{"id":85147,"date":"2026-09-10T20:05:41","date_gmt":"2026-09-10T23:05:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85147"},"modified":"2026-09-10T20:05:43","modified_gmt":"2026-09-10T23:05:43","slug":"a-republica-rio-grandenseque-nunca-foi-abolicionista","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/a-republica-rio-grandenseque-nunca-foi-abolicionista\/","title":{"rendered":"A Rep\u00fablica Rio-grandense,que nunca foi abolicionista"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Cleber Dioni Tentardini<\/strong><br>Foi em 11 de setembro de 1836 que o general farrapo Ant\u00f4nio<br>de Souza Neto declarou o Rio Grande do Sul uma rep\u00fablica<br>independente do Brasil. H\u00e1 190 anos.<br>A Rep\u00fablica Rio-grandense funcionou com minist\u00e9rios,<br>secretarias, servi\u00e7os de pol\u00edcia, correios. Teve bandeira, hino,<br>dinheiro e leis pr\u00f3prias.<br>O Rio Grande do Sul era um ermo. Havia cerca de 170 mil<br>habitantes em toda a prov\u00edncia, bem despovoada. O maior n\u00facleo era<br>Rio Pardo, que tinha uns tr\u00eas mil moradores. De l\u00e1, sa\u00edram Bag\u00e9,<br>Alegrete, Ros\u00e1rio\u2026\u00a0A cidade de Porto Alegre tinha cerca de dois mil<br>habitantes. A Santa Casa ficava fora dos port\u00f5es da cidade. O<br>cemit\u00e9rio era atr\u00e1s da Catedral. Era um n\u00facleo pequeno. A maioria<br>das pessoas se conhecia. Em todo o territ\u00f3rio do munic\u00edpio, que ia de<br>Viam\u00e3o a Triunfo, havia 14 mil moradores.<br>A economia estava nas ch\u00e1caras, que produziam mais do que<br>as grandes fazendas de cria\u00e7\u00e3o e alimentavam os habitantes. As<br>ch\u00e1caras vendiam leite, frutas, verduras, ovos, porcos, galinhas. Era<br>a fonte de \u00e1gua tamb\u00e9m. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As fazendas de cria\u00e7\u00e3o mandavam gado para as charqueadas do Uruguai porque n\u00e3o pagavam imposto. Se enviassem para Pelotas, por exemplo, tinha que pagar. Outra quest\u00e3o \u00e9 que os fazendeiros n\u00e3o gastavam o dinheiro aqui,<br>compravam m\u00f3veis em Montevid\u00e9u, as mulheres compravam<br>vestidos na Fran\u00e7a.<br>A primeira experi\u00eancia republicana no Brasil durou oito anos e<br>cinco meses. Os Farrapos s\u00f3 rabiscaram e imprimiram um projeto de<br>Constitui\u00e7\u00e3o para o novo pa\u00eds, que n\u00e3o chegou a ser\u00a0votado.<br>Durou at\u00e9 o dia 28 de fevereiro de 1845, quando os revoltosos<br>aceitaram os termos de rendi\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Rendi\u00e7\u00e3o, sim. N\u00e3o houve tratado de paz porque o Imp\u00e9rio nunca a reconheceu como na\u00e7\u00e3o. Houve um acordo, com pedidos de anistia que deveriam ser assinados pelos l\u00edderes Farrapos. Caxias recebeu ordens do ministro da Guerra para conceder as anistias, que j\u00e1 veio impressa.<br>Tinha um empecilho: os escravos. Os negros. Havia \u00edndios<br>tamb\u00e9m entre os pe\u00f5es e soldados, mas n\u00e3o eram escravizados, por<br>lei. Se fossem, eles preferiam tirar a pr\u00f3pria vida.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Imp\u00e9rio nunca considerou libertar os negros porque haveria<br>rebeli\u00f5es nas demais prov\u00edncias. E quase ningu\u00e9m era abolicionista entre os Farrapos. Um ou outro oficial sustentou a liberdade dos<br>negros que lutaram em suas fileiras, como os generais Bento<br>Gon\u00e7alves e Neto, que se retiraram das refregas antes do massacre<br>em Porongos. E mesmo eles tinham v\u00e1rios escravos. Significavam<br>m\u00e3o de obra e poder.<br>Em conluio com Caxias, o general David Canabarro, ent\u00e3o<br>comandante-em-chefe dos Farrapos, mandou retirar \u00e0 noite as<br>pedras de pederneiras dos fuzis da infantaria, formada por negros.<br>Mais de cem foram mortos. N\u00e3o foram lanceiros os mortos ali. Os<br>lanceiros negros foram tra\u00eddos tamb\u00e9m, mas quando foram entregues<br>aos imperiais depois da guerra, na fazenda dos Cunhas, onde os<br>Farrapos entregaram todo o armamento para os oficiais de Caxias.<br>O historiador Moacyr Flores autor de mais de vinte livros, sete<br>sobre os Farrapos, afirma que houve um acordo para p\u00f4r fim \u00e0 guerra<br>em 1843, pouco antes do combate do Ponche Verde, onde os<br>Farrapos deveriam ser derrotados e, ent\u00e3o, seria concedida a anistia<br>aos oficiais. Mas a combina\u00e7\u00e3o n\u00e3o deu certo, porque os Farrapos<br>estavam em bom n\u00famero e melhor posicionados, ent\u00e3o sustentaram<br>a luta. \u00c0 noite, ambas as for\u00e7as se retiraram da batalha.<br>Segundo Flores, a famosa carta de Caxias para Francisco de<br>Abreu, o Moringue, informando sobre o acerto com Canabarro \u00e9<br>verdadeira. \u201cA correspond\u00eancia era manuscrita. O Caxias pode ter<br>feito um rascunho, chamado borrador, e seu secret\u00e1rio, que era um<br>sobrinho, passou a limpo. Fizeram uma c\u00f3pia para deixar no arquivo<br>do Caxias, escrito no alto da folha a palavra c\u00f3pia, e enviaram a<br>original para o Moringue. Eu esmiucei isso a\u00ed. Essa c\u00f3pia foi escrita<br>em livro, n\u00e3o foram folhas avulsas. E h\u00e1 uma sequ\u00eancia, uma ordem<br>no livro, n\u00e3o tem como embutir no meio das outras. O Caldeira, que<br>era comandante dos lanceiros negros, sustentou que houve a trai\u00e7\u00e3o<br>do Canabarro. O Domingos Jos\u00e9 de Almeida confirma que esteve<br>com o Moringue e este lhe mostrou a carta original do Caxias.\u201d<br>Moringue atacou apenas um dos tr\u00eas acampamentos, deixando<br>o dos brancos e dos \u00edndios fugirem, pois conforme ordens de Caxias,<br>eles poderiam ser \u00fateis mais tarde. Canabarro fugiu, deixando para<br>tr\u00e1s sua carretilha com todo o arquivo, mas que foi devolvido a ele.<br>A entrevista completa com Moacyr Flores est\u00e1 aqui:<br><a href=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/moacyr-flores-nao-foi-o-rio-\">https:\/\/www.jornalja.com.br\/especiais\/moacyr-flores-nao-foi-o-rio-<\/a><br>grande-que-se-levantou-contra-o-imperio\/<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cleber Dioni TentardiniFoi em 11 de setembro de 1836 que o general farrapo Ant\u00f4niode Souza Neto declarou o Rio Grande do Sul uma rep\u00fablicaindependente do Brasil. H\u00e1 190 anos.A Rep\u00fablica Rio-grandense funcionou com minist\u00e9rios,secretarias, servi\u00e7os de pol\u00edcia, correios. Teve bandeira, hino,dinheiro e leis pr\u00f3prias.O Rio Grande do Sul era um ermo. 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