{"id":85290,"date":"2026-10-19T17:20:28","date_gmt":"2026-10-19T20:20:28","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85290"},"modified":"2026-10-19T17:33:56","modified_gmt":"2026-10-19T20:33:56","slug":"quando-canalhas-votam-em-canalhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/quando-canalhas-votam-em-canalhas\/","title":{"rendered":"Quando canalhas votam em canalhas"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O dicion\u00e1rio define canalha como o indiv\u00edduo de m\u00e1 \u00edndole, o velhaco, o patife, o sujeito sem escr\u00fapulos. Os etimologistas v\u00e3o \u00e0 raiz italiana: canaglia, a matilha de c\u00e3es, a turba que late junto, a esc\u00f3ria que se reconhece pelo cheiro antes que pelo latido. Gosto da palavra. Gosto porque ela me descreve com precis\u00e3o cir\u00fargica. Sou canalha por heran\u00e7a e por of\u00edcio, e fui ungido por canalhas. Eles me reconheceram na urna como se reconhece um irm\u00e3o de matilha: n\u00e3o pelo discurso, pelo cheiro. Ningu\u00e9m engana um c\u00e3o quanto ao odor de outro c\u00e3o. O resto, esse, \u00e9 rebanho: precisa de discursos, de bandeiras, de hinos; a matilha precisa apenas de um l\u00edder que n\u00e3o lave o pelo. H\u00e1 quem se ofenda ao ser chamado de canalha. Eu agrade\u00e7o o diagn\u00f3stico. Na pol\u00edtica contempor\u00e2nea, o insulto preciso \u00e9 o \u00fanico elogio que n\u00e3o se paga com imposto. E eu, como se sabe, j\u00e1 pago impostos suficientes em forma de processos.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"620\" height=\"300\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/urna2026-fotoaurimar-silva-tresp.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85291\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/urna2026-fotoaurimar-silva-tresp.jpeg 620w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/urna2026-fotoaurimar-silva-tresp-300x145.jpeg 300w\" sizes=\"auto, (max-width: 620px) 100vw, 620px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto de Aurimar Silva\/TRE-SP<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha biografia p\u00fablica \u00e9 um dossi\u00ea, e eu o trato como curr\u00edculo. Passei quatro mandatos na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro e, entre 2007 e 2018, aprendi a aritm\u00e9tica superior da lealdade: o assessor que recebe e devolve, o sal\u00e1rio que circula e retorna ao bolso de origem, a &#8220;rachadinha&#8221; que os jornais batizaram e que eu, homem de Estado, preferia chamar de contribui\u00e7\u00e3o espont\u00e2nea de gabinete. Durante anos, servidores do meu gabinete \u2014 alguns deles, digamos, de exist\u00eancia discut\u00edvel \u2014 repassaram de volta parte dos pr\u00f3prios vencimentos, um esquema t\u00e3o simples que quase me ofende: bastava a confian\u00e7a de quem sabe que a fiscaliza\u00e7\u00e3o morre de t\u00e9dio antes de chegar ao fim dos autos. Em outubro de 2020, o Minist\u00e9rio P\u00fablico do Rio me denunciou com um vocabul\u00e1rio que julgo exagerado, mas reconhe\u00e7o literariamente eficiente: peculato, lavagem de dinheiro, organiza\u00e7\u00e3o criminosa, apropria\u00e7\u00e3o ind\u00e9bita. Ao redor da den\u00fancia, orbitavam sombras que os promotores insistentemente nomeavam evas\u00e3o de divisas, corrup\u00e7\u00e3o ativa e corrup\u00e7\u00e3o passiva \u2014 como se um servidor da Rep\u00fablica n\u00e3o pudesse, com eleg\u00e2ncia, corromper e ser corrompido no mesmo mandato. Sou poliss\u00eamico, n\u00e3o sou bandido. De l\u00e1 para c\u00e1, ascendi: de senador da Rep\u00fablica a candidato \u00e0 Presid\u00eancia. A canalhice, bem administrada, \u00e9 uma carreira como outra qualquer, s\u00f3 que com foro privilegiado e assessoria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E houve o ex-motorista da fam\u00edlia, meu chefe de gabinete \u2014 homem simples, segundo a minha vers\u00e3o; complexo, segundo as suas contas. O COAF, Conselho de Controle de Atividades Financeiras, estranhou que um motorista amealhasse, em poucos meses, o que um trabalhador honesto n\u00e3o junta em d\u00e9cadas: setenta e quatro dep\u00f3sitos, mais de um milh\u00e3o de reais escorrendo entre contas como \u00e1gua entre dedos. O homem usava, ainda, um crach\u00e1 de pol\u00edcia legislativa pendurado no peito, como quem ostenta condecora\u00e7\u00e3o. O Estado, na nossa fam\u00edlia, \u00e9 um acess\u00f3rio que se usa por fora. Estranharam, depois, as transa\u00e7\u00f5es imobili\u00e1rias, as minhas e as do meu chefe de gabinete: o apartamento na orla, pago em presta\u00e7\u00f5es de dinheiro vivo; a mans\u00e3o de quase seis milh\u00f5es (e que at\u00e9 dizem valer mais) num condom\u00ednio de luxo do Planalto, adquirida j\u00e1 sob investiga\u00e7\u00e3o, onde ningu\u00e9m pergunta o pre\u00e7o e todos perguntam o sobrenome; a casa do chefe, \u00e0 vista, num canto esquecido do interior. Estranharam a contabilidade da minha loja de chocolates, que amarga mais do que o cacau e rende mais do que o cacau. Falam em enriquecimento il\u00edcito. Eu falo em persegui\u00e7\u00e3o. A diferen\u00e7a entre as duas express\u00f5es \u00e9 que a minha me elege e a deles me incomoda.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desfecho, por\u00e9m, \u00e9 o meu cap\u00edtulo favorito. Em 2021, o Supremo anulou as quebras de sigilo; em 2022, o Tribunal de Justi\u00e7a do Rio rejeitou a den\u00fancia por falta de justa causa. N\u00e3o fui absolvido. Fui arquivado, o que \u00e9 melhor: a absolvi\u00e7\u00e3o encerra o debate, o arquivo o adia para sempre. O m\u00e9rito nunca foi julgado; os fatos, nunca negados; os autos, simplesmente engavetados com a cortesia de quem n\u00e3o quer sujar as m\u00e3os. Em 2023, o Minist\u00e9rio P\u00fablico voltou \u00e0 carga, agora na esfera c\u00edvel, por improbidade \u2014 sem ousar escrever o meu nome no polo passivo, o que considero uma cortesia entre cavalheiros. E em 2026, \u00e0s v\u00e9speras da elei\u00e7\u00e3o, a Pol\u00edcia Federal abriu inqu\u00e9rito para apurar por que um banqueiro negociava comigo cento e trinta milh\u00f5es de reais para financiar a cinebiografia do velho: um filme sobre um homem que se diz salvador da p\u00e1tria, pago com dinheiro que todos sabem de onde veio. Investigam, ainda, uma emenda minha, de duzentos mil reais, enviada a pedido de um miliciano condenado por um assassinato que o pa\u00eds inteiro chora. E o tribunal eleitoral, num gesto de delicadeza, suspendeu a propaganda em que o meu advers\u00e1rio me chamava de denunciado \u2014 a den\u00fancia foi arquivada, explica a decis\u00e3o, e o presente n\u00e3o guarda mem\u00f3ria do passado. At\u00e9 a l\u00edngua portuguesa me foi favor\u00e1vel: arquivaram a palavra junto com o processo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nego tudo, evidentemente. Nego com convic\u00e7\u00e3o, que \u00e9 a \u00fanica forma honesta de negar. Nego que soubesse; nego que soubessem; nego que tenha havido quem soubesse. Digo que o motorista era um ex-motorista, que a conta era uma conta de terceiros, que os fatos eram fatos de outrem. A mentira, repetida com raiva suficiente, adquire textura de doutrina. Aprendi isso em casa, e \u00e9 de casa que preciso falar, porque nenhuma an\u00e1lise de mim est\u00e1 completa sem o capit\u00e3o. O velho me ensinou a gram\u00e1tica inteira da nossa escola: que a acusa\u00e7\u00e3o, bem negada, vira credencial; que o processo, bem narrado, vira medalha; que quem \u00e9 investigado \u00e9 importante, quem \u00e9 condenado \u00e9 perseguido e quem \u00e9 absolvido \u00e9 her\u00f3i. Homem de farda, passou parte da vida a servi\u00e7o de uma hierarquia e depois a servi\u00e7o da nostalgia dessa hierarquia: elogiou em pra\u00e7a p\u00fablica o golpe de 1964, dedicou o pr\u00f3prio voto, em plen\u00e1rio, a um not\u00f3rio torturador, e transformou o pa\u00eds num espelho em que s\u00f3 enxerga a juventude armada. Acabou condenado pelo Supremo por tramar contra a Rep\u00fablica que dizia salvar, e cumpre pena em casa, entre as bandeiras, a mulher, os filhos e os netos, ineleg\u00edvel e intacto na mem\u00f3ria dos seus. Foi ele quem me escolheu herdeiro, o condenado apontando o sucessor, a coroa passando de pai para filho como num reinado que ningu\u00e9m votou. A fam\u00edlia inteira tornou-se um inqu\u00e9rito ambulante: os meus processos ecoam nas pastas do Supremo que orbitam o patriarca, men\u00e7\u00f5es colaterais, notas de rodap\u00e9 de um livro que se recusa a terminar. Herdei dele mais do que o sobrenome: herdei o m\u00e9todo. Ele negou o golpe; eu nego a rachadinha. Ele culpou a imprensa; eu culpo a imprensa. Somos uma dinastia do ger\u00fandio: sempre negando, raramente condenados, eternamente suspeitos \u2014 que, na pol\u00edtica brasileira, \u00e9 o tempo verbal mais f\u00e9rtil que existe.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas a pergunta que o pa\u00eds faz \u2014 e que eu respondo com a serenidade de quem est\u00e1 no segundo turno \u2014 \u00e9 outra: por que os canalhas votam em canalhas? N\u00e3o h\u00e1 mist\u00e9rio; h\u00e1 espelho. O eleitor canalha n\u00e3o olha para mim e v\u00ea um criminoso; olha para mim e v\u00ea as pr\u00f3prias transgress\u00f5es, s\u00f3 que glorificadas, blindadas, promovidas a cargo com foro, assessoria e mordomia. Ele sonega, eu soneguei; ele desvia no balc\u00e3o do trabalho, eu desviei no gabinete; ele mente no grupo da fam\u00edlia, eu minto na vida e no plen\u00e1rio. A diferen\u00e7a \u00e9 de escala, n\u00e3o de natureza. E \u00e9 exatamente essa continuidade que ele celebra no voto. La Bo\u00e9tie chamou isso de servid\u00e3o volunt\u00e1ria h\u00e1 quase cinco s\u00e9culos: o povo que elege o carrasco n\u00e3o foi enganado, reconheceu-se. Nietzsche acrescentaria o ressentimento do fraco, que n\u00e3o pode ser canalha em grande estilo e converte a inveja em adora\u00e7\u00e3o, como a do torcedor pelo atacante que marca os gols que ele jamais marcaria. Ren\u00e9 Girard diria que \u00e9 desejo mim\u00e9tico: queremos ser o outro e, quando n\u00e3o podemos, votamos nele. O voto do canalha n\u00e3o \u00e9 um pedido; \u00e9 uma sociedade. Ele n\u00e3o quer justi\u00e7a, quer ver a impunidade funcionar em rede, como clube com estatuto, mensalidade e hino. Por isso o processo me fortalece: cada inqu\u00e9rito me aproxima do eleitor que tamb\u00e9m tem pastas, s\u00f3 que menores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E h\u00e1 os outros: os ing\u00eanuos, minha mat\u00e9ria-prima mais nobre. O canalha n\u00e3o vive apenas de canalhas; vive dos ing\u00eanuos, que s\u00e3o mais numerosos e muito mais \u00fateis, porque acreditam. O ing\u00eanuo me ouve falar de Deus, de fam\u00edlia, de ordem, e n\u00e3o percebe que cada palavra \u00e9 uma cortina \u2014 atr\u00e1s dela, o ex-motorista deposita, a casa se compra \u00e0 vista, a rachadinha circula como sangue num corpo que se diz s\u00e3o. Hannah Arendt chamou a isso a banalidade do mal, o mal sem dem\u00f4nios, praticado por gente comum. Mas a minha banalidade \u00e9 generosa: o mal aqui \u00e9 familiar, aperta a m\u00e3o, pergunta pelo seu filho, posta foto com neto e b\u00edblia e manda bom dia com emoji de bandeira. O ing\u00eanuo se alia ao pr\u00f3prio algoz porque o algoz fala a l\u00edngua do aprisco: promete proteger o rebanho do lobo enquanto veste a pele de lobo por dentro e a l\u00e3 por fora, como manda a t\u00e9cnica. A mentira repetida mil vezes n\u00e3o vira verdade por acaso; vira verdade por cansa\u00e7o. O ing\u00eanuo cansa antes de duvidar. E quando enfim duvida, j\u00e1 votou; e quando j\u00e1 votou, defende o voto com mais f\u00faria do que defenderia a pr\u00f3pria vida, porque admitir o engano custa mais caro do que sofrer a engana\u00e7\u00e3o. \u00c9 por isso que o canalha ama o ing\u00eanuo: ele \u00e9 o \u00fanico eleitor que se recusa a ser salvo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 ainda uma engrenagem que os analistas de gabinete preferem ignorar: o canalha eleitor \u00e9, tamb\u00e9m ele, um canalha candidato em miniatura \u2014 um mission\u00e1rio. Ele convence o cunhado, o colega de trabalho, o vizinho da padaria; traduz para a linguagem simples o que eu digo em linguagem calculada. O eleitor canalha \u00e9 o meu departamento de marketing mais eficiente, e trabalha de gra\u00e7a, movido por uma f\u00e9 que se parece muito com cumplicidade. \u00c9 ele quem transforma o ing\u00eanuo em c\u00famplice sem que este perceba: primeiro o ing\u00eanuo ri das piadas, depois compartilha os v\u00eddeos, depois repete as frases, e um dia acorda defendendo na mesa de bar o homem que desviou o dinheiro que faltou no posto de sa\u00fade do seu bairro. Ningu\u00e9m o obrigou; foi seduzido em s\u00e9rie, por gente como ele, em nome de valores que ningu\u00e9m praticou. O canalha n\u00e3o precisa convencer o ing\u00eanuo, precisa apenas que outro canalha mais pr\u00f3ximo o conven\u00e7a. Assim, a mentira circula como a rachadinha: de m\u00e3o em m\u00e3o, sempre com uma comiss\u00e3o para quem repassa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Escrevo isto sem remorso, porque o remorso \u00e9 um luxo de quem foi condenado. Escrevo isto, sobretudo, porque a pergunta do t\u00edtulo merece resposta de dentro da matilha, e n\u00e3o de fora do aprisco. Quando canalhas votam em canalhas, n\u00e3o h\u00e1 trai\u00e7\u00e3o da democracia, h\u00e1 uma democracia paralela, espelhada, em que a urna funciona como espelho e o espelho como urna. O pa\u00eds se pergunta como foi poss\u00edvel; eu me pergunto por que ainda duvidam. No dia 25, o pa\u00eds volta \u00e0s urnas para decidir entre mim e o outro; eu j\u00e1 decidi entre mim e mim. O canalha se elege com o voto dos canalhas e governa com a ingenuidade dos demais; a matilha late, o rebanho hesita, e eu \u2014 filho do capit\u00e3o, candidato \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica, arquivado pela justi\u00e7a e ungido pela matilha \u2014 agrade\u00e7o ao eleitorado pela precis\u00e3o do seu faro. S\u00f3 os c\u00e3es sabem o cheiro dos c\u00e3es. E o rebanho, coitado, aplaude o latido.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt O dicion\u00e1rio define canalha como o indiv\u00edduo de m\u00e1 \u00edndole, o velhaco, o patife, o sujeito sem escr\u00fapulos. Os etimologistas v\u00e3o \u00e0 raiz italiana: canaglia, a matilha de c\u00e3es, a turba que late junto, a esc\u00f3ria que se reconhece pelo cheiro antes que pelo latido. Gosto da palavra. 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