{"id":85277,"date":"2026-10-15T09:55:50","date_gmt":"2026-10-15T12:55:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85277"},"modified":"2026-10-15T10:18:46","modified_gmt":"2026-10-15T13:18:46","slug":"15-de-outubro-quem-ainda-quer-ser-professora","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/15-de-outubro-quem-ainda-quer-ser-professora\/","title":{"rendered":"15 de outubro: quem ainda quer ser professor(a)?"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas fotografias n\u00e3o apenas mostram um tempo: deixam que ele nos olhe de volta. Na imagem da Escola Oswaldo Cruz, em Santa Cec\u00edlia, no interior de Missal, no Paran\u00e1, a fotografia antiga aparece acima; abaixo, a mesma cena, restaurada e colorida. Entre uma vers\u00e3o e outra, permanecem os rostos, os corpos dispostos em torno da professora e a forma como uma turma numerosa se organiza diante da c\u00e2mera. Muda a superf\u00edcie da imagem; n\u00e3o se restitui, por\u00e9m, tudo o que o tempo levou. A restaura\u00e7\u00e3o recomp\u00f5e contornos, mas n\u00e3o devolve os ru\u00eddos da sala, as conversas do recreio, o ritmo de cada manh\u00e3 nem a extens\u00e3o dos dias.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"819\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/minha-mae-segunda-da-direita-a-esquerda-no-topo-ao-lado-do-professor-arcelio-reckziegel-e-junto-aos-alunos-em-1973-escola-oswaldo-cruz-santa-cecilia-missal-pr-819x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85278\" style=\"aspect-ratio:0.7998087268380155;width:477px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/minha-mae-segunda-da-direita-a-esquerda-no-topo-ao-lado-do-professor-arcelio-reckziegel-e-junto-aos-alunos-em-1973-escola-oswaldo-cruz-santa-cecilia-missal-pr-819x1024.jpeg 819w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/minha-mae-segunda-da-direita-a-esquerda-no-topo-ao-lado-do-professor-arcelio-reckziegel-e-junto-aos-alunos-em-1973-escola-oswaldo-cruz-santa-cecilia-missal-pr-240x300.jpeg 240w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/minha-mae-segunda-da-direita-a-esquerda-no-topo-ao-lado-do-professor-arcelio-reckziegel-e-junto-aos-alunos-em-1973-escola-oswaldo-cruz-santa-cecilia-missal-pr-768x960.jpeg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/minha-mae-segunda-da-direita-a-esquerda-no-topo-ao-lado-do-professor-arcelio-reckziegel-e-junto-aos-alunos-em-1973-escola-oswaldo-cruz-santa-cecilia-missal-pr.jpeg 1080w\" sizes=\"auto, (max-width: 819px) 100vw, 819px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Minha m\u00e3e, segunda da direita \u00e0 esquerda, no topo, ao lado do professor Arcelio Reckziegel e junto aos alunos, em 1973. Escola Oswaldo Cruz, Santa Cec\u00edlia, Missal, PR.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha m\u00e3e iniciou a carreira no magist\u00e9rio em 1973, naquela escola. Ao contempl\u00e1-la entre os alunos, no topo da foto, a segunda da direita para a esquerda, percebo que uma fotografia escolar \u00e9 tamb\u00e9m um documento \u00edntimo: nela se inscrevem uma profiss\u00e3o e uma \u00e9poca, mas tamb\u00e9m a dist\u00e2ncia entre aquilo que conseguimos ver e aquilo que apenas podemos imaginar. Ser professora em uma escola rural podia significar ocupar muitos lugares ao mesmo tempo, alguns deles t\u00e3o distantes da sala de aula quanto indispens\u00e1veis a ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas escolas do interior, sobretudo nas pequenas comunidades rurais da d\u00e9cada de 1970, os limites entre ensinar e manter a escola funcionando eram porosos. A professora podia preparar ou organizar a comida, cuidar da limpeza e da zeladoria do espa\u00e7o, acompanhar as crian\u00e7as e, em meio a tantas tarefas, ensinar. Em uma mesma sala, alunos de diferentes idades e etapas de aprendizagem compartilhavam o quadro, o tempo e a aten\u00e7\u00e3o docente. Enquanto uma crian\u00e7a come\u00e7ava a ler, outra avan\u00e7ava em exerc\u00edcios de outra s\u00e9rie; cada uma precisava de orienta\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria, embora todas estivessem sob o mesmo teto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa realidade exigia uma pedagogia feita de planejamento, improviso e aten\u00e7\u00e3o cont\u00ednua. O olhar da professora precisava percorrer a sala inteira, n\u00e3o para vigiar indistintamente, mas para perceber onde uma d\u00favida se formava, quem havia terminado a tarefa, quem aguardava ajuda. A aula era uma composi\u00e7\u00e3o de tempos simult\u00e2neos. A crian\u00e7a que j\u00e1 compreendia uma li\u00e7\u00e3o n\u00e3o podia ser esquecida; a que ainda tentava decifrar as primeiras palavras n\u00e3o deveria sentir que o ritmo dos demais a deixava para tr\u00e1s. Havia ali uma intelig\u00eancia do cotidiano, mas tamb\u00e9m uma sobrecarga que n\u00e3o conv\u00e9m converter em lenda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 poss\u00edvel reconhecer a dedica\u00e7\u00e3o de quem trabalhou nessas condi\u00e7\u00f5es sem transformar a precariedade em atributo nobre do of\u00edcio. Fazer da professora rural uma figura heroica, capaz de suprir sozinha todas as aus\u00eancias, seria outra forma de ocultar o que lhe faltava: estrutura, recursos, divis\u00e3o justa do trabalho e reconhecimento material. A mem\u00f3ria pode iluminar o esfor\u00e7o, mas n\u00e3o deve dourar a dificuldade. A escola existia porque algu\u00e9m fazia muito, \u00e0s vezes mais do que deveria caber a uma s\u00f3 pessoa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, havia um respeito p\u00fablico \u00e0 figura docente que, na lembran\u00e7a de tantas fam\u00edlias, possu\u00eda uma forma vis\u00edvel. A professora era reconhecida como algu\u00e9m cuja palavra tinha peso dentro da comunidade. Essa autoridade n\u00e3o precisa ser confundida com infalibilidade, nem se deve idealizar o passado como se todos os v\u00ednculos fossem justos e todas as vozes fossem igualmente ouvidas. Mas havia uma compreens\u00e3o compartilhada de que a escola e quem nela ensinava ocupavam um lugar importante na vida comum. O professor podia orientar e estabelecer limites sem que sua presen\u00e7a fosse reduzida, de sa\u00edda, \u00e0 de um advers\u00e1rio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imagem restaurada da professora com os alunos e alunas da Escola Oswaldo Cruz parece trazer esse tempo para mais perto, mas tamb\u00e9m nos obriga a perguntar o que uma fotografia n\u00e3o diz. Ela n\u00e3o informa quanto pesava cada jornada, nem registra o que faltava. A turma est\u00e1 diante de n\u00f3s, mas n\u00e3o ouvimos as perguntas nem os sil\u00eancios. Talvez seja justamente por isso que a imagem permane\u00e7a aberta: n\u00e3o encerra a hist\u00f3ria, convida a continu\u00e1-la. Minha m\u00e3e aparece ali como professora, mas a fotografia tamb\u00e9m me alcan\u00e7a, porque, anos depois, eu me encontraria diante de outra sala de aula.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em julho de 1996, pouco antes de partir para um per\u00edodo de estudos na Pol\u00f4nia, conclu\u00ed meu est\u00e1gio de magist\u00e9rio na Escola Estadual S\u00e3o Estanislau, na Linha Harmonia, interior de Guarani das Miss\u00f5es, no Rio Grande do Sul. Eu chegava a esse est\u00e1gio depois de tr\u00eas anos de estudos no Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9, da Congrega\u00e7\u00e3o das Irm\u00e3s Franciscanas da Sagrada Fam\u00edlia de Maria, tamb\u00e9m em Guarani das Miss\u00f5es. A forma\u00e7\u00e3o naquele col\u00e9gio e a experi\u00eancia posterior de um semestre em uma escola p\u00fablica rural foram partes distintas de uma aprendizagem que n\u00e3o se completava nos livros: ensinavam-me que a doc\u00eancia come\u00e7a muito antes de se dominar a mat\u00e9ria, porque come\u00e7a no encontro com aqueles a quem se ensina.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rotina tinha a precis\u00e3o simples dos deslocamentos que se repetem. Eu acordava \u00e0s cinco da manh\u00e3, pegava o \u00f4nibus na cidade e depois de alguns quil\u00f4metros descia no asfalto. Dali, ainda havia cerca de um quil\u00f4metro e meio de estrada de terra at\u00e9 a escola. O percurso fazia parte do est\u00e1gio, embora n\u00e3o constasse em nenhum plano de aula: o escuro da sa\u00edda, a espera pelo \u00f4nibus, a mudan\u00e7a do asfalto para a estrada, os dias de chuva que tornavam o trajeto da caminhada ainda mais pesado e distante, os passos at\u00e9 o lugar onde o dia de ensino come\u00e7aria. N\u00e3o me lembro disso como uma prova de hero\u00edsmo. Era o caminho poss\u00edvel para chegar \u00e0 escola, e a repeti\u00e7\u00e3o daqueles passos acabou se incorporando \u00e0 mem\u00f3ria do que vivi ali.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/o-autor-no-topo-a-esquerda-com-os-alunos-em-viagem-ao-santuario-de-caaro-1996-arquivo-pessoal-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-85279\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/o-autor-no-topo-a-esquerda-com-os-alunos-em-viagem-ao-santuario-de-caaro-1996-arquivo-pessoal-1024x683.png 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/o-autor-no-topo-a-esquerda-com-os-alunos-em-viagem-ao-santuario-de-caaro-1996-arquivo-pessoal-300x200.png 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/o-autor-no-topo-a-esquerda-com-os-alunos-em-viagem-ao-santuario-de-caaro-1996-arquivo-pessoal-768x512.png 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/o-autor-no-topo-a-esquerda-com-os-alunos-em-viagem-ao-santuario-de-caaro-1996-arquivo-pessoal.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O autor, no topo, \u00e0 esquerda, com os alunos em viagem ao Santu\u00e1rio de Caar\u00f3, 1996. Arquivo pessoal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fotografia em que estou com os alunos da Escola S\u00e3o Estanislau, tomada em 1996 diante da igreja do Santu\u00e1rio de Caar\u00f3, guarda uma cena de conviv\u00eancia que os bilhetes prolongam por outra via. A imagem re\u00fane professor e estudantes em um instante coletivo; os pap\u00e9is, por sua vez, deixam ouvir algumas vozes singulares. O que mais me impressiona, ao rel\u00ea-los 30 anos depois, \u00e9 que os alunos n\u00e3o registraram apenas o conte\u00fado das aulas. Guardaram a maneira como o professor os tratava, a disponibilidade para responder \u00e0s perguntas, a presen\u00e7a cotidiana e at\u00e9 os tra\u00e7os f\u00edsicos que compunham, para eles, a pessoa diante da turma.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"662\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-das-alunas-francieli-skalinski-e-ilce-osaida-arquivo-pessoal-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-85281\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-das-alunas-francieli-skalinski-e-ilce-osaida-arquivo-pessoal-1.png 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-das-alunas-francieli-skalinski-e-ilce-osaida-arquivo-pessoal-1-300x194.png 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-das-alunas-francieli-skalinski-e-ilce-osaida-arquivo-pessoal-1-768x497.png 768w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Bilhetes das alunas Francieli Skalinski e Ilce Osaida. Arquivo pessoal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nos bilhetes de Francieli Skalinski, Ilce Osaida, Diogo Zalewski e Neli Luciane Smola, o afeto aparece em registros diferentes, mas convergentes: Francieli e Ilce agradecem, dizem gostar do professor e antecipam a saudade; Diogo recorda os seis meses de conviv\u00eancia, a aten\u00e7\u00e3o \u00e0s perguntas e a felicidade que associa \u00e0quele per\u00edodo; Neli agradece por ele ter vindo ensinar e feito tanto pela turma, chama-o de importante para os alunos e agradece tamb\u00e9m pela viagem ao Santu\u00e1rio de Caar\u00f3 e \u00e0s Ru\u00ednas de S\u00e3o Miguel das Miss\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-de-diogo-zaleski-e-neli-luciane-smola-arquivo-pessoal-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-85282\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-de-diogo-zaleski-e-neli-luciane-smola-arquivo-pessoal-1024x683.png 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-de-diogo-zaleski-e-neli-luciane-smola-arquivo-pessoal-300x200.png 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-de-diogo-zaleski-e-neli-luciane-smola-arquivo-pessoal-768x512.png 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-de-diogo-zaleski-e-neli-luciane-smola-arquivo-pessoal.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Bilhetes de Diogo Zaleski e Neli Luciane Smola. Arquivo pessoal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mensagens de Mario Sergio Smola e Gessi Rocha da Silva acrescentam outras notas a esse conjunto: Mario descreve o professor com franqueza, detendo-se em sua apar\u00eancia, no perfume, nas balas que comia durante a aula e no fato de fazer poucas provas; Gessi expressa carinho e gratid\u00e3o, chamando-o de legal, querido e amoroso, e desenha um cora\u00e7\u00e3o. Juntas, essas vozes n\u00e3o formam um coro uniforme, e \u00e9 justamente nessa diferen\u00e7a que reside sua for\u00e7a: h\u00e1 agradecimento, admira\u00e7\u00e3o, humor, observa\u00e7\u00e3o e ternura.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-dos-alunos-mario-sergio-smola-e-gessi-rocha-da-silva-arquivo-pessoal-1-1024x683.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-85283\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-dos-alunos-mario-sergio-smola-e-gessi-rocha-da-silva-arquivo-pessoal-1-1024x683.png 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-dos-alunos-mario-sergio-smola-e-gessi-rocha-da-silva-arquivo-pessoal-1-300x200.png 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-dos-alunos-mario-sergio-smola-e-gessi-rocha-da-silva-arquivo-pessoal-1-768x512.png 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/bilhetes-dos-alunos-mario-sergio-smola-e-gessi-rocha-da-silva-arquivo-pessoal-1.png 1536w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Bilhetes dos alunos Mario Sergio Smola e Gessi Rocha da Silva. Arquivo pessoal.<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os alunos registraram tanto o trabalho quanto a pessoa, com a espontaneidade de quem ainda n\u00e3o separa inteiramente o professor de seus gestos cotidianos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o posso saber exatamente o que cada um guardou daquele per\u00edodo, nem afirmar a medida em que minhas aulas os acompanharam; os bilhetes testemunham, com a delicadeza e a franqueza pr\u00f3prias de quem escreve sem c\u00e1lculo, que houve entre n\u00f3s uma rela\u00e7\u00e3o capaz de deixar vest\u00edgios. Eu os ensinava, mas tamb\u00e9m era visto por eles. E, ao guardar esses pap\u00e9is, reconhe\u00e7o que as marcas n\u00e3o caminharam em uma \u00fanica dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O est\u00e1gio era enriquecedor tamb\u00e9m porque colocava em di\u00e1logo duas experi\u00eancias de forma\u00e7\u00e3o: a dos tr\u00eas anos no Col\u00e9gio S\u00e3o Jos\u00e9 e a do cotidiano de uma escola p\u00fablica rural. Uma ofereceu o ambiente r\u00edgido de estudos conduzidos pelas freiras e a forma\u00e7\u00e3o recebida; a outra p\u00f4s \u00e0 prova a presen\u00e7a diante dos alunos, a prepara\u00e7\u00e3o do trabalho e a capacidade de aprender enquanto se ensina. N\u00e3o s\u00e3o experi\u00eancias concorrentes, nem se resumem a institui\u00e7\u00f5es ou m\u00e9todos. Juntas, ajudaram-me a compreender que a doc\u00eancia se aprende em camadas: no estudo, na observa\u00e7\u00e3o, na responsabilidade e na rela\u00e7\u00e3o concreta com uma turma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando volto a 1996, o que me comove n\u00e3o \u00e9 apenas a juventude de quem come\u00e7ava a dar aulas. \u00c9 a descoberta de que ensinar nunca ocorre em uma dire\u00e7\u00e3o s\u00f3. O professor planeja, explica e acompanha; ao mesmo tempo, \u00e9 observado, interpretado e lembrado de maneiras que n\u00e3o controla. Um aluno pode guardar uma palavra, uma corre\u00e7\u00e3o ou uma gentileza; pode tamb\u00e9m esquecer o conte\u00fado de uma aula e lembrar a apar\u00eancia do professor, uma resposta ou uma experi\u00eancia compartilhada. A mem\u00f3ria estudantil n\u00e3o obedece ao curr\u00edculo. Ela seleciona o que, por raz\u00f5es pr\u00f3prias, se tornou significativo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta do t\u00edtulo, \u201cquem ainda quer ser professor(a)?\u201d, n\u00e3o pode ser respondida apenas com lembran\u00e7as. Minha m\u00e3e come\u00e7ou em 1973, eu conclu\u00ed o est\u00e1gio em 1996 e segui por outros caminhos, voltando a lecionar muitos anos depois no ensino superior. A escola de hoje enfrenta condi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o iguais \u00e0s de nenhum desses momentos. A desvaloriza\u00e7\u00e3o material do magist\u00e9rio n\u00e3o nasceu recentemente. Remunera\u00e7\u00e3o, estabilidade, condi\u00e7\u00f5es de trabalho e reconhecimento profissional h\u00e1 muito s\u00e3o motivo de preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que mudou foi tamb\u00e9m a maneira como a autoridade docente \u00e9 contestada e como os conflitos se tornam p\u00fablicos. As redes sociais ampliaram a velocidade e o alcance das ofensas. Uma cena escolar pode ser recortada, descontextualizada e exposta a um p\u00fablico que n\u00e3o conhece a turma, o percurso da aula nem a hist\u00f3ria das pessoas envolvidas. O ambiente digital facilita a circula\u00e7\u00e3o de insultos e suspeitas, mas n\u00e3o explica, sozinho, o desgaste da profiss\u00e3o. H\u00e1 transforma\u00e7\u00f5es mais amplas no pacto entre escola, fam\u00edlias e comunidade; h\u00e1 conflitos que chegam \u00e0 sala de aula sem apoio suficiente para serem mediados; h\u00e1 cobran\u00e7a crescente sobre professores que, com frequ\u00eancia, precisam responder por problemas que ultrapassam sua forma\u00e7\u00e3o e suas atribui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m se enfraquece a ideia de que o conhecimento exige tempo, disciplina intelectual e disposi\u00e7\u00e3o para rever o que se pensa. Em uma \u00e9poca de informa\u00e7\u00e3o abundante e imediata, o professor pode ser tratado como se sua fun\u00e7\u00e3o fosse entregar respostas prontas, sem a complexidade do trabalho que as sustenta. Quando a escola \u00e9 reduzida a um servi\u00e7o e o docente a um prestador submetido a avalia\u00e7\u00f5es permanentes, o di\u00e1logo se estreita. A autoridade pedag\u00f3gica n\u00e3o deveria significar poder absoluto, mas tampouco pode ser substitu\u00edda pela suspeita autom\u00e1tica, pelo desrespeito cont\u00ednuo, pela humilha\u00e7\u00e3o ou pela exig\u00eancia de que o professor suporte sozinho qualquer conflito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os sinais recentes de baixa atratividade da carreira ajudam a dar dimens\u00e3o p\u00fablica ao que, na mem\u00f3ria pessoal, aparece como inquieta\u00e7\u00e3o. Reportagem publicada pelo <em>Extra Classe<\/em> em setembro de 2026, com dados da segunda edi\u00e7\u00e3o da pesquisa do Instituto Semesp sobre renova\u00e7\u00e3o docente, relata que, entre 2015 e 2025, o n\u00famero de professores do Ensino M\u00e9dio com at\u00e9 24 anos caiu 31,1%, enquanto o contingente com 60 anos ou mais aumentou 104,5%. A pesquisa tamb\u00e9m aponta dificuldades relativas \u00e0 valoriza\u00e7\u00e3o e \u00e0 perman\u00eancia na profiss\u00e3o. Esses dados n\u00e3o resumem a experi\u00eancia de todo o magist\u00e9rio brasileiro, mas comp\u00f5em um retrato preocupante da renova\u00e7\u00e3o docente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A viol\u00eancia escolar, por sua vez, n\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno de causa \u00fanica. A <em>Pesquisa FAPESP<\/em>, em reportagem publicada em abril de 2025 e atualizada em junho do mesmo ano, trata o tema como complexo e apresenta, entre outras hip\u00f3teses, a desvaloriza\u00e7\u00e3o docente, a relativiza\u00e7\u00e3o de discursos de \u00f3dio e a insufici\u00eancia de pol\u00edticas de conviv\u00eancia. A cautela importa: a viol\u00eancia n\u00e3o se explica por uma simples oposi\u00e7\u00e3o entre um passado respeitoso e um presente hostil. O passado tamb\u00e9m conheceu desigualdades e silenciamentos; o presente, apesar de seus conflitos, cont\u00e9m educadores, alunos e fam\u00edlias empenhados em construir rela\u00e7\u00f5es melhores. Ainda assim, n\u00e3o se pode exigir que o professor ensine sob amea\u00e7a ou que confunda agress\u00e3o como parte natural de sua profiss\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mem\u00f3ria da autoridade que existia em outros tempos precisa ser examinada com cuidado. Nem todo respeito antigo era justo, nem toda contesta\u00e7\u00e3o de hoje \u00e9 desprezo. Questionar o professor, discutir a escola e buscar uma educa\u00e7\u00e3o mais democr\u00e1tica s\u00e3o movimentos leg\u00edtimos. O problema surge quando a discord\u00e2ncia se converte em persegui\u00e7\u00e3o, quando a exposi\u00e7\u00e3o substitui a conversa e quando o docente \u00e9 deixado sem respaldo diante de ataques. Respeito n\u00e3o \u00e9 sil\u00eancio obrigat\u00f3rio. \u00c9 a condi\u00e7\u00e3o para que haja desacordo sem desumaniza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 quem ainda queira ensinar. Talvez porque, mesmo entre as condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis, a sala de aula continue sendo um lugar em que uma pergunta pode deslocar certezas, uma leitura pode ampliar o mundo e uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a pode tornar poss\u00edvel aprender. Mas esse desejo n\u00e3o deve servir de desculpa para a omiss\u00e3o. A vontade individual n\u00e3o substitui sal\u00e1rio digno, seguran\u00e7a, tempo de prepara\u00e7\u00e3o, estabilidade, apoio institucional e pol\u00edticas capazes de atrair e manter profissionais na carreira. Tampouco a palavra \u201cvoca\u00e7\u00e3o\u201d deve funcionar como cobran\u00e7a para que cada professor aceite o inaceit\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No 15 de outubro, a fotografia de minha m\u00e3e e os bilhetes de Francieli, Ilce, Diogo, Neli, Mario e Gessi n\u00e3o me oferecem uma resposta simples. Eles me lembram de que ensinar deixa marcas, mas tamb\u00e9m de que nenhuma marca afetiva paga as contas, protege algu\u00e9m de uma agress\u00e3o ou corrige a falta de estrutura. A mem\u00f3ria pode inspirar, desde que n\u00e3o seja usada para pedir aos novos que repitam o sacrif\u00edcio dos que vieram antes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quem ainda quer ser professor(a)? H\u00e1 quem queira, e essa vontade merece ser acolhida sem romantismo. Para que ela n\u00e3o se torne um gesto solit\u00e1rio, \u00e9 preciso que a sociedade volte a tratar a educa\u00e7\u00e3o como trabalho coletivo e a doc\u00eancia como profiss\u00e3o que requer preparo, responsabilidade, condi\u00e7\u00f5es concretas de exerc\u00edcio e justo reconhecimento financeiro. A estrada de terra que percorri para chegar \u00e0 Escola S\u00e3o Estanislau e a escola rural em que minha m\u00e3e aparece cercada de alunos e alunas, tantos anos antes, s\u00e3o imagens de persist\u00eancia; n\u00e3o deveriam ser modelos de priva\u00e7\u00e3o. O futuro do magist\u00e9rio n\u00e3o depende apenas de quem aceita entrar na sala. Depende tamb\u00e9m de quantos estar\u00e3o dispostos a sustentar, fora dela, a dignidade de quem ensina.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Algumas fotografias n\u00e3o apenas mostram um tempo: deixam que ele nos olhe de volta. 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