{"id":85287,"date":"2026-10-16T12:24:36","date_gmt":"2026-10-16T15:24:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85287"},"modified":"2026-10-16T12:24:38","modified_gmt":"2026-10-16T15:24:38","slug":"a-politica-dos-corpos-e-a-memoria-das-revolucoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/a-politica-dos-corpos-e-a-memoria-das-revolucoes\/","title":{"rendered":"A pol\u00edtica dos corpos e a mem\u00f3ria das revolu\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>Desejos em revolu\u00e7\u00e3o: homossexualidades e mudan\u00e7as pol\u00edticas<\/em> (Edi\u00e7\u00f5es Sesc S\u00e3o Paulo, 2026), Renan Quinalha, James N. Green e Augusta de Oliveira organizam uma colet\u00e2nea que enfrenta uma contradi\u00e7\u00e3o persistente da hist\u00f3ria pol\u00edtica moderna: projetos que anunciam a transforma\u00e7\u00e3o da sociedade tamb\u00e9m podem conservar ou instituir hierarquias no campo da sexualidade. A quest\u00e3o que atravessa o livro n\u00e3o \u00e9 apenas como diferentes regimes trataram as pessoas homossexuais, mas o que a regula\u00e7\u00e3o do desejo revela sobre suas ideias de cidadania, moralidade e pertencimento. Os ensaios respondem sem recorrer a uma narrativa simples de progresso nem a uma equival\u00eancia apressada entre sistemas pol\u00edticos. O que emerge \u00e9 uma hist\u00f3ria de disputas em torno de quem pode ocupar o espa\u00e7o p\u00fablico, de quais corpos s\u00e3o considerados leg\u00edtimos e de quais formas de intimidade podem existir sem vigil\u00e2ncia ou puni\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"677\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/capa-desejos-em-revolucao-677x1024.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85288\" style=\"aspect-ratio:0.661132851100834;width:275px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/capa-desejos-em-revolucao-677x1024.jpeg 677w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/capa-desejos-em-revolucao-198x300.jpeg 198w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/capa-desejos-em-revolucao-768x1162.jpeg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/capa-desejos-em-revolucao.jpeg 955w\" sizes=\"auto, (max-width: 677px) 100vw, 677px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O principal m\u00e9rito da obra est\u00e1 em tratar a homossexualidade como dimens\u00e3o constitutiva da hist\u00f3ria pol\u00edtica, e n\u00e3o como tema lateral, circunscrito \u00e0 vida privada. Nos artigos, o desejo aparece como experi\u00eancia vivida, categoria produzida por saberes m\u00e9dicos, objeto de policiamento, instrumento de propaganda e poss\u00edvel fundamento de solidariedade e mobiliza\u00e7\u00e3o. Essa perspectiva desloca a ideia de que a moderniza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica conduziria naturalmente \u00e0 amplia\u00e7\u00e3o das liberdades. As trajet\u00f3rias examinadas mostram que uma mudan\u00e7a legal pode ser revertida, que um projeto revolucion\u00e1rio pode reproduzir normas patriarcais e que movimentos emancipat\u00f3rios tamb\u00e9m precisam interrogar as exclus\u00f5es presentes em suas pr\u00f3prias organiza\u00e7\u00f5es. A liberdade sexual, assim, n\u00e3o surge como consequ\u00eancia autom\u00e1tica de uma transforma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica mais ampla: integra a disputa pelo significado dessa transforma\u00e7\u00e3o e por quem ser\u00e1 contemplado por ela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A introdu\u00e7\u00e3o de Quinalha, Green e de Oliveira situa a colet\u00e2nea nesse horizonte comparativo e apresenta quest\u00f5es relevantes para o debate brasileiro. As experi\u00eancias internacionais n\u00e3o s\u00e3o oferecidas como modelos prontos nem como etapas de uma cronologia universal. Funcionam como instrumentos para pensar as contradi\u00e7\u00f5es entre a esquerda e os movimentos homossexuais no Brasil, especialmente as tens\u00f5es entre autonomia pol\u00edtica e participa\u00e7\u00e3o em alian\u00e7as mais amplas. A refer\u00eancia \u00e0 divis\u00e3o do grupo Somos, entre 1979 e 1980, condensa esse problema: n\u00e3o se trata apenas de uma disputa identit\u00e1ria ou de diverg\u00eancias pessoais, mas de diferentes concep\u00e7\u00f5es sobre como articular sexualidade, classe e projeto pol\u00edtico. Ao aproximarem essa mem\u00f3ria da conjuntura conservadora discutida na introdu\u00e7\u00e3o, os organizadores lembram que o passado n\u00e3o \u00e9 um arquivo encerrado. \u00c9 tamb\u00e9m um terreno em que se disputam interpreta\u00e7\u00f5es e possibilidades de a\u00e7\u00e3o no presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A colet\u00e2nea divide-se em quatro partes: <strong>Parte 1, \u201cMarxismos e homossexualidades\u201d; Parte 2, \u201cDesejos e revolu\u00e7\u00f5es\u201d; Parte 3, \u201cDesejos e contrarrevolu\u00e7\u00f5es\u201d; Parte 4, \u201cDesejos em 1968 e depois\u201d.<\/strong> Essa organiza\u00e7\u00e3o d\u00e1 forma ao horizonte comparativo do livro sem reduzir as diferen\u00e7as entre seus contextos hist\u00f3ricos. A primeira parte examina as rela\u00e7\u00f5es entre tradi\u00e7\u00f5es de esquerda e dissid\u00eancia sexual; a segunda se volta \u00e0s experi\u00eancias sovi\u00e9ticas, chinesas e cubanas; a terceira re\u00fane textos sobre as contrarrevolu\u00e7\u00f5es e a repress\u00e3o da homossexualidade, com destaque para os fascismos europeus; e a quarta acompanha mobiliza\u00e7\u00f5es e disputas de mem\u00f3ria a partir de 1968, nos Estados Unidos, na Fran\u00e7a e na Argentina. O fio condutor \u00e9 a pergunta sobre como projetos pol\u00edticos delimitam a sexualidade aceit\u00e1vel e sobre como as pessoas submetidas a essas normas se organizam, resistem, negociam espa\u00e7os de autonomia ou sobrevivem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira parte, \u201c<strong>Marxismos e homossexualidades<\/strong>\u201d, evita tanto o anacronismo condenat\u00f3rio quanto a indulg\u00eancia retrospectiva. Em \u201c<em>Pol\u00edtica sexual de esquerda e homossexualidade: um panorama hist\u00f3rico<\/em>\u201d, Gert Hekma, Harry Oosterhuis e James Steakley reconstroem as ambiguidades da pol\u00edtica sexual da esquerda. A cr\u00edtica \u00e0 explora\u00e7\u00e3o e \u00e0 desigualdade p\u00f4de conviver com moralismos, explica\u00e7\u00f5es naturalizantes e a concep\u00e7\u00e3o de que a sexualidade pertenceria \u00e0 esfera privada. Essa tens\u00e3o importa porque a separa\u00e7\u00e3o entre p\u00fablico e privado pode retirar do debate pol\u00edtico os mecanismos que regulam a intimidade; por sua vez, discursos apresentados como cient\u00edficos podem preservar normas sob uma linguagem de neutralidade. O artigo n\u00e3o descreve uma esquerda homog\u00eanea, mas um campo de disputas em que projetos de emancipa\u00e7\u00e3o, compromissos com a respeitabilidade e hostilidades expl\u00edcitas coexistiram.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c<em>Capitalismo e identidade gay<\/em>\u201d, de John D\u2019Emilio, acrescenta uma chave materialista a essa discuss\u00e3o. O ensaio relaciona a forma\u00e7\u00e3o de identidades gays e l\u00e9sbicas a transforma\u00e7\u00f5es na organiza\u00e7\u00e3o do trabalho e da fam\u00edlia, que possibilitaram a algumas pessoas constituir formas de vida menos subordinadas \u00e0 unidade dom\u00e9stica. A emerg\u00eancia de comunidades e identifica\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias est\u00e1 ligada a condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas concretas, n\u00e3o a uma ess\u00eancia imut\u00e1vel. Isso n\u00e3o significa que experi\u00eancias de desejo entre pessoas do mesmo sexo fossem inexistentes antes da forma\u00e7\u00e3o dessas identidades modernas; significa que as formas de nome\u00e1-las, viv\u00ea-las coletivamente e organiz\u00e1-las mudaram. D\u2019Emilio tamb\u00e9m evidencia uma contradi\u00e7\u00e3o do capitalismo: a ordem que pode criar condi\u00e7\u00f5es materiais para a autonomia \u00e9 capaz de absorver parte da dissid\u00eancia por meio do consumo. A contribui\u00e7\u00e3o do artigo est\u00e1 em mostrar que a hist\u00f3ria das identidades exige aten\u00e7\u00e3o simult\u00e2nea \u00e0s condi\u00e7\u00f5es materiais, \u00e0s formas de pertencimento e aos limites da integra\u00e7\u00e3o mercantil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na segunda parte, \u201c<strong>Desejos e revolu\u00e7\u00f5es<\/strong>\u201d, os debates te\u00f3ricos cedem espa\u00e7o \u00e0 an\u00e1lise das institui\u00e7\u00f5es e de suas pr\u00e1ticas. Em \u201c<em>A exist\u00eancia homossexual e o socialismo real: uma nova luz sobre a repress\u00e3o da homossexualidade masculina na R\u00fassia de St\u00e1lin<\/em>\u201d, Dan Healey questiona leituras esquem\u00e1ticas da trajet\u00f3ria sovi\u00e9tica. A descriminaliza\u00e7\u00e3o inicial e a posterior recriminaliza\u00e7\u00e3o dos atos homossexuais masculinos consensuais n\u00e3o s\u00e3o tratadas apenas como uma par\u00e1bola sobre uma revolu\u00e7\u00e3o que teria tra\u00eddo seus princ\u00edpios. Healey reconstr\u00f3i mudan\u00e7as nas pr\u00e1ticas m\u00e9dicas, administrativas e policiais e mostra que as classifica\u00e7\u00f5es variavam conforme fatores como g\u00eanero, posi\u00e7\u00e3o social, pertencimento nacional e lealdade pol\u00edtica. O artigo tamb\u00e9m sugere que a repress\u00e3o n\u00e3o pode ser medida somente pela exist\u00eancia de uma lei: ela se exerce por categorias, institui\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas de vigil\u00e2ncia. Ao devolver espessura hist\u00f3rica ao caso sovi\u00e9tico, o ensaio impede que essa experi\u00eancia seja usada apenas como instrumento ret\u00f3rico para julgar a pol\u00edtica de outros pa\u00edses.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c\u2018<em>Debaixo da mesma coberta\u2019: os paradoxos do sexo entre homens na Revolu\u00e7\u00e3o Cultural<\/em>\u201d, assinado por Heather Worth, Jun Jing, Karen McMillan, Chunyan Su, Xiaoxing Fu, Zhang Yuping, Rui Zhao, Jia Cui, Angela Kelly-Hanku e Zhang Youchun, traz ao centro relatos orais de homens que viveram a Revolu\u00e7\u00e3o Cultural na China. A experi\u00eancia narrada n\u00e3o se deixa reduzir a uma descri\u00e7\u00e3o uniforme de repress\u00e3o ou de liberdade. O afastamento de jovens de suas fam\u00edlias, a vida em alojamentos e brigadas de trabalho e a mobilidade entre cidade e campo podiam criar condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para encontros entre homens; essas possibilidades coexistiam com estigma, persegui\u00e7\u00e3o e viol\u00eancia. A palavra \u201cparadoxos\u201d, no t\u00edtulo, assinala precisamente essa coexist\u00eancia, sem converter circunst\u00e2ncias particulares numa experi\u00eancia geral. O valor metodol\u00f3gico do artigo est\u00e1 em tratar os depoimentos como fontes capazes de complicar os registros oficiais e de revelar diferen\u00e7as entre trajet\u00f3rias. O sil\u00eancio, nesse quadro, n\u00e3o \u00e9 tomado como prova de aus\u00eancia, mas como problema hist\u00f3rico a ser investigado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u201c<em>Policiamento de g\u00eanero, homossexualidade e o novo patriarcado da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, 1965-70<\/em>\u201d, Lillian Guerra relaciona a regula\u00e7\u00e3o da sexualidade \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um ideal de cidadania revolucion\u00e1ria. A persegui\u00e7\u00e3o de homossexuais e de outros grupos classificados como desviantes aparece articulada a pol\u00edticas de trabalho, juventude e g\u00eanero. A promessa de formar um novo sujeito socialista conviveu com expectativas de masculinidade e com concep\u00e7\u00f5es tradicionais dos pap\u00e9is femininos. Guerra, assim, n\u00e3o explica a repress\u00e3o somente pelo preconceito individual de dirigentes nem a trata como res\u00edduo destinado a desaparecer com a revolu\u00e7\u00e3o. Analisa como o controle dos corpos participava de um projeto de organiza\u00e7\u00e3o da vida cotidiana e de afirma\u00e7\u00e3o da autoridade estatal. O artigo torna vis\u00edvel a dist\u00e2ncia entre emancipa\u00e7\u00e3o proclamada e liberdade efetivamente distribu\u00edda, sem retirar do quadro a especificidade hist\u00f3rica do caso cubano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A terceira parte, \u201c<strong>Desejos e contrarrevolu\u00e7\u00f5es<\/strong>\u201d, re\u00fane textos que examinam a repress\u00e3o da homossexualidade em contextos fascistas e autorit\u00e1rios, bem como as disputas em torno de sua interpreta\u00e7\u00e3o. \u201c<em>Homossexualidade e fascismo<\/em>\u201d, de Klaus Mann, \u00e9 um ensaio de interven\u00e7\u00e3o intelectual que rejeita a associa\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica entre homossexualidade e fascismo e denuncia o uso da sexualidade para estigmatizar advers\u00e1rios pol\u00edticos. Sua inclus\u00e3o ao lado de estudos hist\u00f3ricos permite aproximar o debate de \u00e9poca da investiga\u00e7\u00e3o posterior, sem confundir os estatutos dos textos: Mann polemiza e argumenta; os artigos seguintes trabalham com arquivos, registros e pr\u00e1ticas institucionais. Essa justaposi\u00e7\u00e3o amplia a leitura porque mostra que a hist\u00f3ria da repress\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 a hist\u00f3ria das disputas contempor\u00e2neas sobre como nome\u00e1-la e contest\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u201c<em>A propaganda homof\u00f3bica e a dela\u00e7\u00e3o de homens que desejavam o mesmo sexo durante o Nacional-Socialismo<\/em>\u201d, Stefan Micheler examina a dimens\u00e3o social da persegui\u00e7\u00e3o nazista, com aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0s den\u00fancias e aos rumores. A repress\u00e3o n\u00e3o se restringia \u00e0 lei ou \u00e0 a\u00e7\u00e3o direta das autoridades: suspeitas transmitidas por vizinhos, conhecidos, colegas, propriet\u00e1rios e familiares podiam alimentar investiga\u00e7\u00f5es e amea\u00e7ar a vida cotidiana. Micheler mostra como a propaganda ensinava a reconhecer um suposto inimigo e podia incentivar a participa\u00e7\u00e3o de terceiros em sua exposi\u00e7\u00e3o. Essa circula\u00e7\u00e3o social do poder n\u00e3o diminui a responsabilidade do Estado; ao contr\u00e1rio, ajuda a compreender como as institui\u00e7\u00f5es se apoiaram em pr\u00e1ticas ordin\u00e1rias para ampliar a vigil\u00e2ncia. O artigo torna vis\u00edvel uma forma de viol\u00eancia que as s\u00ednteses centradas apenas nos decretos e nos aparelhos repressivos podem deixar em segundo plano: a produ\u00e7\u00e3o cotidiana da vulnerabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lorenzo Benadusi, em \u201c<em>Vida privada e moral p\u00fablica: o fascismo e o \u2018problema\u2019 da homossexualidade<\/em>\u201d, investiga o fascismo italiano sem pressupor que a repress\u00e3o dependesse sempre de uma proibi\u00e7\u00e3o penal expl\u00edcita. O ensaio analisa a import\u00e2ncia das pr\u00e1ticas policiais e do ideal de virilidade, que tornava particularmente vulner\u00e1veis os homens percebidos como efeminados. A vigil\u00e2ncia n\u00e3o incidia de forma id\u00eantica sobre todas as rela\u00e7\u00f5es entre homens: a transgress\u00e3o das normas de g\u00eanero era parte central do modo como o regime identificava e disciplinava sujeitos. Benadusi tamb\u00e9m situa essas pr\u00e1ticas em rela\u00e7\u00e3o a formas de controle anteriores ao fascismo, evitando apresentar o regime como inventor exclusivo da repress\u00e3o, sem por isso minimizar sua apropria\u00e7\u00e3o pol\u00edtica desses mecanismos. O artigo contribui para a colet\u00e2nea ao mostrar que a moral p\u00fablica e a vida privada se articulavam por meio de c\u00f3digos de masculinidade, pol\u00edcia e posi\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u201c\u2018<em>Que o Todo-Poderoso nos ajude a chegar aonde desejamos\u2019: homossexualidade e catolicismo na Espanha de Franco (1954-70)<\/em>\u201d, Javier Fern\u00e1ndez-Galeano recorre a arquivos, cartas, refer\u00eancias liter\u00e1rias e pr\u00e1ticas de amizade para estudar homens gays cat\u00f3licos. O foco n\u00e3o est\u00e1 apenas na condena\u00e7\u00e3o institucional da homossexualidade, mas tamb\u00e9m nos modos pelos quais esses homens procuraram dar sentido \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre desejo e f\u00e9. Refer\u00eancias religiosas e liter\u00e1rias podiam ser apropriadas para construir linguagens de afeto e pertencimento, mesmo sob vigil\u00e2ncia e desigualdade de classe. O artigo \u00e9 especialmente expressivo por recusar a imagem de sujeitos definidos exclusivamente pela repress\u00e3o: sem negar os constrangimentos do franquismo, acompanha formas de interpreta\u00e7\u00e3o e de sociabilidade que tornam a experi\u00eancia mais complexa do que a oposi\u00e7\u00e3o entre submiss\u00e3o e ruptura.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na quarta parte, \u201c<strong>Desejos em 1968 e depois<\/strong>\u201d, a colet\u00e2nea passa \u00e0 forma\u00e7\u00e3o dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o gay e \u00e0s disputas em torno de suas mem\u00f3rias. Em \u201c<em>Movimentos e mem\u00f3ria: a cria\u00e7\u00e3o do mito de Stonewall<\/em>\u201d, Elizabeth A. Armstrong e Suzanna M. Crage perguntam por que Stonewall se tornou um marco t\u00e3o duradouro, enquanto outros conflitos anteriores ou pr\u00f3ximos no tempo tiveram menor presen\u00e7a na mem\u00f3ria p\u00fablica. A resposta das autoras n\u00e3o reduz o epis\u00f3dio a uma inven\u00e7\u00e3o retrospectiva: destaca o trabalho de ativistas, a circula\u00e7\u00e3o de not\u00edcias e a capacidade de organizar comemora\u00e7\u00f5es. Stonewall adquiriu centralidade n\u00e3o apenas por sua dramaticidade, mas porque uma narrativa em torno do acontecimento p\u00f4de ser repetida, transmitida e institucionalizada. Nesse argumento, \u201cmito\u201d designa uma narrativa coletiva eficaz, n\u00e3o uma falsifica\u00e7\u00e3o; sua for\u00e7a mobilizadora, por\u00e9m, envolve sele\u00e7\u00e3o e simplifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A compara\u00e7\u00e3o com epis\u00f3dios como a revolta da Compton\u2019s Cafeteria, em S\u00e3o Francisco, em 1966; a batida no Black Cat, em Los Angeles, em 1967; e a invas\u00e3o do Snake Pit, em Nova York, em 1970, permite \u00e0s autoras ampliar a hist\u00f3ria da resist\u00eancia \u00e0 viol\u00eancia policial. Esses casos n\u00e3o s\u00e3o intercambi\u00e1veis nem servem apenas como vers\u00f5es menores de Stonewall. A an\u00e1lise mostra que os acontecimentos dependem de condi\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para se tornarem memor\u00e1veis: organiza\u00e7\u00f5es capazes de promover comemora\u00e7\u00f5es, ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o e formas p\u00fablicas de recorda\u00e7\u00e3o. Ao examinar a ascens\u00e3o de Stonewall como s\u00edmbolo, Armstrong e Crage reconhecem sua for\u00e7a pol\u00edtica e perguntam o que a narrativa mais difundida deixa menos vis\u00edvel, inclusive quanto a geografias, classes e experi\u00eancias de g\u00eanero distintas. A mem\u00f3ria coletiva aparece, assim, n\u00e3o como espelho neutro dos movimentos, mas como um dos espa\u00e7os em que eles se constituem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c<em>Um arco-\u00edris vestido de preto: pol\u00edtica gay e o Partido dos Panteras Negras<\/em>\u201d, de Ronald K. Porter, examina as aproxima\u00e7\u00f5es e tens\u00f5es entre a pol\u00edtica gay e o Partido dos Panteras Negras. Ao discutir a interven\u00e7\u00e3o de Huey P. Newton em favor dos movimentos de liberta\u00e7\u00e3o gay e das mulheres, o artigo acompanha a abertura de possibilidades de solidariedade sem supor que ela fosse autom\u00e1tica ou plenamente incorporada pela organiza\u00e7\u00e3o. A homofobia e os modelos dominantes de masculinidade tamb\u00e9m atravessavam movimentos comprometidos com outras formas de emancipa\u00e7\u00e3o. A alian\u00e7a precisava, portanto, ser elaborada em meio a diverg\u00eancias internas e a disputas sobre quais opress\u00f5es seriam reconhecidas como pol\u00edticas. Ao tratar a solidariedade como pr\u00e1tica a construir, o ensaio contribui para uma hist\u00f3ria dos movimentos que n\u00e3o se satisfaz com declara\u00e7\u00f5es de princ\u00edpio, mas investiga suas consequ\u00eancias e seus limites.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em \u201c<em>O esp\u00edrito de Maio de 1968 e as origens do Movimento de Liberta\u00e7\u00e3o Gay na Fran\u00e7a<\/em>\u201d, Michael Sibalis acompanha os v\u00ednculos entre o ciclo de contesta\u00e7\u00e3o de 1968 e a forma\u00e7\u00e3o de organiza\u00e7\u00f5es de liberta\u00e7\u00e3o gay. A trajet\u00f3ria passa por iniciativas radicais, entre elas o <em>Front homosexuel d\u2019action r\u00e9volutionnaire<\/em> (FHAR, Frente Homossexual de A\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria), e por mudan\u00e7as posteriores em dire\u00e7\u00e3o a formas mais pragm\u00e1ticas de a\u00e7\u00e3o e alian\u00e7a pol\u00edtica. O artigo n\u00e3o transforma a radicalidade em destino inevit\u00e1vel nem interpreta o pragmatismo como simples ren\u00fancia. Mostra a tens\u00e3o entre uma contesta\u00e7\u00e3o ampla da normalidade sexual e a constru\u00e7\u00e3o de reivindica\u00e7\u00f5es capazes de sustentar a interven\u00e7\u00e3o p\u00fablica e as coaliz\u00f5es. O caso franc\u00eas ajuda a perceber que o legado de uma conjuntura de protesto pode persistir de modo desigual: linguagens e pr\u00e1ticas se transformam, e seus efeitos n\u00e3o se distribuem por igual entre cultura, organiza\u00e7\u00e3o e pol\u00edtica institucional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A compara\u00e7\u00e3o latino-americana ganha relevo em \u201c<em>Governo ditatorial e pol\u00edtica sexual na Argentina: o caso da Frente de Liberaci\u00f3n Homosexual, 1967-76<\/em>\u201d, de Pablo Ben e Santiago Joaquin Insausti. Os autores reconstroem a forma\u00e7\u00e3o e a atua\u00e7\u00e3o da FLH em um cen\u00e1rio de repress\u00e3o e intensa disputa pol\u00edtica. A rela\u00e7\u00e3o do grupo com sindicatos, intelectuais, correntes de esquerda e movimentos feministas foi marcada por aproxima\u00e7\u00f5es e conflitos, e a FLH elaborou uma linguagem que vinculava a opress\u00e3o sexual a estruturas mais amplas de poder sem reduzir sua pauta a uma extens\u00e3o secund\u00e1ria de outras lutas. Sua trajet\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 apresentada como simples prel\u00fadio de organiza\u00e7\u00f5es posteriores, mas como experi\u00eancia hist\u00f3rica com estrat\u00e9gias, tens\u00f5es e limites pr\u00f3prios. Ao acompanhar a produ\u00e7\u00e3o de redes e diagn\u00f3sticos em condi\u00e7\u00f5es adversas, Ben e Insausti mostram que a organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica homossexual tamb\u00e9m se constituiu em meio ao autoritarismo, e n\u00e3o apenas em per\u00edodos de abertura democr\u00e1tica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A contribui\u00e7\u00e3o editorial de Quinalha, Green e de Oliveira est\u00e1 em fazer da diversidade de m\u00e9todos, lugares e escalas um princ\u00edpio de composi\u00e7\u00e3o. Ensaios te\u00f3ricos convivem com pesquisas de arquivo, hist\u00f3ria oral, an\u00e1lise de movimentos e interven\u00e7\u00e3o intelectual. A introdu\u00e7\u00e3o oferece refer\u00eancias para que o leitor estabele\u00e7a rela\u00e7\u00f5es entre os artigos, sem apagar suas diferen\u00e7as ou for\u00e7\u00e1-los a sustentar uma tese \u00fanica. A sele\u00e7\u00e3o e a tradu\u00e7\u00e3o de textos produzidos em tradi\u00e7\u00f5es acad\u00eamicas diversas ampliam o repert\u00f3rio dispon\u00edvel em portugu\u00eas e colocam em di\u00e1logo debates que poderiam permanecer dispersos. Organizar uma colet\u00e2nea \u00e9 tamb\u00e9m decidir quais problemas se tornam leg\u00edveis em conjunto; neste caso, o trabalho dos organizadores transforma essa decis\u00e3o em contribui\u00e7\u00e3o substantiva para o debate brasileiro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A amplitude do volume n\u00e3o pretende equivaler a uma hist\u00f3ria total das homossexualidades pol\u00edticas do s\u00e9culo XX. Os artigos diferem em escala e abordagem: alguns privilegiam institui\u00e7\u00f5es e categorias jur\u00eddicas; outros, experi\u00eancias individuais, mem\u00f3rias e formas de organiza\u00e7\u00e3o. A obra funciona melhor como mapa cr\u00edtico de problemas do que como invent\u00e1rio exaustivo. Sua leitura exige comparar sem nivelar: a persegui\u00e7\u00e3o sob o Nacional-Socialismo, as pr\u00e1ticas de controle no fascismo italiano e a disciplina sexual em contextos revolucion\u00e1rios t\u00eam pontos de contato, mas n\u00e3o s\u00e3o fen\u00f4menos id\u00eanticos. Reconhecer recorr\u00eancias, como a associa\u00e7\u00e3o entre virilidade e cidadania, n\u00e3o autoriza apagar as diferen\u00e7as hist\u00f3ricas entre os regimes. A for\u00e7a da colet\u00e2nea est\u00e1 justamente em sustentar essa tens\u00e3o entre compara\u00e7\u00e3o e singularidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m \u00e9 produtivo que os textos n\u00e3o compartilhem um \u00fanico g\u00eanero de escrita ou um s\u00f3 tipo de evid\u00eancia. O ensaio de Klaus Mann, por exemplo, participa de uma pol\u00eamica de seu tempo; o estudo de Stefan Micheler trabalha com den\u00fancias e registros da persegui\u00e7\u00e3o; a pesquisa de Worth e coautores se apoia em relatos orais; e os textos sobre Stonewall e a FLH interrogam a organiza\u00e7\u00e3o e a mem\u00f3ria dos movimentos. Essa variedade exige que o leitor considere, em cada caso, o m\u00e9todo, a fonte e o alcance do argumento. Em lugar de comprometer a unidade do livro, ela permite perceber diferentes modos de produzir conhecimento hist\u00f3rico e os limites espec\u00edficos de cada perspectiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A avalia\u00e7\u00e3o positiva de <em>Desejos em revolu\u00e7\u00e3o<\/em> n\u00e3o depende de apresent\u00e1-lo como obra sem lacunas, mas de reconhecer a qualidade de suas perguntas e a consist\u00eancia de sua composi\u00e7\u00e3o. A colet\u00e2nea recusa uma genealogia confort\u00e1vel da liberdade sexual, na qual o presente apareceria como culmina\u00e7\u00e3o natural de um passado superado. Mostra, em vez disso, que direitos, identidades e comunidades se constituem em conflitos e que nenhuma linguagem pol\u00edtica est\u00e1 dispensada de examinar as exclus\u00f5es que reproduz. Movimentos de esquerda podem abrir possibilidades de emancipa\u00e7\u00e3o e, simultaneamente, conservar normas morais; revolu\u00e7\u00f5es podem transformar hierarquias e instituir outras; mem\u00f3rias coletivas podem mobilizar e deixar experi\u00eancias \u00e0 margem. O livro n\u00e3o dissolve essas contradi\u00e7\u00f5es, mas oferece instrumentos para compreend\u00ea-las historicamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O t\u00edtulo condensa o horizonte da obra: a rela\u00e7\u00e3o entre desejo e revolu\u00e7\u00e3o \u00e9 uma disputa concreta sobre quem pode amar, aparecer, organizar-se e participar da vida p\u00fablica sem ser expulso da comunidade pol\u00edtica. Ao percorrer experi\u00eancias da R\u00fassia sovi\u00e9tica \u00e0 China da Revolu\u00e7\u00e3o Cultural, de Cuba \u00e0 Europa fascista e franquista, e dos movimentos dos Estados Unidos, da Fran\u00e7a e da Argentina \u00e0s suas mem\u00f3rias, a colet\u00e2nea constr\u00f3i uma perspectiva transnacional atenta \u00e0s singularidades. Sua contribui\u00e7\u00e3o mais duradoura talvez seja devolver ao campo da pol\u00edtica os corpos, os afetos e as condi\u00e7\u00f5es materiais da intimidade, tantas vezes relegados \u00e0 esfera privada. Organizado com rigor e ambi\u00e7\u00e3o, o livro oferece ao debate brasileiro um repert\u00f3rio cr\u00edtico indispens\u00e1vel e uma advert\u00eancia que ultrapassa o tema espec\u00edfico da colet\u00e2nea: nenhum projeto de emancipa\u00e7\u00e3o se completa enquanto a liberdade de alguns depender do sil\u00eancio, da invisibilidade ou da puni\u00e7\u00e3o de outros.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em tempo:<\/strong> <em>Desejos em revolu\u00e7\u00e3o: homossexualidades e mudan\u00e7as pol\u00edticas,<\/em> foi lan\u00e7ado no dia 18 de setembro de 2026, na Livraria Taverna, em Porto Alegre, em uma sess\u00e3o de aut\u00f3grafos e bate-papo que contou com Renan Quinalha, Manuela d\u2019\u00c1vila e Atena Roveda.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Em Desejos em revolu\u00e7\u00e3o: homossexualidades e mudan\u00e7as pol\u00edticas (Edi\u00e7\u00f5es Sesc S\u00e3o Paulo, 2026), Renan Quinalha, James N. 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