{"id":85242,"date":"2026-10-02T16:50:58","date_gmt":"2026-10-02T19:50:58","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85242"},"modified":"2026-10-02T16:51:01","modified_gmt":"2026-10-02T19:51:01","slug":"nossa-senhora-e-a-guerra-das-imagens","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/nossa-senhora-e-a-guerra-das-imagens\/","title":{"rendered":"Nossa Senhora e a Guerra das Imagens"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong><u><a href=\"https:\/\/matmejardim.substack.com\/utm_campaign=profile_chips\">MAT JARDIM<\/a><\/u>*<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No domingo o Brasil vai \u00e0s urnas para escolher, entre outras vagas, o seu presidente. Me parece que a campanha eleitoral de 2026 est\u00e1 sendo marcada por algumas diferen\u00e7as estranhas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s anteriores. A partir de 2014, os anos eleitorais foram marcados por um crescimento no engajamento popular com as figuras presidenci\u00e1veis, estabelecendo-se o fen\u00f4meno que conhecemos como polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica; em 2026, no entanto, percebo um certo clima de apatia. Fora dos espa\u00e7os declaradamente politizados, a elei\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um assunto universal, talvez por algum cansa\u00e7o ou pela no\u00e7\u00e3o de que o cl\u00edmax do conflito vivido ao longo dos anos 2010 tenha acontecido em 2022, e assim o jogo eleitoral pode ter perdido um pouco do seu apelo como entretenimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse marasmo pareceu favorecer a candidatura de Fl\u00e1vio Bolsonaro ao longo da maior parte do ano. Mesmo as <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2026\/09\/flavio-investigado-e-viagens-de-diretores-do-bc-as-custas-de-vorcaro-o-que-ha-nos-documentos-do-caso-master.shtml?\"><\/a><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2026\/09\/flavio-investigado-e-viagens-de-diretores-do-bc-as-custas-de-vorcaro-o-que-ha-nos-documentos-do-caso-master.shtml?\">rela\u00e7\u00f5es de Fl\u00e1vio com Daniel Vorcaro escancaradas pelo esc\u00e2ndalo do Banco Master<\/a> acabaram sendo deslocadas para uma narrativa de questionamento do STF, uma das institui\u00e7\u00f5es cuja defesa foi a bandeira de Lula em 22. Foi essa defesa que justificou uma coaliz\u00e3o ampla por tr\u00e1s da campanha do PT, e que confere ao atual presidente um status institucional indesejado, em meio ao esc\u00e2ndalo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na \u00faltima semana, no entanto, dois acontecimentos parecem ter trazido a pauta p\u00fablica de volta a um campo confort\u00e1vel \u00e0 Lula. O mais direto desses acontecimentos foi a proibi\u00e7\u00e3o das Bets, uma medida popular tomada pela presid\u00eancia que \u00e9 capaz de deslocar a figura de Lula de volta a um certo lugar de Davi contra um Golias corporativo, e \u00e9 um papel confort\u00e1vel ao presidente. Sua trajet\u00f3ria pol\u00edtica \u00e9 marcada pela no\u00e7\u00e3o de \u201ccampe\u00e3o do povo\u201d e \u00e9 um acerto direcionar a conversa p\u00fablica com uma a\u00e7\u00e3o concreta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro evento, apenas alguns dias antes da proibi\u00e7\u00e3o, j\u00e1 marcava esse deslocamento da pauta dominante. Passaram a circular nas redes sociais imagens e textos <a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/brasil\/a-maldicao-de-aparecida-a-longa-guerra-evangelica-para-destituir-nossa-senhora-como-padroeira-do-brasil\/\"><\/a><a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/brasil\/a-maldicao-de-aparecida-a-longa-guerra-evangelica-para-destituir-nossa-senhora-como-padroeira-do-brasil\/\">associando Fl\u00e1vio Bolsonaro \u00e0 inten\u00e7\u00e3o de retirar de Nossa Senhora de Aparecida o status de padroeira do Brasil<\/a>. O caso se acentuaria com a declara\u00e7\u00e3o da jornalista Maria Cristina Fernandes, da Globo News, de que a Igreja Cat\u00f3lica estaria se organizando internamente para reagir a essa retirada do t\u00edtulo, orquestrada por agentes da pol\u00edtica evang\u00e9lica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O caso se desdobrou tanto em um abra\u00e7o p\u00fablico da figura da santa pelos apoiadores da campanha de Lula quanto em uma <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2026\/09\/mendonca-nega-censura-e-vota-para-manter-derrubada-de-noticia-falsa-sobre-flavio-e-nossa-senhora.shtml?\"><\/a><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2026\/09\/mendonca-nega-censura-e-vota-para-manter-derrubada-de-noticia-falsa-sobre-flavio-e-nossa-senhora.shtml?\">decis\u00e3o do Ministro Andr\u00e9 Mendon\u00e7a, do STF, de remover publica\u00e7\u00f5es que associavam Fl\u00e1vio \u00e0 inten\u00e7\u00e3o de retirar Nossa Senhora de seu papel de padroeira nacional<\/a>. A decis\u00e3o desencadeou uma <a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/nossa-senhora-aparecida-flavio-decisao-stf-tse-eleicoes?\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.nexojornal.com.br\/expresso\/nossa-senhora-aparecida-flavio-decisao-stf-tse-eleicoes?\">disputa entre ministros do STF e do TSE sobre os limites da remo\u00e7\u00e3o<\/a>, e Mendon\u00e7a posteriormente recuou de parte de seu entendimento. A quest\u00e3o relevante, no entanto, n\u00e3o \u00e9 se Fl\u00e1vio declarou diretamente que pretende remover Aparecida de seu posto, mas sim por que essa acusa\u00e7\u00e3o ganhou tra\u00e7\u00e3o, e qual \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o entre o candidato e agentes que historicamente advogaram por essa remo\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Buscando entender essa preocupa\u00e7\u00e3o e o papel pol\u00edtico (possivelmente decisivo) que uma imagem encontrada no s\u00e9culo XVIII pode desempenhar na elei\u00e7\u00e3o presidencial de 2026 proponho um retrospecto. O conflito relacionado \u00e0 Nossa Senhora Aparecida, como veremos mais \u00e0 frente, parte de uma acusa\u00e7\u00e3o de <strong>idolatria<\/strong> por parte dos protestantes direcionada aos cat\u00f3licos, ent\u00e3o rastrear esse conceito pode ser um bom ponto de partida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Antigo Testamento, a produ\u00e7\u00e3o de imagens \u00e9 proibida j\u00e1 no segundo dos dez mandamentos: <em>\u201cN\u00e3o far\u00e1s para ti imagem de escultura, nem semelhan\u00e7a alguma do que h\u00e1 em cima nos c\u00e9us, nem embaixo na terra, nem nas \u00e1guas debaixo da terra. N\u00e3o te encurvar\u00e1s a elas nem as servir\u00e1s; porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso&#8230;\u201d<\/em> (\u00caxodo 20:4-6). Escrito em contexto judeu, esse trecho ser\u00e1 trabalhado na Idade M\u00e9dia por S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino de maneira a justificar a produ\u00e7\u00e3o de imagens de Cristo. O argumento teol\u00f3gico sistematizado por ele aponta uma mudan\u00e7a na l\u00f3gica pela qual se entende uma imagem a partir da encarna\u00e7\u00e3o de Deus em Cristo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Resumindo de maneira grosseira, se Deus se fez carne como homem, o aspecto humano dessa encarna\u00e7\u00e3o pode ser representado. Produzir uma imagem de Cristo (ou de algo que carregue em si a divindade) \u00e9 reproduzir o aspecto carnal da identidade, e n\u00e3o o divino. Considerando que o aspecto carnal \u00e9 em si portador da divindade, a produ\u00e7\u00e3o de uma imagem nada mais \u00e9 do que a coloca\u00e7\u00e3o de uma camada de representa\u00e7\u00e3o entre quem observa a imagem e o divino. Em outras palavras, \u00e9 permitido reproduzir em imagem a encarna\u00e7\u00e3o de Deus; reproduzir Deus, n\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse contexto que S\u00e3o Tom\u00e1s de Aquino sintetiza uma distin\u00e7\u00e3o particularmente \u00fatil para compreender o problema: a diferen\u00e7a entre a<strong>imagem<\/strong>, que remete a algo al\u00e9m de si mesma, e o <strong>\u00eddolo<\/strong>, que \u00e9 tomado como a pr\u00f3pria divindade.Uma imagem \u00e9 a reprodu\u00e7\u00e3o consciente de sua limita\u00e7\u00e3o, que se prop\u00f5e a representar a materialidade de um Deus irrepresent\u00e1vel em sua totalidade; um \u00eddolo \u00e9 o objeto que substitui a divindade ao ser adorado como se fosse ele mesmo o pr\u00f3prio Deus. A imagem \u00e9 a aus\u00eancia do divino instrumentalizada como lembran\u00e7a, como modo de aproxima\u00e7\u00e3o do inalcan\u00e7\u00e1vel. O \u00eddolo \u00e9 a anti-imagem ao distanciar o observador de Deus, convencendo de que h\u00e1 somente a representa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O leitor atento j\u00e1 percebeu a implica\u00e7\u00e3o violenta dessa distin\u00e7\u00e3o. Mobilizada posteriormente em contextos mission\u00e1rios e coloniais, essa diferen\u00e7a fornece ferramentas para classificar objetos culturais n\u00e3o crist\u00e3os como \u00eddolos. O \u00eddolo \u00e9 pag\u00e3o, possivelmente demon\u00edaco, adorado em engano ou m\u00e1 f\u00e9 por povos que passam a ser primitivos ou malignos segundo essa classifica\u00e7\u00e3o. Assim, o cristianismo reinventa o pecado da idolatria (adora\u00e7\u00e3o de \u00eddolos) de maneira a posicionar a sua pr\u00f3pria produ\u00e7\u00e3o de imagens como santa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um n\u00famero enorme de guerras ter\u00e1 como centro essa quest\u00e3o, principalmente ap\u00f3s o per\u00edodo da Reforma, no s\u00e9culo XVI. O calvinismo retoma a proibi\u00e7\u00e3o de imagens religiosas de maneira direta, e a Europa v\u00ea ao longo de alguns s\u00e9culos uma s\u00e9rie de conflitos marcados pela <strong>iconoclastia<\/strong>, ou seja, a destrui\u00e7\u00e3o de imagens. A Fran\u00e7a, a Inglaterra e os Pa\u00edses Baixos viveram as maiores e mais violentas ondas de movimentos iconoclastas, mas o fen\u00f4meno tamb\u00e9m foi registrado em outros contextos, se espalhando quase como consequ\u00eancia natural dos questionamentos protestantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o das imagens ilustra a oposi\u00e7\u00e3o entre uma boa parte das correntes reformistas e o catolicismo romano. Na tradi\u00e7\u00e3o calvinista, se livrar dos objetos de culto parece fazer parte de uma puls\u00e3o maior de purifica\u00e7\u00e3o do cristianismo, de liberta\u00e7\u00e3o dos elementos vistos como demasiadamente humanos ou pol\u00edticos institu\u00eddos pelo Vaticano. Tamb\u00e9m \u00e9 parte dessa mesma puls\u00e3o a rejei\u00e7\u00e3o dos santos, homens e mulheres consagrados e adorados pela igreja. A acusa\u00e7\u00e3o de idolatria encontra neles mais ind\u00edcios de paganismo na Igreja de Roma, ou seja, mais provas da corrup\u00e7\u00e3o da verdade presente no evangelho. Resumindo, correntes importantes da Reforma (sobretudo o calvinismo) negam a distin\u00e7\u00e3o feita por S\u00e3o Tom\u00e1s: elas tratam todas as imagens religiosas como \u00eddolos, e sua produ\u00e7\u00e3o e uso lit\u00fargico s\u00e3o caracterizados como idolatria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante lembrar que essas quest\u00f5es religiosas s\u00e3o paralelas a (ou instrumento de) quest\u00f5es pol\u00edticas de Estados que buscavam independ\u00eancia do poder cat\u00f3lico. Mesmo nos lugares em que a igreja manteve sua influ\u00eancia, no entanto, a distin\u00e7\u00e3o entre imagem e \u00eddolo seguiu como instrumento pol\u00edtico: chegamos \u00e0 coloniza\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica, quando a imagem cat\u00f3lica volta a se opor a povos \u201cpag\u00e3os\u201d. O contexto mexicano talvez seja o exemplo mais claro desse momento do conflito imag\u00e9tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u201cA Guerra das Imagens\u201d, o historiador da arte Serge Gruzinski discorre sobre o papel central dessas quest\u00f5es na domina\u00e7\u00e3o espanhola sobre os povos nativos do que viria a ser o M\u00e9xico. Gruzinski narra o desenvolvimento da vis\u00e3o europeia dos objetos culturais americanos, que varia de um olhar curioso e exotizante at\u00e9 uma demoniza\u00e7\u00e3o violenta. A partir da conquista de Cort\u00e9s, a estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o espanhola e cat\u00f3lica abra\u00e7a a iconoclastia. As imagens produzidas pelos povos nativos s\u00e3o caracterizadas como \u00eddolos em uma generaliza\u00e7\u00e3o completamente alheia ao contexto original de sua produ\u00e7\u00e3o. A distin\u00e7\u00e3o entre imagem e \u00eddolo n\u00e3o se relacionaria com a produ\u00e7\u00e3o cultural de um maia ou asteca do s\u00e9culo XVI, mas foi usada como argumento para sua submiss\u00e3o cultural e pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa estrat\u00e9gia de domina\u00e7\u00e3o n\u00e3o se deu sem negocia\u00e7\u00f5es, no entanto. A substitui\u00e7\u00e3o dos ditos \u00eddolos por imagens de santos cat\u00f3licos acontece com certa importa\u00e7\u00e3o de sentido entre os objetos. Gruzinski descreve a no\u00e7\u00e3o de que as imagens de santos adquiriam, para os nativos, poderes sobrenaturais como a cura e o afastamento de maus esp\u00edritos. Essa no\u00e7\u00e3o, fomentada pelos conquistadores espanh\u00f3is, revela uma certa invers\u00e3o na l\u00f3gica de S\u00e3o Tom\u00e1s: para derrotar os \u00eddolos, as imagens ganham propriedades de \u00eddolos. Essas caracter\u00edsticas adquiridas nessa transa\u00e7\u00e3o cultural se tornam uma das primeiras marcas do catolicismo popular, tanto no M\u00e9xico quanto no resto da Am\u00e9rica Latina, e permitem o fen\u00f4meno do sincretismo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Talvez voc\u00ea j\u00e1 tenha percebido onde eu quero chegar com isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em outubro de 1717, um grupo de tr\u00eas pescadores jogava suas redes no Rio Para\u00edba do Sul, em S\u00e3o Paulo. Eles precisavam trazer peixes para um banquete em homenagem ao conde de Assumar, governante da capitania que compreendia os atuais estados de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais. Para desespero dos pescadores, a rede voltava vazia a cada vez que era jogada, at\u00e9 que um objeto estranho surgiu entre os n\u00f3s: uma imagem de santa, sem cabe\u00e7a. Na vez seguinte em que a rede foi jogada, veio a cabe\u00e7a, que encaixava perfeitamente no corpo. A partir da\u00ed, a rede passou a voltar cheia de peixes, e os pescadores quase naufragaram dado o peso do fruto de seu trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.cnbb.org.br\/padroeira-do-brasil\/?\">Essa \u00e9 a hist\u00f3ria do milagre original e do encontro com Nossa Senhora Aparecida<\/a>. \u00c9 uma hist\u00f3ria popular, e, para fins de compreens\u00e3o do culto por ela inspirado, sua veracidade \u00e9 irrelevante. Ao longo dos s\u00e9culos seguintes, a imagem encontrada ganharia seu pr\u00f3prio culto, cheio de caracter\u00edsticas pr\u00f3prias e de um folclore recheado de milagres atribu\u00eddos. Trezentos anos depois, \u00e9 f\u00e1cil encontrar as caracter\u00edsticas que permitiram a prolifera\u00e7\u00e3o de seu culto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossa Senhora Aparecida \u00e9 uma santa negra. Sup\u00f5e-se que a terracota de sua pele escureceu na \u00e1gua do rio, e esse tra\u00e7o concedido pela natureza se tornou uma parte essencial da identidade da santa. Em um pa\u00eds que em 1717 ainda estava longe do fim da escravid\u00e3o por mais de um s\u00e9culo, essa caracter\u00edstica se torna uma pot\u00eancia imensa em apelo popular. Um dos milagres atribu\u00eddos \u00e0 imagem viria a ser a quebra das correntes de Zacarias, escravizado que pediu para rezar diante da Santa antes de receber a puni\u00e7\u00e3o por ter fugido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 a inst\u00e2ncia mais \u00f3bvia da identifica\u00e7\u00e3o popular com Nossa Senhora Aparecida, e \u00e9, a olhos c\u00e9ticos, fruto de uma deteriora\u00e7\u00e3o natural do material da imagem. H\u00e1 aqui uma complica\u00e7\u00e3o da dicotomia entre \u00eddolo e imagem, portanto: se uma imagem \u00e9 uma representa\u00e7\u00e3o da materialidade do divino e um \u00eddolo \u00e9 uma reprodu\u00e7\u00e3o pretensamente direta da divindade, o que \u00e9 um objeto cuja pr\u00f3pria materialidade se torna parte da representa\u00e7\u00e3o, e, portanto, parte do divino sendo adorado?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa caracter\u00edstica \u00fanica de Aparecida evidencia uma quest\u00e3o menos \u00f3bvia do que pode ser considerado um santo. Ao contr\u00e1rio de outras apari\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora, o evento de origem da Santa n\u00e3o \u00e9 uma apari\u00e7\u00e3o direta ou vision\u00e1ria de Maria, mas o encontro de uma imagem. Nossa Senhora Aparecida \u00e9 Maria, m\u00e3e de Jesus, mas \u00e9 tamb\u00e9m uma entidade pr\u00f3pria, que surge a partir de uma reprodu\u00e7\u00e3o. Isso a torna menos imagem e mais \u00eddolo? \u00c9 menos teologicamente v\u00e1lido um milagre realizado por uma santa que \u00e9 uma imagem do que um milagre realizado pela imagem de uma santa?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma apari\u00e7\u00e3o normalmente \u00e9 uma manifesta\u00e7\u00e3o de algo que existe de maneira independente da pr\u00f3pria imagem. Em Aparecida, temos uma manifesta\u00e7\u00e3o que acontece justamente a partir de uma imagem encontrada. H\u00e1 a identidade da Santa nascida a partir da imagem, e n\u00e3o o contr\u00e1rio; Aparecida \u00e9 uma santa cuja apari\u00e7\u00e3o \u00e9 uma reprodu\u00e7\u00e3o. A preserva\u00e7\u00e3o da escultura original no Santu\u00e1rio de Aparecida pertence \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o estatu\u00e1ria cat\u00f3lica, mas tamb\u00e9m permite uma aproxima\u00e7\u00e3o com a l\u00f3gica dos relic\u00e1rios de corpos de santos. A fronteira entre divindade e imagem na Santa \u00e9 difusa e permite uma nova rela\u00e7\u00e3o entre corpo e divino na teologia cat\u00f3lica. Tamb\u00e9m nesse sentido podemos entender a Aparecida como uma figura mesti\u00e7a do \u00eddolo e da imagem, e portanto pertencente ao contexto altamente sincr\u00e9tico que forma a religiosidade nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na tradi\u00e7\u00e3o iconogr\u00e1fica cat\u00f3lica, a imagem encontrada em 1717 corresponde a Nossa Senhora da Concei\u00e7\u00e3o, uma representa\u00e7\u00e3o de Maria associada \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o e que toma elementos da Mulher do Apocalipse, como a lua sob os p\u00e9s. \u00c9 uma Virgem caracterizada pelo conflito entre bem e mal, que pisa na serpente do pecado, e \u00e9, portanto, um s\u00edmbolo da vit\u00f3ria derradeira de Deus no fim dos tempos. Em algum sentido, essa ideia de conflito se acentua na Aparecida, que fez e faz parte de diversos jogos de pol\u00edtica e identidade nacional no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria da imagem foi caracterizada por algumas etapas de valida\u00e7\u00e3o institucional: em 1904, o papa Pio X garantiu a coroa\u00e7\u00e3o can\u00f4nica da imagem, conferindo solenidade institucional a seu culto; em 1930, Pio XI a proclamou padroeira do Brasil, como mencionado anteriormente; e, em 1980, a Santa foi <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l6802.htm?\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/l6802.htm?\">definida por lei como detentora desse t\u00edtulo<\/a>, oficializando-o na esfera civil, e estabelecendo o dia 12 de outubro como seu dia e feriado nacional. N\u00e3o por coincid\u00eancia, s\u00e3o tr\u00eas momentos marcados por tentativas de legitima\u00e7\u00e3o dentro da identidade nacional (a consolida\u00e7\u00e3o da Rep\u00fablica, o in\u00edcio da Era Vargas e o fim da ditadura civil-militar, respectivamente).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, o culto popular de Nossa Senhora Aparecida se torna an\u00e1logo \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de uma identidade nacional no Brasil, e a politiza\u00e7\u00e3o da imagem passa a ser uma pauta reativada em momentos de rearranjo dessa identidade. O que caracteriza, ent\u00e3o, o ressurgimento da Santa como pol\u00eamica pol\u00edtica em 2026?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir dos anos 70, diferentes correntes do cristianismo pentecostal e carism\u00e1tico norte-americano passaram a ser exportadas para o resto do mundo. O neopentecostalismo, que faria sua estreia no Brasil no fim dessa d\u00e9cada, tendo entre suas bases a Teologia da Prosperidade (a no\u00e7\u00e3o de que as b\u00ean\u00e7\u00e3os se traduzem em ganhos monet\u00e1rios) e uma forte \u00eanfase no conceito de \u201cguerra espiritual\u201d, que traz o conflito entre Deus e as for\u00e7as demon\u00edacas para o plano material.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 nesse universo teol\u00f3gico que ressurge a identifica\u00e7\u00e3o de idolatria como manifesta\u00e7\u00e3o do mal, e, portanto, se solidifica a base teol\u00f3gica para os ataques \u00e0 Santa. \u00c9 a mesma l\u00f3gica dos conflitos europeus entre protestantes e cat\u00f3licos mencionados anteriormente, agora abra\u00e7ada por um novo movimento de forte ades\u00e3o popular. Em 1978, uma imagem da Santa foi quebrada no Santu\u00e1rio Nacional por um jovem que se descreveu como \u201cevang\u00e9lico\u201d. Em 1995, o bispo da Igreja Universal do Reino de Deus S\u00e9rgio von Helde <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sBnbnDalhd8\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=sBnbnDalhd8\">chutou outra representa\u00e7\u00e3o de Aparecida em um programa transmitido pela rede Record<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses ataques acontecem em paralelo \u00e0 constru\u00e7\u00e3o te\u00f3rica de uma guerra espiritual. Autores como C. Peter Wagner e John Dawson, nos Estados Unidos, e o pastor J. B. Carvalho, no Brasil, passam a tecer um cristianismo agressivo e territorialista. A quest\u00e3o da idolatria, mais do que nunca, passa a ser um ponto decisivo no combate entre bem e mal. J. B. Carvalho publica em 2001 o livro \u201cBomba &#8211; A Verdade Pode Ser Explosiva\u201d, no qual afirma que as apari\u00e7\u00f5es de Maria, e especialmente Aparecida, s\u00e3o ataques de um mesmo dem\u00f4nio, conhecido desde os tempos b\u00edblicos como \u201cRainha dos C\u00e9us\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Historicamente capenga, essa tese afirma que o culto \u00e0 Maria seria parte de uma incorpora\u00e7\u00e3o romana de ritos pag\u00e3os de deusas-m\u00e3es da antiguidade, essas deusas sendo por sua vez dem\u00f4nios que permanecem fortes por meio desse culto. Al\u00e9m de uma nova roupagem para a velha acusa\u00e7\u00e3o de paganismo no Vaticano, ela se apropria da pot\u00eancia de Aparecida (a possibilidade de adapta\u00e7\u00e3o e sincretismo) e a inverte. A identifica\u00e7\u00e3o do Brasil com a Santa se d\u00e1 justamente por esse apelo popular traduzido em miseric\u00f3rdia, em uma m\u00e3e de Deus que \u00e9 tamb\u00e9m m\u00e3e do povo, com suas contradi\u00e7\u00f5es e imperfei\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/revistaforum.com.br\/politica\/jb-carvalho-bispo-michelle-flavio-bolsonaro\/\">A relev\u00e2ncia de J. B. Carvalho n\u00e3o se resume \u00e0 publica\u00e7\u00e3o de \u201cBomba\u201d<\/a>, onde pede a \u201cderrubada da Rainha\u201d. Em 2021, o pastor foi condecorado como \u201cComendador da Ordem do Rio Branco\u201d por Jair Bolsonaro, na \u00e9poca Presidente da Rep\u00fablica. Foi em sua igreja, a \u201cComunidade das Na\u00e7\u00f5es\u201d, que Fl\u00e1vio Bolsonaro e sua esposa foram batizados, em 2024, e foi na sede dessa institui\u00e7\u00e3o que Fl\u00e1vio fez sua primeira apari\u00e7\u00e3o p\u00fablica como pr\u00e9-candidato \u00e0 presid\u00eancia, em dezembro de 2025. Nada disso comprova uma inten\u00e7\u00e3o de Fl\u00e1vio de remover o status de padroeira do Brasil da Santa, mas ajuda a explicar a desconfian\u00e7a por parte da Igreja e do eleitorado cat\u00f3licos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No j\u00e1 mencionado \u201cA Guerra das Imagens\u201d, Serge Gruzinski descreve a iconoclastia e a acusa\u00e7\u00e3o de idolatria como ataques coloniais, ou seja, legitima\u00e7\u00e3o religiosa de domina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica. Aparecida representa uma vis\u00e3o espec\u00edfica da identidade nacional, e \u00e9 essa vis\u00e3o que parece estar em jogo tanto na elei\u00e7\u00e3o quanto na escalada de poder evang\u00e9lica na pol\u00edtica nacional. A quest\u00e3o, portanto, al\u00e9m da perman\u00eancia de Nossa Senhora Aparecida como padroeira nacional, \u00e9 <strong>quem tem o poder de definir os s\u00edmbolos da nossa identidade?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria da imagem segue acontecendo, assim como o conflito. Depois da pol\u00eamica eleitoral envolvendo Nossa Senhora Aparecida, <a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2026\/09\/dino-pede-inquerito-sobre-ataques-a-imagens-religiosas-apos-nossa-senhora-virar-pauta-eleitoral.shtml\"><\/a><a href=\"https:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/2026\/09\/dino-pede-inquerito-sobre-ataques-a-imagens-religiosas-apos-nossa-senhora-virar-pauta-eleitoral.shtml\">o ministro do STF Fl\u00e1vio Dino determinou a abertura de um inqu\u00e9rito pela Pol\u00edcia Federal para investigar a \u201conda de ataques nos \u00faltimos meses contra imagens religiosas\u201d<\/a>. A disputa sobre uma escultura tirada de um rio h\u00e1 mais de trezentos anos continua a representar algo maior do que ela mesma: quem pode dizer o que uma imagem significa, quem pode destru\u00ed-la e quem pode transform\u00e1-la em s\u00edmbolo. Essas s\u00e3o as trincheiras da guerra de imagens.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\" \/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 aqui eu tentei manter um tom <em>relativamente<\/em> neutro. Minha inten\u00e7\u00e3o inicial ao escrever isso era aproveitar um acontecimento pol\u00edtico recente para fazer uma leitura de imagem de Nossa Senhora Aparecida, e aos poucos apontar o que eu acredito que seja um risco real em uma eventual vit\u00f3ria de Fl\u00e1vio Bolsonaro. Escrevendo, percebi que era necess\u00e1rio algo mais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o da imagem \u00e9 s\u00f3 um dos valores em risco nessa elei\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 bastante simb\u00f3lica do todo. Nossa Senhora Aparecida, a Virgem Negra, representa mais do que um \u00edcone cat\u00f3lico popular. Ainda que a consolida\u00e7\u00e3o de qualquer s\u00edmbolo nacional sempre envolva alguma disputa sobre a narrativa pol\u00edtica, o modo como Aparecida se tornou um culto popular massivo e enraizado em caracter\u00edsticas \u00fanicas ao nosso pa\u00eds \u00e9, francamente, lindo. Mesmo que voc\u00ea n\u00e3o se identifique como cat\u00f3lico ou crist\u00e3o, h\u00e1 algo muito comovente no modo como essa santa \u00fanica engloba tens\u00f5es raciais, misticismos populares e uma f\u00e9 pouco protocolar. \u00c9 uma imagem de uma vers\u00e3o do Brasil, em suas contradi\u00e7\u00f5es e em seus sincretismos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa vers\u00e3o do Brasil est\u00e1 em jogo nessas elei\u00e7\u00f5es. <a href=\"https:\/\/www.intercept.com.br\/2026\/09\/30\/rede-trumpista-rockbridge-no-brasil\/\"><\/a><a href=\"https:\/\/www.intercept.com.br\/2026\/09\/30\/rede-trumpista-rockbridge-no-brasil\/\">N\u00e3o \u00e9 segredo para ningu\u00e9m a<\/a> <a href=\"https:\/\/www.intercept.com.br\/2026\/09\/30\/rede-trumpista-rockbridge-no-brasil\/\"><em>afei\u00e7\u00e3o<\/em><\/a> <a href=\"https:\/\/www.intercept.com.br\/2026\/09\/30\/rede-trumpista-rockbridge-no-brasil\/\">da fam\u00edlia Bolsonaro pelos Estados Unidos, nem o apetite imperialista de Donald Trump pela Am\u00e9rica Latina.<\/a> Uma vit\u00f3ria de Fl\u00e1vio pode significar, em muitos sentidos, uma derrota desse pa\u00eds imperfeito mas livre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 por isso que domingo eu vou votar no Lula. Se essas quest\u00f5es s\u00e3o importantes para voc\u00ea, acho que voc\u00ea deveria fazer o mesmo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>*Esse texto foi publicado originalmente na <a href=\"https:\/\/matmejardim.substack.com\/utm_campaign=profile_chips\"><em>newsletter &#8220;livro dos nomes vivos<\/em>&#8220;<\/a>, na plataforma Substack. Esse e outros ensaios sobre cultura, arte e literatura podem ser encontrados em\u00a0 <\/strong><a href=\"https:\/\/matmejardim.substack.com\/utm_campaign=profile_chips\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">https:\/\/matmejardim.substack.com\/utm_campaign=profile_chips<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>MAT JARDIM* No domingo o Brasil vai \u00e0s urnas para escolher, entre outras vagas, o seu presidente. Me parece que a campanha eleitoral de 2026 est\u00e1 sendo marcada por algumas diferen\u00e7as estranhas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s anteriores. 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