{"id":85190,"date":"2026-09-23T10:38:34","date_gmt":"2026-09-23T13:38:34","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85190"},"modified":"2026-09-23T10:38:36","modified_gmt":"2026-09-23T13:38:36","slug":"obrigado-zuenir","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/obrigado-zuenir\/","title":{"rendered":"Obrigado, Zuenir"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zuenir Ventura morreu nesta ter\u00e7a-feira, 22 de setembro, aos 95 anos, depois de dedicar mais de seis d\u00e9cadas a compreender e narrar o Brasil. Jornalista, escritor, cronista e acad\u00eamico, ele fez da observa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds uma forma de participa\u00e7\u00e3o na vida p\u00fablica, acompanhando suas mudan\u00e7as, suas fraturas e seus persistentes enigmas. Sua morte deixa uma falta que ultrapassa o c\u00edrculo da fam\u00edlia, dos amigos e dos leitores: perdemos uma intelig\u00eancia capaz de transformar o acontecimento em mem\u00f3ria e a not\u00edcia em reflex\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"682\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/o-jornalista-e-escritor-zuenir-ventura-na-bienal-brasil-do-livro-e-da-leitura-de-brasilia-foto-de-elza-fiuza-agencia-brasil-2012-1024x682.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85191\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/o-jornalista-e-escritor-zuenir-ventura-na-bienal-brasil-do-livro-e-da-leitura-de-brasilia-foto-de-elza-fiuza-agencia-brasil-2012-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/o-jornalista-e-escritor-zuenir-ventura-na-bienal-brasil-do-livro-e-da-leitura-de-brasilia-foto-de-elza-fiuza-agencia-brasil-2012-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/o-jornalista-e-escritor-zuenir-ventura-na-bienal-brasil-do-livro-e-da-leitura-de-brasilia-foto-de-elza-fiuza-agencia-brasil-2012-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/o-jornalista-e-escritor-zuenir-ventura-na-bienal-brasil-do-livro-e-da-leitura-de-brasilia-foto-de-elza-fiuza-agencia-brasil-2012-1536x1022.jpg 1536w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/o-jornalista-e-escritor-zuenir-ventura-na-bienal-brasil-do-livro-e-da-leitura-de-brasilia-foto-de-elza-fiuza-agencia-brasil-2012-2048x1363.jpg 2048w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Zuenir Ventura na Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Bras\u00edlia | Foto: Elza Fi\u00faza, Ag\u00eancia Brasil, 2012<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zuenir n\u00e3o era apenas algu\u00e9m que contava o pa\u00eds. Ele era algu\u00e9m que o interrogava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante mais de seis d\u00e9cadas, atravessou reda\u00e7\u00f5es, revistas, jornais, livros, document\u00e1rios, debates e gera\u00e7\u00f5es. Come\u00e7ou no jornalismo como arquivista, em 1956, quando a profiss\u00e3o ainda exigia uma rela\u00e7\u00e3o quase artesanal com os pap\u00e9is, os recortes, as fontes, os nomes e a mem\u00f3ria. Depois, tornou-se editor, rep\u00f3rter, chefe de reda\u00e7\u00e3o, diretor de sucursal, colunista. Passou pelo <em>Correio da Manh\u00e3<\/em>, por <em>Fatos &amp; Fotos<\/em>, <em>O Cruzeiro<\/em>, <em>Vis\u00e3o<\/em>, <em>Veja<\/em>, <em>Isto\u00c9,<\/em> &nbsp;<em>Jornal do Brasil<\/em> e pelo <em>O Globo<\/em>. Ocupou posi\u00e7\u00f5es de comando, mas nunca pareceu escrever de cima. Sua autoridade vinha de outro lugar, do conv\u00edvio atento com a realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez por isso sua obra tenha conseguido unir duas virtudes que, no jornalismo, frequentemente se separam: a precis\u00e3o e a compaix\u00e3o. Zuenir sabia que um fato n\u00e3o \u00e9 apenas um acontecimento, porque todo acontecimento carrega uma atmosfera, uma ferida, uma contradi\u00e7\u00e3o, um rosto. Sabia tamb\u00e9m que a literatura n\u00e3o serve para embelezar a verdade, mas para torn\u00e1-la mais vis\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 1988, publicou <em>1968: O ano que n\u00e3o terminou<\/em>, um dos livros fundamentais para compreender o Brasil contempor\u00e2neo. O t\u00edtulo, desde logo, continha uma hip\u00f3tese e uma advert\u00eancia. Havia anos que n\u00e3o passavam. Havia acontecimentos que continuavam vivendo dentro do pa\u00eds, como uma esp\u00e9cie de corrente subterr\u00e2nea, reaparecendo na pol\u00edtica, na cultura, nos costumes, nos medos e nas esperan\u00e7as. Zuenir n\u00e3o escreveu apenas sobre um calend\u00e1rio. Escreveu sobre a perman\u00eancia de uma experi\u00eancia hist\u00f3rica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro tornou-se cl\u00e1ssico porque n\u00e3o tratava a hist\u00f3ria como um dep\u00f3sito de datas, mas como uma for\u00e7a que continua atuando sobre os vivos. Ao reconstituir a atmosfera dos anos 1960, ele recuperou a juventude, a rebeldia, a viol\u00eancia, os sonhos de transforma\u00e7\u00e3o e a sombra autorit\u00e1ria que se projetaria sobre o pa\u00eds. Seu trabalho mostrou que a reportagem pode alcan\u00e7ar a densidade de um romance sem abandonar a responsabilidade documental. O jornalista n\u00e3o precisava fingir que era romancista. Bastava escrever com aten\u00e7\u00e3o suficiente para que a pr\u00f3pria realidade revelasse sua dimens\u00e3o liter\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zuenir possu\u00eda esse talento raro: fazia o pa\u00eds caber numa p\u00e1gina sem reduzi-lo. Em sua prosa, o Brasil aparecia inteiro, com seus abismos e suas delicadezas, sua brutalidade e sua m\u00fasica, suas elites e seus exclu\u00eddos, sua mem\u00f3ria interrompida e sua insist\u00eancia em recome\u00e7ar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi assim tamb\u00e9m em <em>Cidade partida<\/em>, livro de 1994 sobre a viol\u00eancia no Rio de Janeiro. O t\u00edtulo tornou-se uma express\u00e3o que atravessou o vocabul\u00e1rio p\u00fablico, talvez porque nomeasse uma fratura que todos conheciam, mas que poucos haviam conseguido formular com tanta clareza. A cidade n\u00e3o era apenas dividida entre morro e asfalto, entre a ordem e o abandono, entre os que podiam circular e os que eram confinados pela pobreza. Havia uma ruptura mais profunda, uma incapacidade de reconhecer no outro a mesma humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zuenir n\u00e3o observava a viol\u00eancia como quem contempla uma paisagem distante. Aproximava-se dela com o desconforto de quem sabe que nenhuma cidade \u00e9 verdadeiramente inteira quando uma parte de seus habitantes \u00e9 condenada \u00e0 invisibilidade. Sua reportagem n\u00e3o oferecia uma solu\u00e7\u00e3o pronta para o problema brasileiro, porque o jornalismo s\u00e9rio desconfia das solu\u00e7\u00f5es que chegam antes da compreens\u00e3o. O que oferecia era um campo de vis\u00e3o mais amplo, uma oportunidade para que o leitor enxergasse a cidade n\u00e3o como cen\u00e1rio, mas como destino compartilhado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes disso, em 1989, uma s\u00e9rie de reportagens sobre Chico Mendes e a Amaz\u00f4nia para o <em>Jornal do Brasil<\/em> haviam revelado outro aspecto de seu trabalho: o compromisso com personagens e causas que a imprensa poderia facilmente abandonar depois que o interesse imediato diminu\u00edsse. Zuenir compreendia que a import\u00e2ncia de uma hist\u00f3ria n\u00e3o se mede pelo ru\u00eddo que ela produz no dia de sua publica\u00e7\u00e3o. Algumas hist\u00f3rias precisam de tempo para mostrar a extens\u00e3o de sua gravidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Chico Mendes fora assassinado em dezembro de 1988, mas a quest\u00e3o que seu assassinato colocava permanecia viva. O conflito entre a floresta, o poder econ\u00f4mico, a viol\u00eancia rural e os direitos humanos n\u00e3o cabia na moldura estreita de um epis\u00f3dio policial. Zuenir ampliou a moldura. Fez do caso uma pergunta sobre o pa\u00eds, sobre o desenvolvimento, sobre a vida dos que raramente aparecem na primeira p\u00e1gina, embora sustentem a riqueza e a mem\u00f3ria de uma na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por esse trabalho, recebeu o Pr\u00eamio Esso de Jornalismo e o Pr\u00eamio Vladimir Herzog. Em 2008, foi reconhecido pela ONU como um dos jornalistas que mais haviam contribu\u00eddo para a defesa dos direitos humanos no Brasil nas tr\u00eas d\u00e9cadas anteriores. Esses pr\u00eamios, por\u00e9m, s\u00e3o apenas a parte mais vis\u00edvel de seu legado. O que permanece n\u00e3o \u00e9 a medalha, nem a cerim\u00f4nia, nem a fotografia oficial. Permanece a no\u00e7\u00e3o de que escrever sobre o Brasil \u00e9 assumir uma responsabilidade diante dos que n\u00e3o t\u00eam espa\u00e7o para escrever sobre si mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zuenir foi um jornalista de reda\u00e7\u00e3o, mas nunca ficou preso \u00e0 reda\u00e7\u00e3o. Sua escrita transitou entre o jornal e o livro, entre a cr\u00f4nica e a reportagem, entre a an\u00e1lise pol\u00edtica e a observa\u00e7\u00e3o do cotidiano. Publicou <em>Inveja &#8211; mal secreto (1998)<\/em>, <em>O Rio de J. Carlos (1998)<\/em>, <em>Cr\u00f4nicas de um fim de s\u00e9culo (1999)<\/em>, <em>Chico Mendes: crime e castigo (2003)<\/em>, <em>Minhas hist\u00f3rias dos outros (2005)<\/em>, <em>Sagrada Fam\u00edlia (2012)<\/em>. Escreveu sobre cultura, comportamento, mem\u00f3ria, amizade, pol\u00edtica, cidade, literatura e sobre essa mat\u00e9ria t\u00e3o dif\u00edcil de definir que chamamos de Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra tr\u00e2nsito talvez seja uma das mais adequadas para falar de sua obra. Zuenir viveu num pa\u00eds em tr\u00e2nsito, que saiu de uma ditadura sem se livrar inteiramente dela, que trocou a censura expl\u00edcita por outras formas de sil\u00eancio, que conheceu a abertura pol\u00edtica sem resolver suas desigualdades, que viu a moderniza\u00e7\u00e3o conviver com a perman\u00eancia da mis\u00e9ria. Ele acompanhou esse movimento sem se deixar capturar pelo entusiasmo f\u00e1cil nem pelo cinismo confort\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu olhar tinha uma qualidade moral. N\u00e3o moralista, porque Zuenir n\u00e3o parecia interessado em distribuir absolvi\u00e7\u00f5es ou condena\u00e7\u00f5es. Moral no sentido mais exigente da palavra, porque reconhecia que toda narrativa envolve uma escolha de aten\u00e7\u00e3o. Olhar para algu\u00e9m \u00e9, em alguma medida, admitir que essa pessoa importa. Contar uma hist\u00f3ria \u00e9 impedir que ela desapare\u00e7a inteiramente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez seja essa a maior li\u00e7\u00e3o que deixa aos jornalistas e escritores brasileiros. A realidade n\u00e3o se oferece pronta. \u00c9 preciso procur\u00e1-la. \u00c9 preciso desconfiar da primeira vers\u00e3o, retornar \u00e0 cena, ouvir o que ficou de fora, entender o sil\u00eancio tanto quanto a declara\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso escrever sem transformar a dor alheia em espet\u00e1culo e sem esconder a complexidade atr\u00e1s de frases bonitas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zuenir escrevia bonito, mas sua beleza nunca era ornamental. Havia em sua prosa uma clareza que n\u00e3o empobrecia o pensamento. Ao contr\u00e1rio, tornava o pensamento mais penetrante. Ele n\u00e3o precisava recorrer \u00e0 obscuridade para parecer profundo. Sua intelig\u00eancia preferia a luz, embora soubesse que toda luz projeta sombras.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2014, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de n\u00famero 32, que pertencera a Ariano Suassuna. A entrada na ABL reconhecia uma verdade que o jornalismo brasileiro nem sempre admite com generosidade: a reportagem tamb\u00e9m pode produzir literatura. Um livro escrito a partir de fatos, documentos, testemunhos e investiga\u00e7\u00e3o pode alcan\u00e7ar uma perman\u00eancia semelhante \u00e0 da fic\u00e7\u00e3o, porque a linguagem n\u00e3o depende do g\u00eanero para ser viva. Depende da necessidade interior de dizer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zuenir levou para a Academia a experi\u00eancia das ruas, das reda\u00e7\u00f5es e das hist\u00f3rias que n\u00e3o cabem numa biblioteca sem antes atravessar o mundo. Levou tamb\u00e9m a consci\u00eancia de que a literatura brasileira n\u00e3o se constr\u00f3i somente nos lugares consagrados, mas nas p\u00e1ginas dos jornais, nas vozes das testemunhas, nas vidas an\u00f4nimas, nos conflitos que a hist\u00f3ria oficial gostaria de resumir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua morte ocorre num tempo em que o jornalismo enfrenta uma crise de confian\u00e7a, de financiamento, de linguagem e de autoridade. As reda\u00e7\u00f5es foram reduzidas, a velocidade substituiu a apura\u00e7\u00e3o, a opini\u00e3o muitas vezes se disfar\u00e7a de not\u00edcia, e a informa\u00e7\u00e3o circula num ambiente em que a mentira disp\u00f5e de recursos tecnol\u00f3gicos e velocidade in\u00e9dita. Nesse cen\u00e1rio, a perda de Zuenir parece ainda maior porque ele pertencia a uma tradi\u00e7\u00e3o que n\u00e3o confundia pressa com agilidade, nem contund\u00eancia com gritaria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele sabia que o jornalista n\u00e3o \u00e9 o dono da verdade. \u00c9 seu servidor provis\u00f3rio. Trabalha para aproximar o leitor dos fatos, sabendo que toda aproxima\u00e7\u00e3o \u00e9 incompleta. A humildade fazia parte de sua intelig\u00eancia. Mesmo quando escrevia sobre temas vastos, conservava a curiosidade diante do detalhe, como se o mundo ainda pudesse surpreend\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 essa disponibilidade que far\u00e1 falta. A capacidade de olhar para uma \u00e9poca e perceber nela aquilo que seus contempor\u00e2neos ainda n\u00e3o conseguiam nomear. O dom de transformar o acontecimento em mem\u00f3ria antes que a mem\u00f3ria se perdesse. A coragem de permanecer atento quando o pa\u00eds se acostumava ao absurdo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Obrigado, Zuenir, por ter nos ensinado que o Brasil n\u00e3o \u00e9 uma explica\u00e7\u00e3o, mas uma pergunta intermin\u00e1vel. Obrigado por ter escrito sobre os mortos sem esquecer os vivos, sobre os poderosos sem se ajoelhar diante deles, sobre os pobres sem transform\u00e1-los em alegoria, sobre a cidade sem esconder seus muros, sobre a pol\u00edtica sem abandonar a humanidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Obrigado por ter compreendido que o jornalismo pode ser uma forma de cidadania e que a literatura pode ser uma forma de escuta. Por ter demonstrado que uma reportagem n\u00e3o termina quando o texto \u00e9 publicado, porque continua trabalhando dentro do leitor, alterando sua percep\u00e7\u00e3o, deslocando suas certezas, devolvendo-lhe uma realidade um pouco mais dif\u00edcil e, por isso mesmo, um pouco mais verdadeira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, a cadeira da Academia, as p\u00e1ginas dos livros, as colunas, os arquivos e as reda\u00e7\u00f5es guardam o eco de sua passagem. Mas uma obra como a sua n\u00e3o fica parada. Ela continua circulando entre os que desejam entender o pa\u00eds, entre os que ainda acreditam na for\u00e7a da palavra e entre os que sabem que a mem\u00f3ria \u00e9 uma das poucas formas de justi\u00e7a que uma sociedade pode oferecer aos seus mortos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zuenir Ventura partiu, mas o Brasil que ele escreveu continua aqui, inquieto, dividido, contradit\u00f3rio, \u00e0 procura de uma linguagem capaz de compreend\u00ea-lo. Talvez essa seja a melhor homenagem: continuar lendo, investigando, perguntando. Continuar recusando a indiferen\u00e7a. Continuar acreditando que, quando algu\u00e9m encontra as palavras certas, um pa\u00eds inteiro pode se reconhecer nelas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A \u00faltima palavra n\u00e3o \u00e9 adeus. \u00c9 obrigado.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Zuenir Ventura morreu nesta ter\u00e7a-feira, 22 de setembro, aos 95 anos, depois de dedicar mais de seis d\u00e9cadas a compreender e narrar o Brasil. Jornalista, escritor, cronista e acad\u00eamico, ele fez da observa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds uma forma de participa\u00e7\u00e3o na vida p\u00fablica, acompanhando suas mudan\u00e7as, suas fraturas e seus persistentes enigmas. 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