{"id":85136,"date":"2026-09-11T08:00:00","date_gmt":"2026-09-11T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85136"},"modified":"2026-09-11T09:25:21","modified_gmt":"2026-09-11T12:25:21","slug":"o-possivel-maior-erro-dos-paranaenses","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/o-possivel-maior-erro-dos-paranaenses\/","title":{"rendered":"O poss\u00edvel maior erro dos paranaenses"},"content":{"rendered":"\n\n\n<figure class=\"wp-block-image alignleft size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"532\" height=\"729\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/montesquieu-biografia-o-espirito-das-leis-separacao-dos-poderes-livros-e-fatos-britannica-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85142\" style=\"width:663px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/montesquieu-biografia-o-espirito-das-leis-separacao-dos-poderes-livros-e-fatos-britannica-1.jpeg 532w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/montesquieu-biografia-o-espirito-das-leis-separacao-dos-poderes-livros-e-fatos-britannica-1-219x300.jpeg 219w\" sizes=\"auto, (max-width: 532px) 100vw, 532px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Montesquieu &#8211; Biografia, O Esp\u00edrito das Leis, Separa\u00e7\u00e3o dos Poderes, Livros e Fatos &#8211; Britannica<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>&#8220;Os ju\u00edzes da na\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o, como dissemos, mais do que a boca que pronuncia as palavras da lei.&#8221;<\/em> Montesquieu, em <em>O Esp\u00edrito das Leis<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na pol\u00edtica, sabemos que o problema come\u00e7a quando o olhar superficial sobre a biografia do candidato substitui o exame rigoroso do car\u00e1ter, das ideias, da coer\u00eancia e da capacidade administrativa. Olhemos com aten\u00e7\u00e3o para o paradoxo no centro da campanha paranaense: um homem que jamais administrou nada, que nunca governou uma cidade, um estado, uma empresa ou sequer uma secretaria, pode tornar-se governador de uma das unidades mais complexas e produtivas da federa\u00e7\u00e3o. O feito, ao se concretizar, acontecer\u00e1 menos pelo que o candidato prop\u00f5e do que pela biografia que construiu, mesmo que eivada de pol\u00eamicas e contradi\u00e7\u00f5es. O Paran\u00e1 que se orgulha do mito do trabalho, da imigra\u00e7\u00e3o que plantou e industrializou o interior, do planejamento que transformou Curitiba em vitrine urbana do pa\u00eds, parece disposto a entregar o Pal\u00e1cio Igua\u00e7u a um homem cuja \u00fanica passagem pelo Executivo durou dezesseis meses e terminou em rompimento ruidoso, com acusa\u00e7\u00f5es graves contra o pr\u00f3prio chefe. E antes de perguntar o que isso diz dele, conv\u00e9m perguntar o que diz sobre os eleitores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O juiz que era o espet\u00e1culo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A carreira que lhe deu fama foi a de juiz, e \u00e9 precisamente a\u00ed que come\u00e7a o problema moral. Montesquieu definiu o magistrado como a boca que pronuncia as palavras da lei, imagem da humildade institucional: o julgador n\u00e3o \u00e9 o dono da senten\u00e7a, \u00e9 o seu servo, e a toga existe para apagar o homem que est\u00e1 atr\u00e1s dela. O juiz Sergio Moro foi o inverso exato dessa imagem. Tornou-se protagonista de uma opera\u00e7\u00e3o que a imprensa consagrou com nome pr\u00f3prio, concedeu entrevistas, colheu o aplauso das ruas, pautou o notici\u00e1rio nacional por anos a fio e tratou como inimigos pessoais aqueles que conduzia ao banco dos r\u00e9us.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imparcialidade, cumpre lembrar, \u00e9 o fundamento moral e jur\u00eddico da magistratura. Sem ela, o juiz deixa de ser um terceiro equidistante e passa a ocupar um lugar indevido no conflito que deveria julgar. A toga n\u00e3o autoriza convic\u00e7\u00f5es pol\u00edticas disfar\u00e7adas de decis\u00f5es t\u00e9cnicas. O juiz n\u00e3o pode desejar o resultado do processo, celebrar seus efeitos p\u00fablicos e, ao mesmo tempo, exigir que a sociedade o reconhe\u00e7a como \u00e1rbitro neutro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando o <em>The Intercept Brasil<\/em> divulgou, em junho de 2019, as mensagens trocadas entre ele e a for\u00e7a-tarefa, o pa\u00eds p\u00f4de ver o que antes apenas se suspeitava: um juiz a orientar o acusador sobre provas, prazos e estrat\u00e9gias, a sugerir movimenta\u00e7\u00f5es processuais, a atuar, na pr\u00e1tica, como membro da acusa\u00e7\u00e3o. Moro contestou a autenticidade do material, mas a revista <em>Veja<\/em>, em parceria com o pr\u00f3prio site, examinou os di\u00e1logos e sustentou, em reportagem de capa publicada no dia 05 de julho, que eles eram verdadeiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Justi\u00e7a, por fim, falou. Em mar\u00e7o de 2021, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal reconheceu, por tr\u00eas votos a dois, a parcialidade do ex-juiz na condu\u00e7\u00e3o do processo do tr\u00edplex, e o Plen\u00e1rio confirmou o veredito em junho, por sete votos a quatro. Em outro julgamento, o Supremo declarou a incompet\u00eancia da 13\u00aa Vara Federal de Curitiba para processar os casos envolvendo o ex-presidente. N\u00e3o se tratava de um detalhe t\u00e9cnico: a Corte enumerou a condu\u00e7\u00e3o coercitiva televisionada, as declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas do julgador, o protagonismo midi\u00e1tico, e concluiu que Moro n\u00e3o julgara como juiz, mas como parte interessada no resultado. A condena\u00e7\u00e3o de julho de 2017, que tantos saudaram, acabou fulminada pelo v\u00edcio de origem. O mais alto tribunal do pa\u00eds disse, sem rodeios, que o m\u00e9todo era o problema. Quem ainda sustenta que tudo n\u00e3o passou de persegui\u00e7\u00e3o pol\u00edtica deveria explicar por que sete ministros, entre conservadores e progressistas, convergiram no mesmo diagn\u00f3stico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O pol\u00edtico sem eixo<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A passagem para a pol\u00edtica n\u00e3o corrigiu o desvio, agravou-o. Em novembro de 2018, Moro aceitou o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a de Jair Bolsonaro, desmentindo tudo o que dissera durante anos, que n\u00e3o tinha ambi\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e que a toga n\u00e3o se trocava por cargos. Trocou. E trocou por um governo cuja fam\u00edlia, poucos meses depois, ele pr\u00f3prio veria sob investiga\u00e7\u00e3o. A sequ\u00eancia \u00e9 vertiginosa e est\u00e1 toda documentada: em janeiro de 2019, em Davos, garantiu que o governo n\u00e3o interferiria nas apura\u00e7\u00f5es sobre o caso Queiroz, que atingia o filho do presidente; em abril de 2020, demitiu-se em pra\u00e7a p\u00fablica, acusando Bolsonaro de querer aparelhar a Pol\u00edcia Federal para &#8220;ligar, colher informa\u00e7\u00f5es e relat\u00f3rio de intelig\u00eancia&#8221; de inqu\u00e9ritos e proteger a fam\u00edlia; no livro <em>Contra o Sistema da Corrup\u00e7\u00e3o<\/em>, escrito depois da sa\u00edda, acusou o ex-presidente de ter usado o governo para blindar o filho no caso da rachadinha e chamou de &#8220;temer\u00e1ria&#8221; a decis\u00e3o que beneficiou Fl\u00e1vio Bolsonaro. &#8220;Um estadista tem o compromisso de dirigir o pa\u00eds pensando no bem-estar geral e n\u00e3o em proteger o filho ou a fam\u00edlia da a\u00e7\u00e3o da lei&#8221;, escreveu. Frase justa, ali\u00e1s, das mais justas que j\u00e1 sa\u00edram de sua pena.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas observem o que veio depois. Em outubro de 2022, j\u00e1 eleito senador pelo Paran\u00e1 com quase dois milh\u00f5es de votos, Moro declarou apoio a Bolsonaro no segundo turno, &#8220;contra o projeto de poder do PT&#8221;, como se o projeto de poder da fam\u00edlia que ele pr\u00f3prio acusara de blindar o filho fosse aceit\u00e1vel. Em mar\u00e7o de 2026 o c\u00edrculo se fecha com uma ironia que dispensa coment\u00e1rios: Moro filiou-se ao PL, o partido que, ao lado do PT, pedira a cassa\u00e7\u00e3o do seu mandato por abuso de poder pol\u00edtico e econ\u00f4mico, processo do qual a Justi\u00e7a Eleitoral o absolveu, e hoje distribui no Paran\u00e1 palanque para Fl\u00e1vio Bolsonaro, o mesmo Fl\u00e1vio que ele acusou, por escrito, de ter sido protegido pelo pai. O partido que tentou destru\u00ed-lo politicamente tornou-se o seu abrigo; o homem cuja fam\u00edlia ele denunciou tornou-se o seu padrinho eleitoral. O seu parceiro de Lava Jato, Deltan Dallagnol, eleito o deputado mais votado do Paran\u00e1 e depois cassado por unanimidade pelo TSE, completa o quadro de uma gera\u00e7\u00e3o que trocou o tribunal pela conveni\u00eancia e perdeu as duas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pol\u00edtica pode abrigar mudan\u00e7as de posi\u00e7\u00e3o, e ningu\u00e9m \u00e9 obrigado a conservar para sempre uma alian\u00e7a ou uma inimizade. O que n\u00e3o pode desaparecer \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o coerente para a mudan\u00e7a. A contradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o reside apenas no apoio posterior. Ela est\u00e1 na dificuldade de conciliar a den\u00fancia moral de ontem com a alian\u00e7a pol\u00edtica de hoje sem oferecer uma interpreta\u00e7\u00e3o consistente sobre o que mudou: Bolsonaro, Moro ou apenas a conveni\u00eancia eleitoral de ambos? A \u00e9tica p\u00fablica n\u00e3o exige que o pol\u00edtico seja incapaz de rever posi\u00e7\u00f5es; exige que ele explique as revis\u00f5es com honestidade intelectual. Um homem que acusa determinado grupo de representar uma amea\u00e7a institucional n\u00e3o pode voltar a esse grupo sem demonstrar, de maneira convincente, que os motivos da acusa\u00e7\u00e3o desapareceram. Caso contr\u00e1rio, o discurso anticorrup\u00e7\u00e3o se revela menos um princ\u00edpio do que uma ferramenta de combate seletivo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem procura coer\u00eancia no percurso de Moro encontra um homem que acusa a fam\u00edlia Bolsonaro de tudo o que a Justi\u00e7a pode acusar e depois se elege sob a prote\u00e7\u00e3o da mesma fam\u00edlia; que denuncia a interfer\u00eancia pol\u00edtica na Pol\u00edcia Federal e aceita a b\u00ean\u00e7\u00e3o do partido que queria cass\u00e1-lo; que dizia combater o sistema e termina no balc\u00e3o de conveni\u00eancias do sistema. N\u00e3o \u00e9 cinismo, \u00e9 coisa pior: \u00e9 a convic\u00e7\u00e3o de que os fins justificam os meios, inclusive os pr\u00f3prios fins, redefinidos a cada ciclo eleitoral. Um homem que acusa hoje e abra\u00e7a amanh\u00e3 n\u00e3o tem princ\u00edpios, tem pre\u00e7os. E o pior \u00e9 que o pre\u00e7o, no seu caso, \u00e9 sempre o mesmo: o cargo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A palavra e o of\u00edcio<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda a quest\u00e3o, delicada e reveladora, da palavra. O portugu\u00eas de Moro virou anedota nacional: o &#8220;conje&#8221; no lugar de c\u00f4njuge, proferido durante sess\u00e3o da Comiss\u00e3o de Constitui\u00e7\u00e3o e Justi\u00e7a (CCJ) da C\u00e2mara dos Deputados, em 03 de abril de 2019, quando ministro da Justi\u00e7a; o &#8220;com mim&#8221; no lugar de comigo, em audi\u00eancia no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-PR) em 07 de dezembro de 2023; os trope\u00e7os j\u00e1 no Roda Viva, em 26 de mar\u00e7o de 2018, quando ainda juiz federal, oportunidade em que chamou a aten\u00e7\u00e3o pelas dificuldades no racioc\u00ednio, na concatena\u00e7\u00e3o de ideias e na fala. Sem contar o vexame no programa \u201cConversa com Bial\u201d, em abril de 2019, quando afirmou que gostava de ler biografias, mas n\u00e3o soube responder o t\u00edtulo da \u00faltima obra do g\u00eanero que havia lido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Importante sublinhar que um erro ocasional de linguagem n\u00e3o desqualifica ningu\u00e9m para o exerc\u00edcio de uma fun\u00e7\u00e3o p\u00fablica; a norma culta n\u00e3o \u00e9 um certificado de intelig\u00eancia, e a pol\u00edtica brasileira est\u00e1 repleta de pessoas escolarizadas que falam mal e de pessoas sem forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica que expressam ideias vigorosas. O problema aparece quando um personagem foi elevado \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de autoridade intelectual e moral justamente por sua suposta superioridade t\u00e9cnica \u2013 posteriormente questionada em diversas ocasi\u00f5es. Nesse caso, as falhas de express\u00e3o deixam de ser apenas um trope\u00e7o: entram em conflito com o perfil desejado para a magistratura e com a imagem que o pr\u00f3prio personagem cultivou.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O juiz vive da palavra: \u00e9 com ela que, ap\u00f3s ouvir as partes e analisar as provas, decide se condena ou absolve. Quem a manuseia com descuido revela desprezo pela precis\u00e3o que exige dos outros, e um juiz que despreza a precis\u00e3o da linguagem despreza, em alguma medida, a precis\u00e3o do pr\u00f3prio direito. Moro j\u00e1 demonstrou tratar a sua palavra como um balc\u00e3o de conveni\u00eancias, onde qualquer palavra serve, desde que sirva ao momento. Rui Barbosa, um dos maiores oradores que o foro brasileiro j\u00e1 conheceu, na <em>Ora\u00e7\u00e3o aos Mo\u00e7os<\/em>, discurso dirigido aos formandos de Direito, definiu a p\u00e1tria como &#8220;a comunh\u00e3o da lei, da l\u00edngua e da liberdade&#8221;. Moro tamb\u00e9m parece desconhecer essa li\u00e7\u00e3o: para Rui, a l\u00edngua n\u00e3o era ornamento, mas um dos pilares sobre os quais se ergue a pr\u00f3pria na\u00e7\u00e3o. Quem trata a palavra como moeda de troca, v\u00e1lida apenas enquanto serve ao momento, n\u00e3o despreza apenas a gram\u00e1tica; despreza o alicerce comum que sustenta a justi\u00e7a e a p\u00e1tria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/rui-barbosa-em-sua-biblioteca-sem-data-autor-desconhecido-arquivo-nacional-750x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85137\" style=\"width:336px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/rui-barbosa-em-sua-biblioteca-sem-data-autor-desconhecido-arquivo-nacional-750x1024.jpg 750w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/rui-barbosa-em-sua-biblioteca-sem-data-autor-desconhecido-arquivo-nacional-220x300.jpg 220w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/rui-barbosa-em-sua-biblioteca-sem-data-autor-desconhecido-arquivo-nacional-767x1048.jpg 767w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/rui-barbosa-em-sua-biblioteca-sem-data-autor-desconhecido-arquivo-nacional.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Rui Barbosa em sua biblioteca, sem data | Autor desconhecido\/Arquivo Nacional.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Analisar o mau uso da palavra por Sergio Moro no exerc\u00edcio de suas fun\u00e7\u00f5es p\u00fablicas n\u00e3o \u00e9 pedantismo. \u00c9 importante para mostrar que a linguagem \u00e9 mais do que ornamenta\u00e7\u00e3o: ela organiza o pensamento, estabelece rela\u00e7\u00f5es de causa e consequ\u00eancia, distingue hip\u00f3tese de certeza, fato de opini\u00e3o e acusa\u00e7\u00e3o de prova. Quando um pol\u00edtico recorre a formula\u00e7\u00f5es imprecisas, slogans repetitivos e frases prontas, o eleitor deveria perguntar se est\u00e1 diante de uma ideia ou de uma performance. A mesma displic\u00eancia com as palavras aparece na dificuldade de sustentar um racioc\u00ednio por mais de um mandato, de manter uma posi\u00e7\u00e3o por mais de uma esta\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. A l\u00edngua trai o pensamento: quem n\u00e3o domina o instrumento com que pensa, pensa mal; e quem pensa mal, decide mal. Um governador decide todos os dias, sobre sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, estradas, seguran\u00e7a, e cada decis\u00e3o se escreve em palavras que precisam ser exatas, porque erros de v\u00edrgula em um edital custam milh\u00f5es, e erros de conceito em uma pol\u00edtica p\u00fablica custam vidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O desconhecimento do Paran\u00e1<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mesmo desconhecimento aparece em entrevistas quando o assunto \u00e9 o pr\u00f3prio estado. Nascer em Maring\u00e1 n\u00e3o basta para conhecer o Paran\u00e1; \u00e9 preciso t\u00ea-lo estudado, percorrido e, sobretudo, respeitado na sua complexidade. A pergunta essencial \u00e9: onde est\u00e1 o projeto de Estado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A candidatura de Moro continua excessivamente apoiada na sua identidade de ex-juiz e na explora\u00e7\u00e3o eleitoral da Lava Jato. Essa identidade pode produzir votos, mas n\u00e3o substitui uma vis\u00e3o sobre o Paran\u00e1. O estado possui desigualdades profundas entre regi\u00f5es, diferentes voca\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, problemas log\u00edsticos, desafios ambientais, tens\u00f5es fundi\u00e1rias, demandas espec\u00edficas de pequenos munic\u00edpios e uma rede de servi\u00e7os p\u00fablicos que n\u00e3o se administra com frases de efeito \u2013 mesmo que para formul\u00e1-las lhe demandem grande esfor\u00e7o. \u00c9 uma das economias mais diversificadas do pa\u00eds, com agricultura forte no Oeste e no Norte, ind\u00fastria automotiva na regi\u00e3o metropolitana, um porto que movimenta a riqueza do continente, fronteiras secas que exigem intelig\u00eancia fiscal e uma popula\u00e7\u00e3o que combina as tradi\u00e7\u00f5es de imigra\u00e7\u00e3o mais variadas. Ou seja, governar exige repert\u00f3rio, e o repert\u00f3rio de Moro, constru\u00eddo nos tribunais de Curitiba e nos palanques de Bras\u00edlia, \u00e9 um repert\u00f3rio que n\u00e3o inclui qualquer experi\u00eancia em gest\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro ponto importante: O Paran\u00e1 n\u00e3o \u00e9 um cen\u00e1rio abstrato para a reencena\u00e7\u00e3o de conflitos nacionais. N\u00e3o \u00e9 apenas um reduto conservador, uma plataforma de oposi\u00e7\u00e3o a Lula ou uma extens\u00e3o eleitoral do bolsonarismo. \u00c9 um territ\u00f3rio marcado pela pluralidade de suas regi\u00f5es, por sua hist\u00f3ria de imigra\u00e7\u00e3o e migra\u00e7\u00e3o, por contrastes entre o campo e as cidades, por comunidades tradicionais, por centros universit\u00e1rios, por uma ind\u00fastria sofisticada e por extensas \u00e1reas ainda carentes de servi\u00e7os essenciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desconhecimento de assuntos ligados ao pr\u00f3prio estado, quando aparece em seus discursos, entrevistas ou declara\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, n\u00e3o \u00e9 mero detalhe folcl\u00f3rico: revela a dist\u00e2ncia entre a pseudocelebridade nacional e o candidato a administrador local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A filosofia pol\u00edtica do salvador<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Max Weber, o maior cientista pol\u00edtico do s\u00e9culo XX, distinguiu a \u00e9tica da convic\u00e7\u00e3o da \u00e9tica da responsabilidade. O homem de convic\u00e7\u00e3o pergunta o que \u00e9 certo, age e lava as m\u00e3os; o homem de responsabilidade pergunta o que o mundo exige, age e responde pelos resultados. O governador \u00e9, por defini\u00e7\u00e3o, um homem de responsabilidade: administra folha, sa\u00fade, estradas, educa\u00e7\u00e3o e presta contas de cada promessa. Moro \u00e9 o prot\u00f3tipo do homem de convic\u00e7\u00e3o, que enxerga o mundo como um tribunal e os advers\u00e1rios como r\u00e9us. Transportar o tribunal para o Pal\u00e1cio Igua\u00e7u seria confundir a natureza das coisas: o governador n\u00e3o condena, governa; n\u00e3o julga, decide; n\u00e3o disp\u00f5e de um pelot\u00e3o de inspetores, disp\u00f5e de um or\u00e7amento, que \u00e9 sempre escasso diante de necessidades infinitas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"748\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/max-weber-1918-ernst-gottmann-britannica-748x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85138\" style=\"width:356px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/max-weber-1918-ernst-gottmann-britannica-748x1024.jpg 748w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/max-weber-1918-ernst-gottmann-britannica-219x300.jpg 219w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/max-weber-1918-ernst-gottmann-britannica-768x1051.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/max-weber-1918-ernst-gottmann-britannica.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 748px) 100vw, 748px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Max Weber, 1918 | Ernst Gottmann &#8211; Britannica<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pol\u00edtico que se apresenta como homem de princ\u00edpios, mas muda de lado sem explicar a mudan\u00e7a, n\u00e3o pratica propriamente a \u00e9tica da convic\u00e7\u00e3o. O pol\u00edtico que promete combater o mal absoluto, sem admitir a complexidade das institui\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m n\u00e3o demonstra \u00e9tica da responsabilidade. Ele apenas transforma a pol\u00edtica em uma disputa entre puros e impuros, na qual sua pr\u00f3pria posi\u00e7\u00e3o aparece sempre como moralmente superior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda o risco mais profundo. A pol\u00edtica brasileira pagou caro pela cren\u00e7a de que resultados excepcionais justificariam procedimentos excepcionais. Parte da sociedade aceitou que a condena\u00e7\u00e3o de determinados advers\u00e1rios era suficiente para validar qualquer irregularidade processual. Esse racioc\u00ednio \u00e9 perigoso porque transforma a Justi\u00e7a em instrumento de confirma\u00e7\u00e3o moral de uma maioria. Hoje ele pode atingir um advers\u00e1rio pol\u00edtico. Amanh\u00e3 pode atingir o grupo que comemorou a puni\u00e7\u00e3o. A democracia n\u00e3o pode ser defendida pela suspens\u00e3o das garantias que a distinguem do arb\u00edtrio; o combate \u00e0 corrup\u00e7\u00e3o n\u00e3o autoriza a flexibiliza\u00e7\u00e3o da imparcialidade, da presun\u00e7\u00e3o de inoc\u00eancia ou da separa\u00e7\u00e3o entre acusa\u00e7\u00e3o e julgamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>O Pr\u00edncipe,<\/em> Maquiavel escreveu que n\u00e3o h\u00e1 empreendimento mais dif\u00edcil de manejar, mais duvidoso de lograr e mais perigoso de conduzir do que introduzir uma nova ordem de coisas. Moro se apresenta exatamente como o homem da nova ordem, o purificador, o que viria para varrer o estado. Mas a hist\u00f3ria das rep\u00fablicas est\u00e1 cheia de salvadores que prometeram purifica\u00e7\u00e3o e entregaram mediocridade; a tenta\u00e7\u00e3o do homem providencial \u00e9 o mais antigo v\u00edcio da nossa tradi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Basta olhar para a It\u00e1lia. No in\u00edcio dos anos 1990, a opera\u00e7\u00e3o M\u00e3os Limpas (<em>Mani Pulite<\/em>) desmontou, a partir de Mil\u00e3o, um sistema de corrup\u00e7\u00e3o que envolvia partidos e empres\u00e1rios, e transformou os ju\u00edzes que a conduziam em her\u00f3is nacionais. O pa\u00eds inteiro aplaudia aqueles magistrados como salvadores da Rep\u00fablica. Mas quando eles desceram do altar para disputar elei\u00e7\u00f5es, a aura que os tornara invenc\u00edveis se dissipou: perderam o prest\u00edgio que os sustentava e a It\u00e1lia ganhou, no lugar de her\u00f3is, pol\u00edticos comuns envoltos em contradi\u00e7\u00f5es. O precedente \u00e9 inc\u00f4modo e se aplica diretamente a Moro. Havia quem temesse, j\u00e1 em novembro de 2018, exatamente esse destino para ele; o tempo encarregou-se de confirmar o temor. O Paran\u00e1, no entanto, n\u00e3o precisa de her\u00f3i; precisa de administrador. A <em>virt\u00f9<\/em> que Maquiavel exigia do pr\u00edncipe novo n\u00e3o era a ret\u00f3rica do tribunal, era a capacidade de dominar a fortuna com as pr\u00f3prias m\u00e3os; e a pol\u00edtica, como ensinava Max Weber em <em>A Pol\u00edtica como Voca\u00e7\u00e3o<\/em>, deve equilibrar duas \u00e9ticas fundamentais: a \u00e9tica da convic\u00e7\u00e3o e a \u00e9tica da responsabilidade.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"796\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/nicolau-maquiavel-1500-santi-di-tito-796x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85139\" style=\"width:404px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/nicolau-maquiavel-1500-santi-di-tito-796x1024.jpg 796w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/nicolau-maquiavel-1500-santi-di-tito-233x300.jpg 233w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/nicolau-maquiavel-1500-santi-di-tito-768x988.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/nicolau-maquiavel-1500-santi-di-tito.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 796px) 100vw, 796px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Nicolau Maquiavel, 1500 | \u00d3leo sobre madeira de Santi di Tito<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A democracia madura n\u00e3o elege santos. Elege administradores submetidos \u00e0 lei, ao controle p\u00fablico e \u00e0 possibilidade de cr\u00edtica. O Paran\u00e1 n\u00e3o precisa de um governador que se apresente como juiz da sociedade. Precisa de algu\u00e9m capaz de reconhecer problemas antes que eles se convertam em esc\u00e2ndalos, dialogar com for\u00e7as divergentes e administrar sem confundir firmeza com inflexibilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O erro seria eleger a ilus\u00e3o<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O poss\u00edvel maior erro dos paranaenses seria eleger a ilus\u00e3o de que a biografia de um juiz que buscou tornar-se celebridade substitui o of\u00edcio de governar, e de que a firmeza contra a corrup\u00e7\u00e3o, demonstrada a golpes de espet\u00e1culo e desmentida a golpes de alian\u00e7a, \u00e9 prova de capacidade administrativa. Seria permitir que a mem\u00f3ria da Lava Jato substitu\u00edsse a discuss\u00e3o sobre sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o, seguran\u00e7a, infraestrutura, inova\u00e7\u00e3o, agricultura, meio ambiente e equil\u00edbrio regional. Seria aceitar que o passado judicial de um candidato \u2013 questionado em diversas inst\u00e2ncias \u2013 funcionasse como salvo-conduto para seu despreparo pol\u00edtico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sergio Moro pode conquistar uma elei\u00e7\u00e3o. As pesquisas indicam que sua candidatura \u00e9 competitiva. Mas vencer uma elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o transforma incoer\u00eancia em virtude, parcialidade em imparcialidade ou celebridade em estadista. O voto popular confere legitimidade ao mandato, mas n\u00e3o apaga a obriga\u00e7\u00e3o de examinar o passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Paran\u00e1 deveria escolher seu pr\u00f3ximo governador pela qualidade das respostas que oferece, pela consist\u00eancia de suas alian\u00e7as, pela compreens\u00e3o do estado que pretende dirigir e pela disposi\u00e7\u00e3o de respeitar institui\u00e7\u00f5es mesmo quando elas contrariem seus interesses. Eleger a ilus\u00e3o tem pre\u00e7o, e o pre\u00e7o se paga em mandato inteiro, em anos perdidos, em pol\u00edticas p\u00fablicas concebidas para a c\u00e2mera e n\u00e3o para a popula\u00e7\u00e3o. Se ele vencer, o Paran\u00e1 descobrir\u00e1, ao custo de quatro anos, que o homem que acusa hoje e abra\u00e7a amanh\u00e3 n\u00e3o era o que parecia quando a c\u00e2mera ligava; e descobrir\u00e1 tamb\u00e9m que n\u00e3o h\u00e1 carta branca que resista \u00e0 realidade da administra\u00e7\u00e3o, nem toga que proteja o governador da presta\u00e7\u00e3o de contas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Resta saber se os paranaenses querem pagar esse pre\u00e7o para aprender o que j\u00e1 sabiam: que tribunal n\u00e3o \u00e9 governo e que justi\u00e7a sem imparcialidade \u00e9 apenas o nome que damos \u00e0 vingan\u00e7a organizada. Se elegerem Moro sem exigir respostas, talvez n\u00e3o estejam apenas escolhendo um governante controverso. Consagrar\u00e3o uma ideia de pol\u00edtica na qual a pose de integridade vale mais do que a integridade demonstrada, a acusa\u00e7\u00e3o vale mais do que a prova e a conveni\u00eancia vale mais do que a coer\u00eancia. Esse seria, possivelmente, o maior erro pol\u00edtico de um Estado que merece muito mais do que a repeti\u00e7\u00e3o de seus pr\u00f3prios mitos. A escolha, como sempre, \u00e9 deles. O erro, se vier, ser\u00e1 deles tamb\u00e9m, e n\u00e3o haver\u00e1 juiz, por mais c\u00e9lebre que seja, para absolv\u00ea-los da hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Os ju\u00edzes da na\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o, como dissemos, mais do que a boca que pronuncia as palavras da lei.&#8221; Montesquieu, em O Esp\u00edrito das Leis Por Cristiano Goldschmidt Na pol\u00edtica, sabemos que o problema come\u00e7a quando o olhar superficial sobre a biografia do candidato substitui o exame rigoroso do car\u00e1ter, das ideias, da coer\u00eancia e 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