{"id":85245,"date":"2026-10-07T18:05:23","date_gmt":"2026-10-07T21:05:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85245"},"modified":"2026-10-07T18:05:25","modified_gmt":"2026-10-07T21:05:25","slug":"a-irresponsabilidade-da-grande-imprensa-nas-eleicoes-2026","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/a-irresponsabilidade-da-grande-imprensa-nas-eleicoes-2026\/","title":{"rendered":"A (ir)responsabilidade da grande imprensa nas elei\u00e7\u00f5es 2026"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/alguns-representates-da-grande-imprensa-comercial-brasileira-1024x576.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-85246\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/alguns-representates-da-grande-imprensa-comercial-brasileira-1024x576.png 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/alguns-representates-da-grande-imprensa-comercial-brasileira-300x169.png 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/alguns-representates-da-grande-imprensa-comercial-brasileira-768x432.png 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/alguns-representates-da-grande-imprensa-comercial-brasileira.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A democracia brasileira n\u00e3o ruiu no \u00faltimo domingo. Seria ing\u00eanuo acreditar que uma elei\u00e7\u00e3o, por si s\u00f3, pudesse derrub\u00e1-la. Democracias n\u00e3o caem de uma hora para outra: s\u00e3o desconstru\u00eddas aos poucos, tijolo por tijolo, por m\u00e3os pacientes. O que o domingo revelou foi o est\u00e1gio avan\u00e7ado desse processo, conduzido h\u00e1 muito tempo com a cumplicidade serena de quem nunca empunhou a marreta, mas vem fomentando o projeto, fornecendo os instrumentos e o hor\u00e1rio nobre em que transmite, com precis\u00e3o did\u00e1tica, o passo a passo da demoli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pa\u00eds acordou do primeiro turno destas elei\u00e7\u00f5es de 2026 com o nome de Flavio Bolsonaro estampado como favorito no centro da cena pol\u00edtica. Muitas reda\u00e7\u00f5es, que por anos fingiram ser narradoras imparciais de um criminoso inc\u00eandio, se alternam agora entre o riso jocoso que tentam disfar\u00e7ar e o ensaio de um espanto teatral, com o olhar arregalado de quem descobre o fogo depois de ter fornecido o f\u00f3sforo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 algo de profundamente macabro, de cerimonial f\u00fanebre celebrado pelos pr\u00f3prios carrascos de palet\u00f3, nesse gesto de muitos que perguntam &#8220;como foi poss\u00edvel?&#8221; sem mencionar que passaram as \u00faltimas d\u00e9cadas distribuindo, em parcelas di\u00e1rias e com a seriedade de um notici\u00e1rio meteorol\u00f3gico, o combust\u00edvel da cat\u00e1strofe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o, n\u00e3o come\u00e7ou ontem. Come\u00e7ou em cada manchete que deu ao ataque \u00e0s institui\u00e7\u00f5es a dignidade de &#8220;pol\u00eamica leg\u00edtima&#8221;, em cada mat\u00e9ria, reportagem, coment\u00e1rio ou editoria que converteu a defesa da ordem constitucional em &#8220;posi\u00e7\u00e3o partid\u00e1ria&#8221;, em cada mesa de debate em que o golpismo teve espa\u00e7o e se sentou \u00e0 direita da legalidade com a liturgia de quem cumpre um expediente burocr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Come\u00e7ou, e conv\u00e9m n\u00e3o esquecer, na cobertura do impeachment de 2016, quando a grande imprensa tratou a deposi\u00e7\u00e3o de uma presidenta eleita, a primeira mulher a governar o Brasil, como um ato de assepsia institucional, condenou-a nas manchetes muito antes do veredicto e apresentou a ruptura como tr\u00e2mite e o golpe como higiene. Foi ali que o autoritarismo aprendeu a falar a l\u00edngua da legalidade, a vestir o terno do devido processo enquanto desmontava a soberania do voto, e a imprensa, mais uma vez, forneceu o palco, o coro e o verniz.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A grande imprensa comercial brasileira nunca foi imparcial, e a sua incapacidade quase sublime de reconhecer o pr\u00f3prio vi\u00e9s n\u00e3o \u00e9 ingenuidade: \u00e9 o disfarce perfeito, porque quem o veste sem saber que o veste n\u00e3o executa os gestos de quem representa, n\u00e3o h\u00e1 ensaio, n\u00e3o h\u00e1 a fresta por onde a encena\u00e7\u00e3o se denuncia, e o observador, diante de tamanha naturalidade, baixa a guarda. Quem se traveste de neutro n\u00e3o est\u00e1 nu; est\u00e1 vestido de um uniforme que tem nome, patroc\u00ednio e hist\u00f3ria, e o manto da imparcialidade, neste pa\u00eds, sempre foi bordado com as iniciais de quem paga a fatura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A falsa equival\u00eancia foi o instrumento can\u00f4nico dessa liturgia. Colocar no mesmo prato da balan\u00e7a o incendi\u00e1rio e o bombeiro, o demolidor e o pedreiro, n\u00e3o \u00e9 equil\u00edbrio: \u00e9 uma escolha, e das mais covardes que o jornalismo conhece, porque se apresenta como virtude exatamente quando pratica a trai\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u00e2ncora que anuncia, com a solenidade de quem preside uma mesa de media\u00e7\u00e3o, que &#8220;h\u00e1 dois lados nesta hist\u00f3ria&#8221;, quando um dos lados carrega um balde de gasolina e a hist\u00f3ria \u00e9 uma casa habitada, n\u00e3o est\u00e1 sendo neutro: est\u00e1 assinando embaixo do inc\u00eandio com a caneta que a audi\u00eancia e o faturamento exigem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa simetria fabricada entre o incendi\u00e1rio e o bombeiro, repetida mil vezes em mil edi\u00e7\u00f5es, funcionou como uma m\u00e1quina de canoniza\u00e7\u00e3o: ao dar ao anseio autorit\u00e1rio o mesmo enquadramento e a mesma seriedade de quem pondera, a grande imprensa comercial n\u00e3o apenas registrou esse anseio, consagrou-o, naturalizou-o, domesticou-o e concedeu ao fascismo o passaporte da respeitabilidade e endere\u00e7o fixo no vocabul\u00e1rio da normalidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os pesos e as medidas, por\u00e9m, nunca foram os mesmos, e essa assimetria \u00e9 a marca registrada do of\u00edcio, essa profiss\u00e3o que se vangloria de medir certo e pesa torto desde sempre. Escrutinava-se com lupa de laborat\u00f3rio a vida inteira de um candidato, cada gesto, cada v\u00edrgula, cada la\u00e7o familiar; para o outro reservava-se o tratamento de quem j\u00e1 nasceu vencedor, o editorial que lamenta no primeiro par\u00e1grafo e absolve no terceiro, a aceita\u00e7\u00e3o silenciosa de quem fez as contas e decidiu que contrariar o favorito custava mais caro do que servi-lo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Relativizava-se o que n\u00e3o admitia relativiza\u00e7\u00e3o, atenuava-se o que exigia rep\u00fadio, e no lugar do jornalismo investigativo instalou-se uma coreografia de equil\u00edbrio em que a amea\u00e7a \u00e0 democracia foi achatada at\u00e9 virar mera disposi\u00e7\u00e3o de \u00e2nimo: o golpismo foi rebatizado de &#8220;radicaliza\u00e7\u00e3o&#8221;, o fascismo de &#8220;populismo&#8221;, a nostalgia da tortura de &#8220;saudade de tempos mais seguros&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A linguagem \u00e9 o primeiro territ\u00f3rio da rendi\u00e7\u00e3o, e a imprensa entregou a linguagem antes de entregar qualquer outra coisa, entregou-a com cerim\u00f4nia, convencida de que vendia modera\u00e7\u00e3o quando, na verdade, vendia a corda com que a democracia poder\u00e1 ser enforcada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1, por tr\u00e1s de tudo, uma fisiologia que seria desonesto ignorar: a grande imprensa \u00e9 uma ind\u00fastria, e das mais vorazes, porque hoje n\u00e3o vive apenas de vender not\u00edcia ao leitor, vive de se vender a si mesma como ativo financeiro. As reda\u00e7\u00f5es foram convertidas em pe\u00e7a de balan\u00e7o, em objeto de especula\u00e7\u00e3o, em moeda de troca entre grupos econ\u00f4micos; o leitor virou audi\u00eancia, a audi\u00eancia virou dado, e o dado virou mercadoria leiloada a quem paga mais, n\u00e3o a quem tem raz\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a ind\u00fastria do notici\u00e1rio se alimenta de choque, de tens\u00e3o, do duelo encenado que apresenta o agressor e o agredido como advers\u00e1rios equivalentes diante das c\u00e2meras, enquanto a audi\u00eancia cresce, o caixa agradece e o balan\u00e7o, no fim do trimestre, sorri.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ningu\u00e9m, nas c\u00fapulas editoriais onde a not\u00edcia \u00e9 decidida e empacotada, deseja literalmente o fim do mundo; mas todos desejam o notici\u00e1rio que o anuncia, a pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o do apocalipse, porque o caos, hoje, j\u00e1 n\u00e3o precisa ser vendido ao leitor para render: ele sustenta a engrenagem inteira, o valor do grupo, a aten\u00e7\u00e3o convertida em ativo, o interesse de quem financia a reda\u00e7\u00e3o sem jamais ler o que ela publica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa gula, esse tr\u00e1fico di\u00e1rio de p\u00e2nico disfar\u00e7ado de servi\u00e7o p\u00fablico, foi o combust\u00edvel que aqueceu a caldeira: foi preciso relativizar para n\u00e3o perder o leitor de um lado, foi preciso equivaler para n\u00e3o parecer alinhada ao outro, e nessa dan\u00e7a de calculistas cada um jurava estar apenas fazendo o seu trabalho, cada um empurrava o pa\u00eds um cent\u00edmetro a mais para o abismo com a consci\u00eancia tranquila de quem cumpre tabela e recebe por isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se algu\u00e9m ainda duvida de que isso \u00e9 of\u00edcio antigo, que consulte os arquivos da pr\u00f3pria hist\u00f3ria. A mesma imprensa que hoje pergunta &#8220;como foi poss\u00edvel&#8221;, quando n\u00e3o trabalhou ativamente para que fosse poss\u00edvel, \u00e9 a mesma que, em 1964, aben\u00e7oou o golpe com manchetes de primeira p\u00e1gina, que por d\u00e9cadas tratou a tortura como &#8220;excessos&#8221; isolados, a ditadura como &#8220;necessidade&#8221; hist\u00f3rica e a censura como &#8220;custo da ordem&#8221;; \u00e9 a mesma que, quando o regime resolveu que at\u00e9 os aliados incomodavam, aprendeu na pr\u00f3pria pele o gosto do sil\u00eancio imposto. E n\u00e3o se deixe enganar pela pergunta: ela tem o tom de quem, no dia seguinte ao primeiro turno, j\u00e1 anunciava as manchetes do segundo com um contentamento mal disfar\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A m\u00eddia comercial nunca foi ing\u00eanua, nunca foi v\u00edtima, nunca foi arrastada para a contram\u00e3o da hist\u00f3ria: foi c\u00famplice, foi lucrativa, foi pontual, compareceu a todos os encontros que o poder marcou. E quem tem essa biografia n\u00e3o poder\u00e1, caso o resultado do segundo turno confirme o do primeiro, reivindicar o papel de vi\u00fava da democracia com l\u00e1grimas de encomenda, porque a democracia, para ela, nunca foi um valor: foi um produto, vendido enquanto deu lucro e trocado sem remorso quando o mercado pediu outra mercadoria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sabemos que o espanto que algumas reda\u00e7\u00f5es ensaiam nestes dias \u00e9, ele mesmo, um produto. H\u00e1 algo de obsceno na coreografia do mea-culpa: o comentarista de sobrolho franzido, a an\u00e1lise sobre &#8220;o que fizemos de errado&#8221;, tudo o que poderia ser reflex\u00e3o verdadeira convertido em mais um epis\u00f3dio da programa\u00e7\u00e3o, mais um espet\u00e1culo rent\u00e1vel, mais uma forma de lucrar com a pr\u00f3pria culpa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a grande imprensa se dedica, com a mesma maquinaria com que fabricou o resultado, a se punir em p\u00fablico, n\u00e3o est\u00e1 se corrigindo: est\u00e1 produzindo a pr\u00f3pria absolvi\u00e7\u00e3o, est\u00e1 anunciando a vers\u00e3o palat\u00e1vel da hist\u00f3ria antes que a hist\u00f3ria verdadeira seja escrita por outros, est\u00e1, em suma, transformando o abismo em pauta e a cumplicidade em cota\u00e7\u00e3o de audi\u00eancia. Ela trabalhou por este resultado, trabalhou com afinco, e a pergunta que o pa\u00eds lhe far\u00e1, se a trag\u00e9dia se consumar, n\u00e3o \u00e9 se estava espantada, mas se ter\u00e1 a coragem de assumir a culpa diante da democracia agonizante, em vez de converter a confiss\u00e3o em mais um produto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E a ironia mais amarga, a que nenhum editorial tem coragem de encarar, tem o nome de um lugar que nenhum mapa oficial registra, mas que o governo de seu pai tornou c\u00e9lebre: o cercadinho, aquela pequena \u00e1rea cercada diante do Pal\u00e1cio da Alvorada onde o presidente falava apenas com os fi\u00e9is e mantinha a imprensa do lado de fora da grade, a uma dist\u00e2ncia que era, ao mesmo tempo, f\u00edsica e simb\u00f3lica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se Flavio Bolsonaro vencer o segundo turno, os primeiros a serem amorda\u00e7ados do lado de fora dessa cerca ser\u00e3o exatamente os que hoje se espantam. A hist\u00f3ria j\u00e1 ensaiou essa cena no governo do pai, quando a imprensa que o aplaudiu no palanque aprendeu, na pr\u00f3pria pele, que o autoritarismo n\u00e3o distingue o adulador do cr\u00edtico, que a boia estendida ao tirano \u00e9 lan\u00e7ada ao mar no exato momento em que o barco aporta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o h\u00e1 alian\u00e7a com o fascismo que o fascismo respeite; n\u00e3o h\u00e1 jornalista que o cercadinho poupe pelo fato de ter sido \u00fatil, porque a utilidade \u00e9 descart\u00e1vel por defini\u00e7\u00e3o, e o despotismo, quando chega, cobra de todos, come\u00e7ando exatamente por aqueles que o serviram. Quem se deita com o fascismo achando que pode escolher a hora de sair da cama est\u00e1 apenas escolhendo o lado do colch\u00e3o em que ser\u00e1 estrangulado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A tolice profunda, tr\u00e1gica, quase c\u00f4mica dessa estrat\u00e9gia \u00e9 que a imprensa ajuda a construir a forca acreditando que ser\u00e1 poupada por ter fornecido a corda. Serve aos anseios golpistas com a modera\u00e7\u00e3o de quem acha que pode controlar aquilo que desperta, domesticar a fera com manchetes equilibradas, escolher a tempo o lado vencedor e salvar o pr\u00f3prio pesco\u00e7o com um ajuste de pauta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas regimes autorit\u00e1rios n\u00e3o fazem distin\u00e7\u00e3o fina, n\u00e3o leem curr\u00edculo, n\u00e3o consultam o hist\u00f3rico de colabora\u00e7\u00e3o: para eles, todo jornalista \u00e9 suspeito, todo jornal \u00e9 inimigo em potencial, e o cercadinho do filho ser\u00e1, como o do pai, o destino de quem apostou na fera e perdeu a m\u00e3o para o bicho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imprensa que hoje se traveste de imparcial ser\u00e1 desnudada por aqueles a quem serviu, e descobrir\u00e1, na humilha\u00e7\u00e3o p\u00fablica e no sil\u00eancio for\u00e7ado, que a neutralidade que fingiu nunca existiu, que ningu\u00e9m acreditou nela, nem mesmo os que dela se serviram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cumpre, ent\u00e3o, falar de culpa, essa palavra que as reda\u00e7\u00f5es evitam como um termo t\u00e9cnico defunto. A imprensa brasileira carrega uma parcela do abismo em que o pa\u00eds se encontra, e essa parcela n\u00e3o \u00e9 pequena nem lateral: \u00e9 estrutural, \u00e9 hist\u00f3rica, \u00e9 quase fundadora. Foi ela que, em diferentes momentos, tratou a ditadura como necessidade, a tortura como excesso, o ataque \u00e0s institui\u00e7\u00f5es como pol\u00eamica; foi ela que deu ao autoritarismo um verniz de respeitabilidade sempre que o lucro ou a conveni\u00eancia pediram; foi ela que, no ciclo que agora se fechar\u00e1 no segundo turno das elei\u00e7\u00f5es de 2026, transformou a defesa da democracia em posi\u00e7\u00e3o sect\u00e1ria e o ataque \u00e0 democracia em opini\u00e3o defens\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A omiss\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 um ato, e o sil\u00eancio tem autoria: cada mat\u00e9ria que amaciou, cada t\u00edtulo que relativizou, cada equil\u00edbrio que falseou a gravidade dos fatos deixou uma marca no resultado que a\u00ed est\u00e1, e a imprensa que pergunta &#8220;como foi poss\u00edvel&#8221; \u00e9 a mesma que respondeu, ano ap\u00f3s ano, que n\u00e3o era bem assim, que os dois lados tinham suas raz\u00f5es, inclusive o lado que sempre quis enforcar a democracia no poste mais pr\u00f3ximo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Espera-se, no entanto, mesmo que inocentemente, que a grande imprensa fa\u00e7a agora, at\u00e9 o pr\u00f3ximo dia 25 de outubro, uma reflex\u00e3o profunda sobre sua atua\u00e7\u00e3o historicamente antidemocr\u00e1tica e antipovo, sobre seu papel de c\u00famplice relutante e lucrativo de todos os autoritarismos brasileiros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Espera-se, porque \u00e9 pr\u00f3prio da natureza humana esperar que o mal se reconhe\u00e7a no espelho e se arrependa antes que seja tarde. Mas talvez n\u00e3o haja tempo, e talvez a esperan\u00e7a seja, ela mesma, parte da com\u00e9dia: institui\u00e7\u00f5es que falham no exato momento da prova raramente recebem da hist\u00f3ria um segundo cap\u00edtulo de reden\u00e7\u00e3o, e o que se avizinha n\u00e3o \u00e9 um cen\u00e1rio de mea-culpa e reforma interior, mas de engolimento, de cercadinho, de liberdade de imprensa reduzida a cinzas protocolares.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O arrependimento que n\u00e3o veio antes n\u00e3o vir\u00e1 depois, porque depois n\u00e3o haver\u00e1 voz para pronunci\u00e1-lo; os editoriais ser\u00e3o amanh\u00e3 ref\u00e9ns mudos, amorda\u00e7ados pela fera que ajudaram a eleger \u2013 tor\u00e7amos para que essa hip\u00f3tese n\u00e3o se concretize \u2013, relendo em sil\u00eancio as pr\u00f3prias manchetes como quem folheia a ata de um crime do qual foram, ao mesmo tempo, autores, plateia e v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Que fique, ao menos, o registro, para que n\u00e3o se diga que ningu\u00e9m avisou. A democracia, se cair, n\u00e3o ter\u00e1 ca\u00eddo sozinha, e os que a verem cair, de microfone na m\u00e3o e espanto no rosto, n\u00e3o poder\u00e3o alegar aus\u00eancia: estiveram presentes, estiveram moldando o vocabul\u00e1rio, calibrando as medidas, vestindo o manto da imparcialidade sobre o uniforme da conveni\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E agora, diante do abismo que se aproxima, resta \u00e0 imprensa pouco tempo para rever a pr\u00f3pria contribui\u00e7\u00e3o na escrita do futuro do pa\u00eds. Caso contr\u00e1rio, restar\u00e1 a \u00fanica pergunta digna do seu passado: n\u00e3o &#8220;como foi poss\u00edvel&#8221;, mas &#8220;quem fomos n\u00f3s para que isto fosse poss\u00edvel&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se a resposta vier, chegar\u00e1 tarde; se vier, servir\u00e1 aos que vir\u00e3o depois, aos que ainda acreditam que o jornalismo pode ser outra coisa, que a not\u00edcia pode ser um ato de coragem e n\u00e3o uma cerim\u00f4nia de equil\u00edbrio entre a verdade e a forca. Para estes, e somente para estes, a hist\u00f3ria ainda guarda uma p\u00e1gina em branco. Para os outros, para os que se travestiram de neutros enquanto escolhiam de que lado ficar, restar\u00e1 apenas a ata do crime que ajudaram a escrever, e a lembran\u00e7a de que, quando lhes perguntaram de que lado estavam, responderam com a solenidade de quem preside uma media\u00e7\u00e3o que havia dois lados na hist\u00f3ria, enquanto um deles carregava a corda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt A democracia brasileira n\u00e3o ruiu no \u00faltimo domingo. Seria ing\u00eanuo acreditar que uma elei\u00e7\u00e3o, por si s\u00f3, pudesse derrub\u00e1-la. Democracias n\u00e3o caem de uma hora para outra: s\u00e3o desconstru\u00eddas aos poucos, tijolo por tijolo, por m\u00e3os pacientes. 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