{"id":85123,"date":"2026-09-02T10:06:48","date_gmt":"2026-09-02T13:06:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85123"},"modified":"2026-09-02T10:06:49","modified_gmt":"2026-09-02T13:06:49","slug":"brizola-lobisomem-contra-o-imperio-a-politica-como-destino-paixao-e-ruina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/brizola-lobisomem-contra-o-imperio-a-politica-como-destino-paixao-e-ruina\/","title":{"rendered":"\u201cBrizola: Lobisomem contra o imp\u00e9rio\u201d: a pol\u00edtica como destino, paix\u00e3o e ru\u00edna"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leonel Brizola foi um homem que viveu a pol\u00edtica com uma intensidade rara, como se cada disputa de seu tempo tamb\u00e9m dissesse respeito \u00e0 sua pr\u00f3pria vida. Em <em>Brizola: Lobisomem contra o imp\u00e9rio<\/em>, Karla Monteiro acompanha esse percurso desde a inf\u00e2ncia pobre no interior do Rio Grande do Sul at\u00e9 o retorno ao Brasil, depois de quinze anos de ex\u00edlio. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo desse caminho, aparecem o estudante obstinado, o engenheiro, o administrador p\u00fablico, o l\u00edder trabalhista, o governador da Legalidade, o advers\u00e1rio dos interesses estrangeiros e o pol\u00edtico que, mesmo cercado por derrotas e contradi\u00e7\u00f5es, nunca deixou de acreditar na for\u00e7a das pr\u00f3prias convic\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A autora comp\u00f5e, assim, o retrato de uma personalidade inquieta, moldada pelo trabalho, pela educa\u00e7\u00e3o, pelo nacionalismo e pela certeza de que a pol\u00edtica precisava produzir mudan\u00e7as concretas na vida dos brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"706\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-biografia-brizola-da-karla-monteiro-706x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85124\" style=\"width:401px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-biografia-brizola-da-karla-monteiro-706x1024.jpeg 706w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-biografia-brizola-da-karla-monteiro-207x300.jpeg 207w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-biografia-brizola-da-karla-monteiro-768x1114.jpeg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-biografia-brizola-da-karla-monteiro-1059x1536.jpeg 1059w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-biografia-brizola-da-karla-monteiro.jpeg 1102w\" sizes=\"auto, (max-width: 706px) 100vw, 706px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse longo percurso, atravessado por guerras, golpes, elei\u00e7\u00f5es, conspira\u00e7\u00f5es, alian\u00e7as, perdas familiares e rupturas ideol\u00f3gicas, o biografado surge como uma figura de grandeza simultaneamente c\u00edvica e tr\u00e1gica. Seu percurso n\u00e3o se deixa acomodar em nenhuma classifica\u00e7\u00e3o simples. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele foi administrador e tribuno, democrata e conspirador, reformista e radical, homem de partido e lideran\u00e7a personalista. Foi, ainda, um dos raros pol\u00edticos brasileiros capazes de converter a pr\u00f3pria biografia em linguagem coletiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O subt\u00edtulo, \u201cLobisomem contra o imp\u00e9rio\u201d, possui uma for\u00e7a simb\u00f3lica que a narrativa explora com intelig\u00eancia. O lobisomem \u00e9 uma criatura da metamorfose, situada entre o humano e o monstruoso, entre a ordem do dia e os temores da noite. Brizola tamb\u00e9m pertenceu a uma zona de fronteira. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Movia-se entre as institui\u00e7\u00f5es e as ruas, entre o Parlamento e a insurrei\u00e7\u00e3o, entre a defesa da legalidade e a impaci\u00eancia diante de uma legalidade incapaz de produzir justi\u00e7a social. Para seus advers\u00e1rios, era um agitador amea\u00e7ador, um pol\u00edtico que desejava romper os limites do jogo democr\u00e1tico. Para seus admiradores, era exatamente aquele que compreendia como esses limites haviam sido constru\u00eddos para proteger os privil\u00e9gios de poucos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Karla Monteiro n\u00e3o procura resolver essa ambiguidade. Sua qualidade maior est\u00e1 em preserv\u00e1-la. Em vez de transformar Brizola em her\u00f3i impec\u00e1vel ou em respons\u00e1vel isolado pelas convuls\u00f5es brasileiras, a autora o restitui \u00e0 sua espessura humana e pol\u00edtica. A admira\u00e7\u00e3o que atravessa o livro n\u00e3o elimina a cr\u00edtica. A autora reconhece a coragem do personagem, sua intelig\u00eancia administrativa e sua capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m exp\u00f5e sua voca\u00e7\u00e3o para o confronto, sua dificuldade de aceitar media\u00e7\u00f5es e os equ\u00edvocos estrat\u00e9gicos que contribu\u00edram para o isolamento de suas propostas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa complexidade come\u00e7a a ser constru\u00edda antes mesmo da entrada de Brizola na vida p\u00fablica. A narrativa dedica aten\u00e7\u00e3o \u00e0 origem familiar, \u00e0 pobreza, \u00e0s tens\u00f5es pol\u00edticas do Rio Grande do Sul e \u00e0 presen\u00e7a decisiva de On\u00edvia, sua m\u00e3e. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A inf\u00e2ncia n\u00e3o aparece como mero pre\u00e2mbulo sentimental, mas como o territ\u00f3rio em que se formam as convic\u00e7\u00f5es que mais tarde orientariam o pol\u00edtico. A precariedade material, o trabalho precoce, a experi\u00eancia da migra\u00e7\u00e3o e o acesso dif\u00edcil \u00e0 educa\u00e7\u00e3o comp\u00f5em uma pedagogia da resist\u00eancia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Brizola aprende cedo que a pobreza n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica. Ela se manifesta na fome, no deslocamento, na humilha\u00e7\u00e3o, na aus\u00eancia de documentos e na necessidade permanente de conquistar aquilo que para outros parece natural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A biografia se torna particularmente vigorosa quando acompanha o jovem Leonel em sua passagem por pequenas cidades e, depois, por Porto Alegre. O adolescente que chega \u00e0 capital precisa aprender a decifrar um mundo novo. Trabalha, procura alojamento, enfrenta obst\u00e1culos burocr\u00e1ticos, frequenta escolas e se aproxima de c\u00edrculos religiosos e pol\u00edticos que lhe oferecem abrigo, forma\u00e7\u00e3o e disciplina. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cidade, descrita como uma \u201cpequena cidade grande\u201d, torna-se espa\u00e7o de aprendizagem social. O futuro l\u00edder n\u00e3o nasce pronto. Ele se constr\u00f3i na conviv\u00eancia com diferentes classes, institui\u00e7\u00f5es e linguagens.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A educa\u00e7\u00e3o ocupa, nesse processo, uma posi\u00e7\u00e3o fundamental. Brizola n\u00e3o \u00e9 apresentado como um produto espont\u00e2neo da vontade popular, mas como algu\u00e9m cuja ascens\u00e3o dependeu de professores, escolas, protetores e oportunidades conquistadas com esfor\u00e7o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A passagem pelo Col\u00e9gio J\u00falio de Castilhos e o contato com uma atmosfera de debate e forma\u00e7\u00e3o c\u00edvica ajudam a explicar o pol\u00edtico que surgiria mais tarde. Antes de dominar a tribuna, Brizola precisou dominar os c\u00f3digos que organizavam a sociedade. Antes de falar em nome do povo, teve de aprender a mover-se entre os mundos que o separavam dele.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa forma\u00e7\u00e3o intelectual e pr\u00e1tica estabelece uma continuidade entre o engenheiro civil, o administrador p\u00fablico e o l\u00edder pol\u00edtico. Brizola parece compreender a sociedade como uma estrutura que pode ser modificada por meio de obras, institui\u00e7\u00f5es e decis\u00f5es de governo. Estradas, energia el\u00e9trica, transportes, saneamento, cr\u00e9dito e escolas n\u00e3o s\u00e3o para ele setores independentes. Fazem parte de um mesmo projeto de soberania. A constru\u00e7\u00e3o material do Estado deve acompanhar a constru\u00e7\u00e3o de uma cidadania efetiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rela\u00e7\u00e3o com Get\u00falio Vargas constitui o principal eixo de transmiss\u00e3o dessa linguagem pol\u00edtica. Vargas oferece a Brizola o vocabul\u00e1rio do trabalhismo, a no\u00e7\u00e3o de que o Estado pode intervir nas rela\u00e7\u00f5es sociais e a percep\u00e7\u00e3o de que as massas n\u00e3o devem ser tratadas como simples objeto de tutela. No entanto, Brizola n\u00e3o se limita a repetir o getulismo. Ele o radicaliza. Converte a prud\u00eancia de Vargas em impaci\u00eancia, o c\u00e1lculo institucional em mobiliza\u00e7\u00e3o permanente e o nacionalismo de Estado em combate aberto contra os interesses estrangeiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A heran\u00e7a getulista, por isso, n\u00e3o \u00e9 apresentada como um conjunto im\u00f3vel de doutrinas. Ela se transforma ao passar por Brizola. O disc\u00edpulo admira o mestre, mas tamb\u00e9m o desafia. O v\u00ednculo entre ambos \u00e9 afetivo, pol\u00edtico e simb\u00f3lico, embora nunca inteiramente pacificado. A biografia mostra que a fidelidade de Brizola ao legado de Vargas n\u00e3o se baseava numa rever\u00eancia passiva. Tratava-se de uma tentativa de preservar, em circunst\u00e2ncias novas, a promessa de integra\u00e7\u00e3o social contida no trabalhismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao reconstituir o p\u00f3s-guerra, a autora mostra um pa\u00eds em transforma\u00e7\u00e3o, no qual a democratiza\u00e7\u00e3o convive com estruturas olig\u00e1rquicas, desigualdades regionais e interesses econ\u00f4micos resistentes a qualquer reforma profunda. A cria\u00e7\u00e3o e a disputa interna do Partido Trabalhista Brasileiro, a influ\u00eancia de Alberto Pasqualini, a ascens\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart e as tens\u00f5es entre correntes partid\u00e1rias revelam que o trabalhismo estava longe de ser uma for\u00e7a homog\u00eanea. Havia nele um projeto de justi\u00e7a social, mas tamb\u00e9m personalismos, ambi\u00e7\u00f5es, alian\u00e7as contradit\u00f3rias e disputas sobre os limites da transforma\u00e7\u00e3o poss\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Brizola amadurece politicamente nesse terreno inst\u00e1vel. Sua elei\u00e7\u00e3o para o Parlamento e sua atua\u00e7\u00e3o na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul revelam um homem que n\u00e3o se contentava com a administra\u00e7\u00e3o rotineira do poder. Ele compreendia o mandato como uma forma de combate. Sua interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica tinha sempre uma dimens\u00e3o pedag\u00f3gica: era preciso convencer, denunciar, nomear os advers\u00e1rios e mostrar \u00e0 popula\u00e7\u00e3o que decis\u00f5es aparentemente t\u00e9cnicas escondiam disputas sobre soberania e desigualdade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa concep\u00e7\u00e3o alcan\u00e7aria sua forma mais concreta em suas experi\u00eancias administrativas. Como prefeito de Porto Alegre e governador do Rio Grande do Sul, Brizola procurou transformar a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica em instrumento de mobiliza\u00e7\u00e3o social. A constru\u00e7\u00e3o de escolas, os projetos de urbaniza\u00e7\u00e3o, as iniciativas de transporte, o cintur\u00e3o verde e as obras de infraestrutura revelam um governante interessado em produzir presen\u00e7a estatal onde predominavam abandono e depend\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O programa das chamadas \u201cbrizolinhas\u201d \u00e9 uma das imagens mais expressivas desse projeto. A escola rural aparece como edif\u00edcio, mas tamb\u00e9m como promessa. Ao levar educa\u00e7\u00e3o para regi\u00f5es esquecidas, Brizola procurava alterar a distribui\u00e7\u00e3o do futuro. A alfabetiza\u00e7\u00e3o, a instru\u00e7\u00e3o e a forma\u00e7\u00e3o c\u00edvica n\u00e3o eram adere\u00e7os civilizat\u00f3rios. Funcionavam como alicerces de uma democracia que n\u00e3o poderia sobreviver apenas como ritual eleitoral.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa dimens\u00e3o administrativa impede que o brizolismo seja reduzido a um conjunto de discursos inflamados. Havia obras, planejamento, reparti\u00e7\u00f5es, recursos e decis\u00f5es concretas. O pol\u00edtico que falava em soberania tamb\u00e9m constru\u00eda escolas; aquele que denunciava o imperialismo organizava programas de governo; o tribuno era, ao mesmo tempo, um administrador. A for\u00e7a de Brizola residia justamente nessa combina\u00e7\u00e3o entre a linguagem apaixonada e a capacidade de traduzir parte dela em realiza\u00e7\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a mesma energia que alimentava suas conquistas tamb\u00e9m favorecia o personalismo. Brizola tendia a concentrar a pol\u00edtica em torno de sua voz, de sua presen\u00e7a e de sua autoridade moral. O r\u00e1dio se tornou um instrumento decisivo dessa estrat\u00e9gia. Ao falar diretamente com a popula\u00e7\u00e3o, ele enfrentava o monop\u00f3lio dos grandes jornais e ampliava a circula\u00e7\u00e3o de uma linguagem nacionalista e popular. Contudo, essa comunica\u00e7\u00e3o direta tamb\u00e9m diminu\u00eda o espa\u00e7o das media\u00e7\u00f5es institucionais. A pol\u00edtica podia converter-se numa rela\u00e7\u00e3o quase pessoal entre o l\u00edder e seu p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Campanha da Legalidade, em 1961, \u00e9 o ponto culminante desse processo. O epis\u00f3dio re\u00fane a forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, a experi\u00eancia administrativa, a habilidade de comunica\u00e7\u00e3o e a disposi\u00e7\u00e3o para o risco que haviam caracterizado Brizola. Diante da tentativa de impedir a posse constitucional de Jo\u00e3o Goulart, o governador do Rio Grande do Sul mobilizou a Brigada Militar, a popula\u00e7\u00e3o, setores das For\u00e7as Armadas e uma rede de emissoras de r\u00e1dio. A defesa da Constitui\u00e7\u00e3o deixou de ser uma f\u00f3rmula jur\u00eddica e adquiriu corpo nas ruas, nas transmiss\u00f5es radiof\u00f4nicas e na resist\u00eancia diante do Pal\u00e1cio Piratini.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A autora narra esse momento com ritmo de romance pol\u00edtico, sem abandonar o apoio documental. As vozes transmitidas pelo r\u00e1dio, a amea\u00e7a de bombardeio, a tens\u00e3o nos quart\u00e9is, as negocia\u00e7\u00f5es e a mobiliza\u00e7\u00e3o popular conferem ao epis\u00f3dio uma atmosfera de suspens\u00e3o hist\u00f3rica. A Rep\u00fablica parecia sobreviver por um fio, sustentada pela decis\u00e3o de alguns homens e pela presen\u00e7a de uma multid\u00e3o que recusava a ruptura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vit\u00f3ria, entretanto, foi incompleta. O parlamentarismo aceito como solu\u00e7\u00e3o de compromisso preservou a sucess\u00e3o constitucional, mas restringiu os poderes de Jango. Nesse ponto, a diferen\u00e7a entre Brizola e seu cunhado se torna evidente. Jango apostava na concilia\u00e7\u00e3o e no tempo pol\u00edtico; Brizola enxergava na concilia\u00e7\u00e3o o risco de uma capitula\u00e7\u00e3o disfar\u00e7ada. O conflito entre ambos n\u00e3o era apenas pessoal. Expressava duas concep\u00e7\u00f5es de a\u00e7\u00e3o p\u00fablica: uma baseada na composi\u00e7\u00e3o e outra orientada pela urg\u00eancia das reformas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A biografia \u00e9 perspicaz ao n\u00e3o tratar nenhum dos dois como encarna\u00e7\u00e3o absoluta da raz\u00e3o. A trag\u00e9dia brasileira resultou, em parte, da incapacidade de articular legitimidade popular, estabilidade institucional e transforma\u00e7\u00e3o social. Brizola percebia a profundidade das desigualdades e a necessidade de reformas estruturais, mas subestimava a resist\u00eancia das for\u00e7as conservadoras e, em certos momentos, superestimava a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o de seus aliados. Jango, por sua vez, compreendia a necessidade de preservar alian\u00e7as, mas muitas vezes transformava a prud\u00eancia em hesita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A encampa\u00e7\u00e3o da telefonia ga\u00facha constitui outro cap\u00edtulo essencial da trajet\u00f3ria. Ao enfrentar a Companhia Telef\u00f4nica Nacional, ligada \u00e0 norte-americana International Telephone &amp; Telegraph (ITT), Brizola transformou uma quest\u00e3o empresarial em disputa de soberania. O problema n\u00e3o era apenas quem controlaria determinado servi\u00e7o, mas quem teria autoridade para decidir sobre os instrumentos fundamentais da vida econ\u00f4mica brasileira. A energia, a telefonia e o petr\u00f3leo tornavam-se s\u00edmbolos de uma depend\u00eancia que o nacionalismo brizolista desejava superar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O gesto teve uma dimens\u00e3o administrativa, econ\u00f4mica e teatral. Brizola compreendia a pol\u00edtica como conflito de interesses, mas tamb\u00e9m como disputa de imagens. Uma empresa estrangeira encampada pelo governo estadual convertia-se em emblema da luta contra o imp\u00e9rio. O epis\u00f3dio ampliou sua popularidade, provocou rea\u00e7\u00f5es internacionais e consolidou a imagem do governador como uma amea\u00e7a \u00e0 ordem continental desejada pelos Estados Unidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o agr\u00e1ria tamb\u00e9m revela a amplitude e os riscos de seu programa. A ocupa\u00e7\u00e3o da Fazenda Sarandi, a cria\u00e7\u00e3o do Instituto Ga\u00facho de Reforma Agr\u00e1ria e o apoio ao Movimento dos Agricultores Sem Terra exprimiam a convic\u00e7\u00e3o de que a propriedade privada n\u00e3o poderia ser protegida contra qualquer exig\u00eancia de justi\u00e7a social. Ao mesmo tempo, essas iniciativas intensificaram a oposi\u00e7\u00e3o dos setores conservadores e alimentaram a percep\u00e7\u00e3o de que Brizola pretendia ultrapassar os marcos da legalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas crises que precederam 1964, o livro evita a narrativa retrospectiva que transforma o golpe em desfecho inevit\u00e1vel. O leitor acompanha o entrela\u00e7amento de fatores pol\u00edticos, econ\u00f4micos e internacionais: a radicaliza\u00e7\u00e3o das esquerdas, o medo das elites, a a\u00e7\u00e3o de setores empresariais, a propaganda anticomunista, a influ\u00eancia norte-americana, a crise econ\u00f4mica, a fragilidade do governo e o avan\u00e7o das conspira\u00e7\u00f5es militares. Brizola ocupa posi\u00e7\u00e3o central nesse processo, mas n\u00e3o exclusiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua ret\u00f3rica contribuiu para ampliar o horizonte das reformas e politizar setores sociais at\u00e9 ent\u00e3o afastados da vida p\u00fablica. Tamb\u00e9m ajudou a assustar poss\u00edveis aliados e permitiu que seus advers\u00e1rios apresentassem qualquer projeto de transforma\u00e7\u00e3o como amea\u00e7a revolucion\u00e1ria. A autora n\u00e3o absolve Brizola, mas tampouco aceita a simplifica\u00e7\u00e3o segundo a qual ele teria sido o respons\u00e1vel pelo colapso democr\u00e1tico. O golpe foi uma opera\u00e7\u00e3o ampla, civil e militar, apoiada por interesses internos e externos. Reconhecer os erros de Brizola n\u00e3o significa apagar a responsabilidade de quem destruiu a democracia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ex\u00edlio altera radicalmente a escala do personagem. O homem que antes contava com o aparelho do Estado, com as ruas e com o r\u00e1dio passa a viver entre vigil\u00e2ncia, deslocamentos, alian\u00e7as clandestinas e incertezas. A experi\u00eancia uruguaia revela a diferen\u00e7a entre a pol\u00edtica de massas e a pol\u00edtica conspirativa. A tentativa de organizar resist\u00eancia armada, os contatos com Cuba, o Movimento Nacional Revolucion\u00e1rio e as experi\u00eancias guerrilheiras comp\u00f5em uma fase de desorienta\u00e7\u00e3o progressiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro n\u00e3o romantiza esse per\u00edodo. A autora mostra a coragem dos exilados, mas tamb\u00e9m as divis\u00f5es internas, as precariedades materiais, as suspeitas e os fracassos. A resist\u00eancia armada aparece como resposta ao fechamento completo do sistema pol\u00edtico, mas tamb\u00e9m como estrat\u00e9gia incapaz de encontrar apoio social suficiente. O Brizola da Legalidade, capaz de mobilizar multid\u00f5es, precisa agora operar num universo de pequenos grupos, informa\u00e7\u00f5es incompletas e expectativas frequentemente frustradas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A morte de Che Guevara aprofunda sua crise. O mito revolucion\u00e1rio, que durante algum tempo alimentara sua esperan\u00e7a, revela tamb\u00e9m sua dimens\u00e3o sacrificial. Brizola percebe que a disposi\u00e7\u00e3o moral para lutar n\u00e3o basta para produzir vit\u00f3ria pol\u00edtica. \u00c9 necess\u00e1rio compreender a sociedade, organizar for\u00e7as, construir legitimidade e escolher os meios adequados. A biografia sugere que essa aprendizagem foi dolorosa, mas decisiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A dimens\u00e3o privada do ex\u00edlio acrescenta outra camada \u00e0 narrativa. As dificuldades financeiras, as tens\u00f5es familiares, as doen\u00e7as, os lutos e os problemas enfrentados pelos filhos mostram que o l\u00edder n\u00e3o existia fora do homem. A pol\u00edtica incide sobre os corpos e os afetos. O exilado n\u00e3o \u00e9 apenas uma figura hist\u00f3rica perseguida pelo regime; \u00e9 tamb\u00e9m um marido, um pai e um homem submetido \u00e0 saudade, \u00e0 impot\u00eancia e ao desgaste cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando retorna ao Brasil, em 1979, Brizola \u00e9 recebido como quem regressa de uma longa noite. A passagem por S\u00e3o Borja, a visita aos t\u00famulos de Get\u00falio Vargas e Jo\u00e3o Goulart e a multid\u00e3o que o acompanha constituem uma cerim\u00f4nia de continuidade. Ele volta sem renunciar \u00e0 mem\u00f3ria do passado, mas encontra um pa\u00eds profundamente modificado. A oposi\u00e7\u00e3o se fragmentara, novas lideran\u00e7as surgiam e o trabalhismo j\u00e1 n\u00e3o ocupava sozinho o campo da representa\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A disputa pela reconstru\u00e7\u00e3o do PTB e o surgimento de Luiz In\u00e1cio Lula da Silva evidenciam essa mudan\u00e7a. Brizola desejava um partido amplo, nacional e socialmente articulado, capaz de reunir trabalhadores, setores m\u00e9dios e grupos populares. Lula emergia de uma experi\u00eancia sindical distinta, fundada na autonomia oper\u00e1ria e na desconfian\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s antigas estruturas trabalhistas. O conflito entre os dois n\u00e3o deve ser lido apenas como choque de personalidades. Ele expressa a passagem de uma cultura pol\u00edtica para outra.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A redemocratiza\u00e7\u00e3o, desse modo, n\u00e3o representa a restaura\u00e7\u00e3o do mundo anterior ao golpe. Brizola retorna como herdeiro de uma tradi\u00e7\u00e3o, mas precisa disputar espa\u00e7o num cen\u00e1rio novo. Sua for\u00e7a hist\u00f3rica \u00e9 tamb\u00e9m sua dificuldade de adapta\u00e7\u00e3o. Ele continua a falar com a urg\u00eancia de 1961, enquanto a sociedade brasileira se reorganiza em torno de novas linguagens, novos partidos e novas formas de mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nessa tens\u00e3o entre fidelidade e anacronismo que o livro alcan\u00e7a sua maior densidade. Brizola foi um dos \u00faltimos grandes pol\u00edticos brasileiros a acreditar que a palavra p\u00fablica podia modificar a estrutura do real. Essa cren\u00e7a produziu escolas, obras, campanhas e movimentos de extraordin\u00e1ria pot\u00eancia. Tamb\u00e9m produziu confrontos que nem sempre conduziram \u00e0 vit\u00f3ria. Sua grandeza est\u00e1 insepar\u00e1vel de seus limites.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Karla Monteiro escreve com senso de cena, aten\u00e7\u00e3o ao detalhe e consci\u00eancia da responsabilidade documental. A extensa utiliza\u00e7\u00e3o de jornais, depoimentos, documentos de Estado, arquivos de intelig\u00eancia, mem\u00f3rias e refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas d\u00e1 sustenta\u00e7\u00e3o a uma narrativa que deseja ser, ao mesmo tempo, hist\u00f3rica e liter\u00e1ria. A prosa possui movimento, alterna o \u00edntimo e o p\u00fablico, aproxima o leitor dos ambientes e preserva a tens\u00e3o entre fato e interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O m\u00e9rito essencial da autora est\u00e1 em compreender que uma boa biografia n\u00e3o deve proteger seu personagem da contradi\u00e7\u00e3o. Brizola aparece como herdeiro de Vargas, advers\u00e1rio de Lacerda, aliado e rival de Jango, defensor da soberania, administrador p\u00fablico, l\u00edder popular, conspirador, exilado, marido e pai. Nenhuma dessas identidades \u00e9 suficiente para encerr\u00e1-lo. Elas se sobrep\u00f5em, se corrigem e, por vezes, se contradizem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O lobisomem do t\u00edtulo n\u00e3o \u00e9 somente aquele que assusta o imp\u00e9rio. \u00c9 tamb\u00e9m aquele que revela, sob a apar\u00eancia diurna da ordem, a viol\u00eancia escondida nas institui\u00e7\u00f5es, a depend\u00eancia camuflada de soberania e a desigualdade apresentada como normalidade. Brizola enxergou essas fraturas e tentou enfrent\u00e1-las com os instrumentos de que dispunha. Nem sempre escolheu os meios mais eficazes, mas nunca aceitou a ideia de que a injusti\u00e7a deveria ser preservada em nome da tranquilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao final, <em>Brizola: Lobisomem contra o imp\u00e9rio<\/em> permanece como uma obra sobre um homem, mas tamb\u00e9m sobre a pol\u00edtica brasileira em seu momento mais febril. O livro devolve ao leitor uma figura que n\u00e3o cabe nem no folclore partid\u00e1rio nem na galeria simplista dos vencidos. Brizola \u00e9 apresentado como promessa, excesso, legado e ferida. Sua trajet\u00f3ria continua a interpelar o presente porque exp\u00f5e uma quest\u00e3o que a democracia brasileira ainda n\u00e3o resolveu: como conciliar soberania popular, justi\u00e7a social e estabilidade institucional sem transformar a prud\u00eancia em imobilismo nem a radicalidade em autodestrui\u00e7\u00e3o?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A for\u00e7a da biografia nasce justamente dessa pergunta sem resposta definitiva. Karla Monteiro n\u00e3o encerra o debate sobre Brizola. Ela o reabre com intelig\u00eancia, pesquisa e vigor narrativo. Seu livro mostra que certas personagens n\u00e3o desaparecem quando morrem. Permanecem rondando a hist\u00f3ria, como lobisomens pol\u00edticos, sempre prontos a reaparecer quando a Rep\u00fablica volta a confundir sil\u00eancio com paz.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Leonel Brizola foi um homem que viveu a pol\u00edtica com uma intensidade rara, como se cada disputa de seu tempo tamb\u00e9m dissesse respeito \u00e0 sua pr\u00f3pria vida. 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