{"id":85104,"date":"2026-08-20T14:54:14","date_gmt":"2026-08-20T17:54:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85104"},"modified":"2026-08-20T14:54:16","modified_gmt":"2026-08-20T17:54:16","slug":"laura-cardoso-a-trajetoria-de-uma-das-grandes-interpretes-do-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/laura-cardoso-a-trajetoria-de-uma-das-grandes-interpretes-do-brasil\/","title":{"rendered":"Laura Cardoso: a trajet\u00f3ria de uma das grandes int\u00e9rpretes do Brasil"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"960\" height=\"630\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/image-2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-85106\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/image-2.png 960w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/image-2-300x197.png 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/08\/image-2-768x504.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 960px) 100vw, 960px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Em 2006, com a primeira-dama Marisa Let\u00edcia, o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e o ministro da Cultura, Gilberto Gil, quando Laura Cardoso recebeu a Ordem do M\u00e9rito Cultural | Foto: Fabio Pozzebom\/ABr<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Laura Cardoso nasceu Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, em 13 de setembro de 1927, no bairro da Bela Vista, em S\u00e3o Paulo, filha de imigrantes portugueses. Morreu na noite de 17 de agosto de 2026, aos 98 anos, tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo, de causas naturais, segundo informa\u00e7\u00f5es divulgadas pela fam\u00edlia. Entre uma data e outra, h\u00e1 quase um s\u00e9culo de vida e mais de oito d\u00e9cadas dedicadas \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o. Poucas trajet\u00f3rias brasileiras oferecem uma medida t\u00e3o precisa da continuidade da arte de representar, atravessando o r\u00e1dio, o teatro, o cinema e a televis\u00e3o sem jamais reduzir o trabalho do ator \u00e0 mera celebridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Laura Cardoso pertence a uma gera\u00e7\u00e3o que precisou construir, ao mesmo tempo, a pr\u00f3pria carreira e as condi\u00e7\u00f5es de exist\u00eancia de sua profiss\u00e3o. Quando come\u00e7ou no r\u00e1dio, em 1942, aos 15 anos, atuar ainda n\u00e3o era uma ocupa\u00e7\u00e3o facilmente admitida para uma mo\u00e7a de fam\u00edlia. O teatro carregava o peso de antigas conven\u00e7\u00f5es, a televis\u00e3o dava seus primeiros passos e o cinema brasileiro buscava uma identidade entre a precariedade industrial e a ambi\u00e7\u00e3o art\u00edstica. Laura entrou nesse mundo sem a prote\u00e7\u00e3o de uma escola consagrada ou de um sistema profissional plenamente estabelecido. Sua forma\u00e7\u00e3o foi feita de observa\u00e7\u00e3o, disciplina, tentativa, erro e escuta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse aspecto \u00e9 decisivo para compreender sua grandeza. Laura Cardoso nunca pareceu interessada em exibir a t\u00e9cnica como um ornamento. Sua t\u00e9cnica estava incorporada ao corpo, \u00e0 voz, ao tempo de cada pausa, ao modo como um olhar podia modificar a temperatura de uma cena. A atua\u00e7\u00e3o, nela, era uma forma de pensamento sens\u00edvel. Mesmo quando interpretava personagens de poucas falas, produzia a impress\u00e3o de que havia uma vida inteira acontecendo antes e depois daquele instante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua estreia na televis\u00e3o ocorreu em 1952, no programa \u201cTribunal do Cora\u00e7\u00e3o\u201d, da TV Tupi, quando o meio ainda ensaiava suas linguagens. Ela participou de teleteatros, novelas e programas que ajudaram a estabelecer a dramaturgia televisiva no pa\u00eds, passando por emissoras como Tupi, Record, Excelsior, Bandeirantes e Cultura. A televis\u00e3o brasileira costuma ser lembrada por seus grandes t\u00edtulos, mas sua hist\u00f3ria tamb\u00e9m foi constru\u00edda por int\u00e9rpretes capazes de dar consist\u00eancia ao cotidiano da fic\u00e7\u00e3o. Laura foi uma dessas presen\u00e7as fundamentais. Ela n\u00e3o apenas esteve nas primeiras d\u00e9cadas da televis\u00e3o: ajudou a conferir ao ve\u00edculo uma densidade que ultrapassava a fun\u00e7\u00e3o ilustrativa do ator.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1981, ao estrear na Globo em \u201cBrilhante\u201d, como Alda Sampaio, Laura j\u00e1 era uma atriz de trajet\u00f3ria consolidada. A partir dali, sua presen\u00e7a alcan\u00e7aria um p\u00fablico ainda maior. Na emissora, participou de mais de 60 novelas, n\u00famero impressionante n\u00e3o por seu valor estat\u00edstico, mas pelo que revela sobre a amplitude de sua contribui\u00e7\u00e3o. Laura n\u00e3o dependia da centralidade da personagem para estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o de autoridade com a cena. Muitas vezes, entrava em uma trama como coadjuvante e sa\u00eda dela como uma das figuras mais lembradas pelo p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa capacidade aparece com clareza em \u201cMulheres de Areia\u201d, de 1993, na interpreta\u00e7\u00e3o de Isaura, m\u00e3e das g\u00eameas Raquel e Ruth, vividas por Gloria Pires. Isaura poderia ser apenas uma figura de sustenta\u00e7\u00e3o narrativa, uma personagem encarregada de comentar ou acompanhar o conflito das filhas. Laura, por\u00e9m, lhe conferiu espessura moral, humor, afli\u00e7\u00e3o e uma esp\u00e9cie de sabedoria dom\u00e9stica que nunca se confundia com resigna\u00e7\u00e3o. Sua presen\u00e7a ajudava a ancorar a novela em uma experi\u00eancia familiar reconhec\u00edvel, tornando o melodrama menos abstrato e mais pr\u00f3ximo da vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u201cA Viagem\u201d (1994), interpretou Guiomar, outra personagem cuja for\u00e7a n\u00e3o dependia de gestos grandiosos. Laura tinha a rara capacidade de fazer com que o espectador percebesse o pensamento antes da fala, como se a personagem se formasse diante dos olhos por meio de uma sucess\u00e3o de hesita\u00e7\u00f5es, certezas e pequenas contradi\u00e7\u00f5es. Em \u201cIrm\u00e3os Coragem\u201d (1995), como Sinhana, encontrou uma personagem ligada \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o, \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0 dureza de um mundo rural atravessado por conflitos. A atriz n\u00e3o transformava essas mulheres em s\u00edmbolos im\u00f3veis. Ao contr\u00e1rio, devolvia a elas contradi\u00e7\u00f5es, desejos e uma intelig\u00eancia pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m por isso sua carreira n\u00e3o pode ser compreendida apenas como uma cole\u00e7\u00e3o de personagens populares. Laura Cardoso deu visibilidade a mulheres maduras, m\u00e3es, av\u00f3s, trabalhadoras, matriarcas, figuras religiosas, mulheres submetidas \u00e0s conven\u00e7\u00f5es sociais e personagens que carregavam em sil\u00eancio as consequ\u00eancias de escolhas feitas por outros. Em suas m\u00e3os, esses pap\u00e9is deixavam de funcionar como simples tipos dram\u00e1ticos. A atriz encontrava neles uma singularidade, frequentemente localizada em um detalhe de voz ou em uma mudan\u00e7a quase impercept\u00edvel de postura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u201cCaminho das \u00cdndias\u201d (2009), como Laksmi Ananda, construiu uma matriarca cuja autoridade n\u00e3o era feita apenas de rigidez. Havia ali uma combina\u00e7\u00e3o de tradi\u00e7\u00e3o, afeto e controle, uma personagem que compreendia o mundo a partir de valores s\u00f3lidos, mas que tamb\u00e9m precisava negociar com as transforma\u00e7\u00f5es ao seu redor. Em \u201cGabriela\u201d (2012), viveu Doroteia; em \u201cSol Nascente\u201d (2016), interpretou Dona Sinh\u00e1; e, em \u201cO Outro Lado do Para\u00edso\u201d (2017), deu vida a Caetana, uma mulher marcada pela experi\u00eancia e pelo conhecimento de uma comunidade. Em cada uma dessas personagens, Laura reafirmava sua particular maneira de trabalhar a velhice: n\u00e3o como apagamento, mas como ac\u00famulo de presen\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua contribui\u00e7\u00e3o para a televis\u00e3o inclui ainda uma dimens\u00e3o c\u00f4mica que por vezes \u00e9 subestimada quando se fala de sua imagem como grande dama da dramaturgia. Laura sabia que o humor n\u00e3o \u00e9 uma interrup\u00e7\u00e3o da densidade dram\u00e1tica, mas uma de suas formas mais complexas. Em uma participa\u00e7\u00e3o na s\u00e9rie \u201cOs Normais\u201d (2002), como a inusitada m\u00e3e de aluguel do personagem vivido por Luiz Fernando Guimar\u00e3es, demonstrou dom\u00ednio do ritmo, da surpresa e da irrever\u00eancia. Seu humor nunca parecia procurar o aplauso. Surgia da precis\u00e3o com que a atriz reconhecia o absurdo de uma situa\u00e7\u00e3o e permitia que ele se manifestasse.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No teatro, onde sua presen\u00e7a foi menos cont\u00ednua do que na televis\u00e3o, Laura encontrou alguns de seus trabalhos mais intensos. Em 1959, estreou em \u201cPlant\u00e3o 21\u201d, sob dire\u00e7\u00e3o de Antunes Filho. Mais de tr\u00eas d\u00e9cadas depois, em 1993, voltaria a colaborar com o diretor em \u201cVereda da Salva\u00e7\u00e3o\u201d, de Jorge Andrade, interpretando Dolor. A personagem exigia uma combina\u00e7\u00e3o rara de brutalidade, desamparo e dimens\u00e3o tr\u00e1gica. Laura n\u00e3o se apoiava em uma exterioriza\u00e7\u00e3o f\u00e1cil da dor. Seu trabalho era mais rigoroso: deixava que a viol\u00eancia do mundo se alojasse no corpo da personagem, produzindo uma presen\u00e7a simultaneamente concreta e simb\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por \u201cVem Buscar-me que Ainda Sou Teu\u201d, recebeu o Pr\u00eamio Shell de Melhor Atriz em 1990. Tr\u00eas anos depois, foi novamente reconhecida pelo pr\u00eamio por sua atua\u00e7\u00e3o em \u201cVereda da Salva\u00e7\u00e3o\u201d. Essas distin\u00e7\u00f5es t\u00eam import\u00e2ncia particular porque registram o reconhecimento de uma atriz cuja imagem p\u00fablica estava fortemente associada \u00e0 televis\u00e3o. Laura nunca aceitou, na pr\u00e1tica, a hierarquia que costuma colocar o teatro como espa\u00e7o superior e a televis\u00e3o como territ\u00f3rio menor. Sua trajet\u00f3ria demonstrava que o valor de um int\u00e9rprete n\u00e3o est\u00e1 apenas no suporte em que trabalha, mas na qualidade da aten\u00e7\u00e3o que dedica a cada cena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O cinema tamb\u00e9m revelou uma Laura menos presa \u00e0s exig\u00eancias de continuidade das novelas. Em filmes como \u201cImitando o Sol\u201d (1964), \u201cTerra Estrangeira\u201d (1995), \u201cAtrav\u00e9s da Janela\u201d e \u201cCopacabana\u201d, sua atua\u00e7\u00e3o ganhou outras dura\u00e7\u00f5es e outras zonas de sil\u00eancio. Em \u201cAtrav\u00e9s da Janela\u201d (2000), de Tata Amaral, como Selma, a atriz trabalhou uma personagem atravessada pela solid\u00e3o, pela mem\u00f3ria e pela dificuldade de reorganizar a vida. A c\u00e2mera cinematogr\u00e1fica, ao se aproximar de seu rosto, encontrava n\u00e3o uma m\u00e1scara expressiva, mas uma superf\u00edcie cheia de tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u201cCopacabana\u201d (2001), Laura interpretou uma personagem de forte registro popular e recebeu o Grande Pr\u00eamio do Cinema Brasileiro, hoje Pr\u00eamio Grande Otelo, por sua atua\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m foi reconhecida por trabalhos em \u201cO Outro Lado da Rua\u201d (venceu em 2005) e \u201cDe Onde Eu Te Vejo\u201d (venceu em 2017), consolidando uma rela\u00e7\u00e3o com o cinema que n\u00e3o se limitava a participa\u00e7\u00f5es decorativas. O que o cinema percebia nela era a possibilidade de sugerir muito sem precisar explicar tudo. Laura compreendia que a conten\u00e7\u00e3o pode ser uma forma de eloqu\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seus pr\u00eamios incluem tr\u00eas trof\u00e9us Grande Otelo (2002, 2005 e 2017), m\u00faltiplos reconhecimentos da Associa\u00e7\u00e3o Paulista de Cr\u00edticos de Arte, dois Pr\u00eamios Shell (1990 e 1993), Trof\u00e9us Imprensa (1973 e 1996), o Trof\u00e9u M\u00e1rio Lago de 2002 pelo conjunto da obra na televis\u00e3o e a Ordem do M\u00e9rito Cultural concedido pelo Minist\u00e9rio da Cultura, em 2006. Recebeu ainda distin\u00e7\u00f5es em festivais, entre elas o pr\u00eamio de Melhor Atriz no Festival de Cinema Brasileiro de Miami, em 2000, por \u201cAtrav\u00e9s da Janela\u201d. A lista \u00e9 extensa, mas n\u00e3o deve substituir a an\u00e1lise. Premia\u00e7\u00f5es registram momentos de reconhecimento; n\u00e3o explicam, sozinhas, a perman\u00eancia de uma artista. No caso de Laura, o dado mais expressivo talvez seja a capacidade de seus personagens sobreviverem \u00e0 circunst\u00e2ncia da exibi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Laura Cardoso pertence ao grupo de int\u00e9rpretes que modificam o imagin\u00e1rio de um pa\u00eds sem necessariamente ocupar o centro de todas as narrativas. Sua arte foi feita de recorr\u00eancias, de apari\u00e7\u00f5es que pareciam familiares e, ao mesmo tempo, sempre traziam alguma novidade. O p\u00fablico reconhecia sua voz, sua dic\u00e7\u00e3o, o desenho de seu rosto, o modo como sustentava uma frase. Essa familiaridade, por\u00e9m, nunca se tornou repeti\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica. Laura transformava o reconhecimento em mat\u00e9ria de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre longevidade e perman\u00eancia. A longevidade pode ser apenas a sucess\u00e3o de anos; a perman\u00eancia exige que o trabalho continue produzindo sentido. Laura Cardoso permaneceu porque seus personagens n\u00e3o eram abstra\u00e7\u00f5es de uma \u00e9poca. Eles carregavam algo que ainda reconhecemos em n\u00f3s: a negocia\u00e7\u00e3o entre o desejo e o dever, a autoridade constru\u00edda pela experi\u00eancia, o medo de perder os v\u00ednculos, a solid\u00e3o escondida no interior da fam\u00edlia, o humor como defesa contra a dureza do mundo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu \u00faltimo trabalho no cinema foi o curta-metragem \u201cDona Rosinha\u201d, realizado em 2025, quando a atriz tinha 97 anos. O encerramento \u00e9 eloquente sem precisar ser transformado em f\u00e1bula. Laura continuou trabalhando at\u00e9 uma idade em que a sociedade costuma imaginar a velhice como retirada, sil\u00eancio e improdutividade. Sua presen\u00e7a lembrava que o corpo envelhecido n\u00e3o \u00e9 um corpo artisticamente encerrado. Ao contr\u00e1rio, ele pode carregar camadas de experi\u00eancia inacess\u00edveis a qualquer maquiagem ou expediente t\u00e9cnico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A atriz tamb\u00e9m ensinou, por sua pr\u00f3pria pr\u00e1tica, que interpretar n\u00e3o \u00e9 desaparecer completamente dentro de um personagem. Existe sempre uma negocia\u00e7\u00e3o entre a pessoa e a figura inventada, entre a mem\u00f3ria do int\u00e9rprete e o texto, entre o gesto planejado e aquilo que nasce no momento da cena. Laura fazia essa negocia\u00e7\u00e3o com uma naturalidade trabalhada, express\u00e3o que define bem seu estilo. Parecia espont\u00e2nea porque havia disciplina; parecia intuitiva porque havia pensamento; parecia familiar porque sua inven\u00e7\u00e3o era profundamente particular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O legado de Laura Cardoso n\u00e3o est\u00e1 apenas na quantidade de trabalhos ou na dura\u00e7\u00e3o de sua carreira. Est\u00e1 na demonstra\u00e7\u00e3o de que a atua\u00e7\u00e3o pode ser, ao mesmo tempo, popular e sofisticada, acess\u00edvel e rigorosa, cotidiana e tr\u00e1gica. Ela compreendeu a televis\u00e3o como arte de intimidade, o teatro como espa\u00e7o de risco e o cinema como lugar de concentra\u00e7\u00e3o. Em todos esses meios, conservou uma qualidade essencial: a capacidade de olhar para uma personagem sem desprez\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja essa a medida mais justa de sua grandeza. Laura Cardoso n\u00e3o julgava suas personagens de fora. Mesmo quando interpretava mulheres endurecidas, autorit\u00e1rias, engra\u00e7adas ou moralmente amb\u00edguas, procurava a l\u00f3gica \u00edntima que as fazia existir. Da\u00ed a sensa\u00e7\u00e3o de verdade que acompanhava seus trabalhos. Ela n\u00e3o pedia que o p\u00fablico admirasse suas personagens. Pedia, pela for\u00e7a silenciosa da interpreta\u00e7\u00e3o, que o p\u00fablico as reconhecesse como seres humanos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em uma cultura que frequentemente confunde novidade com valor, Laura Cardoso deixa uma li\u00e7\u00e3o de outra ordem. A arte tamb\u00e9m se renova pela perman\u00eancia, pela capacidade de atravessar mudan\u00e7as sem perder a aten\u00e7\u00e3o ao essencial. Durante mais de oito d\u00e9cadas, ela acompanhou a transforma\u00e7\u00e3o dos meios, dos costumes e das linguagens, mas conservou a convic\u00e7\u00e3o de que atuar \u00e9 compartilhar uma hist\u00f3ria com a multid\u00e3o. Essa convic\u00e7\u00e3o, inscrita em sua voz e em seus gestos, permanece agora como mem\u00f3ria viva da dramaturgia brasileira.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Laura Cardoso nasceu Laurinda de Jesus Cardoso Balleroni, em 13 de setembro de 1927, no bairro da Bela Vista, em S\u00e3o Paulo, filha de imigrantes portugueses. Morreu na noite de 17 de agosto de 2026, aos 98 anos, tamb\u00e9m em S\u00e3o Paulo, de causas naturais, segundo informa\u00e7\u00f5es divulgadas pela fam\u00edlia. 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