{"id":85095,"date":"2026-08-18T17:20:37","date_gmt":"2026-08-18T20:20:37","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85095"},"modified":"2026-08-18T17:20:41","modified_gmt":"2026-08-18T20:20:41","slug":"aves-que-cruzavam-o-ceu-da-infancia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/aves-que-cruzavam-o-ceu-da-infancia\/","title":{"rendered":"Aves que cruzavam o c\u00e9u da inf\u00e2ncia"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando evoco a inf\u00e2ncia vivida em Port\u00e3o do Oco\u00ed, no interior do oeste paranaense, poucas imagens retornam com tamanha nitidez quanto a dos bandos de aves migrat\u00f3rias cruzando o firmamento nos fins de tarde de outono. Era um acontecimento que se repetia anualmente, mas que jamais perdia o seu encanto. Bastava avistarmos os primeiros pontos escuros surgindo no horizonte para interrompermos qualquer atividade e voltarmos os olhos ao alto, acompanhando aquele percurso at\u00e9 que as silhuetas se dissolvessem na dist\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A casa onde cresci situava-se na parte mais elevada da localidade. Da cal\u00e7ada, era poss\u00edvel contemplar uma vasta extens\u00e3o da paisagem. Ali, muito antes de compreender conceitos de geografia, ecologia ou rotas migrat\u00f3rias, eu aprendia intuitivamente que o mundo era vasto \u2014 maior do que as estradas que conhec\u00edamos, maior do que os limites dos munic\u00edpios desenhados nos mapas escolares e, talvez, maior at\u00e9 mesmo do que os sonhos que \u00e9ramos capazes de formular naquela \u00e9poca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todos os anos, entre os meses de mar\u00e7o, abril e maio, algo extraordin\u00e1rio se desenrolava sobre nossas cabe\u00e7as. Bandos de p\u00e1ssaros surgiam ao longe e atravessavam o c\u00e9u em dire\u00e7\u00e3o ao norte. Vinham do sul do continente, seguindo um destino que nos era completamente desconhecido. N\u00f3s os v\u00edamos despontar como pequenas marcas escuras contra a luminosidade celeste e, pouco a pouco, assumirem formas mais definidas, para logo desaparecerem novamente na imensid\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"503\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/image.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-85096\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/image.png 750w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/image-300x201.png 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia uma esp\u00e9cie de solenidade naquele espet\u00e1culo. Embora n\u00e3o compreend\u00eassemos sua import\u00e2ncia biol\u00f3gica, sent\u00edamos que est\u00e1vamos diante de algo grandioso. O c\u00e9u deixava de ser apenas o espa\u00e7o onde flutuavam nuvens e passavam tempestades; tornava-se uma estrada invis\u00edvel, percorrida por viajantes que obedeciam a mapas gravados n\u00e3o em papel, mas nos mist\u00e9rios da pr\u00f3pria natureza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas vezes, eu e meus amigos sub\u00edamos no telhado de casa para observar melhor aquelas travessias. Hoje, os adultos provavelmente considerariam a pr\u00e1tica temer\u00e1ria; na \u00e9poca, por\u00e9m, ela parecia perfeitamente natural. O telhado funcionava como um observat\u00f3rio improvisado, um posto avan\u00e7ado entre a terra e o infinito. Sentados sobre as telhas ainda aquecidas pelo sol, acompanh\u00e1vamos a movimenta\u00e7\u00e3o das aves com uma aten\u00e7\u00e3o quase reverente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia algo profundamente sensorial naquelas tardes. O calor acumulado pela cer\u00e2mica ainda irradiava suavemente sob nossos corpos, enquanto a brisa do entardecer come\u00e7ava a percorrer os campos ao redor da comunidade. O aroma da terra, das planta\u00e7\u00f5es e da vegeta\u00e7\u00e3o nativa misturava-se ao sil\u00eancio que, por vezes, se instalava entre n\u00f3s quando os bandos passavam. Era como se a pr\u00f3pria paisagem participasse do evento, compondo um cen\u00e1rio em que luz, vento, dist\u00e2ncia e movimento se harmonizavam em uma experi\u00eancia de rara beleza.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Identific\u00e1vamos, especialmente, uma ave que se tornou personagem recorrente dessas mem\u00f3rias: a Tesourinha (<em>Tyrannus savana<\/em>). Sua cauda longa e profundamente bifurcada tornava seu voo inconfund\u00edvel. Para n\u00f3s, ela era o s\u00edmbolo daquele fen\u00f4meno anual. Quando as tesourinhas surgiam nos c\u00e9us, sab\u00edamos que uma nova temporada de migra\u00e7\u00e3o estava em curso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parte do fasc\u00ednio residia nos pr\u00f3prios movimentos. N\u00e3o era apenas o fato de viajarem por dist\u00e2ncias colossais que nos impressionava, mas a maneira como se deslocavam. Os bandos pareciam executar uma coreografia silenciosa contra o azul do c\u00e9u. Algumas aves assumiam a dianteira por certo tempo, enquanto outras seguiam logo atr\u00e1s; depois, as posi\u00e7\u00f5es se invertiam. As que lideravam recuavam para o v\u00e1cuo protetor, e as que estavam atr\u00e1s avan\u00e7avam. Havia uma fluidez elegante naquela altern\u00e2ncia cont\u00ednua, como se cada indiv\u00edduo conhecesse intuitivamente seu papel dentro de uma intelig\u00eancia coletiva maior. Para os olhos de uma crian\u00e7a, aquilo possu\u00eda um matiz de mist\u00e9rio, um bailado a\u00e9reo cuja l\u00f3gica escapava \u00e0 compreens\u00e3o racional, mas cuja harmonia podia ser plenamente sentida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Curiosamente, aqueles movimentos migrat\u00f3rios passavam despercebidos para a maioria dos adultos. A rotina do trabalho, das lavouras, dos afazeres dom\u00e9sticos e das preocupa\u00e7\u00f5es cotidianas parecia absorver a aten\u00e7\u00e3o de quase todos. Apenas os mais observadores notavam o espet\u00e1culo que se desenrolava acima de suas cabe\u00e7as. Meu pai e minha m\u00e3e estavam entre eles. Sentavam-se na cal\u00e7ada ao final do dia para tomar chimarr\u00e3o enquanto a luz dourada do entardecer se espalhava pelo horizonte. Quando os bandos surgiam ao longe, interrompiam a conversa para acompanh\u00e1-los com o olhar e comentar sua passagem. Hoje percebo que aqueles momentos continham uma forma discreta de contempla\u00e7\u00e3o, uma capacidade de enxergar beleza em acontecimentos que, embora extraordin\u00e1rios, repetiam-se ciclicamente diante de quem estivesse disposto a olhar para o alto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naquele tempo, entretanto, nossa compreens\u00e3o terminava onde come\u00e7ava o horizonte. Sab\u00edamos que vinham do Sul e rumavam ao Norte, mas desconhec\u00edamos seu destino final. Ignor\u00e1vamos as complexas engrenagens ecol\u00f3gicas que sustentavam aqueles deslocamentos. Apenas observ\u00e1vamos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">D\u00e9cadas depois, j\u00e1 adulto, descobri que aquelas aves integravam um dos maiores movimentos migrat\u00f3rios da Am\u00e9rica do Sul. A regi\u00e3o oeste do Paran\u00e1 est\u00e1 inserida em uma importante rota conhecida como Corredor Migrat\u00f3rio da Bacia do Paran\u00e1. Por esse corredor transitam in\u00fameras esp\u00e9cies provenientes do Cone Sul e, em alguns casos, de \u00e1reas ainda mais austrais, incluindo regi\u00f5es da Patag\u00f4nia. Seu deslocamento em dire\u00e7\u00e3o ao norte constitui uma das mais impressionantes manifesta\u00e7\u00f5es de conectividade biol\u00f3gica do continente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Compreendi, ent\u00e3o, que os c\u00e9us de minha inf\u00e2ncia eram muito mais povoados do que eu imaginava. Al\u00e9m da Tesourinha, outras esp\u00e9cies utilizam essa rota. Entre elas encontram-se o Gavi\u00e3o-papa-gafanhoto (<em>Buteo swainsoni<\/em>), o Suiriri (<em>Tyrannus melancholicus<\/em>), o Sabi\u00e1-una (<em>Turdus flavipes<\/em>) e a Marreca-colorada (<em>Anas cyanoptera<\/em>). Aves de rapina, aqu\u00e1ticas e pequenos passeriformes compartilham esse corredor a\u00e9reo invis\u00edvel, compondo um fluxo biol\u00f3gico que atravessa fronteiras nacionais sem jamais reconhecer os limites pol\u00edticos tra\u00e7ados pelos seres humanos. Fugindo do rigor invernal do Sul, algumas esp\u00e9cies se dirigem \u00e0 Amaz\u00f4nia e a outras \u00e1reas setentrionais do pa\u00eds; outras alcan\u00e7am regi\u00f5es ainda mais distantes do continente. H\u00e1, ainda, aquelas que se deslocam em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s \u00e1reas montanhosas e costeiras do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse conhecimento cient\u00edfico, longe de dissipar o encanto da lembran\u00e7a, ampliou-o. Hoje percebo que aqueles bandos cruzando o c\u00e9u carregavam consigo hist\u00f3rias iniciadas a milhares de quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia. Algumas aves haviam atravessado montanhas, campos, rios e florestas. Outras prosseguiriam ainda por semanas at\u00e9 alcan\u00e7ar seus destinos. Cada indiv\u00edduo era portador de uma geografia viva, escrita em penas e instintos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja justamente isso que torna as aves migrat\u00f3rias t\u00e3o fascinantes: elas representam uma forma de liberdade que raramente experimentamos. Enquanto os seres humanos passam grande parte da vida delimitados por fronteiras, documentos, propriedades e compromissos, essas criaturas seguem trajet\u00f3rias determinadas por ciclos naturais muito mais antigos do que qualquer civiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando penso naqueles dias, percebo que n\u00e3o observ\u00e1vamos apenas p\u00e1ssaros; observ\u00e1vamos possibilidades. Sem saber, contempl\u00e1vamos a exist\u00eancia em movimento. Cada bando que desaparecia na dist\u00e2ncia parecia sugerir que havia sempre algo al\u00e9m da linha vis\u00edvel do mundo, algo que convidava \u00e0 descoberta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inf\u00e2ncia possui essa capacidade singular de transformar fen\u00f4menos naturais em experi\u00eancias quase metaf\u00edsicas. O que para um observador apressado poderia ser apenas uma migra\u00e7\u00e3o sazonal, para uma crian\u00e7a assumia a dimens\u00e3o de um mist\u00e9rio sagrado. O c\u00e9u tornava-se uma narrativa; as aves eram seus personagens; e n\u00f3s, espectadores fascinados, tent\u00e1vamos decifrar um enredo que se desenrolava muito acima de nossas cabe\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez por terem despertado esse sentimento de maravilhamento, aquelas observa\u00e7\u00f5es tenham deixado marcas mais profundas do que eu poderia supor. Elas ensinaram, ainda que de forma silenciosa, a import\u00e2ncia de cultivar a aten\u00e7\u00e3o diante do mundo. Ensinaram que existe beleza em processos lentos, em acontecimentos recorrentes e em fen\u00f4menos que n\u00e3o foram criados para o nosso entretenimento. De certo modo, ajudaram a forjar uma sensibilidade capaz de encontrar significado onde muitos enxergam apenas rotina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, ao recordar aquelas tardes, compreendo que parte de minha percep\u00e7\u00e3o diante da natureza nasceu ali, na cal\u00e7ada daquela casa situada na por\u00e7\u00e3o mais elevada da comunidade. Nasceu tamb\u00e9m sobre o telhado onde eu e meus amigos nos reun\u00edamos para perscrutar o horizonte. Aquelas observa\u00e7\u00f5es ensinaram silenciosamente uma li\u00e7\u00e3o que os anos apenas confirmariam: a realidade \u00e9 sempre maior do que aquilo que conseguimos enxergar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As aves desapareciam ao norte, mas deixavam algo para tr\u00e1s. Deixavam perguntas. Deixavam encantamento. Deixavam a percep\u00e7\u00e3o de que o mundo estava em constante devir. E, sobretudo, deixavam a intui\u00e7\u00e3o de que toda viagem, mesmo quando observada \u00e0 dist\u00e2ncia, possui o poder de transformar quem a contempla.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez por isso essas lembran\u00e7as permane\u00e7am t\u00e3o vivas. Porque, de certo modo, aquelas aves continuam cruzando os c\u00e9us da mem\u00f3ria. Continuam seguindo suas rotas ancestrais atrav\u00e9s das esta\u00e7\u00f5es e dos continentes. Continuam desenhando no ar a mesma mensagem que eu apenas come\u00e7aria a compreender muitos anos depois: a de que a vida, em sua ess\u00eancia mais profunda, \u00e9 feita de travessias.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Quando evoco a inf\u00e2ncia vivida em Port\u00e3o do Oco\u00ed, no interior do oeste paranaense, poucas imagens retornam com tamanha nitidez quanto a dos bandos de aves migrat\u00f3rias cruzando o firmamento nos fins de tarde de outono. Era um acontecimento que se repetia anualmente, mas que jamais perdia o seu encanto. 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