{"id":85296,"date":"2026-10-21T12:08:04","date_gmt":"2026-10-21T15:08:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/?p=85296"},"modified":"2026-10-21T12:08:07","modified_gmt":"2026-10-21T15:08:07","slug":"o-ator-diante-do-pais-tony-ramos-no-roda-viva-dos-40-anos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/o-ator-diante-do-pais-tony-ramos-no-roda-viva-dos-40-anos\/","title":{"rendered":"O ator diante do pa\u00eds: Tony Ramos no Roda Viva dos 40 anos"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"568\" src=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/tony-ramos-entrevistado-nos-40-anos-do-programa-roda-viva-em-28-de-setembro-de-2026-foto-reproducao-tv-cultura-1024x568.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-85297\" style=\"aspect-ratio:1.8028563729452978;width:403px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/tony-ramos-entrevistado-nos-40-anos-do-programa-roda-viva-em-28-de-setembro-de-2026-foto-reproducao-tv-cultura-1024x568.jpeg 1024w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/tony-ramos-entrevistado-nos-40-anos-do-programa-roda-viva-em-28-de-setembro-de-2026-foto-reproducao-tv-cultura-300x166.jpeg 300w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/tony-ramos-entrevistado-nos-40-anos-do-programa-roda-viva-em-28-de-setembro-de-2026-foto-reproducao-tv-cultura-768x426.jpeg 768w, https:\/\/www.jornalja.com.br\/colunas\/wp-content\/uploads\/sites\/5\/2026\/10\/tony-ramos-entrevistado-nos-40-anos-do-programa-roda-viva-em-28-de-setembro-de-2026-foto-reproducao-tv-cultura.jpeg 1307w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Tony Ramos entrevistado nos 40 anos do programa Roda Viva | Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o TV Cultura<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por Cristiano Goldschmidt<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Exibida em 28 de setembro de 2026, \u00e0s v\u00e9speras do anivers\u00e1rio de quarenta anos do <em>Roda Viva<\/em>, a entrevista com Tony Ramos, 78, fez da efem\u00e9ride um dispositivo de leitura do presente. Ao receber o ator, Ernesto Paglia e a bancada n\u00e3o o convocaram apenas para recordar personagens c\u00e9lebres. Interrogaram um artista que atravessara diferentes regimes de produ\u00e7\u00e3o, experi\u00eancias de censura, mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas e formas de reconhecimento p\u00fablico. O passado, ali, n\u00e3o compareceu como \u00e1lbum; foi mat\u00e9ria de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A proximidade entre a hist\u00f3ria do programa e a trajet\u00f3ria do convidado conferiu \u00e0 conversa uma dimens\u00e3o particular. O <em>Roda Viva<\/em> estreara em 29 de setembro de 1986; Tony Ramos j\u00e1 constru\u00eda uma carreira extensa e, naquele ano, estava em evid\u00eancia na televis\u00e3o. Quatro d\u00e9cadas depois, a coincid\u00eancia permitiu aproximar duas continuidades: a de um espa\u00e7o jornal\u00edstico que preservara a conversa como forma de confronto e a de um ator que circulara entre televis\u00e3o, cinema e teatro sem reduzir o of\u00edcio a uma \u00fanica linguagem. A comemora\u00e7\u00e3o converteu-se, assim, numa pergunta sobre perman\u00eancia: como seguir em atividade sem se transformar em monumento?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A edi\u00e7\u00e3o reuniu Ernesto Paglia e os entrevistadores Rodolpho Gamberini, Adriana Couto, Fl\u00e1via Guerra, Gabriel de Oliveira, Jos\u00e9 Armando Vannucci e Ubiratan Brasil. A presen\u00e7a de Gamberini, primeiro apresentador do programa, inscreveu a hist\u00f3ria do <em>Roda Viva<\/em> dentro da pr\u00f3pria cena. Sua participa\u00e7\u00e3o n\u00e3o funcionou apenas como homenagem: a mem\u00f3ria da estreia encontrou, na entrevista, uma trajet\u00f3ria que tamb\u00e9m acompanhara as transforma\u00e7\u00f5es da televis\u00e3o brasileira. A bancada trouxe diferentes \u00e2ngulos de abordagem, do jornalismo cultural \u00e0 cr\u00edtica de cinema e televis\u00e3o e \u00e0 an\u00e1lise da m\u00eddia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde a abertura, Tony definiu a entrevista como uma situa\u00e7\u00e3o de responsabilidade. Disse que o convite inicialmente o \u201cassustou\u201d e o \u201cpreocupou\u201d, n\u00e3o por receio dos entrevistadores, mas pelo peso de falar num espa\u00e7o que considerava \u201cic\u00f4nico\u201d. A mod\u00e9stia da formula\u00e7\u00e3o n\u00e3o significou recuo. Ao longo da conversa, a visibilidade p\u00fablica apareceu como algo que exigia cuidado: falar diante de uma audi\u00eancia ampla n\u00e3o era, para ele, um gesto neutro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ernesto Paglia abriu a entrevista com uma pergunta sobre pol\u00edtica e cidadania: o artista deveria se posicionar, declarar voto, fazer campanha? Em vez de pedir uma prefer\u00eancia eleitoral, o apresentador formulou a quest\u00e3o como uma tens\u00e3o entre a influ\u00eancia p\u00fablica do ator e sua liberdade para decidir como se manifestar. Tony respondeu com uma distin\u00e7\u00e3o que organizou boa parte do di\u00e1logo: \u201cAntes do Tony Ramos tem o cidad\u00e3o Ant\u00f4nio.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A frase n\u00e3o indicou uma postura de isen\u00e7\u00e3o. Tony afirmou ter posi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e declarou: \u201cEu tenho candidato, sim. Eu tenho uma posi\u00e7\u00e3o clara, sim.\u201d Ao mesmo tempo, explicou que n\u00e3o costumava declarar seu voto nem fazer campanha, porque n\u00e3o concordava em induzir o p\u00fablico a votar em algu\u00e9m. A distin\u00e7\u00e3o \u00e9 importante: ele n\u00e3o se apresentou como algu\u00e9m alheio \u00e0 pol\u00edtica, mas como um cidad\u00e3o que preferia n\u00e3o transformar a pr\u00f3pria popularidade em instrumento de propaganda eleitoral. \u201cEu sou um ser pol\u00edtico\u201d, afirmou, reconhecendo que a pr\u00f3pria fala j\u00e1 participava da vida p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tony tamb\u00e9m recordou sua participa\u00e7\u00e3o nas mobiliza\u00e7\u00f5es das Diretas J\u00e1, quando viajou a algumas capitais para defender o retorno das elei\u00e7\u00f5es diretas. A experi\u00eancia refor\u00e7ou que sua op\u00e7\u00e3o por n\u00e3o declarar voto n\u00e3o equivalia a uma recusa de posicionamento. Ele defendeu a democracia, a liberdade de pensamento e o direito de artistas se manifestarem, sem reivindicar para si o monop\u00f3lio da verdade. Ao falar de suas prioridades, mencionou educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e cultura, al\u00e9m da preocupa\u00e7\u00e3o com o emprego e as condi\u00e7\u00f5es de vida da popula\u00e7\u00e3o. Sua posi\u00e7\u00e3o foi, portanto, c\u00edvica e claramente comprometida com valores democr\u00e1ticos, embora apartid\u00e1ria na forma como escolhia se expressar publicamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Paglia aprofundou o tema ao recordar uma grava\u00e7\u00e3o de fim de ano da TV Globo, em 1989, na qual integrantes do elenco anunciaram reuni\u00f5es de comit\u00eas ligados a diferentes candidaturas. Segundo o relato do apresentador, depois de manifesta\u00e7\u00f5es sobre os comit\u00eas de apoio a Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e Leonel Brizola, Cl\u00e1udia Raia anunciou uma reuni\u00e3o do comit\u00ea de Fernando Collor e recebeu uma vaia. Tony considerou antidemocr\u00e1tica a rea\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00e3o foi democr\u00e1tico o que fizeram com ela.\u201d A troca distinguiu o direito de defender uma candidatura do direito de discordar sem tentar silenciar quem a expressava.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conversa n\u00e3o converteu a cidadania de Tony num programa de governo. Ele delimitou o que julgava poder afirmar e o que preferia n\u00e3o fazer: n\u00e3o se considerava apto a dar palpites t\u00e9cnicos sobre economia, mas se dizia preocupado com emprego, educa\u00e7\u00e3o, sa\u00fade e cultura. Ao falar da escola em per\u00edodo integral e mencionar Darcy Ribeiro, relacionou essa preocupa\u00e7\u00e3o \u00e0 pr\u00f3pria hist\u00f3ria familiar, marcada pela doc\u00eancia da m\u00e3e e da irm\u00e3. A pol\u00edtica surgiu, ent\u00e3o, menos como palavra de ordem do que como aten\u00e7\u00e3o \u00e0s condi\u00e7\u00f5es que permitiam a algu\u00e9m viver, aprender e participar. A resposta foi positiva sem ser panflet\u00e1ria: defendeu a participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica e, ao mesmo tempo, recusou a pretens\u00e3o de deter uma verdade absoluta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta de Adriana Couto deslocou o di\u00e1logo da opini\u00e3o pol\u00edtica para a mem\u00f3ria da censura. Em vez de solicitar uma cronologia abstrata da ditadura, ela perguntou como aquele per\u00edodo interferira no trabalho do ator. Tony recordou as sess\u00f5es em que uma pe\u00e7a de Pl\u00ednio Marcos precisava ser apresentada a censores antes de chegar ao p\u00fablico. A imagem era concreta: dois agentes no meio da plateia avaliavam se o texto poderia ser encenado. Os temores, as inseguran\u00e7as e as \u201cdores internas\u201d n\u00e3o eram efeitos laterais; constitu\u00edam parte da experi\u00eancia de trabalhar sob vigil\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tony distinguiu a marca da censura em sua obra da influ\u00eancia que ela exercera sobre seu comportamento profissional. N\u00e3o descreveu a si mesmo como algu\u00e9m imune ao medo. Lembrou que a possibilidade de ser chamado ao DOPS se misturava \u00e0s responsabilidades dom\u00e9sticas: \u201cVoc\u00ea tem dois filhos em casa, voc\u00ea tem mulher, compromisso, responsabilidades.\u201d A coragem, naquele relato, n\u00e3o apareceu como aus\u00eancia de temor, mas como persist\u00eancia num trabalho realizado sob condi\u00e7\u00f5es que tornavam o temor compreens\u00edvel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A entrevista tamb\u00e9m ligou repress\u00e3o e condi\u00e7\u00f5es materiais da profiss\u00e3o. Tony contou que, no in\u00edcio da carreira, fez dublagem e outros trabalhos para complementar a renda. A lembran\u00e7a de que precisava \u201cter um dinheirinho no fim do m\u00eas\u201d desfez a imagem glamourosa que tantas vezes encobriu o esfor\u00e7o cotidiano do trabalho cultural. Quando explicou por que continuara, ofereceu uma s\u00edntese sustentada por lembran\u00e7as concretas: \u201cpaix\u00e3o, respeito a quem me assiste, devo\u00e7\u00e3o a esse trabalho, a esse of\u00edcio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A refer\u00eancia a Oscarito aprofundou a conversa sobre forma\u00e7\u00e3o. Tony contou que as matin\u00eas e a experi\u00eancia de ver o humor f\u00edsico do ator no cinema haviam acendido seu desejo de atuar. A lembran\u00e7a n\u00e3o serviu apenas como homenagem a um \u00eddolo: mostrou como a forma\u00e7\u00e3o art\u00edstica tamb\u00e9m come\u00e7ava pelo ato de assistir, de ser afetado por um corpo em cena e de imaginar que aquele of\u00edcio poderia se tornar vida. A imagem da tela que o \u201cincendiava\u201d traduziu a for\u00e7a dessa experi\u00eancia inicial.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A bancada levou a conversa da mem\u00f3ria para o m\u00e9todo de interpreta\u00e7\u00e3o. A pergunta sobre Stanislavski poderia ter conduzido a uma resposta protocolar, centrada em escolas e nomenclaturas. Tony preferiu o humor: \u201cMeu m\u00e9todo \u00e9 Decorevski, n\u00e3o inventovski.\u201d A brincadeira abriu espa\u00e7o para uma explica\u00e7\u00e3o mais concreta de seu processo. Ele falou de leitura, pesquisa e conversas com autores e diretores. Ao preparar um personagem ligado ao agroneg\u00f3cio, por exemplo, contou que procurara conhecer melhor aquele universo, inclusive assistindo a leil\u00f5es de gado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sua reflex\u00e3o sobre o texto foi uma das mais expressivas da entrevista. Para Tony, a palavra precisa estar n\u00e3o apenas na mem\u00f3ria, mas tamb\u00e9m na \u201calma\u201d do ator. A formula\u00e7\u00e3o condensou uma concep\u00e7\u00e3o de atua\u00e7\u00e3o em que dominar o texto n\u00e3o equivale a recit\u00e1-lo mecanicamente. A mem\u00f3ria oferece precis\u00e3o, mas a cena exige escuta e disponibilidade. Ele tamb\u00e9m insistiu que o int\u00e9rprete n\u00e3o deveria trabalhar em fun\u00e7\u00e3o do melhor \u00e2ngulo para a c\u00e2mera. Cinema, televis\u00e3o e teatro impunham condi\u00e7\u00f5es distintas, mas a t\u00e9cnica precisava servir \u00e0 presen\u00e7a, n\u00e3o substitu\u00ed-la.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O di\u00e1logo sobre Otoniel, personagem que Tony interpreta atualmente na novela <em>Quem Ama Cuida<\/em>, tornou essa reflex\u00e3o palp\u00e1vel. A bancada perguntou sobre a prepara\u00e7\u00e3o para compor um homem que ama a fam\u00edlia, mas demonstra intoler\u00e2ncia diante da sexualidade do neto, al\u00e9m de vivenciar experi\u00eancias ligadas \u00e0 mediunidade. Tony descreveu a contradi\u00e7\u00e3o sem reduzi-la a uma explica\u00e7\u00e3o simples: o personagem quer o melhor para o neto, mas age a partir de uma compreens\u00e3o limitada do que seria esse \u201cmelhor\u201d. Ao nomear essa limita\u00e7\u00e3o como ignor\u00e2ncia, n\u00e3o absolveu o personagem; indicou de onde parte o conflito.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A discuss\u00e3o permitiu observar uma dimens\u00e3o propriamente c\u00eanica do trabalho. Ao falar das cenas ligadas \u00e0 mediunidade, Tony descreveu mudan\u00e7as de voz, olhar e tempo dram\u00e1tico. N\u00e3o apresentou a prepara\u00e7\u00e3o como cat\u00e1logo de efeitos, mas como estudo das circunst\u00e2ncias do personagem, de suas rela\u00e7\u00f5es e de sua trajet\u00f3ria. Interpretar, nesse sentido, n\u00e3o significa endossar. O ator precisa reconhecer a l\u00f3gica interna da figura, inclusive quando ela produz comportamentos moralmente reprov\u00e1veis, sem transformar essa l\u00f3gica em verdade incontest\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reflex\u00e3o sobre Otoniel foi complementada pela discuss\u00e3o acerca da rela\u00e7\u00e3o entre teatro e televis\u00e3o. Tony rejeitou a ideia de que os meios fossem advers\u00e1rios. \u201cA televis\u00e3o tem que agradecer ao teatro. Ele \u00e9 um realimentador do ator.\u201d A frase n\u00e3o se limitou a defender a import\u00e2ncia do palco. Sugeriu uma circula\u00e7\u00e3o entre pr\u00e1ticas: o teatro alimenta o trabalho diante da c\u00e2mera, enquanto cinema e televis\u00e3o prop\u00f5em outras escalas e rela\u00e7\u00f5es com o p\u00fablico. A carreira n\u00e3o se organiza como uma escada em que cada meio supera o anterior, mas como um conjunto de experi\u00eancias que se enriquecem mutuamente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta sobre o r\u00f3tulo de gal\u00e3 e a passagem para pap\u00e9is mais complexos levou a conversa para al\u00e9m da trajet\u00f3ria individual. A entrevistadora relacionou o envelhecimento dos atores \u00e0s oportunidades oferecidas pela ind\u00fastria e perguntou se as mulheres da gera\u00e7\u00e3o de Tony haviam encontrado a mesma possibilidade de transforma\u00e7\u00e3o profissional. Ele respondeu que o teatro o ajudara a escapar de um enquadramento limitado, citando personagens e espet\u00e1culos que ampliaram a percep\u00e7\u00e3o de seu trabalho. Embora a resposta tenha se concentrado em sua experi\u00eancia, a pergunta introduziu uma dimens\u00e3o importante: as oportunidades de carreira n\u00e3o se distribuem necessariamente da mesma forma entre homens e mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gabriel de Oliveira perguntou a Tony sobre sua antiga atua\u00e7\u00e3o como garoto-propaganda de uma empresa envolvida, posteriormente, em controv\u00e9rsia pol\u00edtica. Gabriel n\u00e3o pronunciou o nome da marca na pergunta, e Tony tamb\u00e9m n\u00e3o a identificou diretamente: referiu-se a ela como \u201ca maior empresa de carnes do mundo\u201d. Em pesquisa na internet, encontrei o nome da Friboi nos materiais de divulga\u00e7\u00e3o do <em>Roda Viva<\/em> em tr\u00eas canais ligados ao programa: no YouTube, na p\u00e1gina do <em>Roda Viva<\/em> no Facebook e no site da TV Cultura no UOL. Entendo que a distin\u00e7\u00e3o entre o que foi dito na entrevista e o que apareceu na divulga\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria para relatar o epis\u00f3dio com precis\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na resposta, Tony disse que n\u00e3o se arrependia da decis\u00e3o de ter feito a campanha, explicou que acreditara no produto e afirmou que preferira n\u00e3o continuar a parceria quando o contexto mudou. Tamb\u00e9m descreveu limites pessoais para aceitar publicidade: disse que n\u00e3o anunciava medicamentos nem bebidas alco\u00f3licas, entre outros motivos por considerar o poder persuasivo de sua imagem. A troca manteve uma tens\u00e3o relevante entre a avalia\u00e7\u00e3o feita no momento da contrata\u00e7\u00e3o e os acontecimentos posteriores, sem transformar a resposta numa absolvi\u00e7\u00e3o autom\u00e1tica nem numa li\u00e7\u00e3o moral para todos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A intelig\u00eancia artificial e o uso da imagem dos atores constitu\u00edram outro ponto alto. A estudante Juliana Miranda, da Faculdade C\u00e1sper L\u00edbero, perguntou se Tony consideraria estabelecer limites para o uso de sua imagem depois da morte. A quest\u00e3o ganhou for\u00e7a quando ele relatou que j\u00e1 haviam usado sua imagem e uma dublagem para faz\u00ea-lo parecer anunciar um medicamento. Sua rea\u00e7\u00e3o foi direta: \u201cIsso \u00e9 mentir para quem te assiste.\u201d Em seguida, condensou sua defesa da presen\u00e7a humana na interpreta\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 carne, \u00e9 osso, \u00e9 alma, \u00e9 vibra\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A fala n\u00e3o consistiu numa rejei\u00e7\u00e3o indiscriminada da tecnologia. Tony reconheceu que a intelig\u00eancia artificial viera para ficar, mas insistiu na necessidade de cuidado e consentimento. O que estava em jogo era a diferen\u00e7a entre uma interpreta\u00e7\u00e3o realizada por um corpo presente e uma imagem apropriada sem autoriza\u00e7\u00e3o. \u201cCarne\u201d, \u201cosso\u201d e \u201cvibra\u00e7\u00e3o\u201d nomearam uma presen\u00e7a que podia ser registrada, mas que n\u00e3o se tornava, por isso, dispon\u00edvel para qualquer uso. A resposta aproximou uma preocupa\u00e7\u00e3o profissional de uma quest\u00e3o est\u00e9tica: substituir a presen\u00e7a sem consentimento falseava a rela\u00e7\u00e3o com o espectador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As perguntas sobre novelas verticais, redes sociais e o futuro da televis\u00e3o permitiram que Tony falasse de mudan\u00e7as tecnol\u00f3gicas sem se apresentar como profeta. Sobre os novos formatos, admitiu que n\u00e3o dominava tudo, mas afirmou que os observara e que compreendia seu apelo em determinados contextos. Tamb\u00e9m explicou que n\u00e3o se sentia atra\u00eddo por assistir a conte\u00fados em telas pequenas. Sua posi\u00e7\u00e3o foi pessoal, n\u00e3o uma condena\u00e7\u00e3o geral da novidade. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s redes sociais, disse que n\u00e3o tinha perfil para mant\u00ea-las, mas reconheceu que outros artistas haviam encontrado nelas formas leg\u00edtimas de comunica\u00e7\u00e3o e reinven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao defender a televis\u00e3o aberta, Tony recorreu \u00e0 experi\u00eancia acumulada de quem acompanhara v\u00e1rias transforma\u00e7\u00f5es da m\u00eddia. Destacou o acesso gratuito e a possibilidade de aprofundamento jornal\u00edstico, ao mesmo tempo que criticou a produ\u00e7\u00e3o de cortes pensados apenas para circular e atrair aten\u00e7\u00e3o. O coment\u00e1rio dialogou com a pr\u00f3pria forma do programa: a entrevista longa, com seus desvios, retomadas e respostas desenvolvidas, ofereceu uma alternativa \u00e0 compress\u00e3o dos conte\u00fados digitais. O <em>Roda Viva<\/em> comemorava quatro d\u00e9cadas de conversa ao mesmo tempo que perguntava como a televis\u00e3o poderia conviver com outras formas de consumo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A bancada tamb\u00e9m explorou aspectos da \u00e9tica profissional de Tony que mereciam aten\u00e7\u00e3o. Ao ser perguntado se recusaria algum tipo de personagem, ele disse que n\u00e3o e lembrou que j\u00e1 interpretara, na TV Tupi, um assassino em s\u00e9rie. A resposta n\u00e3o sugeriu que qualquer papel pudesse ser aceito sem reflex\u00e3o; destacou que a representa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se confundia com aprova\u00e7\u00e3o moral do personagem. Em outra passagem, explicou que n\u00e3o costumava assistir \u00e0s cenas logo depois de grav\u00e1-las. Confiava no olhar da dire\u00e7\u00e3o, que considerava pr\u00f3ximo ao do espectador, e preferia rever o trabalho quando a obra estivesse conclu\u00edda. Ainda assim, ao olhar retrospectivamente para a pr\u00f3pria carreira, admitiu que faria algumas interpreta\u00e7\u00f5es de modo diferente. Essa combina\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a no processo e abertura \u00e0 revis\u00e3o evitou apresentar sua trajet\u00f3ria como uma sequ\u00eancia de acertos incontest\u00e1veis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta encaminhada por Paglia em nome da jornalista Sandra Annenberg, sobre a imagem de Tony como uma \u201cunanimidade\u201d, abriu uma discuss\u00e3o sobre fama e humildade. O ator n\u00e3o acolheu o elogio como consagra\u00e7\u00e3o; respondeu com cautela e humor, dizendo que nunca se deixara levar pelo sucesso. Mais adiante, definiu sua avers\u00e3o \u00e0 soberba de modo contundente: \u201cA soberba \u00e9 detest\u00e1vel, odiosa, \u00e9 um horror.\u201d A recusa do pedestal apareceu menos como gesto de autopromo\u00e7\u00e3o invertida do que como reconhecimento de que a carreira dependia de equipes, autores, diretores, colegas e espectadores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pergunta de um espectador sobre o personagem que mais o teria transformado tamb\u00e9m evitou uma resposta f\u00e1cil. Tony n\u00e3o escolheu um \u00fanico papel como s\u00edntese definitiva; mencionou trabalhos diversos e explicou que cada um exigira desafios pr\u00f3prios. Ao ser perguntado sobre arrependimentos, afirmou que n\u00e3o se arrependia de personagens, mas reconheceu que, ao rever o conjunto da obra, faria algumas coisas de maneira diferente. Tamb\u00e9m observou que alguns trabalhos haviam sido bem-sucedidos e outros n\u00e3o, lembrando que \u201co fracasso\u201d era \u201cprimo e irm\u00e3o do sucesso\u201d. A longevidade apareceu, assim, n\u00e3o como aus\u00eancia de risco ou de trope\u00e7os, mas como percurso sujeito ao tempo, \u00e0 mem\u00f3ria e ao julgamento posterior.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sa\u00fade e o ritmo de trabalho entraram na conversa sem desviar o foco do of\u00edcio. Tony relatou o susto provocado por um hematoma subdural e reconheceu que pensava em diminuir o ritmo. Ao mesmo tempo, mencionou projetos previstos e a disposi\u00e7\u00e3o de continuar trabalhando. A bancada n\u00e3o transformou o relato em espet\u00e1culo nem o usou como simples curiosidade biogr\u00e1fica. O tema mostrou a tens\u00e3o entre a paix\u00e3o pelo trabalho e a necessidade de considerar os limites do corpo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O m\u00e9rito da edi\u00e7\u00e3o comemorativa aos 40 anos do Roda Viva esteve, em grande medida, na qualidade das perguntas. O programa e os entrevistadores n\u00e3o trataram Tony Ramos como uma cole\u00e7\u00e3o de personagens a celebrar, mas como um trabalhador da cultura capaz de refletir sobre as condi\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas e materiais do pr\u00f3prio of\u00edcio. Paglia conduziu a conversa da cidadania \u00e0 mem\u00f3ria pol\u00edtica; Adriana Couto aproximou a experi\u00eancia pessoal da censura; os demais entrevistadores exploraram t\u00e9cnica, televis\u00e3o, teatro, representa\u00e7\u00e3o, publicidade e envelhecimento. As perguntas de estudantes e espectadores ampliaram o di\u00e1logo para temas como intelig\u00eancia artificial e mem\u00f3ria da carreira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tony, por sua vez, n\u00e3o ofereceu uma teoria fechada da atua\u00e7\u00e3o. Construiu, por meio de lembran\u00e7as, humor e explica\u00e7\u00f5es sobre sua pr\u00e1tica, uma \u00e9tica de trabalho: estudar o texto e o mundo do personagem, respeitar quem assiste, reconhecer os pr\u00f3prios limites e n\u00e3o confundir fama com autoridade absoluta. Para ele, a responsabilidade do ator n\u00e3o se encerra no dom\u00ednio t\u00e9cnico. Inclui a consci\u00eancia de que a imagem p\u00fablica influencia outras pessoas e de que o trabalho depende de uma rela\u00e7\u00e3o de confian\u00e7a com o p\u00fablico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na noite em que o <em>Roda Viva<\/em> comemorou seus quarenta anos, a trajet\u00f3ria de Tony Ramos ofereceu uma maneira de pensar a televis\u00e3o brasileira por dentro: como trabalho, mem\u00f3ria, linguagem e encontro. O ator compareceu n\u00e3o apenas para ser celebrado, mas para falar de medo, t\u00e9cnica, pol\u00edtica e responsabilidade sem oferecer respostas prontas. A conversa mostrou que sua perman\u00eancia se apoiara menos na repeti\u00e7\u00e3o de uma imagem consagrada do que na disposi\u00e7\u00e3o de continuar em cena, atento ao texto, ao contexto e \u00e0s perguntas que ainda estavam por vir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por Cristiano Goldschmidt Exibida em 28 de setembro de 2026, \u00e0s v\u00e9speras do anivers\u00e1rio de quarenta anos do Roda Viva, a entrevista com Tony Ramos, 78, fez da efem\u00e9ride um dispositivo de leitura do presente. Ao receber o ator, Ernesto Paglia e a bancada n\u00e3o o convocaram apenas para recordar personagens c\u00e9lebres. 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