{"id":85231,"date":"2026-09-30T16:56:17","date_gmt":"2026-09-30T19:56:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85231"},"modified":"2026-09-30T16:56:19","modified_gmt":"2026-09-30T19:56:19","slug":"entre-o-arquivo-e-a-memoria-leonel-brizola-no-fio-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/entre-o-arquivo-e-a-memoria-leonel-brizola-no-fio-da-historia\/","title":{"rendered":"Entre o arquivo e a mem\u00f3ria: Leonel Brizola no fio da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Leonel Brizola \u00e9 um personagem pol\u00edtico que parece ter sido concebido pela Hist\u00f3ria para exceder qualquer tentativa de s\u00edntese. Sua trajet\u00f3ria cont\u00e9m a pobreza rural, a forma\u00e7\u00e3o autodidata, o trabalhismo, a engenharia, a paix\u00e3o pela escola p\u00fablica, o nacionalismo econ\u00f4mico, a resist\u00eancia constitucional, o ex\u00edlio, a tenta\u00e7\u00e3o da luta armada, a reinven\u00e7\u00e3o social-democrata, o conflito com a imprensa e a persist\u00eancia de uma imagina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que nunca se acomodou inteiramente \u00e0s formas dispon\u00edveis de poder. Em torno dele, a mem\u00f3ria brasileira produziu imagens divergentes: o herdeiro de Vargas, o governador das encampa\u00e7\u00f5es, o comandante da Legalidade, o radical dos Grupos de Onze, o exilado perseguido, o advers\u00e1rio de Jo\u00e3o Goulart, o fundador do PDT, o candidato presidencial que quase chegou ao segundo turno em 1989, o inimigo declarado da Rede Globo e o velho l\u00edder cuja presen\u00e7a continuou a perturbar o consenso pol\u00edtico mesmo depois de sua morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 justamente essa pluralidade que torna <strong>No Fio da Hist\u00f3ria: A Vida de Leonel Brizola<\/strong> (d\u2019fato Editora Jornal\u00edstica), de Cleber Dioni Tentardini, uma obra de especial interesse. O livro n\u00e3o pretende eliminar as contradi\u00e7\u00f5es de Brizola. Tampouco o reduz a uma chave \u00fanica, seja a do her\u00f3i nacionalista, seja a do caudilho temperamental, seja a do pol\u00edtico radicalizado pela Guerra Fria. Sua contribui\u00e7\u00e3o mais expressiva est\u00e1 em reunir, numa mesma narrativa, o homem, o militante, o administrador, o marido, o pai, o irm\u00e3o, o exilado, o leitor de conjunturas e o sujeito atravessado pelos conflitos de seu tempo. A biografia se constr\u00f3i, assim, como uma tentativa de recompor a densidade humana de uma figura que, ao longo de d\u00e9cadas, foi frequentemente sequestrada por caricaturas pol\u00edticas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"689\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-livro-brizola-cleber-dione-tentardini-689x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85232\" style=\"aspect-ratio:0.6728618553383217;width:366px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-livro-brizola-cleber-dione-tentardini-689x1024.jpeg 689w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-livro-brizola-cleber-dione-tentardini-202x300.jpeg 202w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-livro-brizola-cleber-dione-tentardini-768x1142.jpeg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-livro-brizola-cleber-dione-tentardini-1033x1536.jpeg 1033w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/09\/capa-livro-brizola-cleber-dione-tentardini.jpeg 1076w\" sizes=\"auto, (max-width: 689px) 100vw, 689px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A compara\u00e7\u00e3o com <strong>Brizola: Lobisomem contra o Imp\u00e9rio<\/strong> (Companhia da Letras), de Karla Monteiro, \u00e9 inevit\u00e1vel e produtiva. As duas obras se aproximam pelo interesse em retirar Brizola da superf\u00edcie das homenagens partid\u00e1rias e das simplifica\u00e7\u00f5es retrospectivas. Ambas o apresentam como personagem de alta voltagem hist\u00f3rica, cuja biografia se mistura \u00e0s crises decisivas da Rep\u00fablica brasileira. No entanto, seus m\u00e9todos, suas escalas de observa\u00e7\u00e3o e suas \u00eanfases s\u00e3o diferentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante situar o leitor diante de uma caracter\u00edstica editorial decisiva: <strong>Lobisomem contra o Imp\u00e9rio<\/strong> \u00e9 apresentado como <strong>Volume 1<\/strong>. Portanto, trata-se de uma obra concebida como parte de um projeto biogr\u00e1fico mais amplo, e n\u00e3o de um relato que necessariamente pretenda encerrar toda a trajet\u00f3ria de Brizola em um \u00fanico tomo. O material dispon\u00edvel n\u00e3o permite afirmar quando ser\u00e1 publicado um eventual Volume 2, nem quais per\u00edodos ele abrangeria. Essa informa\u00e7\u00e3o recomenda cautela ao falar de temas que n\u00e3o ocupam o centro do primeiro volume. N\u00e3o se deve trat\u00e1-los como aus\u00eancias definitivas, mas como dimens\u00f5es que permanecem fora do recorte principal da primeira entrega ou que poder\u00e3o ser retomadas posteriormente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentro desse recorte, Monteiro comp\u00f5e um retrato de forte impulso narrativo, especialmente concentrado na forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica de Brizola, no nacionalismo econ\u00f4mico, na Campanha da Legalidade, nas tens\u00f5es do per\u00edodo que antecede o golpe de 1964 e nos anos de ex\u00edlio, quando a radicaliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica se torna insepar\u00e1vel da experi\u00eancia pessoal. Cleber Dioni Tentardini, por sua vez, trabalha numa chave mais panor\u00e2mica, jornal\u00edstica e documental, acompanhando o personagem desde as ra\u00edzes familiares at\u00e9 a morte, a heran\u00e7a pol\u00edtica e as disputas de mem\u00f3ria que se prolongaram depois de 2004.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a fundamental entre os livros reside na maneira como cada autor organiza o tempo hist\u00f3rico. Em Monteiro, o tempo parece avan\u00e7ar em dire\u00e7\u00e3o a uma zona de combust\u00e3o. A narrativa conduz o leitor \u00e0 Legalidade, \u00e0s encampa\u00e7\u00f5es, \u00e0 crise de 1961, \u00e0 radicaliza\u00e7\u00e3o de 1962 e 1963, ao golpe de 1964 e ao ex\u00edlio. A pr\u00f3pria arquitetura do livro, com cap\u00edtulos como \u201cA Hora do Lobisomem\u201d, \u201cLegalidade\u201d, \u201cLegalidade violada\u201d, \u201cSociedade carbon\u00e1ria\u201d, \u201cV\u00e9spera\u201d e \u201cAo desfecho\u201d, revela uma dramaturgia concentrada na forma\u00e7\u00e3o do Brizola pol\u00edtico e na progressiva transforma\u00e7\u00e3o de sua linguagem de poder.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 Tentardini acompanha a trajet\u00f3ria em amplitude maior. Seu Brizola emerge de um mundo social espec\u00edfico, o interior do Rio Grande do Sul, e passa por diferentes esta\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas sem que a import\u00e2ncia de uma apague a outra. A compara\u00e7\u00e3o, entretanto, precisa respeitar o fato de que se est\u00e1 colocando lado a lado uma biografia de alcance integral e o primeiro volume de uma biografia projetada em continuidade. A extens\u00e3o mais ampla de Tentardini n\u00e3o significa, por si s\u00f3, que Monteiro tenha encerrado sua interpreta\u00e7\u00e3o antes de abordar todos os per\u00edodos da vida do personagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa escolha permite que <strong>No Fio da Hist\u00f3ria<\/strong> devolva \u00e0 inf\u00e2ncia e \u00e0 juventude de Brizola um valor explicativo que ultrapassa o aned\u00f3tico. O menino criado sob as dificuldades da fam\u00edlia de dona On\u00edvia, o jovem submetido \u00e0 instabilidade econ\u00f4mica, o estudante que precisou trabalhar, o rapaz que atravessou Porto Alegre em busca de educa\u00e7\u00e3o e de uma profiss\u00e3o, o aluno da Escola T\u00e9cnica de Agricultura e o futuro engenheiro constituem, no livro de Tentardini, mais do que uma sequ\u00eancia de epis\u00f3dios formativos. S\u00e3o as experi\u00eancias de um sujeito que aprendeu cedo que a ascens\u00e3o social n\u00e3o era uma abstra\u00e7\u00e3o individual, mas uma quest\u00e3o de acesso, oportunidade, escola, trabalho e reconhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse ponto, o livro se diferencia de modo relevante da obra de Karla Monteiro. A inf\u00e2ncia de Brizola tamb\u00e9m aparece em <strong>Lobisomem contra o Imp\u00e9rio<\/strong>, sobretudo em sua dimens\u00e3o familiar e regional. Monteiro reconstr\u00f3i a origem do nome, a pobreza, a forma\u00e7\u00e3o inicial e o ambiente social do noroeste ga\u00facho com not\u00e1vel aten\u00e7\u00e3o narrativa. Entretanto, Tentardini amplia a espessura documental dessa forma\u00e7\u00e3o. A passagem pela escola t\u00e9cnica, os trabalhos desempenhados, as dificuldades burocr\u00e1ticas, a experi\u00eancia em Porto Alegre, a constru\u00e7\u00e3o do estudante e do profissional, a escolha pela engenharia e as rela\u00e7\u00f5es com institui\u00e7\u00f5es educacionais aparecem como elementos decisivos de uma pedagogia pol\u00edtica. O Brizola de Tentardini n\u00e3o apenas se torna um l\u00edder porque possui temperamento, coragem ou voca\u00e7\u00e3o. Ele \u00e9 produzido por uma longa luta contra a precariedade e pela convic\u00e7\u00e3o de que a instru\u00e7\u00e3o pode alterar o destino de uma comunidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa perspectiva tamb\u00e9m ilumina uma dimens\u00e3o muitas vezes secundarizada nas biografias pol\u00edticas: a engenharia como linguagem de governo. Para Brizola, obras p\u00fablicas, pontes, estradas, redes de energia, escolas, \u00e1gua, transporte e planejamento n\u00e3o pertenciam a um campo administrativo separado da pol\u00edtica. Eram a pr\u00f3pria pol\u00edtica quando entendida como capacidade de organizar materialmente a vida coletiva. Tentardini explora com especial interesse o Brizola administrador, o prefeito de Porto Alegre, o secret\u00e1rio de Obras P\u00fablicas e o governador que articula desenvolvimento, infraestrutura e educa\u00e7\u00e3o. A biografia encontra a\u00ed um de seus m\u00e9ritos centrais: mostrar que o nacionalismo brizolista n\u00e3o se limitava \u00e0 ret\u00f3rica anti-imperialista. Ele pretendia produzir soberania por meio de institui\u00e7\u00f5es, obras, servi\u00e7os e capacidade estatal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A encampa\u00e7\u00e3o da companhia el\u00e9trica e a disputa em torno da empresa telef\u00f4nica, epis\u00f3dios que ocupam lugar decisivo em <strong>Lobisomem contra o Imp\u00e9rio<\/strong>, tamb\u00e9m aparecem em Tentardini, mas ganham uma moldura complementar. Monteiro enfatiza a dimens\u00e3o internacional desses conflitos, o embate com os interesses norte-americanos, a rea\u00e7\u00e3o diplom\u00e1tica dos Estados Unidos, a imagem de Brizola como figura mais perigosa que Fidel Castro e a passagem do nacionalismo ga\u00facho para uma crise de alcance hemisf\u00e9rico. Seu Brizola \u00e9 observado como amea\u00e7a geopol\u00edtica, especialmente pelos arquivos, telegramas e registros que revelam a vigil\u00e2ncia norte-americana sobre o governador e depois deputado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tentardini, sem abandonar esse eixo, desloca o foco para as consequ\u00eancias administrativas e sociais das decis\u00f5es. A energia, a educa\u00e7\u00e3o, os t\u00edtulos p\u00fablicos, os mecanismos de financiamento, a cria\u00e7\u00e3o de estruturas estatais, a industrializa\u00e7\u00e3o e a expans\u00e3o das escolas aparecem como partes de um mesmo projeto. O efeito dessa abordagem \u00e9 expressivo: o leitor deixa de enxergar a encampa\u00e7\u00e3o apenas como gesto de enfrentamento internacional e passa a compreend\u00ea-la como parte de uma concep\u00e7\u00e3o de governo. O conflito com o capital estrangeiro, nesse enquadramento, n\u00e3o \u00e9 uma atitude isolada de bravata. Est\u00e1 vinculado a uma pergunta sobre quem controla os servi\u00e7os essenciais, quem decide os investimentos e quem se beneficia da infraestrutura de um pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro aspecto em que <strong>No Fio da Hist\u00f3ria<\/strong> se distingue \u00e9 a aten\u00e7\u00e3o concedida \u00e0s pol\u00edticas educacionais. Em Karla Monteiro, a educa\u00e7\u00e3o aparece associada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de Brizola e \u00e0 sua pr\u00e1tica pol\u00edtica, especialmente nas escolas constru\u00eddas durante a administra\u00e7\u00e3o de Porto Alegre e no programa educacional do governo ga\u00facho. Tentardini, contudo, faz desse tema uma esp\u00e9cie de coluna vertebral da biografia p\u00fablica. As \u201cbrizoletas\u201d, a expans\u00e3o do ensino prim\u00e1rio, a cria\u00e7\u00e3o de milhares de estabelecimentos, o esfor\u00e7o para combater o analfabetismo, a forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e, mais tarde, os CIEPs no Rio de Janeiro s\u00e3o apresentados como continuidade de uma ideia de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00eanfase tamb\u00e9m permite perceber aquilo que, no primeiro volume de Monteiro, permanece menos desenvolvido ou fora do centro estrutural da narrativa. <strong>Lobisomem contra o Imp\u00e9rio<\/strong> \u00e9 particularmente forte ao narrar o Brizola dos momentos de ruptura, o homem da insubmiss\u00e3o, da crise e da a\u00e7\u00e3o lim\u00edtrofe. Seu Volume 1 acompanha com intensidade a forma\u00e7\u00e3o do l\u00edder e sua passagem pelos grandes conflitos que antecedem o golpe e marcam o ex\u00edlio. N\u00e3o seria correto concluir, por\u00e9m, que os temas administrativos e educacionais est\u00e3o definitivamente ausentes do projeto da autora. O mais preciso \u00e9 dizer que, no tomo publicado, eles n\u00e3o possuem o mesmo peso organizador que assumem na biografia de Tentardini e que sua eventual continuidade poder\u00e1 ampliar esse quadro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A diferen\u00e7a entre os livros fica mais evidente quando se observa o percurso posterior ao ex\u00edlio. Tentardini acompanha de maneira extensa a volta ao Brasil, a disputa pelo antigo PTB, a cria\u00e7\u00e3o do PDT, a elei\u00e7\u00e3o para o governo do Rio de Janeiro, a rela\u00e7\u00e3o conflituosa com Fernando Collor, a campanha presidencial de 1989, o apoio a Lula no segundo turno, o segundo governo fluminense, as Diretas J\u00e1, os CIEPs, o combate \u00e0 Rede Globo e o decl\u00ednio eleitoral sem desaparecimento pol\u00edtico. Monteiro, no Volume 1, conduz o leitor at\u00e9 a reconstru\u00e7\u00e3o pol\u00edtica ligada ao retorno, \u00e0 anistia, \u00e0 disputa partid\u00e1ria e \u00e0 reinven\u00e7\u00e3o do trabalhismo, mas o pr\u00f3prio car\u00e1ter seriado da obra impede que se tome esse ponto como o limite definitivo de sua interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O princ\u00edpio vale tamb\u00e9m para temas como a maturidade pol\u00edtica, os governos fluminenses, a campanha presidencial de 1989, a morte e a mem\u00f3ria p\u00f3stuma. Em <strong>No Fio da Hist\u00f3ria<\/strong>, eles j\u00e1 aparecem integrados a uma narrativa de conjunto. Em <strong>Lobisomem contra o Imp\u00e9rio<\/strong>, a narrativa se concentra mais intensamente no caminho que leva Brizola da forma\u00e7\u00e3o ao ex\u00edlio e na reconstru\u00e7\u00e3o inicial de sua presen\u00e7a pol\u00edtica. O leitor deve distinguir, portanto, entre recorte publicado e aus\u00eancia absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Campanha da Legalidade constitui outro ponto de contato entre os dois livros, mas tamb\u00e9m revela diferen\u00e7as de perspectiva. Monteiro constr\u00f3i uma narrativa intensa da crise de 1961, dando relevo \u00e0 cadeia de emissoras, \u00e0s negocia\u00e7\u00f5es militares, \u00e0 mobiliza\u00e7\u00e3o civil, \u00e0s ordens de bombardeio, \u00e0s hesita\u00e7\u00f5es de Jo\u00e3o Goulart e ao compromisso parlamentarista. O epis\u00f3dio aparece como momento de cristaliza\u00e7\u00e3o do mito pol\u00edtico de Brizola. O governador transforma a defesa constitucional em espet\u00e1culo de r\u00e1dio, disciplina, improvisa\u00e7\u00e3o, risco e mobiliza\u00e7\u00e3o popular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tentardini tamb\u00e9m dedica espa\u00e7o amplo a esse acontecimento, incorporando documentos, depoimentos, reprodu\u00e7\u00f5es de manchetes, imagens e testemunhos. Sua particularidade est\u00e1 em apresentar a Legalidade como acontecimento vivido por uma coletividade, n\u00e3o apenas como gesto de um l\u00edder. A cidade sitiada, os quart\u00e9is, os civis, os militares que hesitam, os operadores de r\u00e1dio, os oficiais subalternos, as redes de comunica\u00e7\u00e3o e os personagens secund\u00e1rios ganham presen\u00e7a. O que em Monteiro tem a for\u00e7a de uma narrativa de crise, em Tentardini assume a forma de uma mem\u00f3ria coral. Essa \u00e9 uma de suas melhores qualidades.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mem\u00f3ria coral \u00e9 importante porque desfaz a ilus\u00e3o de que a hist\u00f3ria se realiza apenas pela vontade dos grandes homens. Brizola \u00e9 o centro da biografia, mas n\u00e3o \u00e9 seu \u00fanico agente. Tentardini recupera jornalistas, colaboradores, familiares, testemunhas, antigos companheiros, advers\u00e1rios e pesquisadores. As fotografias e legendas n\u00e3o funcionam como decora\u00e7\u00e3o editorial. Elas integram a constru\u00e7\u00e3o do argumento, introduzindo corpos, lugares, documentos e marcas materiais do passado. O arquivo aparece como mat\u00e9ria viva, capaz de corrigir a abstra\u00e7\u00e3o dos relatos pol\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa voca\u00e7\u00e3o documental se torna especialmente evidente nos cap\u00edtulos dedicados ao golpe de 1964 e ao ex\u00edlio. A obra recupera testemunhos sobre as \u00faltimas horas de Jo\u00e3o Goulart em Porto Alegre, o cerco militar, a morte do coronel Alfeu de Alc\u00e2ntara Monteiro, a fuga de Brizola e a travessia para o Uruguai. Ao lado da narrativa, surgem documentos da CIA, registros diplom\u00e1ticos, refer\u00eancias a relat\u00f3rios de \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, entrevistas e pesquisas acad\u00eamicas. O livro n\u00e3o trata o ex\u00edlio como simples intervalo entre duas fases de uma carreira. Ele o apresenta como um segundo nascimento pol\u00edtico, marcado pela perda, pela radicaliza\u00e7\u00e3o, pelas tentativas de guerrilha, pelo fracasso e, posteriormente, pela reelabora\u00e7\u00e3o estrat\u00e9gica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Karla Monteiro dedica grande aten\u00e7\u00e3o a essa fase. Seu livro \u00e9 particularmente vigoroso ao mostrar Brizola no Uruguai, sua aproxima\u00e7\u00e3o com organiza\u00e7\u00f5es revolucion\u00e1rias, a influ\u00eancia da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, as tentativas de organizar focos armados, o impacto da morte de Che Guevara e o afastamento progressivo da luta armada. A autora examina tamb\u00e9m a Frente Ampla, a rela\u00e7\u00e3o com Jo\u00e3o Goulart, o cotidiano familiar e a reinven\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica que levaria o exilado de volta \u00e0 pol\u00edtica institucional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tentardini acrescenta a esse percurso uma camada mais extensa de testemunhos e consequ\u00eancias. O ex\u00edlio n\u00e3o aparece apenas como fase de atividade conspirativa, mas como experi\u00eancia dom\u00e9stica, familiar e existencial. O leitor v\u00ea o pol\u00edtico sob vigil\u00e2ncia, o marido e pai atravessado por perdas, o homem obrigado a negociar sua sobreviv\u00eancia material, o l\u00edder que precisa rever seus pr\u00f3prios m\u00e9todos. A biografia evidencia que o fracasso da luta armada n\u00e3o produziu apenas uma derrota estrat\u00e9gica. Produziu uma crise de identidade, uma revis\u00e3o de expectativas e uma mudan\u00e7a na maneira de imaginar a a\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 uma das abordagens que, no Volume 1 de Monteiro, permanecem menos desenvolvidas ou subordinadas a outros eixos narrativos, sem que isso deva ser interpretado como lacuna definitiva. Em <strong>Lobisomem contra o Imp\u00e9rio<\/strong>, o ex\u00edlio \u00e9 visto sobretudo como laborat\u00f3rio de radicaliza\u00e7\u00e3o e como espa\u00e7o de disputa entre projetos para o futuro do Brasil. Em <strong>No Fio da Hist\u00f3ria<\/strong>, ele tamb\u00e9m \u00e9 o lugar da intimidade ferida, do desgaste familiar, da espera, da sobreviv\u00eancia e da transforma\u00e7\u00e3o gradual do militante. A hist\u00f3ria p\u00fablica n\u00e3o desaparece, mas passa a conviver com a precariedade privada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O livro de Tentardini \u00e9 igualmente importante por acompanhar Brizola depois da anistia. Essa fase muitas vezes recebe tratamento secund\u00e1rio em narrativas que encontram no golpe e no ex\u00edlio o ponto culminante da biografia. Tentardini, entretanto, acompanha a volta ao Brasil, a disputa pelo antigo PTB, a cria\u00e7\u00e3o do PDT, o \u201csocialismo moreno\u201d, a elei\u00e7\u00e3o para o governo do Rio de Janeiro, a campanha presidencial de 1989, o segundo governo fluminense, o conflito com a Rede Globo, a morte e a mem\u00f3ria p\u00f3stuma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O car\u00e1ter de Volume 1 torna mais prudente a compara\u00e7\u00e3o. Monteiro n\u00e3o deve ser cobrada, nesta leitura, como se sua obra j\u00e1 tivesse apresentado a biografia integral de Brizola. Seu primeiro tomo possui uma unidade pr\u00f3pria e termina num ponto que pode funcionar como passagem para desenvolvimentos posteriores. Ainda assim, quando se compara o livro atualmente publicado com o de Tentardini, percebe-se que <strong>No Fio da Hist\u00f3ria<\/strong> oferece ao leitor uma cobertura mais extensa da maturidade pol\u00edtica, das pol\u00edticas p\u00fablicas, das campanhas eleitorais tardias e do legado posterior \u00e0 morte. Essa \u00e9 uma diferen\u00e7a objetiva entre as obras dispon\u00edveis, n\u00e3o um ju\u00edzo sobre aquilo que uma futura continua\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ou n\u00e3o realizar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse arco mais amplo, Tentardini demonstra que a biografia de Brizola n\u00e3o se encerra quando o personagem retorna do ex\u00edlio. A redemocratiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 apresentada como ep\u00edlogo apaziguado, mas como novo campo de batalha. O velho l\u00edder precisa lidar com um sistema partid\u00e1rio diferente, com a ascens\u00e3o do sindicalismo de novo tipo, com a emerg\u00eancia do Partido dos Trabalhadores, com a televis\u00e3o como instrumento de poder e com um eleitorado submetido a linguagens pol\u00edticas in\u00e9ditas. Brizola envelhece, mas n\u00e3o se torna irrelevante. Sua dificuldade de adapta\u00e7\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m a medida de sua perman\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Karla Monteiro acompanha o retorno, a disputa pelo PTB e a transforma\u00e7\u00e3o de Brizola em l\u00edder da social-democracia trabalhista, mas o primeiro volume concentra sua energia na passagem do ex\u00edlio \u00e0 reorganiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. Tentardini abre mais espa\u00e7o para a experi\u00eancia administrativa do Rio de Janeiro, para os programas sociais, para a constru\u00e7\u00e3o da Passarela do Samba, para os CIEPs, para as pol\u00edticas de urbaniza\u00e7\u00e3o e para o conflito di\u00e1rio com a imprensa. Assim, ilumina uma fase que costuma ser reduzida ao antagonismo com a Rede Globo ou \u00e0 derrota presidencial de 1989.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O m\u00e9rito est\u00e1 em mostrar que esse antagonismo n\u00e3o era um ap\u00eandice folcl\u00f3rico da carreira. A disputa com a televis\u00e3o e com o jornalismo empresarial fazia parte do conflito entre dois projetos de pa\u00eds e duas formas de produ\u00e7\u00e3o da realidade p\u00fablica. Brizola entendia que a imprensa n\u00e3o apenas narrava a pol\u00edtica, mas organizava percep\u00e7\u00f5es, hierarquizava problemas e definia reputa\u00e7\u00f5es. Tentardini acompanha esse embate sem transformar o personagem em v\u00edtima absoluta. Ele registra a pot\u00eancia de sua den\u00fancia, mas tamb\u00e9m a natureza explosiva de seu estilo, seu modo de responder aos advers\u00e1rios e os limites de sua comunica\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa disposi\u00e7\u00e3o de preservar a ambival\u00eancia \u00e9 uma das virtudes mais s\u00f3lidas do livro, que n\u00e3o transforma Brizola em santo para reconhecer sua grandeza. Tentardini permite que convivam a coragem constitucional e a inclina\u00e7\u00e3o ao confronto, o planejamento p\u00fablico e o personalismo, a defesa da democracia e a sedu\u00e7\u00e3o por solu\u00e7\u00f5es de exce\u00e7\u00e3o, a capacidade de mobilizar multid\u00f5es e a dificuldade de construir alian\u00e7as duradouras, o compromisso com a educa\u00e7\u00e3o e a ret\u00f3rica que, em certos momentos, alimentou o medo dos advers\u00e1rios. A personagem cresce quando n\u00e3o \u00e9 protegida de suas pr\u00f3prias tens\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, a obra se afasta de uma biografia puramente celebrat\u00f3ria. Seu tom \u00e9 favor\u00e1vel a Brizola, sem d\u00favida, e h\u00e1 uma evidente admira\u00e7\u00e3o pelo pol\u00edtico e pelo legado trabalhista. Por\u00e9m, a admira\u00e7\u00e3o n\u00e3o substitui o esfor\u00e7o de pesquisa. A presen\u00e7a de n\u00fameros eleitorais, documentos, trechos de entrevistas, registros de imprensa, reprodu\u00e7\u00f5es de arquivos, depoimentos e refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas confere \u00e0 narrativa uma camada de verificabilidade que impede a mem\u00f3ria afetiva de dominar inteiramente o relato.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, ainda, uma importante valoriza\u00e7\u00e3o das mulheres pr\u00f3ximas a Brizola. Neusa Goulart Brizola n\u00e3o surge apenas como esposa do l\u00edder ou como figura decorativa de cerim\u00f4nias familiares. Ela aparece como companheira de lutas, primeira-dama, articuladora de clubes de m\u00e3es, participante do movimento trabalhista e presen\u00e7a decisiva durante a Legalidade. A aten\u00e7\u00e3o de Tentardini \u00e0 fam\u00edlia, \u00e0s filhas, aos filhos, \u00e0 m\u00e3e On\u00edvia e \u00e0s experi\u00eancias dom\u00e9sticas amplia a compreens\u00e3o de uma trajet\u00f3ria pol\u00edtica constru\u00edda tamb\u00e9m sobre redes de afeto, cuidado e sacrif\u00edcio. Essa dimens\u00e3o, embora n\u00e3o esteja ausente na obra de Monteiro, alcan\u00e7a em <strong>No Fio da Hist\u00f3ria<\/strong> uma extens\u00e3o mais sistem\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O mesmo se pode dizer da incorpora\u00e7\u00e3o de epis\u00f3dios que n\u00e3o pertencem diretamente ao n\u00facleo mais conhecido da mitologia brizolista. A biografia aborda a heran\u00e7a, o arquivo pessoal, a rela\u00e7\u00e3o com os filhos e netos, a morte, o funeral, o reconhecimento p\u00f3stumo como her\u00f3i da p\u00e1tria e a controv\u00e9rsia envolvendo Giselda Topper, apresentada no livro em conex\u00e3o com exame gen\u00e9tico e com uma longa disputa judicial. Esses elementos poderiam ser considerados laterais diante da grande pol\u00edtica, mas Tentardini os incorpora para mostrar que a mem\u00f3ria de um personagem p\u00fablico continua a produzir efeitos na esfera privada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O t\u00edtulo <strong>No Fio da Hist\u00f3ria<\/strong> adquire, ent\u00e3o, uma for\u00e7a especial. O fio n\u00e3o \u00e9 apenas a continuidade cronol\u00f3gica dos acontecimentos. \u00c9 uma linha de tens\u00e3o entre o homem que veio de uma fam\u00edlia pobre e o l\u00edder cercado de s\u00edmbolos; entre o estudante que depende de oportunidades e o governante que constr\u00f3i escolas; entre o governador da Legalidade e o exilado que flerta com a insurrei\u00e7\u00e3o; entre o pol\u00edtico perseguido pela ditadura e o candidato que precisa enfrentar a televis\u00e3o; entre o advers\u00e1rio de 1964 e o personagem convertido em patrim\u00f4nio contradit\u00f3rio da democracia brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A express\u00e3o tamb\u00e9m sugere uma compreens\u00e3o n\u00e3o linear da hist\u00f3ria. Brizola n\u00e3o avan\u00e7a de modo progressivo em dire\u00e7\u00e3o a uma identidade definitiva. Ele se refaz, recua, radicaliza, perde, retorna, negocia, rompe, reconcilia-se e envelhece sem cessar de se interpretar. Tentardini respeita essa instabilidade. Por isso, seu livro \u00e9 mais interessante quando n\u00e3o tenta resolver Brizola, mas quando acompanha as for\u00e7as que o atravessam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A originalidade da obra n\u00e3o est\u00e1 em afirmar que Brizola foi um personagem complexo. Essa afirma\u00e7\u00e3o j\u00e1 faz parte do senso comum das boas biografias. O que distingue Tentardini \u00e9 transformar a complexidade em m\u00e9todo narrativo. A inf\u00e2ncia explica a obsess\u00e3o pela escola. A forma\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica ajuda a compreender o administrador. O trabalhismo esclarece o nacionalismo. A Legalidade revela a rela\u00e7\u00e3o entre r\u00e1dio, povo e Constitui\u00e7\u00e3o. O ex\u00edlio exp\u00f5e o radicalismo e seus impasses. A volta ao Brasil evidencia a reinven\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria. O governo do Rio de Janeiro apresenta o conflito entre pol\u00edtica social, m\u00eddia e seguran\u00e7a p\u00fablica. A morte e a mem\u00f3ria mostram que o personagem continua disputado pelos vivos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao lado de Karla Monteiro, Tentardini oferece, portanto, uma biografia de outro recorte e de outra respira\u00e7\u00e3o. <strong>Brizola: Lobisomem contra o Imp\u00e9rio<\/strong>, em seu Volume 1, \u00e9 uma obra de grande for\u00e7a ao reconstituir a trajet\u00f3ria do pol\u00edtico diante do imp\u00e9rio, da crise democr\u00e1tica, do imperialismo norte-americano, do golpe e do ex\u00edlio. Seu Brizola \u00e9 o homem que se torna perigoso porque se recusa a aceitar a posi\u00e7\u00e3o subalterna reservada ao Brasil e porque leva o conflito nacional para o centro da pol\u00edtica internacional. <strong>No Fio da Hist\u00f3ria<\/strong>, sem abandonar esse Brizola, apresenta tamb\u00e9m o homem das escolas, das obras, dos projetos, da rotina administrativa, da fam\u00edlia, das alian\u00e7as, das derrotas eleitorais e das continuidades institucionais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nessa amplia\u00e7\u00e3o que reside sua contribui\u00e7\u00e3o mais valiosa. O livro de Tentardini desloca o olhar do momento excepcional para a longa dura\u00e7\u00e3o. Recorda que a pol\u00edtica n\u00e3o se resume aos discursos inflamados, \u00e0s conspira\u00e7\u00f5es, \u00e0s crises militares e \u00e0s grandes derrotas. Ela tamb\u00e9m se realiza em uma escola erguida numa periferia, numa ponte planejada, numa rede de energia, numa pol\u00edtica de alfabetiza\u00e7\u00e3o, numa negocia\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria, numa escolha administrativa, num arquivo preservado, numa testemunha que finalmente \u00e9 ouvida. Se Monteiro restitui a Brizola a dimens\u00e3o do confronto hist\u00f3rico, Tentardini restitui ao confronto a materialidade das vidas que ele pretendia transformar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 uma grandeza particular em acompanhar Brizola por esse fio sem transform\u00e1-lo em monumento im\u00f3vel. A obra de Cleber Dioni Tentardini \u00e9 positiva porque reconhece no personagem uma for\u00e7a democr\u00e1tica rara, mas tamb\u00e9m porque compreende que tal for\u00e7a n\u00e3o pode ser separada de suas contradi\u00e7\u00f5es. O autor n\u00e3o escreve para encerrar a disputa sobre Brizola. Escreve para torn\u00e1-la mais inteligente, mais documentada e mais humana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao final, o leitor n\u00e3o encontra uma resposta definitiva para a pergunta sobre quem foi Leonel Brizola. Encontra algo mais valioso: uma figura hist\u00f3rica devolvida \u00e0 sua espessura. O menino pobre, o estudante obstinado, o engenheiro, o trabalhista, o prefeito, o governador, o conspirador, o exilado, o socialista moreno, o advers\u00e1rio da televis\u00e3o, o candidato, o pai, o marido, o irm\u00e3o, o homem envelhecido e o morto ainda disputado aparecem como momentos de uma mesma vida, sem que nenhum deles consiga absorver inteiramente os demais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 a diferen\u00e7a decisiva de <strong>No Fio da Hist\u00f3ria<\/strong> em rela\u00e7\u00e3o a <strong>Lobisomem contra o Imp\u00e9rio<\/strong>. Monteiro nos mostra, no primeiro volume de seu projeto, como Brizola se tornou uma amea\u00e7a hist\u00f3rica para os poderes que pretendiam manter o Brasil sob tutela. Cleber Dioni Tentardini mostra, em uma narrativa de escopo integral, como essa amea\u00e7a se converteu em obra, pol\u00edtica p\u00fablica, conflito partid\u00e1rio, mem\u00f3ria familiar e legado democr\u00e1tico. Um livro ilumina a combust\u00e3o do personagem. O outro acompanha o que resta de luz depois que o inc\u00eandio atravessa a hist\u00f3ria.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Leonel Brizola \u00e9 um personagem pol\u00edtico que parece ter sido concebido pela Hist\u00f3ria para exceder qualquer tentativa de s\u00edntese. 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