemas que ultrapassam a tradu\u00e7\u00e3o. A se\u00e7\u00e3o dedicada \u00e0 hist\u00f3ria do texto esclarece a exist\u00eancia de diferentes vers\u00f5es da obra. Entre elas, encontra-se o manuscrito iniciado durante a viagem no <em>Conte Grande<\/em>, em 1933, e a c\u00f3pia datilografada preparada em Buenos Aires por sua secret\u00e1ria, posteriormente corrigida \u00e0 m\u00e3o pelo poeta. A escolha da vers\u00e3o de base, bem como o registro das modifica\u00e7\u00f5es e da trajet\u00f3ria editorial do texto, demonstra que esta publica\u00e7\u00e3o n\u00e3o trata a obra como uma pe\u00e7a isolada, retirada de seu percurso hist\u00f3rico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O leitor acompanha, ainda que de modo conciso, a passagem do manuscrito \u00e0s edi\u00e7\u00f5es posteriores e compreende que toda leitura de Lorca est\u00e1 ligada a decis\u00f5es editoriais concretas. Essa aten\u00e7\u00e3o \u00e0 materialidade do texto \u00e9 fundamental. Ela impede que a confer\u00eancia seja recebida como uma emana\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de genialidade, como se a voz do poeta tivesse chegado ao papel sem media\u00e7\u00e3o, hesita\u00e7\u00e3o ou trabalho. Antes de alcan\u00e7ar o leitor brasileiro, o texto atravessou manuscritos, c\u00f3pias, corre\u00e7\u00f5es, edi\u00e7\u00f5es e escolhas interpretativas. A edi\u00e7\u00e3o nos lembra que at\u00e9 a voz mais inspirada possui um corpo documental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 grande m\u00e9rito tamb\u00e9m no modo como as anota\u00e7\u00f5es distinguem o erro factual da inven\u00e7\u00e3o po\u00e9tica. Lorca, em sua liberdade associativa, incorpora \u00e0 confer\u00eancia algumas imprecis\u00f5es hist\u00f3ricas e deslocamentos de refer\u00eancias, que as notas de Bortolotto registram e contextualizam. Esses desvios n\u00e3o comprometem necessariamente o texto. Ao contr\u00e1rio, ajudam a compreender a tens\u00e3o entre informa\u00e7\u00e3o documental e elabora\u00e7\u00e3o po\u00e9tica presente em seu discurso. Uma edi\u00e7\u00e3o menos cuidadosa poderia corrigir essas passagens silenciosamente, como se o dever do editor fosse proteger o autor de suas pr\u00f3prias imprecis\u00f5es. Bortolotto procede de maneira mais inteligente: registra as diverg\u00eancias e permite que o leitor avalie sua fun\u00e7\u00e3o no conjunto da obra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As notas identificam nomes, obras e acontecimentos relacionados \u00e0 pintura, \u00e0 literatura, \u00e0 m\u00fasica, \u00e0 religi\u00e3o e \u00e0 tauromaquia. Goya, Zurbar\u00e1n, El Greco, Quevedo, Cervantes, S\u00e3o Jo\u00e3o da Cruz, Santa Teresa e os toureiros convocados por Lorca n\u00e3o aparecem como refer\u00eancias ornamentais. Eles constituem a constela\u00e7\u00e3o por meio da qual o poeta formula uma vis\u00e3o da cultura espanhola fundada na conviv\u00eancia entre beleza e viol\u00eancia, disciplina e desmesura, f\u00e9 e abismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A import\u00e2ncia desse aparato est\u00e1 em n\u00e3o transformar a leitura numa simples consulta enciclop\u00e9dica. As notas n\u00e3o servem apenas para informar quem foi determinada personagem ou qual epis\u00f3dio hist\u00f3rico est\u00e1 sendo mencionado. Elas exp\u00f5em a espessura cultural de uma confer\u00eancia que, \u00e0 primeira vista, poderia parecer conduzida apenas pela inspira\u00e7\u00e3o. O leitor percebe que a flu\u00eancia de Lorca depende de uma rede vasta de refer\u00eancias e de uma mem\u00f3ria cultural capaz de reunir artistas muito diferentes num mesmo campo de for\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, as anota\u00e7\u00f5es n\u00e3o interrompem essa constela\u00e7\u00e3o; tornam vis\u00edveis seus pontos de liga\u00e7\u00e3o. O leitor descobre que o duende lorquiano se constr\u00f3i em di\u00e1logo com tradi\u00e7\u00f5es populares e eruditas, com a religiosidade, a m\u00fasica, o teatro, a pintura e os rituais da morte. A edi\u00e7\u00e3o permite compreender que aquilo que em Lorca parece improviso \u00e9, muitas vezes, o resultado de uma imagina\u00e7\u00e3o profundamente formada por sua cultura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O duende n\u00e3o cabe, portanto, numa leitura meramente documental. A confer\u00eancia cont\u00e9m informa\u00e7\u00f5es sobre artistas, escritores, religiosos, toureiros e epis\u00f3dios hist\u00f3ricos, mas n\u00e3o pretende funcionar como tratado de erudi\u00e7\u00e3o factual. Sua verdade \u00e9 de outra ordem. Lorca comp\u00f5e uma Espanha imaginada, vivida e reinventada, uma Espanha em que a arte se aproxima da morte n\u00e3o por morbidez, mas porque ambas partilham a consci\u00eancia do limite. O duende aparece quando a obra deixa de fingir que o limite n\u00e3o existe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O posf\u00e1cio de Benhur Bortolotto, intitulado <em>Solu\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas para uma compreens\u00e3o m\u00ednima da Espanha<\/em>, assume a tarefa de prolongar essa tens\u00e3o sem pretender encerr\u00e1-la. O t\u00edtulo j\u00e1 anuncia uma intelig\u00eancia cr\u00edtica admiravelmente prudente. A Espanha de Lorca n\u00e3o \u00e9 apresentada como realidade inteiramente decifr\u00e1vel, mas como experi\u00eancia que exige solu\u00e7\u00f5es po\u00e9ticas para ser minimamente compreendida. A palavra \u201cm\u00ednima\u201d \u00e9 decisiva: ela n\u00e3o diminui a ambi\u00e7\u00e3o do estudo, antes reconhece que certas culturas s\u00f3 podem ser abordadas por meio de aproxima\u00e7\u00f5es sucessivas, imagens, conflitos e zonas de sil\u00eancio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Organizado em movimentos como \u201cEntre a natureza e o efeito\u201d, \u201cEntre o preciso e o incerto\u201d, \u201cEntre o vivido e o criado\u201d e \u201cEntre a imagem e o ju\u00edzo\u201d, o posf\u00e1cio acompanha as oscila\u00e7\u00f5es internas da confer\u00eancia. Bortolotto n\u00e3o reduz Lorca a uma tese pronta, nem substitui a poesia por uma par\u00e1frase acad\u00eamica. Seu trabalho cr\u00edtico consiste em mostrar como o texto pensa, inclusive quando pensa contra os modelos tradicionais do pensamento. A confer\u00eancia n\u00e3o oferece uma teoria fechada do duende porque o duende \u00e9 justamente aquilo que resiste \u00e0 clausura conceitual. O posf\u00e1cio respeita essa resist\u00eancia e, ao mesmo tempo, oferece ao leitor um vocabul\u00e1rio para percorr\u00ea-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que se sobressai nesse estudo \u00e9 a aten\u00e7\u00e3o \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre experi\u00eancia e elabora\u00e7\u00e3o. Lorca fala de uma cultura que conhece a morte, mas n\u00e3o se limita a descrever costumes ou cren\u00e7as. Ele converte o vivido em forma, o acontecimento em imagem, a mem\u00f3ria coletiva em constru\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria. Bortolotto mostra que esse processo n\u00e3o \u00e9 ing\u00eanuo. H\u00e1 uma fabrica\u00e7\u00e3o po\u00e9tica da Espanha, e reconhecer essa fabrica\u00e7\u00e3o n\u00e3o a torna menos verdadeira. Pelo contr\u00e1rio, permite compreender que toda identidade cultural \u00e9 atravessada por escolhas de linguagem, omiss\u00f5es, idealiza\u00e7\u00f5es e conflitos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa leitura impede que o livro seja capturado por uma interpreta\u00e7\u00e3o pitoresca. O duende n\u00e3o \u00e9 um sin\u00f4nimo ex\u00f3tico de \u201calma espanhola\u201d, tampouco uma ess\u00eancia folcl\u00f3rica reservada ao flamenco ou \u00e0 tauromaquia. Ele \u00e9 uma categoria est\u00e9tica e existencial que Lorca encontra na Espanha, mas que ultrapassa as fronteiras espanholas. Seu alcance est\u00e1 na maneira como nomeia a energia da arte quando ela se aproxima do irrepar\u00e1vel, quando j\u00e1 n\u00e3o pode ser avaliada apenas por sua corre\u00e7\u00e3o, sua beleza ou sua intelig\u00eancia. H\u00e1 obras tecnicamente perfeitas que permanecem inertes, assim como h\u00e1 cria\u00e7\u00f5es imperfeitas que, por carregarem uma necessidade \u00edntima, continuam a agir depois de terminadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O posf\u00e1cio \u00e9 decisivo porque mant\u00e9m o equil\u00edbrio entre a admira\u00e7\u00e3o e a an\u00e1lise. N\u00e3o se trata de explicar Lorca at\u00e9 neutraliz\u00e1-lo, nem de proteg\u00ea-lo sob o manto de uma genialidade intoc\u00e1vel. Bortolotto l\u00ea o poeta com respeito, mas tamb\u00e9m com precis\u00e3o. Mostra as ambiguidades, as estrat\u00e9gias e os limites do discurso lorquiano, sem perder de vista o fato de que sua pot\u00eancia depende precisamente da conviv\u00eancia entre o preciso e o incerto, entre o vivido e o criado, entre a imagem e o ju\u00edzo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A edi\u00e7\u00e3o de Bortolotto \u00e9 valiosa porque compreende que um cl\u00e1ssico n\u00e3o deve ser empobrecido para se tornar acess\u00edvel. A acessibilidade verdadeira n\u00e3o nasce da supress\u00e3o das dificuldades, mas da oferta de caminhos para atravess\u00e1-las. As notas, o \u00edndice onom\u00e1stico, o posf\u00e1cio e as informa\u00e7\u00f5es sobre a transmiss\u00e3o do texto formam uma arquitetura de leitura. Nada disso substitui a experi\u00eancia imediata da confer\u00eancia; tudo contribui para torn\u00e1-la mais profunda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u00edndice onom\u00e1stico, embora possa parecer um elemento secund\u00e1rio, tamb\u00e9m desempenha papel relevante. Ao reunir os nomes citados e indicar suas ocorr\u00eancias, ele evidencia a extens\u00e3o do repert\u00f3rio mobilizado por Lorca e oferece ao pesquisador uma ferramenta objetiva de consulta. O livro se abre, assim, tanto \u00e0 leitura cont\u00ednua quanto ao uso mais detido, pr\u00f3prio de quem pretende retornar a uma refer\u00eancia, investigar uma personagem ou acompanhar a recorr\u00eancia de determinado nome ao longo da confer\u00eancia e das notas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, ainda, uma delicadeza intelectual na composi\u00e7\u00e3o do volume. A edi\u00e7\u00e3o n\u00e3o transforma o aparato cr\u00edtico em demonstra\u00e7\u00e3o de autoridade. Ao contr\u00e1rio, seus instrumentos trabalham discretamente para devolver o leitor ao texto de Lorca. Essa \u00e9 uma qualidade rara. Muitas edi\u00e7\u00f5es anotadas fazem com que a presen\u00e7a do comentarista se torne maior do que a do autor comentado. Aqui, a erudi\u00e7\u00e3o n\u00e3o se exibe como barreira, mas como servi\u00e7o \u00e0 leitura. Bortolotto conhece a responsabilidade de editar um escritor cuja prosa seduz com facilidade e, justamente por isso, poderia ser mal compreendida com a mesma facilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O leitor encontra, portanto, duas experi\u00eancias complementares. A primeira \u00e9 a vertigem da voz lorquiana, que convoca artistas de \u00e9pocas diversas para formar uma teoria da cria\u00e7\u00e3o fundada no sangue, no sofrimento, no desejo e na morte. A segunda \u00e9 a experi\u00eancia mais lenta da investiga\u00e7\u00e3o, que reconstitui as refer\u00eancias, esclarece as fontes, identifica as variantes e acompanha os movimentos da leitura cr\u00edtica. A uni\u00e3o dessas experi\u00eancias produz um objeto editorial de alta qualidade, simultaneamente liter\u00e1rio e filol\u00f3gico, po\u00e9tico e historiogr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Lorca imagina as tr\u00eas arcadas capazes de sustentar a musa, o anjo e o duende, ele oferece uma imagem final que funciona como s\u00edntese de sua pr\u00f3pria confer\u00eancia. A arte necessita de intelig\u00eancia, inspira\u00e7\u00e3o e confronto. Sem a musa, pode faltar constru\u00e7\u00e3o; sem o anjo, pode faltar gra\u00e7a; sem o duende, falta o risco que transforma a obra em acontecimento. A edi\u00e7\u00e3o brasileira, por sua vez, acrescenta uma dimens\u00e3o fundamental a essa arquitetura: o trabalho paciente do editor, do tradutor e do anotador, cuja tarefa consiste em manter abertas as passagens entre o texto e o mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Jogo e teoria do duende<\/em> \u00e9, por isso, um livro sobre a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica e tamb\u00e9m sobre as condi\u00e7\u00f5es de transmiss\u00e3o da literatura. Lorca chega at\u00e9 n\u00f3s por uma cadeia de vozes, escolhas e cuidados. Benhur Bortolotto n\u00e3o procura apagar essa cadeia; ele a torna leg\u00edvel. Sua edi\u00e7\u00e3o reconhece que traduzir, anotar e comentar s\u00e3o formas de cria\u00e7\u00e3o secund\u00e1ria, n\u00e3o porque reproduzam a cria\u00e7\u00e3o original, mas porque inventam as condi\u00e7\u00f5es de sua perman\u00eancia em outra l\u00edngua, outra \u00e9poca e outro horizonte cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado \u00e9 uma publica\u00e7\u00e3o de grande import\u00e2ncia para leitores de Lorca, estudiosos da literatura espanhola, pesquisadores da tradu\u00e7\u00e3o e todos aqueles que desejam compreender a arte para al\u00e9m do conforto das defini\u00e7\u00f5es. O livro n\u00e3o promete capturar o duende, e essa aus\u00eancia de promessa \u00e9 sua maior honestidade. Em vez de oferecer uma chave definitiva, entrega uma experi\u00eancia de leitura que se modifica a cada retorno. O duende permanece esquivo, mas j\u00e1 n\u00e3o parece incompreens\u00edvel. Ele se revela como aquilo que atravessa a forma quando a forma \u00e9 obrigada a enfrentar a sua pr\u00f3pria fragilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A grandeza desta edi\u00e7\u00e3o est\u00e1 em fazer com que a confer\u00eancia de Lorca continue ardendo sem ser transformada em rel\u00edquia. O texto conserva seu perigo, suas imagens, seus excessos e suas contradi\u00e7\u00f5es. As notas ampliam o campo de vis\u00e3o; o posf\u00e1cio aprofunda a escuta; a tradu\u00e7\u00e3o restitui a voz. Juntos, esses elementos fazem do volume uma obra de media\u00e7\u00e3o exemplar, capaz de aproximar o leitor brasileiro de um dos mais intensos testemunhos da imagina\u00e7\u00e3o moderna sobre a arte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ler este livro \u00e9 aceitar que a beleza n\u00e3o basta quando n\u00e3o compromete o corpo, que a intelig\u00eancia pode esclarecer sem esgotar, que a erudi\u00e7\u00e3o deve servir \u00e0 experi\u00eancia e que a literatura, em seus momentos mais altos, n\u00e3o elimina o abismo: aprende a cantar \u00e0 beira dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>SERVI\u00c7O:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lan\u00e7amento:<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Jogo e teoria do duende<\/em>, de Federico Garc\u00eda Lorca<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">edi\u00e7\u00e3o, tradu\u00e7\u00e3o e notas de Benhur Bortolotto<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">19 de agosto, \u00e0s 19h<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Casa da Mem\u00f3ria Unimed Federa\u00e7\u00e3o \u2013 Rua Santa Terezinha, 263 \u2013 Porto Alegre\/RS<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Federico Garc\u00eda Lorca n\u00e3o escreveu Jogo e teoria do duende para ser lido com dist\u00e2ncia, como quem consulta uma teoria j\u00e1 acabada. 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