{"id":85168,"date":"2026-09-15T17:07:38","date_gmt":"2026-09-15T20:07:38","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85168"},"modified":"2026-09-15T17:08:15","modified_gmt":"2026-09-15T20:08:15","slug":"czeslaw-milosz-a-lingua-como-patria-a-poesia-como-testemunho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/czeslaw-milosz-a-lingua-como-patria-a-poesia-como-testemunho\/","title":{"rendered":"Czes\u0142aw Mi\u0142osz: A l\u00edngua como p\u00e1tria, a poesia como testemunho"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre 1996 e 1997, Marcelo Paiva de Souza e eu dividimos um quarto por pouco mais de um ano em um hotel de estudantes em Crac\u00f3via, na Pol\u00f4nia, onde estud\u00e1vamos l\u00edngua, hist\u00f3ria e cultura polonesa no Instytut Polonijny, ligado \u00e0 Universidade Jaguel\u00f4nica (Uniwersytet Jagiello\u0144ski). Eu tinha ent\u00e3o vinte anos rec\u00e9m-completados. Marcelo, aos vinte e sete, aprendia polon\u00eas e se preparava para o doutorado em literatura comparada na mesma universidade, onde veio a desenvolver pesquisa sobre as obras de Oswald de Andrade e Stanis\u0142aw Ignacy Witkiewicz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Marcelo j\u00e1 se destacava, naquela \u00e9poca, como um verdadeiro prod\u00edgio na aprendizagem de l\u00ednguas estrangeiras \u2013 fala alem\u00e3o, espanhol, ingl\u00eas, italiano, franc\u00eas e polon\u00eas. Havia nele uma aten\u00e7\u00e3o incomum para os mecanismos \u00edntimos de cada idioma, para as suas sonoridades, irregularidades e formas de organizar a experi\u00eancia comunicativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para n\u00f3s, dois jovens estudantes brasileiros dedicados, o polon\u00eas, com a sua espessura hist\u00f3rica e a sua complexidade gramatical, n\u00e3o nos aparecia como uma barreira intranspon\u00edvel, mas como uma paisagem que exigia observa\u00e7\u00e3o, disciplina e conviv\u00eancia. Mesmo assim, o meu processo de aprendizagem s\u00f3 teve avan\u00e7os e \u00eaxito gra\u00e7as ao apoio daquele g\u00eanio da lingu\u00edstica com quem tive o privil\u00e9gio de conviver naquele per\u00edodo inicial de minha estadia em Crac\u00f3via.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa lembran\u00e7a n\u00e3o constitui um dado lateral diante de <em>Para isso fui chamado: poemas<\/em>, de Czes\u0142aw Mi\u0142osz, publicado pela Companhia das Letras com sele\u00e7\u00e3o, tradu\u00e7\u00e3o e introdu\u00e7\u00e3o de Marcelo Paiva de Souza. Ela ajuda a compreender a natureza de uma tarefa tradut\u00f3ria que exige muito mais do que equival\u00eancia lexical. Traduzir Mi\u0142osz \u00e9 entrar numa l\u00edngua marcada pela hist\u00f3ria, pelo catolicismo, pela experi\u00eancia do ex\u00edlio, pelas guerras, pelo trauma do totalitarismo e pela perman\u00eancia de paisagens que sobrevivem aos homens que as habitaram. \u00c9 preciso escutar, em cada poema, n\u00e3o apenas aquilo que \u00e9 dito, mas tamb\u00e9m as camadas de mem\u00f3ria que tornam poss\u00edvel a sua dic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1036\" height=\"1599\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-czeslaw-milosz-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85171\" style=\"aspect-ratio:0.6479126330308898;width:434px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-czeslaw-milosz-1.jpeg 1036w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-czeslaw-milosz-1-194x300.jpeg 194w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-czeslaw-milosz-1-768x1185.jpeg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-czeslaw-milosz-1-663x1024.jpeg 663w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-czeslaw-milosz-1-995x1536.jpeg 995w\" sizes=\"auto, (max-width: 1036px) 100vw, 1036px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A antologia apresenta ao leitor brasileiro um amplo percurso pela obra po\u00e9tica de Mi\u0142osz, Nobel de Literatura de 1980, desde os textos da juventude, escritos nos anos 1930, at\u00e9 os poemas tardios e os \u00faltimos escritos. Organizada cronologicamente, a sele\u00e7\u00e3o acompanha as mudan\u00e7as de tom, de forma e de perspectiva de um poeta que atravessou quase todo o s\u00e9culo XX. O volume n\u00e3o oferece um retrato im\u00f3vel do escritor consagrado, nem reduz sua poesia a uma f\u00f3rmula tem\u00e1tica. Pelo contr\u00e1rio, permite observar a forma\u00e7\u00e3o de uma voz que se transforma sem perder seu n\u00facleo de inquieta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A estrutura do livro \u00e9 essencial para essa experi\u00eancia. Em edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue, os poemas aparecem em polon\u00eas e em portugu\u00eas, numa disposi\u00e7\u00e3o paralela que preserva a presen\u00e7a material da l\u00edngua de partida. A sele\u00e7\u00e3o se organiza a partir de diferentes momentos da trajet\u00f3ria de Mi\u0142osz, incluindo conjuntos como <em>Tr\u00eas invernos<\/em>, <em>Salva\u00e7\u00e3o<\/em>, <em>Luz do dia<\/em>, <em>O rei Popiel e outros poemas<\/em>, <em>Gucio enfeiti\u00e7ado<\/em>, <em>Cidade sem nome<\/em>, <em>Terra inabarcada<\/em>, <em>Cr\u00f4nicas<\/em>, <em>Cercanias ao longe<\/em>, <em>\u00c0 beira do rio<\/em>, <em>Isto<\/em> e <em>\u00daltimos poemas<\/em>. O leitor percebe, assim, que est\u00e1 diante de uma obra em movimento, atravessada por transforma\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas, geogr\u00e1ficas, filos\u00f3ficas e espirituais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mi\u0142osz foi um poeta profundamente ligado \u00e0 experi\u00eancia hist\u00f3rica, mas sua poesia n\u00e3o se limita ao testemunho. A hist\u00f3ria, em seus poemas, n\u00e3o aparece como cen\u00e1rio externo ou simples repert\u00f3rio de acontecimentos. Ela invade a consci\u00eancia, altera a percep\u00e7\u00e3o das coisas, modifica o valor das palavras e obriga o poema a se perguntar qual pode ser a fun\u00e7\u00e3o da linguagem depois da cat\u00e1strofe. A guerra, o ex\u00edlio e o totalitarismo n\u00e3o s\u00e3o apenas assuntos sobre os quais o poeta escreve. S\u00e3o for\u00e7as que pressionam a pr\u00f3pria estrutura do discurso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em parte significativa dos poemas da juventude, percebe-se uma tens\u00e3o entre o desejo de encontrar alguma forma de ordem e a consci\u00eancia da instabilidade hist\u00f3rica. Em <em>Tr\u00eas invernos<\/em>, a esta\u00e7\u00e3o fria n\u00e3o funciona apenas como imagem de tristeza ou de pressentimento individual. O inverno contribui para uma atmosfera de suspens\u00e3o e amea\u00e7a, na qual a paisagem parece registrar uma crise que ultrapassa a esfera privada. A natureza, em Mi\u0142osz, raramente \u00e9 apenas decorativa: seus elementos podem adquirir valor hist\u00f3rico e simb\u00f3lico, como se conservassem sinais de uma experi\u00eancia que a mem\u00f3ria humana tenta compreender.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa rela\u00e7\u00e3o entre poesia e responsabilidade torna-se particularmente intensa em <em>Salva\u00e7\u00e3o<\/em>, conjunto marcado pela experi\u00eancia da guerra e do p\u00f3s-guerra. O poeta se defronta com uma dificuldade que atravessa a literatura europeia do s\u00e9culo XX: como continuar escrevendo depois que a linguagem foi mobilizada para legitimar a propaganda, as ideologias e diversas formas de viol\u00eancia? Em vez de responder a essa crise por meio de uma ret\u00f3rica de grandiloqu\u00eancia moral, Mi\u0142osz desenvolve uma dic\u00e7\u00e3o de conten\u00e7\u00e3o e gravidade, atenta \u00e0 materialidade da experi\u00eancia e desconfiada das f\u00f3rmulas que pretendem oferecer explica\u00e7\u00f5es definitivas para o sofrimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Um pobre crist\u00e3o olha para o gueto<\/em> \u00e9 exemplar nesse sentido. O poema n\u00e3o apresenta apenas um observador diante da trag\u00e9dia, mas uma consci\u00eancia obrigada a reconhecer a pr\u00f3pria insufici\u00eancia perante o horror. O ato de olhar deixa de ser uma opera\u00e7\u00e3o neutra e se converte numa quest\u00e3o moral: quem contempla n\u00e3o permanece inteiramente fora do acontecimento, ainda que n\u00e3o possa repar\u00e1-lo. Culpa, impot\u00eancia e responsabilidade se aproximam numa experi\u00eancia em que a linguagem parece incapaz de restituir o que foi destru\u00eddo. A pobreza anunciada pelo t\u00edtulo pode ser entendida, assim, como a pobreza de uma consci\u00eancia que se reconhece limitada diante do sofrimento hist\u00f3rico e da exig\u00eancia de encontrar palavras para aquilo que excede toda explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A poesia de Mi\u0142osz est\u00e1 atravessada por uma imagina\u00e7\u00e3o religiosa, mas sua rela\u00e7\u00e3o com a f\u00e9 raramente assume a forma de uma certeza pacificada. Em diferentes momentos do livro, Deus surge como interlocutor da d\u00favida, horizonte de justi\u00e7a e problema teol\u00f3gico. A experi\u00eancia religiosa permanece em tens\u00e3o com o sofrimento, a culpa, a morte e a liberdade humana. Por isso, a dimens\u00e3o metaf\u00edsica de sua poesia n\u00e3o elimina a interroga\u00e7\u00e3o; ao contr\u00e1rio, torna mais aguda a pergunta sobre o mal e sobre a possibilidade de encontrar sentido numa realidade marcada pela viol\u00eancia e pela perda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa tens\u00e3o aparece de modo especial em <em>Um alco\u00f3latra chega aos port\u00f5es do c\u00e9u<\/em>. A presen\u00e7a do alco\u00f3latra diante da eternidade impede que a quest\u00e3o da salva\u00e7\u00e3o seja tratada de maneira abstrata. A figura do homem vulner\u00e1vel, confrontado com a culpa, o sofrimento e a pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, permite que o poema aproxime quest\u00f5es como liberdade e destino, responsabilidade e miseric\u00f3rdia. Em vez de oferecer uma alegoria moral fechada, o texto preserva a ambiguidade da experi\u00eancia humana diante de Deus. A voz po\u00e9tica se aproxima do interlocutor divino sem partir de uma certeza pacificada, e o que se ouve \u00e9 uma interroga\u00e7\u00e3o marcada simultaneamente por humor, sofrimento e desamparo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos movimentos mais constantes da obra \u00e9 o retorno \u00e0s coisas concretas. Em vez de submeter o mundo a uma teoria, Mi\u0142osz procura devolver \u00e0s coisas sua presen\u00e7a. Essa atitude se manifesta com particular intensidade em <em>Forja<\/em>, poema inclu\u00eddo na se\u00e7\u00e3o <em>Cercanias ao longe<\/em>. A imagem do trabalho material e da transforma\u00e7\u00e3o pode ser relacionada \u00e0 pr\u00f3pria atividade po\u00e9tica, desde que essa leitura n\u00e3o converta o texto numa simples alegoria sobre o fazer art\u00edstico. Em Mi\u0142osz, a mat\u00e9ria permanece mat\u00e9ria: o poss\u00edvel s\u00edmbolo nasce da resist\u00eancia do mundo concreto, n\u00e3o de sua elimina\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Ode ao p\u00e1ssaro<\/em>, essa aten\u00e7\u00e3o \u00e0 presen\u00e7a das coisas se desloca para o problema da linguagem. O p\u00e1ssaro surge como uma realidade que n\u00e3o se deixa esgotar pelo nome que recebe nem pela descri\u00e7\u00e3o que o poema lhe oferece. Nomear n\u00e3o \u00e9 possuir. A linguagem pode aproximar-se do mundo, mas n\u00e3o o encerra. Essa consci\u00eancia de seu pr\u00f3prio limite n\u00e3o conduz Mi\u0142osz ao sil\u00eancio; torna sua dic\u00e7\u00e3o mais cuidadosa, como se escrever fosse uma maneira de preservar, na palavra, aquilo que a palavra jamais conseguir\u00e1 dominar por inteiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o da l\u00edngua adquire intensidade ainda maior na experi\u00eancia do ex\u00edlio. Distante da Pol\u00f4nia, vivendo em diferentes pa\u00edses e atravessando sistemas culturais diversos, Mi\u0142osz transforma o polon\u00eas numa esp\u00e9cie de p\u00e1tria port\u00e1til. Em <em>Minha fiel l\u00edngua<\/em>, a l\u00edngua n\u00e3o \u00e9 um instrumento neutro \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o do indiv\u00edduo. Ela \u00e9 heran\u00e7a, mem\u00f3ria, paisagem, inf\u00e2ncia, tradi\u00e7\u00e3o e conflito. Carrega vozes familiares, nomes de lugares, recorda\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e as marcas da viol\u00eancia pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ser fiel \u00e0 l\u00edngua, em Mi\u0142osz, n\u00e3o equivale a conserv\u00e1-la intacta. A fidelidade verdadeira consiste em obrig\u00e1-la a dizer aquilo que preferiria ocultar. A l\u00edngua permanece viva porque aceita ser interrogada, deslocada e renovada. \u00c9 justamente nesse ponto que a tradu\u00e7\u00e3o de Marcelo Paiva de Souza adquire import\u00e2ncia cr\u00edtica. O tradutor precisa fazer o portugu\u00eas receber uma experi\u00eancia po\u00e9tica que se formou em outra hist\u00f3ria, sob outras condi\u00e7\u00f5es sonoras e culturais, sem dissolver sua alteridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tradu\u00e7\u00e3o apresentada no volume parece enfrentar dois perigos opostos. O primeiro seria a literalidade r\u00edgida, que preservaria a ordem superficial das palavras, mas sacrificaria o movimento do poema. O segundo seria uma liberdade excessiva, capaz de produzir versos elegantes em portugu\u00eas, por\u00e9m desligados da estrutura de pensamento e da temperatura emocional do original. Marcelo procura uma terceira via, fundada no equil\u00edbrio entre precis\u00e3o e respira\u00e7\u00e3o po\u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu dom\u00ednio e sua experi\u00eancia com o polon\u00eas se fazem percept\u00edveis n\u00e3o como exibi\u00e7\u00e3o de erudi\u00e7\u00e3o, mas como controle. A tradu\u00e7\u00e3o n\u00e3o parece desejar chamar aten\u00e7\u00e3o para si mesma a cada verso. Ela busca oferecer ao leitor uma l\u00edngua portuguesa suficientemente natural para que o poema respire, mas suficientemente atenta para n\u00e3o apagar sua origem. O resultado \u00e9 particularmente importante em Mi\u0142osz, cuja poesia alterna narra\u00e7\u00e3o, reflex\u00e3o filos\u00f3fica, ora\u00e7\u00e3o, descri\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria e di\u00e1logo com outros autores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A apresenta\u00e7\u00e3o bil\u00edngue favorece essa percep\u00e7\u00e3o. O leitor encontra o texto polon\u00eas e a tradu\u00e7\u00e3o portuguesa em paralelo, numa disposi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o tenta fazer uma l\u00edngua desaparecer dentro da outra. Mesmo quem n\u00e3o l\u00ea polon\u00eas percebe visualmente a exist\u00eancia de uma dist\u00e2ncia. O poema traduzido n\u00e3o se oferece como substituto absoluto do original, mas como uma forma de aproxima\u00e7\u00e3o consciente. A p\u00e1gina lembra que toda tradu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma ponte constru\u00edda sobre uma separa\u00e7\u00e3o que n\u00e3o pode ser eliminada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As notas do tradutor tamb\u00e9m participam desse trabalho de aproxima\u00e7\u00e3o. Elas esclarecem refer\u00eancias hist\u00f3ricas, culturais e lingu\u00edsticas presentes nos poemas, incluindo nomes pr\u00f3prios, alus\u00f5es liter\u00e1rias, elementos da tradi\u00e7\u00e3o polonesa e express\u00f5es espec\u00edficas. A nota sobre <em>Esse<\/em>, por exemplo, explica o sentido da palavra latina; outras esclarecem a lenda do rei Popiel, o termo <em>wiennik<\/em> e refer\u00eancias a figuras como Witold Gombrowicz, Budberg e Shih-Hsiang Chen. Esses coment\u00e1rios oferecem ao leitor instrumentos para atravessar zonas de dif\u00edcil acesso sem substituir a leitura dos poemas por uma interpreta\u00e7\u00e3o fechada. O resultado \u00e9 uma media\u00e7\u00e3o cr\u00edtica que amplia o contexto da obra sem eliminar sua alteridade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A introdu\u00e7\u00e3o de Marcelo Paiva de Souza cumpre fun\u00e7\u00e3o semelhante. O ensaio situa Mi\u0142osz em seu tempo, acompanha os acontecimentos que marcaram sua forma\u00e7\u00e3o e apresenta as principais tens\u00f5es de sua obra, mas n\u00e3o reduz os poemas a ilustra\u00e7\u00f5es de uma biografia. O autor aparece como poeta, ensa\u00edsta, romancista, diplomata, tradutor e professor, al\u00e9m de escritor marcado pelo ex\u00edlio e pela experi\u00eancia dos regimes totalit\u00e1rios. No entanto, nenhuma dessas identidades esgota sua poesia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sele\u00e7\u00e3o permite acompanhar a passagem progressiva da viol\u00eancia hist\u00f3rica para uma medita\u00e7\u00e3o mais ampla sobre o tempo, a velhice e a morte. Nos poemas tardios, o envelhecimento n\u00e3o reduz o mundo a um repert\u00f3rio de recorda\u00e7\u00f5es. Ao contr\u00e1rio, as coisas continuam excessivas e surpreendentes: livros, animais, pinturas, paisagens, cidades, nomes de amigos, imagens religiosas e epis\u00f3dios aparentemente banais. A velhice n\u00e3o produz serenidade autom\u00e1tica. Ela intensifica a consci\u00eancia da perda e torna ainda mais exigente a pergunta sobre o que pode permanecer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Mittelbergheim<\/em> revela outra dimens\u00e3o da poesia de Mi\u0142osz. A paisagem n\u00e3o aparece apenas como cen\u00e1rio, mas como espa\u00e7o de mem\u00f3ria e de reflex\u00e3o sobre a passagem do tempo. O pr\u00f3prio t\u00edtulo, a indica\u00e7\u00e3o de que o poema foi escrito em <em>Mittelbergheim,<\/em> na Als\u00e1cia, em 1951, e a dedicat\u00f3ria a Stanis\u0142aw Vincenz conferem ao texto uma espessura geogr\u00e1fica e afetiva. A localidade pode ser lida como uma possibilidade de pausa diante da inquieta\u00e7\u00e3o do ex\u00edlio e do envelhecimento, embora a serenidade sugerida pelo poema n\u00e3o elimine a consci\u00eancia da transitoriedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>O Fausto de Vars\u00f3via<\/em>, a tradi\u00e7\u00e3o f\u00e1ustica \u00e9 colocada em contato com a experi\u00eancia hist\u00f3rica da Pol\u00f4nia devastada pela guerra. O t\u00edtulo aproxima o imagin\u00e1rio europeu de Fausto da realidade de Vars\u00f3via, marcada pelo gueto, pela viol\u00eancia e pela mem\u00f3ria do Holocausto. A figura f\u00e1ustica deixa de pertencer apenas ao repert\u00f3rio da especula\u00e7\u00e3o intelectual e passa a ser confrontada com uma hist\u00f3ria concreta de destrui\u00e7\u00e3o, culpa e sofrimento. O poema n\u00e3o recorre ao mito para escapar da hist\u00f3ria; ao contr\u00e1rio, faz com que a tradi\u00e7\u00e3o de Fausto seja atravessada pela cat\u00e1strofe hist\u00f3rica e adquira, nesse contato, uma gravidade nova.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>Os past\u00e9is de Degas<\/em> constituem um exemplo expressivo da rela\u00e7\u00e3o entre arte, mem\u00f3ria e tempo. As figuras femininas contempladas pelo poeta n\u00e3o s\u00e3o apenas corpos preservados pela pintura. Elas pertencem a um passado que as obras de arte mant\u00eam vis\u00edvel, mas n\u00e3o podem restituir integralmente. As imagens oferecem uma forma de perman\u00eancia, embora tamb\u00e9m revelem a dist\u00e2ncia entre aquilo que sobrevive e a vida que j\u00e1 n\u00e3o pode ser recuperada. O poema pode ser lido, assim, como uma reflex\u00e3o sobre a contempla\u00e7\u00e3o est\u00e9tica e sobre a impossibilidade de alcan\u00e7ar inteiramente o passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Orfeu e Eur\u00eddice<\/em>, Mi\u0142osz retoma um mito antigo para abordar a perda numa linguagem moderna. A descida de Orfeu ao mundo dos mortos \u00e9 imaginada por meio de um ambiente contempor\u00e2neo, no qual aparecem elevadores, mecanismos e c\u00e3es eletr\u00f4nicos. O submundo deixa de ser apenas uma regi\u00e3o lend\u00e1ria e adquire uma configura\u00e7\u00e3o concreta, marcada por dispositivos e espa\u00e7os que afastam a narrativa da atmosfera mitol\u00f3gica tradicional. Essa atualiza\u00e7\u00e3o aproxima o mito de uma experi\u00eancia moderna da morte, da aus\u00eancia e da desorienta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, o centro tr\u00e1gico da narrativa permanece. Orfeu desce para tentar conduzir Eur\u00eddice de volta, mas a perde quando olha para tr\u00e1s. Esse gesto pode ser lido como a express\u00e3o da dist\u00e2ncia entre mem\u00f3ria e presen\u00e7a, desejo e posse, amor e restitui\u00e7\u00e3o. A perda n\u00e3o se reduz a um erro individual, pois tamb\u00e9m revela a impossibilidade de recuperar integralmente aquilo que o tempo levou. O mito sobrevive porque continua capaz de organizar uma experi\u00eancia moderna da aus\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos <em>\u00daltimos poemas<\/em>, a intelig\u00eancia de Mi\u0142osz conserva uma vitalidade que n\u00e3o depende de negar a morte. Em <em>Um poeta de noventa anos autografa seus livros<\/em>, a velhice aparece como uma condi\u00e7\u00e3o de aten\u00e7\u00e3o intensificada, a partir da qual o escritor revisita sua trajet\u00f3ria, sua l\u00edngua e os autores que participam de sua mem\u00f3ria liter\u00e1ria. As refer\u00eancias a inimigos e a escritores como Andrzejewski e Gombrowicz fazem da literatura uma esp\u00e9cie de comunidade entre tempos diferentes, na qual os ausentes continuam exercendo presen\u00e7a. O poeta n\u00e3o \u00e9 transformado em monumento pela idade avan\u00e7ada; sua velhice o aproxima, antes, da consci\u00eancia da precariedade e da persist\u00eancia de toda forma de perman\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Uma frase<\/em>, a rela\u00e7\u00e3o entre linguagem, rosto e mem\u00f3ria assume uma forma concentrada. O poema parte de uma refer\u00eancia a Julia Hartwig e retoma a imagem dos espelhos que aguardam os rostos humanos. A simplicidade dessa imagem abre uma reflex\u00e3o sobre a identidade, a mem\u00f3ria e a passagem do tempo: aquilo que reflete tamb\u00e9m conserva o vest\u00edgio daquilo que j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 presente. O poema confirma a capacidade de Mi\u0142osz para extrair uma pergunta metaf\u00edsica de uma situa\u00e7\u00e3o m\u00ednima.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>A tartaruga<\/em> conduz essa investiga\u00e7\u00e3o para o campo da vida animal. A tartaruga, observada no espa\u00e7o dom\u00e9stico, torna-se ocasi\u00e3o para uma reflex\u00e3o sobre consci\u00eancia, instinto, percep\u00e7\u00e3o e mortalidade. O poema n\u00e3o a reduz a um s\u00edmbolo abstrato nem a transforma numa simples alegoria da condi\u00e7\u00e3o humana. Sua presen\u00e7a desloca, ainda que provisoriamente, o centro humano da experi\u00eancia e convida o leitor a considerar uma forma de exist\u00eancia cuja rela\u00e7\u00e3o com o mundo n\u00e3o depende da linguagem humana. Nesse deslocamento, Mi\u0142osz amplia sua investiga\u00e7\u00e3o sobre os limites da consci\u00eancia e sobre a dificuldade de compreender inteiramente aquilo que n\u00e3o somos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A <em>Nota anos depois<\/em>, inclu\u00edda ao final do volume e datada de Crac\u00f3via, maio de 2001, oferece um coment\u00e1rio posterior de Mi\u0142osz sobre o pr\u00f3prio percurso po\u00e9tico. O autor considera a rela\u00e7\u00e3o entre os poemas antigos e os poemas posteriores, sua forma\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica, a ideia de passividade do poeta e sua prefer\u00eancia por uma arte objetiva. Essa passividade pode ser compreendida menos como in\u00e9rcia ou desist\u00eancia do que como uma disposi\u00e7\u00e3o para acolher a realidade antes de submet\u00ea-la inteiramente a uma tese. O poeta se apresenta, nessa perspectiva, como algu\u00e9m cuja tarefa n\u00e3o est\u00e1 totalmente definida de antem\u00e3o, mas se esclarece no pr\u00f3prio processo de cria\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa concep\u00e7\u00e3o ajuda a compreender a variedade da antologia. Mi\u0142osz pode escrever sobre o gueto, a paisagem, um p\u00e1ssaro, uma pintura, um alco\u00f3latra, uma tartaruga, um mito cl\u00e1ssico ou um encontro com outro escritor sem abandonar a unidade profunda de sua obra. O que une esses temas n\u00e3o \u00e9 uma f\u00f3rmula, mas uma atitude diante do real. O poeta procura descobrir como as coisas resistem \u00e0 redu\u00e7\u00e3o, como preservam um n\u00facleo de exist\u00eancia que nenhuma ideologia, religi\u00e3o ou teoria consegue absorver por completo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tradu\u00e7\u00e3o de Marcelo preserva essa disposi\u00e7\u00e3o. Seu portugu\u00eas n\u00e3o procura tornar Mi\u0142osz artificialmente familiar, mas tamb\u00e9m n\u00e3o o deixa confinado numa dist\u00e2ncia erudita. O resultado \u00e9 uma linguagem que mant\u00e9m a estranheza do estrangeiro e, ao mesmo tempo, alcan\u00e7a o leitor com naturalidade. A tradu\u00e7\u00e3o acompanha tanto a clareza narrativa de certos poemas quanto a gravidade meditativa de outros. Quando Mi\u0142osz se aproxima da ora\u00e7\u00e3o, do relato, da s\u00e1tira ou da reflex\u00e3o filos\u00f3fica, o portugu\u00eas se adapta sem impor uma uniformidade de tom.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A for\u00e7a de <em>Para isso fui chamado: poemas<\/em> nasce, portanto, da combina\u00e7\u00e3o entre amplitude e crit\u00e9rio. A sele\u00e7\u00e3o oferece um panorama expressivo da obra de Mi\u0142osz, enquanto a organiza\u00e7\u00e3o cronol\u00f3gica torna percept\u00edvel a transforma\u00e7\u00e3o de sua voz. A introdu\u00e7\u00e3o situa o autor em seu tempo e em sua tradi\u00e7\u00e3o. A tradu\u00e7\u00e3o oferece ao leitor brasileiro uma linguagem po\u00e9tica viva, capaz de acolher a densidade do original sem sacrificar a leitura. A edi\u00e7\u00e3o bil\u00edngue, por sua vez, mant\u00e9m vis\u00edvel a rela\u00e7\u00e3o entre presen\u00e7a e dist\u00e2ncia, que est\u00e1 no centro de toda experi\u00eancia tradut\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mi\u0142osz continua grandioso porque n\u00e3o escreve a partir de uma certeza confort\u00e1vel sobre a grandeza da poesia. Ele escreve porque desconfia das palavras e, ainda assim, precisa delas. Escreve porque a hist\u00f3ria destr\u00f3i, mas tamb\u00e9m porque algumas coisas continuam existindo e pedem para ser nomeadas. Escreve para compreender o mundo, embora saiba que compreender jamais ser\u00e1 o mesmo que dominar. Marcelo Paiva de Souza oferece ao leitor brasileiro uma passagem rigorosa por essa obra, com a aten\u00e7\u00e3o de quem conhece n\u00e3o apenas o vocabul\u00e1rio de uma l\u00edngua, mas tamb\u00e9m sua mem\u00f3ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse encontro entre o poeta e o tradutor que o livro encontra sua forma mais plena. Mi\u0142osz transforma a linguagem em instrumento de aten\u00e7\u00e3o, mem\u00f3ria e resist\u00eancia. Marcelo transporta essa experi\u00eancia para o portugu\u00eas sem eliminar as marcas de sua origem. O leitor recebe, assim, uma obra que articula hist\u00f3ria e metaf\u00edsica, testemunho e imagina\u00e7\u00e3o, ex\u00edlio e pertencimento, velhice e desejo de perman\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A poesia de Mi\u0142osz n\u00e3o restitui o mundo a uma ordem definitiva. Ela o devolve \u00e0 percep\u00e7\u00e3o, mais complexo e mais dif\u00edcil, mas tamb\u00e9m mais vivo. Depois da guerra, do ex\u00edlio, da viol\u00eancia pol\u00edtica e da morte, ainda resta a possibilidade de olhar para uma paisagem, uma pintura, um animal, um rosto ou uma palavra e reconhecer que a realidade n\u00e3o foi inteiramente vencida. <em>Para isso fui chamado: poemas<\/em> \u00e9 um livro sobre essa sobreviv\u00eancia dif\u00edcil. Na tradu\u00e7\u00e3o de Marcelo Paiva de Souza, a voz de Mi\u0142osz chega ao portugu\u00eas com densidade, clareza e estranheza suficientes para continuar nos interrogando.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Entre 1996 e 1997, Marcelo Paiva de Souza e eu dividimos um quarto por pouco mais de um ano em um hotel de estudantes em Crac\u00f3via, na Pol\u00f4nia, onde estud\u00e1vamos l\u00edngua, hist\u00f3ria e cultura polonesa no Instytut Polonijny, ligado \u00e0 Universidade Jaguel\u00f4nica (Uniwersytet Jagiello\u0144ski). Eu tinha ent\u00e3o vinte anos rec\u00e9m-completados. 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